#74
Mensagem
por Clermont » Seg Jun 01, 2009 9:22 pm
Bem, antes de mais nada, como testemunho de princípios, eu devo dizer que acredito que homossexuais são seres humanos e, também, cidadãos brasileiros de pleno e total direito. Ou seja, nenhum heterossexual tem, em si mesmo, mais dignidade e decência do que um homossexual, baseado, somente, no que faz na cama. Realmente, sem querer ser rude, devo afirmar que as opiniões do Papa, do Pastor, do Rabino, do Mulá, pouco me dizem respeito...
Esse é um princípio.
Mas, eu também tenho outro princípio. As Forças Armadas servem, unicamente, para garantir a soberania e a dignidade da Nação brasileira por meio do recurso à guerra ou ameaça de guerra, e, portanto, sua formação, preparação e adestramento, só podem estar voltados para dar-lhes as melhores condições para cumprir tais objetivos. Assim sendo, nada de políticas de cotas raciais; nada de expandir a presença de mulheres em organizações de combate de linha de frente; nada de transformar os militares em "agentes da equalização social" ou outras asneiras socialistas, feministas e racistas. Somente os méritos intelectuais, morais e físicos podem ser levados em consideração para consideração de ingresso às Forças Armadas. Eis por quê, eu não vejo, como princípio, um empecilho à admissão de homens homossexuais numa organização de combate do Exército, mas vejo tais empecilhos na mesma admissão de mulheres, sejam entendidas ou heterossexuais.
Se você estiver, sozinho, em combate contra guerrilheiros fanáticos Talibans, que costumam esfolar vivos seus prisioneiros, provavelmente, irá preferir a companhia de um homem homossexual, parecido com um Neanderthal, do que a companhia de uma mulher ninfomaníaca, parecida com a Flávia Alessandra. Num quarto de hotel, em Petrópolis, numa noite de inverno, acompanhados de uma boa garrafa de vinho, talvez, sua opção seja, exatamente a oposta...
Portanto, a pergunta a se fazer é, razoavelmente, simples. Embora, a resposta só possa ser dada por gente que vista a farda, e, de preferência, por mais de um, com visões de vida distintas (afinal, uma opinião de um católico ou evangélico ou muçulmano praticantes está, evidentemente, pré-determinada por obediências à fé, e não pelo que é mais adequado às Forças Armadas).
A pergunta é: em combate, os soldados brasileiros (não os soldados americanos, britânicos, holandeses, portugueses) irão seguir um sargento que, todos sabem, é homossexual?
Os sargentos irão obedecer, até a morte, as ordens de um tenente que, todos sabem, tem uma imagem do Giannechini tatuada no traseiro?
Os tenentes e os capitães, irão marchar, rumo à uma provável destruição, liderados por um coronel comandante de batalhão que, todos sabem, gosta de usar calcinha e cinta-liga por baixo da farda de combate?
Alguns poderão dizer, "ah, mas é questão de obediência, basta dar a ordem e os caras tem que obedecer". Eu, um paisano, tenho a ligeira desconfiança de que não é assim que a banda militar toca. Tem um dito antigo que afirma "obediência de boa-vontade sempre supera a obediência forçada".
Outros países tem homossexuais abertamente em suas forças. Mas, outros países são outros países. Eu não sei, afinal de contas, como é a mentalidade do povo comum na Holanda ou na Grã-Bretanha (e isso, a gente nunca aprende, em viagem de turismo pra comprar muamba...). Mas, aqui no Brasil, o fato é que há um desprezo velado por homossexuais, mesmo no mais liberal dos mundos paisanos. As piadinhas, as ameaças, os crimes de ódio estão aí pra mostrar isso. Basta ver as mensagens de gente boazinha e de profissões ditas liberais em sites de fofocas sobre televisão, o modo como tais pessoas se referem a artistas, atletas e outras figuras suspeitas de práticas homossexuais. Eu garanto que é pior do que num fórum de assuntos militares...
Um exemplo, nos Estados Unidos, comparam muito essa questão com a dos negros. Uma vez, um sujeito educado como o general Powell perdeu a compostura, quando uma repórter jogou na cara dele que o general se comportava como um branco racista, ao apresentar objeções a aceitação de homossexuais nas fileiras. Ele disse:
"Não preciso que ninguém venha me ensinar o que foi que os negros passaram dentro das Forças Armadas!"
Porém, uma vez, eu estava lendo um relatório do Estado-Maior do Exército americano, feito aí pelo final da Segunda Guerra Mundial. O Exército pesquisou as opiniões dos praças e oficiais, sobre como aceitariam a presença de negros nas Forças Armadas, isto ainda durante a guerra. A resposta, esmagadora, é que a maioria não via nada de mais e não apresentaria reações. As opiniões de uma minoria de anormais racistas não foram levadas em conta. Portanto, quando nos anos 1950, as Forças Armadas acabaram com a segregação, seus comandantes já sabiam, de antemão, o que iria acontecer. Pois, o fato é que, na história dos Estados Unidos, negros e brancos sempre lutaram lado-a-lado (proporções à parte), na Guerra de Independência, nas Guerras Índias, na Guerra Civil, nas guerras mundiais.
Resta saber se já foi feita uma pesquisa semelhante em relação aos homossexuais.
Em suma, é uma questão espinhosa que tem de ser tratada com cuidado, sem demagogias. Eu não faço a mínima idéia de como a grande massa dos militares brasileiros atuais lida com isto, mas eu lembro que, há uns quinze anos atrás, um coronel, comandante de um batalhão de elite do Exército, foi pego em "ação de combate oral", dentro de um carro. Perdeu seu comando e acho que foi reformado. E, como se tudo isto não bastasse, agressores - que nunca foram identificados, possivelmente, artistas de circo? Bancários? Noviços franciscanos? - o atacaram, arrebentando sua cabeça com um paralelepípedo.
Da última vez que ouvi falar neste infeliz, o Q.I. dele estava inferior ao de um repolho...
Agora, preocupações à parte com a eficiência operacional, uma coisa precisa ficar, absolutamente, estabelecida. Se algum dia, na remota hipótese de o Congresso brasileiro resolver impor aos militares a obediência ao que diz a Carta Constitucional – não se admite discriminação por orientação sexual ou racial -, sejam quais forem as implicações culturais, os militares brasileiros terão de obedecer – de boa ou de má-vontade – e abrirem as portas dos quartéis para a presença de elementos de orientação homossexual, abertamente declarada. Claro que, preservando a disciplina interna, afinal, esta aplica-se à condutas inapropriadas ao serviço, independente de quem as pratica.
(Off-Topic: Claro que é preciso lembrar que a mesma regra constitucional deveria vetar, sequer, a possibilidade de se conceber a hipótese de cotas raciais, mas, neste caso, todos tem ficado calados vendo a Constituição sendo distorcida para favorecer hipotéticas raças em detrimento de outras, como se, no Brasil, fosse admissível existir outra coisa que não sejam brasileiros).