Observar o oceano a partir do espaço? É possível graças a um satélite completamente português
CEIIA
O satélite Aeros-MH1 é o guardião da costa portuguesa há mais de meio ano. Criado inteiramente em Portugal, o pequeno vigilante “mudou bastante o setor” e impulsionou o desenvolvimento desta área no país – com o lançamento de vários satélites portugueses desde a sua descolagem para o espaço
09 dezembro 2024
Eunice Parreira
Jornalista
É quase do tamanho de uma folha A4, é apenas mais estreito, com apenas 10 centímetros de largura, tem 4,5 kg e anda há nove meses a rondar a Terra. O nanossatélite Aeros MH-1 foi totalmente desenvolvido em Portugal e marcou o regresso do país ao espaço 30 anos depois do lançamento do primeiro satélite, PoSat. O projeto AEROS Constellation que enviou o satélite Aeros para o espaço quer criar uma verdadeira constelação destes aparelhos para estudar o Oceano Atlântico e, em especial, a costa portuguesa.
A ideia surgiu, pela primeira vez, em 2007 quando Hélder Silva, diretor da aérea de software de voo aeroespacial na Thales Edisoft Portugal e líder do projeto AEROS, discutiu com uma colega a vontade de criar um satélite totalmente português, após uma viagem à Alemanha devido a uma reunião sobre o sistema de navegação da União Europeia, Galileo. Demorou mais de 10 anos até que a ideia pudesse finalmente ganhar forma em 2020, após conquistar financiamento europeu através do Portugal 2020, para formarem um consórcio entre várias entidades académicas e empresas especializadas na área.
Ao longo dos anos, a empresa participou na produção de outros satélites, o que permitiu recolher informação e ganhar o conhecimento necessário para iniciar o projeto. “O Aeros foi o juntar dessas experiências todas”, afirma Hélder Silva.
Satélite AEROS-MH1CEiiA
“Não existia nenhum [satélite] com software-defined ready, que é outro payload [instrumento dedicado à produção dos dados da missão] com outra câmara. E isso possibilitou-nos, por exemplo, que nós ganhássemos o prémio de Missão do Ano 2024 [na Conferência de Pequenos Satélites 2024]. Portanto, igual ao nosso não há, pelo menos que tenhamos conhecimento”, explica.
Iniciaram durante a pandemia a criação do satélite que viria a ser batizado de Aeros-MH1, em honra do antigo ministro da Ciência, Manuel Heitor, considerado pelo consórcio o impulsionador do projeto. As mudanças provocadas pela Covid-19 provocaram alguns desafios devido à escassez de peças. “Não havia peças e as que havia tinham todas aumentado de preço. Portanto, os preços que se praticavam na altura, não tinham nada a ver com os preços quando nós fizemos na proposta. Tivemos de fazer uma ginástica financeira para comprar as peças para fazermos o nosso satélite e depois não havia entregas ou eram muito demoradas”, recorda o líder do projeto.
A quatro meses do lançamento do satélite, uma peça partiu durante os testes. “Estávamos a trabalhar contra o relógio, porque nós já tínhamos o lançamento planeado”, conta Hélder Silva, que acrescenta que a equipa trabalhou “dia e noite” para reparar o equipamento e enviá-lo para o espaço na data planeada.
Aeros é o vigilante do oceano, lançado a mais de 500 quilómetros de altura
Desde o início ficou definido que o satélite teria um propósito de investigação e não comercial, ao explorar através do espaço a costa portuguesa e o Oceano Atlântico, o que permitiria uma independência científica ao existir um satélite próprio de observação. “É extremamente vantajoso e barato”, considerando os meios terrestres e marítimos que seriam necessários para realizar a mesma análise do Oceano.
Numa única fotografia é possível visualizar vários quilómetros da superfície marinha. Com o recurso a um navio, por exemplo, o raio de ação é muito mais pequeno, enquanto o satélite a 510 quilómetros de altitude, ligeiramente acima da Estação Espacial Internacional, permite monitorizar uma escala muito maior.
Atualmente, o Aeros encontra-se a 450 quilómetros de altura, uma vez que vai descendo conforme a passagem do tempo, ainda assim Hélder Silva ressalva que “ainda há um bocado de tempo para operações do satélite”. O fim desta missão será ditado pelo próprio, mas pode durar entre seis meses e três anos. Por enquanto, “está vivo, está a mandar informações. Tem os seus problemas, que são desafios para nós: por exemplo, um dos setores dos painéis solares da parte da frente nunca deu energia e, portanto, estamos a tentar contornar isso”.
Devido à falta de energia, ainda não foi possível ligar a câmara hiperespectral, que permite observar a cor do oceano ou detetar frentes oceânicas. Ainda assim, já conseguiram ligar o Software Defined Radio que permite localizar as “etiquetas” colocadas em tubarões ou tartarugas e, assim, monitorizar os seus movimentos. Os dados recolhidos são enviados para o teleporto, operado pela Thales Edisoft Portugal, em Santa Maria, nos Açores.
É possível retirar as informações do satélite quatro vezes por dia durante dez minutos, altura em que ele aparece no horizonte, considerando que se desloca a uma velocidade de sete quilómetros por segundo. “É nesses dez minutos que temos de mostrar o que valemos”, afirma.
Teleporto em Santa Maria, nos Açores Thales Edisoft Portugal
Este nanossatélite lançado em março de 2024 pela SpaceX é o precursor de uma futura constelação de mais satélites. “A ideia é fazer os outros semelhantes com algumas alterações. Neste momento, depois daquilo que aprendemos, faríamos melhorias”, indica ao acrescentar que o desafio está em tentar solucionar os problemas quando o satélite está no espaço.
Com vários meses a viajar pelo espaço, o satélite tem conquistado reconhecimento e aberto portas. “Lembro-me de estar na Thales Alenia Space em Espanha e o presidente da Thales Alenia Space, que na altura era o nosso diretor, disse ‘olha, está aqui um rapaz que pode falar sobre o nosso satélite’”, recorda Hélder Silva. Pela primeira vez, o engenheiro aeroespacial também sentiu que estava a conversar “na mesma linguagem” com os investigadores da Agência Espacial Europeia, por ter evoluído dos conceitos abstratos a conhecimento sobre problemas concretos. “Estamos agora numa fase preliminar do estudo de uma missão à Lua, onde nós levaremos toda a nossa experiência e lições aprendidas com o Aeros”, revela ainda.
O lançamento do Aeros abriu campo também ao lançamento de mais satélites portugueses de diversos tipos. “Vão ser lançados muitos [satélites] e depois temos todos aqueles universitários que estão a fazer os seus projetos e que nos batem à porta para nós ajudarmos, portanto, mudou bastante o setor”, afirma ao admitir ainda que seria possível replicar o projeto noutras costas europeias.
A ajuda imprescindível dos fundos europeus
O projeto Aeros Constellation envolveu o consórcio constituído pele CEiiA, +Atlantic CoLAB, Spin.Works, dstelecom, Air Centre, IMAR, universidades do Minho, Algarve, Porto e Instituto Superior Técnico, além de uma pareceria com o Massachusetts Institute of Technology (MIT). Consoante a sua especialidade, cada um contribuiu com informação necessária para a construção do satélite.
A candidatura ao financiamento foi feita em 2018, altura em que definiram os requisitos da missão e submeteram três possíveis desenhos do satélite. No total, o projeto recebeu cerca de 2,78 milhões de euros, cofinanciado em 1,88 milhões pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), através dos Programas Compete 2020, Açores 2020, CrescAlgarve 2020 e Lisboa 2020. “Sem os fundos não havia o Aeros”, garante Hélder Silva, foi o “catalisador” que permitiu a aventura.
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