Re: CONFLITO ISRAELO-PALESTINIANO
Enviado: Seg Fev 02, 2009 1:38 pm
por Clermont
A BANDEIRA NEGRA ESTÁ TREMULANDO.
Por Uri Avnery – 2 de fevereiro de 2009.
Um juiz espanhol abriu um processo judicial contra sete personalidades políticas e militares israelenses, por suspeita de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade. O caso: o lançamento, em 2002, de uma bomba de uma tonelada contra a casa do líder do Hamas Salah Shehade. Além da vítima desejada, 14 pessoas, a maioria delas crianças, foram mortas.
Para aqueles que já esqueceram: o então comandante da força aérea israelense, Dan Halutz, foi inquirido, na época, sobre o que sentia quando lançava uma bomba sobre um prédio residencial. Sua inesquecível resposta: “um leve tremor na asa.” Quando nós, no Gush Shalom, o acusamos de crime de guerra, ele exigiu que fôssemos levados à julgamento por alta-traição. Ele foi apoiado pelo primeiro-ministro, Ariel Sharon, que nos acusou de querer “entregar oficiais do exército israelense para o inimigo”. O promotor-geral notificou-nos, oficialmente, que não pretendia abrir uma investigação contra os responsáveis pelo bombardeio.
Eu deveria estar feliz, portanto, que, depois de tanto tempo, pelo menos alguém está pronto para iniciar uma ação judicial (mesmo se ela pareça ter sido bloqueada por pressões políticas). Mas eu lamento que isto tenha ocorrido na Espanha, não em Israel.
Os telespectadores israelenses, ultimamente, tem sido expostos a uma visão bizarra: oficiais do exército aparecendo com seus rostos ocultos, como é normal para criminosos quando os tribunais proíbem suas identificações. Pedófilos, por exemplo, ou agressores de mulheres idosas.
Por ordens dos censores militares, isto se aplica a todos os oficiais de comandante de batalhão para baixo, que estiveram envolvidos na Guerra de Gaza. Já que os rostos dos comandantes de brigada para cima são, em geral, conhecidos, as ordens não se aplicam a eles.
Imediatamente, após o cessar-fogo, o ministro da defesa, Ehud Barak, promoveu uma lei especial que dará apoio ilimitado do estado a oficiais e praças que tenham tomado parte na Guerra de Gaza e que possam ser acusados, no exterior, de crimes de guerra. Isto parece confirmar o adágio hebreu: “Na cabeça do ladrão, o chapéu pega fogo.”
Eu não sou contra os julgamentos no exterior. A coisa principal é que criminosos de guerra, como piratas, devem ser levados à justiça. Não é tão importante onde eles são pegos. (Esta regra foi aplicada pelo estado de Israel quando seqüestrou Adolf Eichmann na Argentina e o enforcou em Israel por crimes hediondos cometidos fora do território de Israel e, na verdade, antes que o estado até mesmo existisse).
Mas, como patriota israelense, eu preferiria que os suspeitos de crimes de guerra israelenses fossem colocados em julgamento em Israel. Isto é necessário para o país, para todos os oficiais e praças decentes do exército israelense, para a educação das futuras gerações de cidadãos e soldados.
Não há necessidade alguma para nos basearmos, apenas, na lei internacional. Há leis israelenses contra crimes de guerra. Basta mencionar a imortal frase cunhada pelo juiz Binyamin Halelvy, servindo como juiz militar, no julgamento dos policiais de fronteira que foram responsáveis pelo massacre de 1956 em Kafr Kassem, quando dezenas de crianças, mulheres e homens foram abatidos por violarem um toque-de-recolher que eles nem mesmo sabiam.
O juiz anunciou que, mesmo em tempo de guerra, há ordens sobre as quais tremula “a bandeira negra da ilegalidade”. Estas são ordens “manifestamente” ilegais – isto é, ordens que qualquer pessoa normal pode dizer que são ilegais, sem ter de consultar um advogado.
Criminosos de guerra desonram o exército cujo uniforme vestem – quer sejam eles, generais ou soldados comuns. Como soldado combatente desde o dia em que as Forças de Defesa Israelenses foram oficialmente criadas, estou envergonhado deles, e exijo que sejam expulsos e postos em julgamento em Israel.
Minha lista de suspeitos inclui políticos, soldados, rabinos e advogados.
Não há a mínima dúvida de que na Guerra de Gaza, crimes foram cometidos. A questão é, em qual extensão e por quem.
Exemplo: os soldados mandam os moradores de uma casa saírem. Uma mulher e suas quatro crianças saem, acenando lenços brancos. Está, absolutamente, claro que elas não são combatentes armados. Um soldado, num tanque próximo, se levanta, aponta seu fuzil, e as mata a tiros, à curta distância. De acordo com testemunhas que parecem estar além de dúvidas, isto aconteceu mais de uma vez.
Outro exemplo: o canhoneio da escola das Nações Unidas, cheia de refugiados, de onde não estavam vindo tiros – como admitido pelo exército, após os pretextos originais serem desmentidos.
Estes são casos “simples”. Mas o espectro de casos é, de longe, mais amplo. Uma séria investigação judicial tem de começar de cima: os políticos e oficiais superiores que decidiram pela guerra e confirmaram seus planos, precisam ser investigados sobre suas decisões. Em Nuremberg ficou estabelecido que dar início a uma guerra de agressão é um crime.
Uma investigação objetiva tem de descobrir se a decisão para iniciar a guerra foi justificada, ou se existia outro meio de parar o lançamento de foguetes contra território israelense. Sem dúvida, país algum pode ou deveria tolerar o bombardeio de suas cidades e vilarejos, vindos além da fronteira. Mas, poderia isto ser impedido através do diálogo com as autoridades de Gaza? Foi a decisão de nosso governo de boicotar o Hamas, o ganhador das eleições democráticas palestinas, a causa real desta guerra? A imposição do bloqueio sobre um milhão e meio de habitantes da Faixa de Gaza contribuiu para o lançamento dos “Qassams”? Em resumo: alternativas foram consideradas antes da decisão de iniciar uma guerra mortífera?
O plano de guerra incluía uma maciço ataque sobre a população civil da Faixa. Os reais objetivos de uma guerra podem ser compreendidos menos das declarações oficiais de seus iniciadores, do que de suas ações. Se nesta guerra, cerca de 1300 homens, mulheres e crianças foram mortos, a grande maioria dos quais, não-combatentes; se cerca de 2500 lares foram parcial, ou totalmente, destruídos; se a infra-estrutura da vida foi, totalmente, demolida – tudo isto, claramente, não pôde ter acontecido, acidentalmente. Isto deve ter sido uma parte do plano de guerra.
As coisas ditas durante a guerra pelos políticos e oficiais deixam claro que o plano tinha, pelo menos, dois objetivos: que podem ser considerados crimes de guerra: (1) Causar ampla matança e destruição, de modo a “estabelecer um preço”, “marcar à fogo em suas consciências”; “reforçar a dissuasão”, e mais do que tudo – fazer com que a população se levantasse contra o Hamas e derrubasse seu governo. Claramente, isto afeta, principalmente, a população civil. (2) Para evitar baixas em nosso exército à (literalmente) qualquer preço, ao destruir qualquer edifício e matar qualquer ser humano na área, para onde nossos soldados estavam próximos de se moverem, inclusive, derrubar casas em cima das cabeças de seus habitantes, impedindo equipes médicas de alcançar as vítimas, e matar pessoas, indiscriminadamente. Em certos casos, habitantes foram prevenidos de que deveriam fugir, mas isto era, principalmente, uma ação para criar um álibi: não havia lugar algum para fugir e, com freqüência, foi aberto fogo sobre pessoas tentando escapar.
Um tribunal independente terá de decidir se um tal plano de guerra está de acordo com a lei nacional e internacional, ou se foi ab initio um crime contra a humanidade e um crime de guerra.
Esta foi uma guerra de um exército regular com enormes capacidade contra uma força guerrilheira. Em tal guerra, também, nem tudo é permissível. Argumentos do tipo, “os terroristas do Hamas se escondiam por detrás da população civil” e “eles usavam a população como escudos humanos” podem ser eficazes como propaganda, mas são irrelevantes: isto acontece em todas a guerras de guerrilha. E precisa ser levado em consideração, quando uma decisão de dar início a uma tal guerra está sendo considerada.
Num estado democrático, os militares recebem suas ordens do estabelecimento político. Bom. Mas isto não inclui ordens “manifestamente” ilegais, sobre as quais tremula a bandeira negra da ilegalidade. Desde os julgamentos de Nuremberg, não há mais espaço para a desculpa de que “eu só estava cumprindo ordens”.
Portanto, a responsabilidade pessoal de todos os envolvidos – do chefe de estado-maior, do comandante de frente, do comandante divisionário, descendo até o último praça – precisa ser examinada. Das declarações de soldados, pode-se deduzir que muitos acreditavam que o trabalho deles era “matar tantos árabes quanto possível”. Significando: nenhuma distinção entre combatentes e não-combatentes. Esta é uma ordem, completamente, ilegal, tenha sido emitida, explicitamente, ou por sugestão. Os soldados compreenderam que esta era a “intenção do comando”.
Entre estes suspeitos de crimes de guerra, os rabinos tem um lugar de honra.
Estes que incitaram a crimes de guerra, e pediram aos soldados, direta ou indiretamente, que cometessem crimes de guerra, podem ser, eles mesmos, culpados de um crime de guerra.
Quando se fala de “rabinos”, alguém pode pensar em velhos com longas barbas brancas e grandes chapéus, que dizem palavras de venerável sabedoria. Mas os rabinos que acompanhavam as tropas são uma espécie muito diferente.
Nas últimas décadas, o sistema educacional religioso, financiado pelo estado, tem produzido “rabinos” que são mais parecidos com padres cristãos da Idade Média, do que com os sábios judeus da Polônia e do Marrocos. Este sistema doutrina seus pupilos com uma violento culto tribal, totalmente etnocêntrico, que não vê nada, na totalidade da história mundial, além de uma infindável história de vitimização do judaísmo. Esta é uma religião de um Povo Eleito, indiferente a outros, uma religião sem compaixão por ninguém, que não seja judeu, que glorifica o genocídio decretado por Deus, com descrito no livro bíblico de Josué.
Os produtos desta educação são, agora, os “rabinos” que instruem os jovens religiosos. Com seu encorajamento, um esforço sistemático tem sido feito para tomar o exército israelense, a partir de dentro. Oficiais usando o Kippa substituíram os kibbutzniks, que, não muito tempo atrás, eram dominantes no exército. Muitos dos oficiais subalternos e intermediários, agora, pertencem a este grupo.
O mais impressionante exemplo é o “rabino-chefe do exército”, coronel Avichai Ronsky, que declarou ser o seu trabalho, reforçar o “espírito combatente” dos soldados. Ele é um homem da extrema-direita, não muito longe do espírito do finado rabino Meir Kahane, cujo partido foi colocado fora da lei, em Israel, por sua ideologia fascista. Sob os auspícios do rabinato do exército, panfletos fascista-religiosos da ultra-direita, foram distribuídos aos soldados.
Este material inclui incitamento político, tais como a declaração de que a religião judaica proíbe “abrir mão de, até mesmo, um milímetro do Eretz Israel;” que os palestinos, semelhantes aos filisteus bíblicos (de onde deriva o nome da Palestina), são um povo estrangeiro que invadiu o país, e que qualquer compromisso (tal como indicado no programa oficial do governo) é um pecado mortal. A distribuição de propaganda política, é claro, viola a lei do exército.
Os rabinos, abertamente, pediram aos soldados para serem cruéis e impiedosos para com os árabes. Tratá-los com misericórdia, eles declararam, seria uma “terrível e dolorosa imoralidade”. Quanto um tal material é distribuído para soldados religiosos, indo para a guerra, é fácil ver por quê as coisas aconteceram deste jeito.
Os planejadores desta guerra sabiam que a sombra de crimes de guerra estava pairando sobre a planejada operação. Prova: o procurador-geral (cujo título oficial é “conselheiro legal do governo”) foi um parceiro no planejamento. Esta semana, o procurador-chefe do exército, coronel Avichai Mandelblut, revelou que seus oficiais estavam anexados, durante toda a guerra, a todos os comandantes, do chefe de estado-maior, descendo até os comandantes divisionários.
Tudo isto leva a inescapável conclusão de que conselheiros legais arcam com responsabilidade direta pelas decisões tomadas e implementadas, do massacre de recrutas da polícia civil, em sua cerimônia de graduação, até o canhoneio das instalações da ONU. Cada procurador que foi parceiro nas deliberações, antes da ordem ter sido emitida, é responsável por suas conseqüências, a não ser que ele possa comprovar que tenha feito objeções a ela.
O procurador-chefe do exército, que se supõe dar aconselhamento profissional e objetivo ao exército, falou sobre “o monstruoso inimigo” e tentou justificar as ações do exército, ao dizer que ele estava combatendo contra “um inimigo desvairado, que declarou ‘amar a morte’ e procura abrigo por detrás das costas de mulheres e crianças.” Uma tal linguagem é, talvez, perdoável numa conversa de botequim de um comandante combatente bêbado, como o comandante de batalhão que ordenou a seus soldados cometerem suicídio, antes do que serem capturados, mas é totalmente inaceitável quando provém do principal oficial legal do exército.
Nós devemos buscar todos os processos legais em Israel e pedir por uma investigação independente e pelo indiciamento dos perpetradores suspeitos. Nós devemos exigir isto, ainda que as chances de ocorrer sejam ínfimas, na verdade.
Se estes esforços falharem, ninguém será capaz de objetar aos julgamentos no exterior, seja numa corte internacional ou em cortes destas nações que respeitam os direitos humanos e a lei internacional.
Até lá, a bandeira negra ainda estará tremulando.
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Uri Avnery é um ativista pacifista israelense, de há muito tempo. Desde 1948 tem advogado o estabelecimento de um estado palestino, juntamente com Israel. Em 1974, Uri Avnery foi o primeiro israelense a estabelecer contato com a liderança da OLP. Em 1982 foi o primeiro israelense a ter encontrado Yasser Arafat, aos atravessar as linhas de cerco em Beirute. Ele serviu três vezes no Parlamento israelense (Knesset) e é o fundador do Gush Shalom (Bloco da Paz).
Re: CONFLITO ISRAELO-PALESTINIANO
Enviado: Seg Fev 02, 2009 1:58 pm
por FOXTROT
Sugiro que façamos algumas reflexões sobre o texto supra
Vejamos:
"O mais impressionante exemplo é o “rabino-chefe do exército”, coronel Avichai Ronsky, que declarou ser o seu trabalho, reforçar o “espírito combatente” dos soldados. Ele é um homem da extrema-direita, não muito longe do espírito do finado rabino Meir Kahane, cujo partido foi colocado fora da lei, em Israel, por sua ideologia fascista. Sob os auspícios do rabinato do exército, panfletos fascista-religiosos da ultra-direita, foram distribuídos aos soldados".
Este Coronel é servidor do Estado Israelense e, parece que este mesmo Estado não se importa com a conduta de um dos seus militares, ou pior, sabedor desta conduta, a ratifica.
No mínimo, parece que alguns israelenses (como este Coronel) não foram civilizados ainda...
Re: CONFLITO ISRAELO-PALESTINIANO
Enviado: Seg Fev 02, 2009 10:24 pm
por soultrain
O texto postado pelo Clermont tem muitos pormenores interessantes:
Não há a mínima dúvida de que na Guerra de Gaza, crimes foram cometidos. A questão é, em qual extensão e por quem.
Exemplo: os soldados mandam os moradores de uma casa saírem. Uma mulher e suas quatro crianças saem, acenando lenços brancos. Está, absolutamente, claro que elas não são combatentes armados. Um soldado, num tanque próximo, se levanta, aponta seu fuzil, e as mata a tiros, à curta distância. De acordo com testemunhas que parecem estar além de dúvidas, isto aconteceu mais de uma vez.
Outro exemplo: o canhoneio da escola das Nações Unidas, cheia de refugiados, de onde não estavam vindo tiros – como admitido pelo exército, após os pretextos originais serem desmentidos.
Estes são casos “simples”. Mas o espectro de casos é, de longe, mais amplo. Uma séria investigação judicial tem de começar de cima: os políticos e oficiais superiores que decidiram pela guerra e confirmaram seus planos, precisam ser investigados sobre suas decisões. Em Nuremberg ficou estabelecido que dar início a uma guerra de agressão é um crime.