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Mensagem
por Reginaldo Bacchi » Sex Set 11, 2009 9:53 am
[quote="joao fernando"]
E como é o processo de revitalização, enfim? Val a pena? É algo s´rio?
[/quote]
Como eu imagino que o Sr. "joão fernando" esteja se referendo ao processo de revisão dos Cascaveis e Urutus no Arsenal de Guerra de São Paulo, eu anexo a seguir o artigo de Expedito Carlos Stephani Bastos sobre o assunto:
ARSENAL DE GUERRA DE SÃO PAULO - AGSP
ONDE O SONHO TORNA-SE REALIDADE.
O RENASCER DOS BLINDADOS DE RODAS NO EXÉRCITO BRASILEIRO
Expedito Carlos Stephani Bastos
Criado, em 02 de dezembro de 1958, na cidade paulista de Barueri, o Arsenal de Guerra de São Paulo (AGSP), desempenhou um pioneirismo importante na área da Indústria Bélica Brasileira, pois ele é o herdeiro do Parque Regional de Manutenção da 2ª Região Militar (PqRMM/2), extinto em 1997, e a ele incorporado.
Vista aérea das instalações do Arsenal de Guerra de São Paulo
...<CORTE>...
Coube ao AGSP a manutenção de 5º Escalão das Viaturas Blindadas sobre Rodas CASCAVEL EE-9 Modelo VII-9 e Viatura Blindada Transporte de Pessoal EE-11 URUTU Modelo VI-4, de fabricação Engesa, nos anos 80, pois a meta é recuperar algo em torno de 500 viaturas, partindo dos modelos mais novos para os mais antigos, uma vez que estes veículos nunca sofreram uma manutenção neste nível, e destes tornarem-se totalmente operacionais aproximadamente 300.
Isto caberia à Engesa, caso ela ainda existisse, mas com seu fechamento definitivo na década de 90, não só o Exército Brasileiro, mas também seus clientes no exterior ficaram desamparados e havia apenas duas opções: ou adquiria-se no exterior viaturas para substituírem estas, a um custo bem elevado ou se recuperaria o que fosse possível, a um custo relativamente baixo, pois ele sai no valor de 10% do preço original do veículo, que era da casa de 300 mil dólares em média, quando de sua aquisição.
A idéia para a recuperação em larga escala destas viaturas remonta a 1998, culminando os estudos em 2000 e em 2001, foi montado esta linha de recuperação, prevista para a conclusão dos trabalhos em 2005, que na realidade é quase uma fabricação de veículos blindados sobre rodas, de certa forma mais complexa, pois numa linha normal de fabricação todas as peças são novas e neste caso é necessário desmontar cada um dos veículos, item por item, procedendo até a modificações para melhorar ainda mais os defeitos que por ventura existem desde quando de sua fabricação, melhorando-os e até mesmo inovando-os, o que visa permitir um sobrevida destas viaturas até o ano de 2015, quando a nova família de blindados de rodas (NFBR), já esteja sendo entregue ao Exército Brasileiro.
Vale ressaltar, que durante a minha visita pude ver o estado em que chegam os veículos blindados, e de que forma eles retornam aos seus quartéis de origem, num ritmo de sete veículos/mês, o que pode parecer pouco, mas que na realidade representa muito, podendo aumentar este ritmo de acordo com as necessidades do Exército e da disponibilidade de verbas, coisa rara hoje em dia e difícil no atua contexto orçamentário.
O trabalho em alguns itens foi terceirizado, mas é todo executado no interior do AGSP, e só foi possível pois as firmas recontrataram experientes operários da extinta Engesa, que mais uma vez voltam à ativa em conjunto com os militares técnicos que fazem parte daquele aquartelamento.
Isto vem comprovar, que a revitalização só se tornou viável pois os veículos são totalmente brasileiros, concebidos e produzidos por nós, pois o maior patrimônio de uma nação são os seus cérebros, as grandes nações que foram totalmente aniquiladas, ressurgiram das cinzas, por possuírem conhecimento, coisa impossível de ser tirada.
A ordem de trabalho executada pelo AGSP começa com a linha de desmontagem, onde cada componente é totalmente desmontado e levado para sua linha de manutenção, a carcaça sofre um processo de jateamento, por micro-partículas de metal(granalha), e após recebe uma pintura protetora, retornando à linha de montagem, onde cada componente depois de verificado e testado é montado na viatura, cada item volta para mesma viatura, com exceção do motor.
Linha de desmontagem geral dos EE-9 e EE-11
EE-11 Urutu em fase de desmontagem total
EE-9 sem motor e suspensão – numa das diversas fases da desmontagem
Carcaça de EE-9 Cascavel indo para o jateamento, após desmontagem total do veículo
Cada conjunto sofre diversos serviços, no caso dos motores é feito o seguinte:
• Retífica completa;
• Manutenção do turbo compressor;
• Manutenção dos órgãos anexos;
• Substituição do alternador de 50 A por outro de 75, uma vez que o primeiro já não é mais produzido pela indústria nacional.
Cada motor é testado num dinamômetro, onde é emitido um laudo, que irá acompanhar a vida do motor de cada veículo até o fim de sua vida útil, acompanhamento que até então não existia, muitas das vezes a própria unidade mandava fazer a retífica, numa firma particular, o que trouxe sérios problemas, que agora estão sendo sanados de vez.
É verificado o sistema de arrefecimento, onde o principal serviço é a substituição de todas as colmeias dos radiadores do motor.
Linha de remontagem do EE-9 Cascavel – prontos para receber os motores
Motor Mercedes-Benz totalmente revisado e pronto para ser colocado em uma das viaturas do programa de revitalização no AGSP
Remontagem da parte elétrica dos EE-9 Cascavel
Também é verificado todo o sistema de transmissão, onde são realizados o seguinte:
• Na caixa automática(1): Revisão completa;
Adaptação do kit de modificação estendida para o "lock-up", permitindo o uso do freio motor (o que muito melhorou a performance do EE-9 e EE-11 que sofria com este problema);
• Na caixa de descida: Revisão completa;
Rastreamento e eventual substituição do eixo piloto pelo modelo mais recente;
• Na caixa de transferência: Revisão completa.
Outro item importante, que está sendo verificado é a suspensão dianteira, onde os principais trabalhos são:
• Troca do conjunto mola-amortecedor;
• Verificação em gabarito de eventuais empenagens nas bandejas e conseqüente substituição;
• Verificação de trincas.
Com relação á suspensão traseira (boomerang) os principais itens revisados são:
• Usinagem e disposição de camada de cromo duro na pista do retentor da ponteira central, que na maioria das vezes estão sériamente desgastadas, conforme comprovamos;
• Substituição desses retentores por outros de lado duplo, uma modificação importante no projeto original da Engesa;
Linha de remontagem do EE-11 Urutu no AGSP
Outra vista da linha dos EE-11 Urutu
• Estudo da substituição do rolamento próximo ao retentor por um mancal auto lubrificante, de dimensões idênticas, também outro item modificado em relação ao original;
• Revisão completa.
Após todas essas etapas a suspensão boomerang é testada uma a uma numa bancada de testes, desenvolvida no próprio Arsenal e então é recolada no veículo, o qual também é exaustivamente testado.
Outros itens de grande importância são os Sistema de Direção e de Freio, onde no primeiro é feita revisão geral da caixa de direção e alinhamento de direção, o qual é feito no próprio Arsenal com um aparelho similar aos usados nos nossos veículos civis, mas desenvolvido especialmente pelo fabricante para veículos militares, um item bem complicado na sua execução. Já no sistema de freio é feita:
• Revisão completa;
• Pinça de freio – Usinagem do alojamento do pistão;
• Deposição de uma camada de cromo;
• Retífica e substituição de todos os reparos.
No item trem de rolamento (rodas) houve inovações importantes como:
Substituição do anel toroidal alveolar por outro rígido da Novatração, o qual foi desenvolvido no Brasil pela firma Novatração no final dos anos 60, que originou o famoso pneu PPB (Pneu à Prova de Bala), testado e aprovado em vários países, que de certa forma os copiou e são produzidos até os dias de hoje, como: Inglaterra, França, Estados Unidos, além de outros, e que equipou boa parte dos projetos concebidos e desenvolvidos no PqRMM/2 de São Paulo, nos primórdios de nossa Indústria de Material de Defesa, uma solução nacional para os nossos veículos. Isto permitiu a eliminação do "shiming", o qual apresentou uma série de problemas.
Pneu PPB desenvolvido pela Novatração no final dos anos 60, com anel toroidal rígido, para serem usados nas viaturas VBB (Viatura Blindada Brasileira), Half Track e M-8, o processo é o mesmo dos dias de hoje.
Anéis torodais rígidos da Novatração, de fabricação nacional, usados no novo processo de revitalização dos EE-9 e EE-11
Mas,o mais complicado foram os pneus, pois a indústria brasileira não produz seriadamente os modelos usados pela Engesa e para voltar a produzi-los faz-se necessário uma grande encomenda, o que de certa forma inviabilizaria o projeto do AGSP, face às restrições orçamentárias. A solução encontrada foi a importação de pneus CONTINENTAL da República Checa, que a partir de agora irão equipar todas as viaturas entregues pelo Arsenal.
Pneu Continental, de origem Checa, adotado como padrão para todas as viaturas EE-9 e EE-11 revitalizadas pelo AGSP
Seção de montagem do trem de rolamento das viaturas EE-9 e EE-11 – Notar os pneus checos Continental
O item mais importante no caso do EE-9 Cascavel é sem sombra de dúvida o seu armamento, razão pela qual é revisada também a torre e a torreta da seguinte forma:
• Revisão completa da torre e torreta;
• Substituição do reparo do canhão;
• Execução de tiro e verificação de funcionamento do armamento principal.
Nestes tópicos é verificado se existe qualquer anormalidade com o canhão, que pode até ser condenado e substituído por outro fabricado no próprio Arsenal, sendo que para isto foi criada uma Seção de Armamento Pesado.
Seção de torres e armamento do EE-9 Cascavel na fase final de remontagem
Feito tudo isto o veículo é remontado e exaustivamente testado, tanto nas suas partes tratoras como parte para uma série de tiros reais para verificação de todo o conjunto. Aprovado o mesmo recebe nova pintura, numeração e marcações do Exército Brasileiro, onde pude notar a volta do emblema antigo do Exército, ou seja o chamado "Espadinha" criado em 1983 e substituído pelo Brasão do Exército em 1995, e agora retornando.
No caso do EE-11 Urutu, este também é exaustivamente testado, principalmente no item navegação, que após aprovado recebe o mesmo procedimento do Cascavel.
Um EE-11 Urutu totalmente concluído e pronto para voltar a sua unidade de origem.
A seguir o mesmo é devolvido à sua unidade de origem, que recebe um veículo praticamente novo, totalmente revisado e confiável. Até o fechamento desta artigo mais de 50 veículos( junho 2002), já foram completados ou estão em fase final de acabamento.
O 50º veículo na linha de revitalização, no caso um EE-9 Cascavel – Orgulho do trabalho do AGSP
É bom lembrar que quando o Comandante do Exército em entrevista à DEFESANET, fevereiro 2002, mencionou a intenção do Exército em aumentar a vida útil destes veículos, o que pode agora ser confirmado "in loco" por nós, o que de certa forma não deixa de ser o renascimento de nossa indústria de material de defesa, pois além de atender o Exército, será possível também atender aos usuários dos produtos brasileiros em diversos países, como: Bolívia, Chile, Jordânia, Colômbia, Equador e muitos outros, que ainda operam veículos "Made in Brazil", até que haja uma definição sobre a futura família de blindados brasileiro, que sem dúvida precisa ser desenvolvida e fabricada pela indústria brasileira, evitando que num futuro possamos ser refém de suprimentos oriundos de terras estrangeiras, lembrando que parcerias são importantes, desde que haja transferência de tecnologia para a indústria nacional. Vale mencionar que, em maio último, na reunião entre os Ministérios da Defesa da Bolívia e Brasil, o assunto de revitalização dos blindados brasileiros operados pela Bolívia foi tema de pauta.
Detalhe da nova identificação – ENGESA AGSP nos veículos revitalizados
Linha pronta e semi-pronta dos EE-9 Cascavel
EE-9 Cascavel semi-prontos. Notar ausência de camuflagem
Vários EE-9 Cascavel prontos para a prova técnica. Notar o casco camuflado já totalmente testado e concluído e a torre sem camuflagem, mostrando que ainda se encontra na fase de testes de funcionamento e tiro real
Faz-se necessário, que a sociedade num todo entenda a necessidade de se manter uma indústria com um alto grau de desenvolvimento, que num infortúnio, possa responder no momento certo e dar em conjunto com as Forças Armadas um fator dissuasório ao nosso país, o qual não tem pretensões territoriais, mas se um dia tiver de lutar, esta luta será dentro de nosso território e é de grande importância dominarmos uma tecnologia avançada...
O mais importante de tudo isto é a visão estratégica do Exército, através do Arsenal de Guerra de São Paulo, que tem como meta "tornar-se o centro de referência na manutenção de blindados e de material de emprego militar para a força terrestre".
Hoje estamos dando um passo muito importante, conseguindo revitalizar a frota brasileira, dentro do programa de revitalização de viaturas blindadas sobre rodas, amanhã será a vez dos blindados alemães, recentemente adquiridos. Os ensinamentos de hoje nos ajudarão no amanhã...
Nota: A maior parte dos veículos recebidos pelo Exército Brasileiro foram com transmissão mecânica.