#52
Mensagem
por Clermont » Qui Jun 11, 2009 10:35 am
O MURO DO AIPAC COMEÇANDO A SE QUEBRAR.
Por Ira Chernus – Truthout Perspective, 9 de junho de 2009.
Durante anos, o AIPAC (American Israel Public Affairs Committe ou Comitê de Assuntos Públicos Israelo-Americano) tem auxiliado o emparedamento do processo de paz no Oriente Médio, ao construir um sólido muro em volta do governo israelense, protegendo-o de criticismo nos Estados Unidos. Senadores e representantes (deputados federais) tem receado a ira do AIPAC no Dia da Eleição, mesmo em estados onde o voto judaico é irrisório. Seja o que for que pensem em particular sobre as políticas de Israel para com os palestinos, eles permanecem em silêncio.
Eu tive um vislumbre de primeira mão sobre este processo, logo após a eleição do ano passado, quando conversei com um ajudante de um recém-eleito membro da Casa (Câmara de Deputados Federais), que representa um distrito, praticamente sem nenhuma comunidade judaica organizada, e que sabia muito pouco sobre Oriente Médio, quando começou a campanha. O representante havia sido “educado” sobre a questão, o ajudante contou-me, por um punhado de ricos democratas – nenhum deles do distrito do representante, todos generosos contribuidores para a campanha, e todos obstinados apoiadores da linha do AIPAC. É assim que as coisas funcionam, no país inteiro.
Ou, pelo menos, como costumavam funcionar. Agora, pela primeira vez, há sinais de uma fissura no tão-falado edifício político do AIPAC. A questão divisora é a exigência pública da administração Obama de que Israel interrompa todas as novas construções nas suas colônias na Margem Ocidental, incluindo o que os israelenses chamam de expansão para acomodar o “crescimento natural”.
Embora o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu encabece o partido de direita Likud, a expansão das colônias, dificilmente, é uma questão partidária em Israel. Ela tem continuado, mais ou menos em passo constante, durante anos, independente de qual partido lidere o governo. E o ministro da defesa Ehud Barak, líder do oposicionista Partido Trabalhista, é, da mesma forma, um obstinado defensor do direito ao “crescimento natural”.
O que há de novo é a séria objeção sendo vocalizada pelo governo dos EUA, não apenas pelo presidente e sua administração, mas por membros do Congresso, incluindo John Kerry, que encabeça o Comitê de Relações Externas do Senado, e vários proeminentes legisladores judeus, tais como Carl Levin, presidente do Comitê das Forças Armadas do Senado; Howard Berman, presidente do Comitê de Relações Externas da Casa; e os influentes representantes Henry Waxman e Robert Wexler.
Quando eles se encontraram, recentemente, com Netanyahu, eles o deixaram “muito, muito ciente das preocupações da administração e do Congresso,” de acordo com uma ajudante congressual. Eles pressionaram Netanyahu sobre a necessidade de cessar a construção nos assentamentos e rejeitaram seu apelo por reciprocidade palestina sobre o terrorismo como uma pré-condição.
(Outro sinal de mudança: uma delegação congressual visitando Israel, realmente, discutiu, em particular, a possibilidade de proibir os israelenses de utilizarem armas americanas na Margem Ocidental.)
Após tantos anos de predominância do AIPAC, seria demais esperar que todos os democratas apoiassem Obama na questão dos assentamentos. O Congresso ainda está cheio de gente que segue a linha do AIPAC.
“Estamos aplicando pressão na parte errada nesta disputa,” disse a representante Shelley Berkley. “Eu não penso que alguém deseje ditar a um aliado o que deve fazer em nome de seus próprios interesses de segurança nacional,” disse o representante Gary Ackerman. Embora ele concedesse que há “espaço para compromisso,” sua versão de compromisso soa muito igual à versão do governo israelense: “Penso que a maioria pode entender pessoas tendo filhos querendo que estes vivam com elas, enquanto isto não for um ardil para expandir os assentamentos.
Mas, o fato de que esteja ocorrendo qualquer debate, afinal de contas, sobre tal questão no Congresso, marca uma mudança de maré em Washington, resultante de uma perfeita tempestade de fatores convergentes.
Mais obviamente, há a dura posição pública da administração sobre a expansão dos assentamentos. Não é fácil para os democratas no Congresso, se oporem a um presidente muito popular de seu próprio partido, especialmente, quando ele está apresentando seus argumentos baseados nos interesses nacionais e na segurança nacional.
Menos obviamente, há uma notável mudança de atitude entre os judeus americanos. Bem, ela é menos óbvia para aqueles que conseguem todas suas informações entre a mídia de massa, onde esta mudança é, de longe, muito menos noticiada. Mas, para estes de nós que tem trabalhado no, antes, mínimo movimento de paz judeu-americano, o crescimento deste movimento não é menos do que espantoso.
Ele já era evidente, um par de anos atrás. Nos últimos dois anos, a pequena corrente de dissidência tinha se tornado, cada vez mais ampla e forte. Nesta cadência, ela poderá se tornar, muito provavelmente, algo perto de uma inundação, antes do que qualquer um poderia ter imaginado.
Dois terços dos judeus americanos dizem desejar que os Estados Unidos desempenhem um papel ativo em levar Israel na direção da paz, mesmo se isto significar que os EUA discordem, em público, e imponham pressões sobre os israelenses. Isto, de acordo com uma pesquisa conduzida, no último verão, pela J Street, o “lobby” pró-Israel, pró-paz, agora visto, amplamente, como o contrapeso para o AIPAC. Contribuições para a J Street estão crescendo num ritmo mais rápido do que para o AIPAC. Na eleição do ano passado, dos 41 candidatos endossados pela J Street, por suas posições pró-paz, 31 foram eleitos.
Trabalhando de perto com a J Street está a raiz dos grupos de paz judeu-americanos, o Brit Tzedek v’Shalom, que agora proclama ter 45 mil membros, além de manifestações de apoio de mais de 1500 rabinos e cantores (de preces litúrgicas nas sinagogas). Somente uns poucos meses atrás, o número destes últimos era inferior a 900, outro indicativo de quão rápido a comunidade judaica está mudando.
Mas os números contam, apenas, parte da história. Dentro da comunidade judaica, há um intangível, porém, inconfundível, novo clima para discussões abertas, e mesmo debates sobre as políticas israelenses. Políticos, cujo trabalho é sentir estes climas intangíveis, estão começando a captar isto. Mais e mais deles percebem que os líderes das organizações judaicas que ainda papagueiam a linha do AIPAC podem dominar a mídia de massa, porém, não podem mais dominar suas próprias fileiras.
E estes líderes de organizações estão, surpreendentemente, mudos em seu apoio à Netanyahu sobre a questão dos assentamentos. “Mesmo as mais conservadoras instituições da vida judaica americana não querem ir à guerra por causa da política de assentamentos,” disse David Twersky, que, até recentemente, era o conselheiro superior de assuntos internacionais no Congresso Judaico Americano.
A convergência de uma administração presidencial renovada e uma comunidade judaica renovada, abre espaço para os legisladores serem influenciados por um terceiro fator: senso comum. Estes políticos são espertos o suficiente para compreenderem que a exigência de Netanyahu para acomodar o “crescimento natural” é, somente, o que o representante Ackerman teme: um ardil para expandir os assentamentos.
De acordo com o próprio Departamento Central de Estatística de Israel, cerca de 40 porcento do crescimento na população dos assentamentos provém, não de “crescimento natural” (o excesso de nascimentos sobre mortes), mas de nova imigração. Já que estes novos imigrantes precisam, não somente de novos quartos, mas novas cozinhas, salas de estar, salas de jantar, tanto como da expansão dos serviços públicos que pessoas adultas necessitam, parece provável que mais da metade das novas construções sejam para acomodá-los e não para “crescimento natural”.
E mais ainda, como o colunista israelense B. Michael aponta, quando uma família, na Israel propriamente dita, tem outra criança, ou quando israelenses se casam, o governo não lhes dá um novo espaço. Eles, apenas, se mudam para novas habitações, se podem comprar; se não podem, se arranjam com o espaço que já tem. Por quê os colonos deveriam ser tratados de forma diferente?
Na verdade, já que os colonos estão vivendo em suas atuais casas, de forma ilegal pela maioria das interpretações da lei internacional, isto é mais razão ainda para que seja esperado que eles se mudem para a Israel propriamente dita, onde há amplitude de habitações para acomodá-los.
“Mas que diabo eles querem de mim?” Netanyahu, segundo é relatado, reclamou após sua conversa com Obama. Nas semanas e meses à frente, podemos esperar um coro crescente no Congresso americano para ecoar as visões cambiantes dos judeus americanos e responder: Nós queremos que você ouça o apelo do presidente e interrompa a construção dos assentamentos, completamente, obedeça a lei internacional, e abra a porta para negociações sérias com os palestinos, rumo a uma solução de dois estados.
Toda vez que esta resposta seja ouvida publicamente, ela alargará as fissuras na muro do AIPAC e nos aproximará do dia quando, inevitavelmente, este muro desabará.
______________________________________
Ira Chernus é professor de estudos religiosos na Universidade do Colorado, em Boulder.