Batalhas da Guerra do Iraque.

Assuntos em discussão: Exército Brasileiro e exércitos estrangeiros, armamentos, equipamentos de exércitos em geral.

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#31 Mensagem por Patton » Qua Nov 02, 2005 8:33 pm

Eles sao as mesmas pessoas com as mesmas objetivos e apoiam uns aos outros entao sim eu considero os chechenos terroistas tambem.




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"Agora eu quero que vocês se lembrem que nenhum filho de *** ganhou uma guerra morrendo de pena dele. Ela ganhou ao forçar o outro filho da *** a morrer pelo seu país"~
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#32 Mensagem por Jet Crash® » Qua Nov 02, 2005 8:34 pm

Patton escreveu:Eles sao as mesmas pessoas com as mesmas objetivos e apoiam uns aos outros entao sim eu considero os chechenos terroistas tambem.


Ok. Muito obrigado.




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#33 Mensagem por Clermont » Qua Mar 01, 2006 11:36 am

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sargento Leigh Ann Hester, líder de uma das três esquadras do Grupo de Polícia “Raven 42”.


PARA REGISTRO: PMs, MESMO INFERIORIZADOS, VENCEM.

Nota do Editor: Esse é um Relatório Pós-Ação (After Action Report) sobre o incidente de combate em 20 de março de 2005, próximo a Salman Pak, Iraque, entre um grupo de polícia (Gp Pol) de dez soldados da Companhia 617 de Polícia Militar (Guarda Nacional do Exército do Kentucky) anexada à 18ª Brigada PM, e um grupo de entre 40-50 combatentes iraquianos. O relatório foi escrito pelo oficial de informações da brigada. Os nomes dos soldados envolvidos foram deletados, e o texto foi levemente editado para ficar claro.

RELATÓRIO PÓS-AÇÃO: Ação da Raven 42 em Salman Pak.

Em poucos dias vocês verão nos noticiários da televisão, e na mídia impressa a história de um grupo de heróis da Polícia Militar do Exército dos Estados Unidos. Através desses meios de divulgação eu duvido que a história deles seja publicada de maneira autenticamente descritiva. Eu não posso expressar para vocês o orgulho, a admiração e o respeito que eu sinto por esses soldados com código de chamada radiofônico “Raven 42”.

Ao entardecer do domingo, numa seção muito ruim de um terreno coberto de mato chamado Salman Pak, nos arredores ao sudoeste de Bagdá, entre 40 e 50 insurgentes iraquianos pesadamente armados atacaram um comboio de 30 caminhões reboques de trailer que estavam transportando suprimentos para as forças da coalizão, ao longo da Rota de Suprimento Alternativa (ASR ou Alternate Supply Route). Esses tratores e trailers, conduzidos por nacionais do terceiro mundo (principalmente turcos), eram escoltados por três “Hummers” blindados do COSCOM (Comando de Apoio de Corpo, ou Corps Support Command). Quando os insurgentes atacaram, um dos “Hummers” estava na zona de abate deles e os três soldados à bordo foram imediatamente feridos, e a viatura colocada debaixo de fogo de metralhadora pesada e de RPGs.

Junto com eles, três dos motoristas de caminhão foram mortos, seis foram feridos nos caminhões reboques. O inimigo atacou a partir do campo barrento de uma fazenda próxima à estrada, com uma linha de árvores perpendicular à ASR, dois fossos secos de irrigação formando uma linha de trincheira numa grosseira forma de L, e uma casa posicionada ao longo da estrada de terra batida. Após três minutos de fogo sustentado um grupo de combate do inimigo se moveu para frente rumo aos caminhões incapacitados. Cada um dos inimigos tinha algemas e estava à procura de reféns para resgate ou coisa pior, como pegar aqueles três soldados americanos feridos para mais decapitações via Internet.

Nesse momento, três “Hummers” blindados que formavam o grupo de polícia sob o signo de chamada “Raven 42”, Companhia 617 de Polícia Militar, Guarda Nacional do Kentucky, anexada ao Batalhão 503 de Polícia Militar (Forte Bragg) da 18ª Brigada PM, entrou em cena como se fosse a Cavalaria. O grupo estava vigiando o comboio à distância por trás da última viatura, e quando os caminhões do comboio pararam devido ao ataque, o Gp Pol acelerou, paralelo ao comboio, movendo-se rumo ao som do tiroteio.

Eles chegaram em cena justamente quando o grupo de cerca de dez inimigos havia avançado através do campo da fazenda estando à cerca de 20 metros da estrada. O Gp Pol abriu fogo com metralhadoras .50 e lança-granadas Mark 19 e atravessou a frente da zona de abate do inimigo, entre ele e os caminhões, atraindo o fogo para longe dos reboques de trailers.

Os PMs cruzaram a zona de abate e então viraram para uma estrada de acesso em ângulo reto à ASR e próxima ao campo cheio de combatentes inimigos. As três viaturas, carregando nove PMs e um médico, pararam numa linha na estrada de terra batida e flanquearam as posições inimigas com fogo mergulhante das metralhadoras .50 e M249 SAW (Arma Automática de Esquadra, ou Squad Automatic Weapon). Na frente deles, estava uma linha de sete sedans, com todas suas portas e porta-malas abertos, os carros de fuga e a casa isolada de dois andares à sua esquerda.

Imediatamente, a viatura do meio foi atingida por um RPG, tirando de sua torreta e atirando-o dentro dela, inconsciente, o atirador. O comandante de viatura, líder do Gp Pol, achou que o atirador estava morto, mas tentou cuidar dele no interior da viatura. Simultaneamente, o motorista da viatura de trás e o comandante da esquadra, abriram as portas e desmontaram para lutar, enquanto seu atirador continuava a disparar de sua posição na plataforma de armas no topo do “Hummer”.

Imediatamente, todos os três caíram feridos, sob pesado fogo de metralhadora. O motorista da viatura do meio, os viu tombar pelo retrovisor, desmontou e correu rumo a terceira viatura, assumindo a SAW no topo da viatura. O médico do Gp Pol desmontou da terceira viatura, e apoiado pelo motorista da primeira viatura (com treino CLS, [salva-vidas de combate ou combat lifesaving]) que correu para se juntar a ele, começou os procedimentos de salvamento de combate para tratar os três PMs feridos.

O atirador no chão da segunda viatura foi reanimado por seu comandante de esquadra (que também era o comandante de todo o Grupo de Polícia) e ele subiu de volta para metralhadora .50 e abriu fogo. O líder do Gp Pol desmontou com sua carabina M-4, e duas granadas de mão, tirando a líder de esquadra da primeira viatura, que havia transmitido relatórios pelo rádio sobre o ocorrido. Esses dois, o sargento-ajudante (Staff-Sergeant) líder do Gp Pol e a sargento (Sergeant) líder de esquadra com a carabina M-4 dela e lança-granadas M-203, correram para o fosso mais próximo, cerca de 20 metros distante e começaram a limpeza da linha natural de trincheiras. O inimigo tinha sumido dentro dos fossos e estava se escondendo por trás de várias árvores na parte de trás do lote. O fogo de flanco de .50 e SAW fez em pedaços os dez inimigos na ponta da linha de trincheira.

Enquanto isso, os dois que cuidavam dos três feridos no chão, próximo à viatura de trás, caíram debaixo de fogo de tocaieiro, vindo da casa da fazenda. Cada um deles, - lembrando-se que um era médico - tirou um lança-rojões AT-4 do “HMMWV” e quase simultaneamente, dispararam os rojões contra a casa, para neutralizar o atirador. O sargento-ajudante e a sargento abriram caminho pela linha de trincheiras, arremessando granadas de mão, disparando projéteis do lança-granadas, e atirando com suas M-4.

A sargento estava com pouca munição e correu de volta para uma viatura, para recarregar. Ela moveu-se rumo a viatura do líder do Gp Pol, e sendo sua fração de PM liderada tão bem, ela sabia exatamente onde enfiar seu braço, às cegas, numa viatura que não era a sua, para encontrar munição, já que cada uma das viaturas era carregada exatamente da mesma forma, com disciplina.

Enquanto ela voltava para a linha de trincheiras, o atirador na Plataforma 2, viu um combatente iraquiano saltar de trás de um dos carros e começar a disparar contra a sargento. Ele sacou sua pistola 9 mm, pois a .50 estava apontada para outra direção, e disparou cinco cartuchos, ferindo o inimigo. A sargento voltou para a linha de trincheira debaixo de fogo vindo da parte de trás do campo, com carregadores novos, mais duas granadas de mão, e mais três cartuchos de M-203. O atirador de Mark 19, lançou fogo de supressão contra a parte de trás do campo.

Agora, de volta ao lado do líder do Gp Pol, os dois sargentos continuaram a limpar a linha de trincheiras de inimigos, até que não vissem mais nenhum movimento. Um homem sozinho, com um lançador RPG sobre seu ombro, saiu detrás de uma árvore e se preparou para disparar contra os três “Hummers”, mas foi morto, com a cabeça atravessada por um único tiro visado de SAW, disparado pelo atirador que havia sido nocauteado antes, na plaforma de armas número 2, que agora tinha uma SAW para suplementar a .50 no montante.

A sargento, líder de esquadra de polícia, clamou quatro mortes por tiros visados de M-4.

O líder de grupo de polícia arremessou quatro granadas de mão, pegando pelo menos dois [iraquianos] e atribui um outro ao fogo mirado de M-203 da sargento.

O atirador da plataforma 2, previamente derrubado por um impacto de RPG, agora tinha girado sua .50 em volta e, compreendendo que a linha de viaturas representava um risco e possível escape para os “caras maus”, começou a disparar a .50 contra os blocos de motores até que seu campo de fogo ficou limitado. Ele descobriu que sua viatura ainda se movimentava apesar do impacto de RPG, e largando sua arma, foi para o assento do motorista e avançou a viatura com dois pneus vazios, cerca de 100 metros para uma posição de tiro melhor. Justo então, a viatura morreu, com óleo vazando por todo canto.

Ele voltou a guarnecer sua .50 e continuou a disparar contra os restantes sete carros alinhados e prontos para uma fuga que não iria acontecer. O fogo cessou então, e um segundo grupo de polícia chegou na cena, desmontou e ajudou os dois que prestavam socorro aos feridos na plataforma 3. Dois minutos mais tarde, três outros Gp Pol da Companhia 617 chegaram, juntamente com o oficial-comandante, e o campo foi assegurado, iniciando-se a consolidação do terreno.

Esses sete americanos (com três feridos) mataram, no todo, 24 inimigos fortemente armados, feriram seis (mais tarde dois morreram), e capturaram um, ileso, que havia se fingido de ferido, para escapar da luta. Eles tomaram vinte e dois AK-47s, seis lançadores RPG com 16 rojões, treze metralhadoras RPK, três metralhadoras PKM, quarenta granadas de mão, cento e vinte e três carregadores AK cheios, 52 vazios, e dez cintos com dois mil e quinhentos cartuchos de munição PK.

Os três PMs feridos foram evacuados para Landstuhl. Um perdeu um rim e ficou paralítico. Os outros dois, provavelmente, irão se recuperar mais tarde, embora um fique para sempre com uma bala alojada entre a segunda e a terceira costelas abaixo do coração. Nenhuma palavra sobre os três soldados do COSCOM feridos nas salvas iniciais. Dos sete membros da “Raven 42”, que saíram caminhando, duas eram mulheres caucasianas, o restante homens – um mexicano-americano; o médico era afro-americano e os outros eram caucasianos. O grande cadinho racial americano.

Eles acreditavam, mesmo antes dessa luta que seus graduados eram os melhores no Exército, e que eles eram o melhor grupo da Polícia Militar do Exército dos Estados Unidos. O médico que disparou o AT-4, disse lembrar de como uma semana antes, seu líder de Gp Pol o forçou a treinar a sua utilização, embora ele, como médico, não imaginasse que teria de usar um. Ele disse que escolheu utilizá-lo naquele momento para proteger os três feridos no chão em frente a ele, uma vez que ficaram debaixo do fogo vindo da construção.

No dia anterior a missão, eles pegaram as novas bandoleiras RFI que foram recentemente atribuídas, e experimentaram montá-las em suas viaturas. Uma vez que descobriram o método, eles pré-carregaram uma segunda carga básica de munição nos carregadores, colocando-os dentro das bandoleiras, e as montando em suas viaturas – do mesmo modo em cada plano de carregamento de viatura, comandados e checados pelos líderes!

Liderança sob fogo – Uma vez que esses três líderes (graduados) saltaram das viaturas, o Gp Pol estava empenhado na luta.

Suas únicas reclamações no AAR (After Action Report) foram: falta de poder de parada da munição 9 mm; os projéteis incendiários .50 com o qual foram dotados no lugar da munição de bala (carência de munição de bala no inventário) não tinham o poder de penetração necessário para varar as paredes do edifício; e que nem todos no Gp Pol eram treinados em CLS.

Ontem, [segunda-feira, 28 de março de 2005] o dia foi passado com o capelão e a cadeia de comando conduzindo AARs. Hoje, cada agência de notícias no teatro as querem. “Good Morning America, NBC, CBS, FOX, ABC, Star & Stripes, e muitas estações de rádio do Kentucky estão todas alinhadas. A sargento mulher que lutou através da linha de trincheira irá se tornar a garota-propaganda, a anti-Jéssica Lynch. Ela e seu líder de Gp Pol merecem cada pedaço de reconhecimento que obtiverem, e mais. Eles fizeram tudo.

Eu participei no AAR deles, como E2 de brigada (oficial de informações), e estou ajudando a preparar um relatório da ação para justificar futuras condecorações por valor. Não vamos falar sobre mulheres em combate. Não vamos falar sobre o fato da nova Insígnia de Combate Aproximado não poder ser atribuída aos soldados da PM.


Nota de pé-de-página: O cartucho 9 mm foi uma decisão terrível que o Exército tomou. A pistola 9 mm substituiu a .45 justamente quando eu estava saíndo do Exército. Creiam-me, um cartucho de uma .45 teria feito mais do que ferir o soldado inimigo. Forças Especiais, SEALs, Rangers, etc, e todos aqueles que engajam em CQB (combate aproximado, ou Close Quarters Battle) estão sendo dotados ou comprando do próprio bolso, suas .45s. Há um velho dito: “Nunca vá para um tiroteio com uma arma que não use munição que começe com um ‘4’.”




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#34 Mensagem por Clermont » Dom Jan 07, 2007 12:47 pm

O IRAQUE DE 2004 PARECE O VIETNAM DE 1966 – Ajustando a contagem de corpos relativamente ás mudanças médicas e militares.

Por Phillip Carter e Owen West – Slate Magazine, 27 de dezembro de 2004.

Os soldados há muito estão sujeitos à odiosas comparações de gerações. É um rito de passagem militar para os novos recrutas ouvir dos mais velhos de que tudo, do campo de treinamento até o combate, era muito mais duro antes de eles chegarem. A coroação no fim dos anos 1990 da “Maior de Todas as Gerações” que deixou muitos ex-combatentes da Guerra da Coréia e da Guerra do Vietnam coçando a cabeça, é apenas o exemplo cultural mais visível.

Os contrastes de gerações estão implícitos hoje quando as baixas no Iraque são referidas como leves, sejam em si mesmas ou em comparação ao Vietnam. O Centro para Avaliações Estratégicas e Orçamentárias, por exemplo, em julho último, desconsiderou a intensidade da guerra no Iraque sob o argumento de que “levaria mais de 73 anos para as forças americanas incorrerem no nível de mortes em combate sofridas na guerra do Vietnam.

Mas uma análise comparativa das estatísticas de baixas americanas do Iraque no conta uma história diferente. Após pesarmos os aperfeiçoamentos médicos, doutrinais e tecnológicos, a missão da infantaria no Iraque, por volta de 2004, se apresenta tão intensa quanto a missão da infantaria no Vietnam, por volta de 1966 e, em alguns casos, mais letal. Mesmo engajamentos descontínuos, tais como a batalha de Hue, em 1968 e as batalhas por Fallujah em 2004, contam uma história similar: os “grunts” de hoje estão patrulhando um campo de batalha tão mortal quanto o caldeirão que seus pais encararam no Sudeste Asiático.

Economistas gostam de citar estatísticas em “dólares constantes”, nas quais eles equiparam os índices de inflação históricos para produzirem estatísticas que permitem comparação lado-a-lado. A guerra é mais complexa que a macroeconomia, mas é possível produzir uma comparação “maçãs-com-maçãs” para as baixas através dos conflitos. Em um artigo recente para o New England Journal of Medicine, Atul Gawande (um antigo contribuidor da Slate) concluiu que os aperfeiçoamentos na medicina militar desde o Vietnam reduziram dramaticamente o índice pelo qual os soldados americanos morriam de ferimentos recebidos em combate. O argumento seguia um estudo de 2002 que vinculava os aperfeiçoamentos na medicina de trauma civil americana para o decrescente índice de assassinatos. Enquanto a agressão com armas de fogo nos Estados Unidos estava subindo, o índice de assassinatos estava caindo, em grande medida porque os ferimentos de penetração que se mostravam fatais há 30 anos atrás, agora eram passíveis de sobrevivência. Assim, o índice de assassinatos estava artificialmente deprimido em comparação com os anos 1960.

Gawande aplicou a mesma metodologia às estatísticas de baixas americanas em guerras anteriores, chegando a um índice de “letalidade de ferimentos” para cada conflito. Na Segunda Guerra Mundial, 30 % dos ferimentos se mostravam fatais. Na Coréia, Vietnam e na primeira Guerra do Golfo, esse índice pairava entre 24 e 25 %. Mas devido a melhor tecnologia médica, mudanças doutrinárias que fazem avançar as equipes cirúrgicas para mais próximo das linhas de frente, e proteção de blindagens individuais para soldados, esse índice caiu para 10 % na Operação “Iraqi Freedom” para todos os ferimentos. Para ferimentos sérios que mantém um soldado longe do dever por mais do que 72 horas, o índice de mortalidade agora é de 16 %. Simplesmente, um soldado tinha quase uma vez e meia mais probabilidade de morrer dos ferimentos no Vietnam do que no Iraque de hoje.

Essa disparidade entre índices de “ferimentos letais” tem profundas implicações. A analogia é uma ferramenta poderosa para a perspectiva, e o Vietnam ainda reverbera, mas os números precisam refletir os riscos reais. Em 1966, por exemplo, 5008 militares americanos foram mortos em ação no Vietnam. Outros 1045 morreram de ferimentos “não-hostis” (17 % do total das fatalidades). Desde 1º de janeiro de 2004, 754 militares, homens e mulheres, foram mortos em ação no Iraque, e mais 142 soldados morreram em incidentes “não-hostis” (16 % das fatalidades, similar ao Vietnam). Aplicando o índice de letalidade do Vietnam (25 %) ao número total de soldados mortos em ação no Iraque esse ano, no entanto, elevaria os mortos em ação de 2004 para 1131.

A escala pode ser ainda mais equilibrada. Em 1966, as tropas americanas no Vietnam somavam 385 mil. Em 2004, o número no Iraque tem ficado na média aproximada de 142 mil. Comparando a carga suportada pelos soldados individualmente em ambos os conflitos, eleva o número de “baixas constantes” de 2004 no Iraque para 3064 mortos em ação. E mais, as baixas no Iraque recaem mais pesadamente nesses executando missões de infantaria. Fuzileiros tanto quanto tanquistas e artilheiros que operam em unidades provisórias de infantaria no Iraque, suportam uma proporção muito mais elevada de risco do que faziam no Vietnam. Lá, os pilotos de helicóptero e suas tripulações totalizavam quase 5 % daqueles mortos em ação. No Iraque em 2004, esse número foi menor do que 3 %. No Vietnam, pilotos de jatos totalizavam quase 4 % dos mortos em ação americanos. Em 2004, os Estados Unidos não perderam um só jato para ação inimiga no Iraque. Quando pilotos e tripulações aéreas são removidos da equação, 4062 soldados de terra morreram durante 1966 no Vietnam, comparados aos 2975 no Iraque durante 2004.

Talvez uma mudança mais significativa seja o casamento da tecnologia com mudanças doutrinárias. Na Segunda Guerra Mundial, Coréia e Vietnam, a guerra de atrito dominava as operações de infantaria. Hoje, os comandantes lutam diferente, primeiro preparando o campo de batalha com poder aéreo e artilharia, então empenhando tropas terrestres para atacar inimigos enfraquecidos por essas barragens ou ultrapassando-os totalmente.

Mas algumas situações desafiam os efeitos da tecnologia e forçam os infantes a lutarem muito do modo que faziam trinta anos atrás. Em áreas urbanas, de forma mais significativa, edificações ocultam os insurgentes iraquianos da observação aérea e os protegem da artilharia. As cidades também tornam fácil para pequenos bandos de insurgentes se ocultarem entre os civis. Em Fallujah, os insurgentes iraquianos que sumiam na cidade tinham de ser desentocados pela infantaria americana exatamente como os Fuzileiros Navais fizeram quanto lutaram para retomar Hue em 1968.

A comparação com Hue é esclarecedora. Lá, três batalhões dos Fuzileiros Navais (aproximadamente 3 mil homens) mergulharam dentro de uma feroz luta de casa-em-casa com 12 mil norte-vietnamitas, por fim desbaratando-os após sofrerem duras perdas. Em abril de 2004, três batalhões dos Fuzileiros Navais atacaram vários milhares de terroristas em Fallujah e estavam há alguns dias de tomarem a cidade quando a Casa Branca interrompeu o ataque. Em novembro, três novos batalhões dos Fuzileiros Navais, juntaram-se a dois batalhões de infantaria mecanizada do Exército em um ataque de varredura para retomar a cidade. Eles obtiveram sucesso, embora surtos de combates continuassem. Enquanto os norte-vietnamitas travaram uma batalha coordenada de defesa por Hue até serem aniquilados, os terroristas em Fallujah lutaram em pequenos grupos, ocultando-se entre as dezenas de milhares de estruturas na “cidade das mesquitas.” Na batalha de três semanas por Hue, 147 fuzileiros navais foram mortos e 857 feridos. Nas duas batalhas por Fallujah, mais de 104 fuzileiros navais e soldados foram mortos e mais de 1100 feridos em uma batalha que continua a ceifar vidas, como as dos três fuzileiros navais que encontraram ainda outro bolsão de resistentes na semana passada.

Hue e Fallujah fornecem uma das melhores comparações de combate entre gerações porque ambas as batalhas se desenrolaram de forma similar. Sem levar em conta qualquer dos avanços em tecnologia e evacuação médicas, blindagens corporais ou tecnologia militar, as baixas americanas em Fallujah quase igualam aquelas de Hue. Se você pesar os aperfeiçoamentos somente em tecnologia médica, então a luta por Fallujah foi tão custosa (ou talvez mais) do que por Hue, enquanto medida pelo número de ferimentos mortais sustentado por soldados americanos.

Que o combate atual no Iraque, por esses cálculos, possa realmente ser mais letal do que a luta de rua no Vietnam não deve ser considerado com pouco caso. O Vietnam foi marcado por longos períodos de combate sustentado, duramente travado, mas poucos ganhos perceptíveis. Os voluntários ultrapassavam o número de conscritos em um índice de 9-1 nas unidades que viram combate durante os primeiros dias da guerra em 1966 e, no começo, contavam com o apoio do país que acreditava em sua causa. Mas, enquanto a carga aumentava e se aprofundava, e os conscritos arcavam com a maior parte da luta e das mortes, a fé do país se evaporou. A carga de hoje não é tão ampla, mas é profunda. Comunidades como Oceanside, Califórnia, lar de Camp Pendleton e da 1ª Força Expedicionária de Fuzileiros Navais, tem sofrido perdas tremendas nessa guerra, quase um quarto de todas as mortes em combate dos EUA, em 2004, estavam estacionadas em Camp Pendleton. Líderes militares deviam ter em mente esse fato: enviar infantes em suas terceiras rotações para o Iraque nessa primavera seria semelhante a designar para um soldado três temporadas de dever no Vietnam: muito duro em 1966 e um absurdo total em 1968.

Críticos da guerra podem usar essa análise como mais munição para atacar o esforço; alguns apoiadores podem continuar a se referir as baixas como “leves”, observando, tipicamente, que dezenas de milhares de americanos precisam morrer na guerra antes que o apoio doméstico desabe. Ambos erram o ponto. As estatísticas de baixas tornam claro que nossa nação está envolvida em uma guerra cuja intensidade no chão compara-se aquela de guerras anteriores. E mais, a carga proporcional sobre o infante está no seu índice mais elevado desde a Grande Guerra de 1914. Com o orçamento do próximo ano prestes a ser rascunhado, é tempo para Washington finalmente avaliar suas necessidades de acordo.




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#35 Mensagem por Clermont » Qua Jan 17, 2007 2:51 pm

MISSÃO IMPOSSÍVEL – O general mais esperto de Bush não pode salvar o Iraque.

Por Fred Kaplan – 8 de janeiro de 2007 – Slate Magazine.

George W. Bush nomeou um novo homem para assumir o Iraque como prelúdio para seu anúncio de (alegadamente) uma nova estratégia. Irá ou um ou a outra fazer qualquer diferença?

O novo comandante, tenente-general (a ser promovido, em breve, à general) David Petraeus é, provavelmente, o mais esperto general da ativa no Exército dos Estados Unidos de hoje. No ano passado, ele foi co-autor do manual de campanha do Exército sobre contra-insurgência - o primeiro em mais de vinte anos. Durante a fase inicial da ocupação do Iraque, como comandante da 101ª Divisão Aeroterrestre, ele foi um dos muito poucos oficiais americanos que entenderam como ganhar a população, e não apenas arrombar suas portas. Nesses tranqüilos dias do verão de 2003, os comandantes tinham livre acesso aos fundos enlameados de Saddam que haviam sido capturados, e Petraeus usou o dinheiro de forma sensata para construir projetos locais e forjar a confiança com líderes locais. Pode ser que não tenha sido mera coincidência que as coisas começaram a ir para o inferno no norte do Iraque, a área de operações da 101ª Aeroterrestre, quando os fundos do comandante secaram - e mais nenhum foi despejado ali.

Aliás, Petraeus está na mesma situação em que se encontrava então - assoberbado com responsabilidades enormes, tendo as habilidades certas, mas não os recursos necessários, seja em dinheiro ou, especialmente, em tropas.

A grande conversa na semana passada, e provavelmente o ponto central do anúncio de Bush (a ocorrer quarta-feira à noite), é o “reforço” - 20 mil soldados de combate adicionais para serem desdobrados em Bagdá, como parte de uma clássica estratégia de “limpar, manter e construir”. Isso significa despejar uma porção de soldados em uma área particular (uma cidade, uma vila, um quarteirão, ou qualquer coisa), limpá-la de insurgentes (isto é, matá-los ou capturá-los), e deixar para trás, soldados ou policiais o bastante para manter a ordem, para que a reconstrução possa ter lugar, enquanto outras tropas movimentam-se para limpar, manter, e construir na próxima área atribulada na lista.

Petraeus e seus co-autores discutiram essa estratégia, minuciosamente, no manual de campanha de contra-insurgência do Exército. Um ponto que eles levantaram é que isso exige um bocado de potencial humano - no mínimo 20 soldados combatentes para cada 1000 pessoas na área populada. Bagdá tem cerca de 6 milhões de pessoas; portanto, limpá-la, mantê-la, construir nela, exigirá cerca de 120 mil soldados combatentes.

Exatamente agora, os Estados Unidos tem cerca de 70 mil soldados combatentes em todo o Iraque (outros 60 mil ou mais são soldados de apoio ou elementos de quartel-general). Mesmo mais 20 mil extras, iriam deixar a força bem inferior ao mínimo requerido - e isso com cada fuzileiro naval e soldado no Iraque movidos para Bagdá. As forças de segurança iraquianas teriam de compensar a deficiência.

Em curto tempo, então, digamos por um ano se tanto, tropa o bastante poderia ser concentrada em Bagdá, se os soldados agora desdobrados tiverem suas temporadas de dever estendidas, se os soldados programados para redesdobramento para o Iraque forem mobilizados vários meses antes do planejado, e se quase todos esses soldados forem transferidos para Bagdá, e se bastante tropa iraquiana puder ser mobilizada para preencher os buracos.

Enquanto isso, como iria Petraeus ser capaz de impedir os insurgentes de Bagdá de, simplesmente, escorregarem para fora da cidade e disseminarem a destruição por toda a parte? Foi isso que aconteceu em Fallujah quando tropas americanas tentaram destruir o domínio dos insurgentes naquela cidade.

Em uma bem-sucedida campanha de contra-insurgência, na cidade setentrional de Tal Afar, o 3º Regimento de Cavalaria Blindada (equivalente a toda uma brigada blindada, no Brasil) cercou a cidade com um muro de 2,70 m para isolá-la. Isso foi um complemento às outras técnicas de contra-insurgência como, manter um alto índice de soldados-população, lidar de maneira civilizada com as autoridades locais, e assim por diante. (Tal Afar escorregou, lentamente, para o caos, quando o 3º de Cavalaria Blindada foi redesdobrado para outro ponto-quente - outra indicação de que limpar e manter, que dirá limpar, manter e reconstruir, exige uma porção de soldados a mais do que os Estados Unidos jamais tiveram no Iraque.)

Iria Petraeus muralhar todas as vizinhanças em Bagdá? (O Exército dos Estados Unidos no Iraque tem um bocado de concreto.) Tal estratégia seria plausível em uma cidade de 6 milhões, em comparação com uma cidade de 60 mil, como Tal Afar? Movimentar os tratores pode ser um dramático primeiro passo. Mas e então?

Mesmo ao nível do desdobramento de tropas, a questão é tanto sobre qualidade quanto quantidade. O manual de campanha de Petraeus salienta que a contra-insurgência é muito diferente do combate normal e que operações bem-sucedidas “demandam que os fuzileiros e soldados em cada escalão” possuam um desencorajador conjunto de traços, entre eles uma “apreciação clara, empática e com nuances da natureza essencial do conflito e um entendimento da motivação, forças e fraquezas dos insurgentes,” e um conhecimento da cultura local. Existirão bastantes soldados e fuzileiros navais em cada escalão que sejam dotados de tais traços? Se existissem, esse manual de campanha não teria sido necessário. Além disso, o manual de campanha observa que líderes combatentes, descendo até o nível de companhia, precisam ser “adaptáveis, auto-conscientes, e inteligentes.”

O propósito de um manual de campanha de exército é enunciar as exigências do combate – no caso deste manual, um tipo de combate que o Exército americano não focalizava há décadas. Geralmente, leva anos, se não décadas, para uma nova cultura – pela qual que este manual pede e delineia – firmar pé em qualquer força armada. Petraeus é um oficial brilhante, mas é questionável se, mesmo ele, pode impor à força uma nova cultura em apenas questão de meses.

Se ele obtiver sucesso em Bagdá, como seria ele capaz de “mantê-la” enquanto rumava para as outras cidades atribuladas do Iraque? (Frederick Kagan do Instituto Americano de Empreendimentos (A.E.I.) que apareceu com a estratégia do “reforço”, propôs expandir as fileiras do Exército em 30 mil soldados combatentes nos próximos dois anos. O problema é que, segundo os cálculos de oficiais bem-colocados, mesmo que recrutas o bastante possam ser encontrados, o Exército pode suportar uma expansão de apenas cerca de 7 mil combatentes por ano.)

E há, também, as considerações de cunho político. Nada irá funcionar, mesmo sob circunstâncias idéias de outra ordem, a não ser que o governo iraquiano apóie o esforço, ordene aos batalhões iraquianos para tomarem parte, e concorde em permitir aos contra-insurgentes irem atrás das milícias, incluindo o Exército do Mahdi controlado por Muqtada Sadr, uma facção-chave da base de poder do Primeiro-Ministro Nouri- al-Maliki. O governo iraquiano também deverá divisar alguma força de compartilhamento de poder – por exemplo, a fórmula para compartilhar os rendimentos do petróleo com as regiões sunitas – para lidar com as causas da insurgência (ou, pelo menos, as causas do apoio popular ou tolerância aos insurgentes). Enquanto uma área está sendo assegurada, os EUA e outros governos também teriam de despejar maciços fundos para projetos de reconstrução, bem além dos $ 1 bilhão que se espera que o Presidente Bush requeira para criação de empregos urbanos. Em outras palavras, um reforço – ainda que ele se mostre bem-sucedido em seus próprios termos – não irá significar nada, no médio e longo prazos, a menos que seja parte de uma estratégica política e econômica mais ampla. Teria Bush uma tal estratégia em mente? Vamos ver na quarta-feira. Se ele tiver, irá o governo iraquiano desejar ou ser capaz de seguir junto? Vamos ver nos próximos poucos meses.

Mas segurança é o pré-requisito, e para obter segurança duradoura, a dura aritmética indica que Bush precisa mandar um bocado a mais de soldados do que os 20 mil. O problema é que, ele não os tem, e não será capaz de tê-los por muitos anos, sob as melhores circunstâncias. (Mesmo se ele reinstaurasse o recrutamento obrigatório – um jeito certo de converter o desencanto popular com a guerra em oposição com motins pelas ruas – levaria uns poucos anos para botar o Sistema de Serviço Seletivo em funcionamento e para mobilizar, treinar e equipar os recrutados.)

Uma teoria difundida e plausível, é que o reforço constitui um esforço de última trincheira rumo ao sucesso. O pensamento seria esse: talvez isso funcione; e se não funcionar, os Estados Unidos poderão cortar as perdas e retirar-se sem que a retirada pareça uma debandada desastrosa. “Nós demos tudo de nós,” o presidente poderá dizer; “não nos culpem por tudo ter caído em pedaços.” E, já que Kagan e outros advogados do reforço estão dizendo que o plano poderá levar cerca de dois anos para ter sucesso ou falhar, o próximo presidente – não Bush – irá ser aquele que irá ordenar, e arcar com toda a pressão por isso, a retirada.

Eu não sou um dos que gostam de comparar a guerra no Iraque ao Vietnam, mas há um arrepiante paralelo com um memorando que John McNaughton, o mais próximo assessor do Secretário de Defesa Robert McNamara, enviou a este, em 24 de março de 1965, após parecer ficar claro que a Operação “Rolling Thunder”, a campanha de bombardeio, estava produzindo magros resultados.

“A situação no Vietnam é ruim e em deterioração,” escreveu McNaugthon, O objetivo importante agora é “evitar uma humilhante derrota dos Estados Unidos (para a nossa reputação de garantidores)”. Doravante, é essencial “que os Estados Unidos apareçam como um ‘bom médico’. Nós precisamos ter mantido promessas, sido duros, corrido riscos, derramado sangue e ferido bem seriamente o inimigo.”

Um mês depois, em 21 de abril, McNamara e McNaughton se encontraram em Honolulu com os Chefes Conjuntos de Estado-Maior e outros líderes de ponta. Eles concluíram, como McNamara resumiu em um memorando, “que irá levar mais do que seis meses, talvez um ano ou dois, para demonstrar o fracasso do VC [Viet Cong] no Sul. (Ambos os documentos estão reproduzidos no Volume 3 dos Documentos do Pentágono.)

Levou outra década e 50 mil vidas americanas para reconhecer o que McNaughton (que, logo depois desse encontro, morreu em um acidente aéreo) tinha reconhecido apenas um ano de conflito. No bem provável, e lamentável evento de que o reforço de Bush não funcione, esperemos que os líderes de hoje aceitem a realidade mais rapidamente.




Editado pela última vez por Clermont em Sáb Set 13, 2008 3:07 pm, em um total de 1 vez.
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#36 Mensagem por Morcego » Qua Jan 17, 2007 3:03 pm

Spetsnaz escreveu:Esses relatos provam mais uma vez que americano não vence guerra se não tiver avião no céu ..


ninguém vence sem avião no céu.




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#37 Mensagem por Piffer » Qua Jan 17, 2007 8:42 pm





Carpe noctem!
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#38 Mensagem por 3rdMillhouse » Qui Jan 18, 2007 12:53 am

Clermont escreveu:Esses sete americanos (com três feridos) mataram, no todo, 24 inimigos fortemente armados, feriram seis (mais tarde dois morreram), e capturaram um, ileso, que havia se fingido de ferido, para escapar da luta. Eles tomaram vinte e dois AK-47s, seis lançadores RPG com 16 rojões, treze metralhadoras RPK, três metralhadoras PKM, quarenta granadas de mão, cento e vinte e três carregadores AK cheios, 52 vazios, e dez cintos com dois mil e quinhentos cartuchos de munição PK.


Meus parabéns para a tropa pela disciplina e eficiência mostrada durante o combate (emboscada), e uma palvarinha:

Esses pulhas covardes e assassinos sabe que não vão conseguir enfrentar os americanos num combate aberto e por isso recorrem a matar inocentes em seu atentados a bomba.

morcego escreveu:
Spetsnaz escreveu:Esses relatos provam mais uma vez que americano não vence guerra se não tiver avião no céu ..


ninguém vence sem avião no céu.


Precisamente.




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#39 Mensagem por Clermont » Seg Jul 16, 2007 10:59 am

Resolvi juntar esse texto, que estava perdido por aí, a esse tópico.


COMO UM FUZILEIRO NAVAL PERDE SEU COMANDO NA CORRIDA PARA BAGDÁ.

O "ritmo" do Coronel Joe Dowdys desagradou seus superiores; Equilíbrio de missão x Homens; Nome de chamada do General: "caos".

Por Christopher Cooper, Repórter Adjunto do Wall Street Journal, 5 de abril de 2004.


Em duas semanas durante a guerra no Iraque, o coronel Fuzileiro Joe D. Dowdy concluiu a manobra militar que coroou sua vida, atacando um grupo de elite de soldados iraquianos e, então, conduzindo 6 mil homens numa corrida de alta velocidade de 18 horas, rumo à Bagdá.

Mas nenhum louvor aguardava o comandante regimental da 1ª Divisão de Fuzileiros Navais, enquanto ele adentrava na tenda de seu superior, major-general Fuzileiro, James Mattis, em 4 de abril de 2003. Ao invés, o cel Dowdy foi despido de seu comando, efetivamente, findando sua carreira de 24 anos nos Fuzileiros Navais. Num golpe final, o cel Dowdy disse que o general solicitou-lhe que esvaziasse sua arma de porte, e entregasse sua munição. "Ele achou que eu ia me matar," disse o coronel.

Assumir um comando de campo de batalha é o ápice da carreira de um fuzileiro naval. Ser removido é quase o nadir, excedido, apenas, pela corte marcial. É extremamente raro para as modernas Forças Armadas dos EUA exonerar um comandante de ponta, especialmente, durante o combate. O cel Dowdy, 47 anos, foi o único oficial superior, em qualquer das forças armadas, a ser demitido no Iraque. Ele disse que preferia ter tomado um tiro do inimigo.

A demissão do cel Dowdy foi mais inusitada porque ele não cometeu qualquer um dos atos que, normalmente, precipitam tal atitude: falha em completar uma missão, desobediência à uma ordem direta, quebra das regras de guerra. "Foi uma decisão baseada no ritmo operacional", disse o tenente Eric Knapp, um porta-voz para a 1ª Divisão de Fuzileiros Navais. Ele não quis complementar.

A remoção do coronel detonou uma cobertura da imprensa e intensa especulação no Corpo de Fuzileiros Navais. As razões para a demissão não ficaram claras, principalmente devido ao coronel e seus superiores recusarem a falar sobre ela. Agora, entrevistas com o cel Dowdy e um punhado de oficiais e praças mostram que o coronel foi condenado, em parte por uma antiga tensão de tempo de guerra: homens versus missão - na qual ele favoreceu seus homens.

O maj-gen Mattis e cel Dowdy personificam tudo o que é celebrado na cultura do Corpo de Fuzileiros Navais. O maj-gen Mattis, 53 anos, é um "monge guerreiro", como alguns dos seus homens denominam isso, um celibatário por toda a vida, consumido com o estudo e a prática de táticas de batalha. O Cel Dowdy é amado pela atenção que ele presta a seus homens, dos "grunts"
(Government Rejects Unfit to Training, ou "rejeitos governamentais, inadequados para treinamento", apelido dos combatentes da linha de frente) para cima.

As qualidades desses dois fuzileiros navais, eventualmente, os dilaceraram. O maj-gen Mattis, um fuzileiro naval por 33 anos, via a velocidade como primordial no plano da Guerra do Iraque. O cel Dowdy pensava que sacrificar tudo pela velocidade, arriscava o bem-estar de seus homens.

A disputa foi alimentada por suposições errôneas sobre como os iraquianos iriam lutar. O desejo por velocidade provinha da expectativa do Pentágono de uma feroz e arrastada batalha em Bagdá, com resistência bem menor em outras áreas. Mas acabou que Bagdá caiu facilmente, enquanto o interior do país continuou em ebulição com a resistência.

Hoje, enquanto forças dos EUA chocam-se com um inimigo que, claramente, subestimaram, os militares continuam a debater se acelerar o rumo à capital iraquiana foi o melhor caminho para tomar.

O maj-gen Mattis declinou de ser entrevistado para essa história. Seu chefe de estado-maior, coronel Joe Dunford, disse que uma decisão feita durante o combate é impossível de explicar agora. "É uma dessas coisas que, ao tentar colocar os pedaços de volta, não há modo de conseguir."

Sobre um prato de empanados de frango, próximo a sua casa em Carlsbad, Califórnia, o cel Dowdy admite ter cometido erros. Mas não acredita que qualquer um deles tenha garantido sua remoção. Ele tem orgulho de que apenas um fuzileiro naval tenha morrido sob seu comando. "Ao menos, eu não tenho uma conta de carniceiro para pagar," ele disse.

A poeira cobria os 900 caminhões e tanques no regimento do cel Dowdy, quando eles emergiam do deserto, em 22 de março de 2003. Há dois dias na guerra, o regimento foi dirigido rumo à Nasiriyah, um amontoado de favelas e instalações industriais onde os problemas do cel Dowdy iriam começar. Desde que era um menino em Little Rock, Arkansas, o coronel sonhava por uma designação como essa. Comandante de 6 mil homens do 1º Regimento de Fuzileiros Navais por quase um ano antes da guerra começar, o Cel Dowdy era profundamente familiar com o plano para invadir o Iraque.

Com a cabeça raspada, e poderosa constituição, o cel Dowdy parece o arquétipo do fuzileiro naval. Seus homens o louvam por tratá-los como iguais, apesar da organização estratificada dos Fuzileiros Navais. Afastando-se do costume, o cel Dowdy, casado com três filhos, convidava praças tanto como oficiais para a festa de Natal em sua casa. Quando os Fuzileiros estavam acampados no Kuwait, preparando-se para a guerra, o cel Dowdy declinou do uso de um ar condicionado, quando se tornou claro que apenas oficiais poderiam obtê-los, relembra o sargento-de-armas (Gunnery-Sergeant) Robert Kane.

"Como coronel, ele estava autorizado à certos privilégios, mas ele era o tipo de homem que, se seus navais não podiam ter algo, ele também não," disse o sargento Kane, que serviu sob o cel Dowdy no Iraque e no Timor Oriental, em 1999.

Por vários relatos, o cel Dowdy estava destinado a ganhar as estrelas de general após a guerra no Iraque. "Eu conheço pessoas, apoiadores, pares que pensavam que Joe Dowdy podia caminhar sobre a água," disse Anthony Zinni, um general fuzileiro de quatro-estrelas. Quando o cel Dowdy serviu sob ele, "era o melhor tenente que eu tinha," disse o gen Zinni.

Igual a muitos no seu regimento, o cel Dowdy carecia de extensiva experiência de batalha. Em 1983, ele viu ação limitada em Beirute, onde 241 fuzileiros foram mortos num atentado suicida. Ele serviu na Somália em 1993 e 1994, onde os Fuzileiros Navais foram a vanguarda do que se tornou uma sangrenta missão humanitária.

O maj-gen Mattis mapeou o amplo plano dos Fuzileiros para o Iraque, que muitos analistas de defesa consideravam taticamente brilhante. Dois regimentos de 6 mil homens cada, da 1ª Divisão de Fuzileiros Navais iriam rumar para Bagdá. O regimento do cel Dowdy iria se encaminhar para a cidade de Kut - onde um contingente de 8 mil dos melhores homens da Guarda Republicana de Saddam Hussein estavam entrincheirados.

Foi presumido que os iraquianos tinham armas químicas, portanto o plano foi evitar engajá-los diretamente. A unidade do cel Dowdy devia agir como isca, desviando a atenção dos soldados de Hussein e permitindo aos outros regimentos americanos investi-los a partir do noroeste, através de uma brecha nas defesas iraquianas para alcançar Bagdá. A rota do cel Dowdy iria levá-lo através da cidade de Nasiriyah. Outra unidade de fuzileiros navais, chamada Força-Tarefa Tarawa, foi encarregada de manter a ordem ali. Funcionários do Pentágono presumiam que a cidade iria oferecer pouca resistência pois havia sido longamente oprimida por Hussein. Essa suposição se mostraria errada.

O plano começou a se complicar em Nasiriyah. Quando o cel Dowdy e seus homens chegaram nos limites da cidade, eles encontraram sua passagem bloqueada por uma maciça troca de tiros. Os boatos começaram a circular de que a Força-Tarefa Tarawa havia sofrido baixas, incluindo 18 mortos. Somando-se à confusão estava uma unidade de suprimentos do Exército americano, que havia entrado por engano, em Nasiriyah. Vários soldados dessa unidade foram mortos. Outros, incluindo a praça 1ª classe Jessica Lynch, haviam sido feitos prisioneiros. Fora da cidade, o Cel Dowdy e seu estado-maior debatiam sobre o que fazer. Várias centenas de caminhões do trem de transportes do cel Dowdy careciam de blindagem, e comprimí-las através de uma feroz zona de batalha poderia ser complicado, especialmente através das ruas estreitas de Nasiriyah.

Um contorno de 300 quilômetros em volta de Nasiriyah não parecia plausível. O cel Dowdy não estava certo de ter bastante combustível e não sabia que tipo de resistência poderia enfrentar. O 1º Regimento estava paralisado.

O alto era anátema para o maj-gen Mathis, um devoto de uma moderna doutrina militar conhecida como "guerra de manobras". Embora os Fuzileiros Navais tenham praticado a técnica por anos, a Guerra do Iraque foi o primeiro teste em larga escala. Em vez de seguir rígidos planos de batalha e atacar frentes bem-definidas, essa tática demanda forças menores para se moverem rapidamente sobre as zonas de combate, explorando oportunidades e semeando confusão entre o inimigo. A técnica é resumida no nome-códido radiofônico do maj-gen Mattis: "Caos".

O maj-gen Mattis havia lutado no Iraque antes, na primeira Guerra do Golfo. Após isso, ele comandou o 7º Regimento de Fuzileiros Navais da 1ª Divisão, conhecido como uma das unidades mais preparadas para batalha dos Fuzileiros. "Eu o seguiria novamente," disse o sargento-de-armas Kane, que lutou sob o maj-gen Mattis no Afeganistão. "Sua vida inteira é o Corpo."

Pequeno em estatura e feroz no comportamento, o maj-gen Mattis aumentou sua reputação no Afeganistão, onde seus homens capturaram uma pista de pouco fora de Kandahar (*). A ousada incursão isolou o coração da resistência Taliban. "Os Fuzileiros desembarcaram e agora nós temos nosso próprio pedaço do Afeganistão," o maj-gen Mattis contou aos repórteres, apenas uns poucos meses após o 11 de setembro de 2001. O Pentágono tratou de repudiar essa declaração, mas os Fuzileiros a adoraram.

Para alguns nas Forças Armadas, a Guerra do Iraque prometia ser o teste perfeito da guerra de manobras. Na época, os EUA achavam que a luta mais feroz iria começar próximo a Bagdá, e iria envolver uma arrastada luta de rua com uso de armas químicas. Velocidade era tudo. A jornada de 2 mil quilômetros para Bagdá, muitos imaginavam, seria apenas um aquecimento.

Detido fora de Nasiriyah, o cel Dowdy disse que não ficou surpreso quando o principal ajudante do maj-gen Mattis, o brigadeiro-general John Kelly, apareceu. Os dois ficaram conversando sobre a ponte fora da cidade, observando a luta. O brig-gen Kelly, 53 anos, que era fuzileiro naval há 33 anos, havia servido, principalmente, em postos acadêmicos e administrativos. "Eu pensei que sabia o que era a guerra," ele disse. "É difícil imaginar se você não esteve lá."

O regimento do cel Dowdy já estava paralisado em Nasiriyah há mais de 24 horas. Em retrospecto, ele disse que deveria ter sido mais decisivo em mover-se através da cidade.

Uma das regras cardeais da guerra de manobra estipula que os generais devem permitir aos comandantes em campanha, tais como o cel Dowdy, tomar decisões táticas. O brig-gen Kelly disse que nunca ordenou ao cel Dowd para se mover através de Nasiriyah e nunca ameaçou removê-lo de seu posto. Mas o tenente-coronel Pete Owen, chefe de estado-maior do cel Dowdy, tinha uma lembrança diferente. "Quando nós ficamos detidos fora de Nasiriyah, o general Kelly veio até mim, e disse, "se o cel Dowdy não colocar sua coluna em movimento, vai ser removido.'"

Tarde da noite, o cel Dowdy decidiu se movimentar. Ele deu ao comandante de batalhão, tenente-coronel Lew Craparottta, uma hora para resolver como formar um cordão de fuzileiros que iriam escudar o regimento enquanto ele passava através da cidade. O ten-cel Craparotta não estava contente. "Eu não acho que, da próxima vez, eu queira planejar alguma coisa no capô do meu "Humvee", em plena escuridão," ele disse. O regimento deslocou-se, ruidosamente, através de Nasiriyah, passando por cascos enegrecidos de viaturas americanas e cadáveres de fuzileiros navais esperando para serem recuperados pela Força-Tarefa Tarawa. Foi uma visão, disse o cel Dowdy, que iria permanecer com ele por toda a campanha.

Enquanto outros dois regimentos dirigiram-se rumo ao norte, sobre uma autoestrada de quatro pistas, o grupamento do cel Dowdy rolava sobre uma estrada vicinal de duas pistas que corria através de dúzias de vilarejos, eriçados de forças inimigas. Um relato oficial dos Fuzileiros, registrou mais tarde, como "um troca de tiros em movimento através da lama da Mesopotâmia."

O regime do Iraque inundou a estrada com milhares de combatentes. Logo, os homens do cel Dowdy estavam engajados em batalha. Uma tempestade de areia misturada com chuvas reduziu a quase zero, a visibilidade dos Fuzileiros. O regimento sofreu sua primeira baixa quando um rojão anti-tanque explodiu através da porta de um "Humvee" e decepou a mão de um capitão, de acordo com os homens que viram a cena.

Enquanto as balas voavam e o capitão era levado de helicóptero, o cel Dowdy, há dois dias sem dormir, relaxava em seu "Humvee", com seu estado-maior em volta dele. Ele caiu no sono.

Nas guerras, comandantes caem no sono em encontros, no rádio, mesmo durante a troca de tiros. O cel Dowdy cochilou por uns cinco minutos, disseram seus homens. Mas o momento não poderia ter sido pior. Nesse momento, o ajudante principal do major-general Mattis, o brig-gen Kelly, viu o coronel dormindo. Alguns dos homens do cel Dowdy que estavam lá, crêem que isso criou uma impressão permanente.

O brig-gen Kelly declina de comentar sobre a remoção do cel Dowdy, dizendo que tais coisas são "território sagrado" que apenas o maj-gen Mattis pode tratar. Em resposta a questões gerais sobre a guerra, ele disse que prioridade principal de um comandante de campo de batalha é "pôr tudo o mais de lado e focalizar a missão. Eu tenho visto uma porção de gente aprender isso do modo mais difícil."

Dois dias mais tarde, em 27 de março, o Exército dos Estados Unidos ordenou um alto indefinido para a guerra, a fim de permitir que as linhas de suprimento alcançassem os combatentes americanos. O regimento do cel Dowdy estava acampado cerca de 100 quilômetros ao sudeste de Kut. Ele tinha feito seus homens capturarem um campo de pouso próximo para que os suprimentos pudessem ser aerotransportados. No dia seguinte, o Maj-Gen Mattis desembarcou para checar seus homens - e ficou enfurecido pelo que viu: uma pista de pouso esburacada e um capitão dos Fuzileiros sentado num "bulldozer" lendo um documento. O capitão disse que não havia recebido ordens para consertar a pista de pouso.

Umas poucas horas mais tarde, o cel Dowdy diz, ele ganhou um puxão de orelhas do maj-gen Mattis. Este lhe disse que deveria ter deixado claro que o trabalho de consertar a pista seria feito. O Cel Dowdy agora diz que devia ter atribuído uma ordem escrita (**). Ele pensou em dispensar o operador do "bulldozer" do seu comando, mas pensou melhor. "Se você demite todo mundo que comete um erro, em breve você ficará lá sozinho," ele disse.

Apesar do mau-passo, o cel Dowdy estava recebendo louvores diários do estado-maior do maj-gen Mattis, de acordo com o coronel John Toolan, que foi o chefe de estado-maior do general. Relatórios da Inteligência sugerem que a captura do aeroporto havia atraído a atenção dos soldados da Guarda Republicana. Os iraquianos logo anunciaram sua presença, ao disparar projéteis de artilharia sobre o regimento do cel Dowdy.

O ardil estava funcionando. Os outros regimentos de fuzileiros navais aceleraram sobre o flanco ocidental desguarnecido dos iraquianos, rumo à Bagdá, de acordo com o plano. Nesse ponto, podia se afirmar que o cel Dowdy havia cumprido sua missão. O plano de guerra previa que ele se retirasse e fizesse um contorno em volta de Kut. O brig-gen Kelly reconhece que esse era o plano original.

Mas, após ver os aldeões na área acenando e saudando os Fuzileiros, o brigadeiro-general Kelly acreditava que o colapso inimigo era iminente. "Havia tão pouca resistência," ele disse. "Eu achei que eles, ou desertaram ou estavam enfiados tão fundo nas suas tocas que não queriam mais lutar." Em 1o de abril, o 5º Regimento de Fuzileiros Navais, tomou uma ponte próximo a Kut. Nesse ponto, o brig-gen Kelly disse, a antigamente temida Divisão Bagdá se tornou "irrelevante."

Num movimento inesperado, o brig-gen Kelly ordenou que o cel Dowdy encabeçasse o avanço para Kut, com uma missão de "objetivo limitado." Uma vez que lá estivesse, o cel Dowdy decidiria se o regimento deveria avançar através da cidade, o que economizaria várias horas em tempo de deslocamento.

O cel Dowdy não achava que pressionar através de Kut seria sábio. Isso seria uma rota mais rápida para Bagdá, mas ele pensava que seria perigoso. Seus homens haviam visto "foxholes" fortificados, edifícios com sacos de areia, minas ao longo das estradas e vários milhares de combatentes iraquianos. Com suas pontes estreitas e emaranhado urbano, Kut parecia ainda mais perigosa que Nasiriyah. Seria a economia de umas poucas horas digna do risco?

"Na guerra, você tem demandas concorrentes entre homens e a missão," diz o cel Dowdy. "O que deve prevalecer? Não há resposta fácil." Seus superiores confirmam que ele não recebeu ordens para levar seu regimento através da cidade. Mas um agressivo fuzileiro naval deveria ter escolhido penetrar, para atingir Bagdá mais rápido.

Os generais do Corpo de Fuzileiros Navais estavam cada vez mais impacientes. O Exército já havia alcançado os arredores de Bagdá. Na manhã de 3 de abril, o décimo-quinto dia da guerra, o brig-gen Kelly chamou o cel Dowdy para dizer que queria ver o assalto sobre Kut começando imediatamente. O cel Dowdy disse que estava aguardando mais munição e checando um relatório de que a estrada para Kut estava minada.

O brig-gen Kelly estava furioso, de acordo com o cel Dowdy. "Estas não são considerações, são desculpas," o cel Dowdy relembra as palavras do general. Ele disse que o general continuou: "Por quê você não está rumando através de Kut, nesse momento? Quer saber? Vou recomendar que você seja exonerado do comando. Talvez o general Mattis não faça isso. Talvez ele decida que pode continuar com um regimento que não vale merda nenhuma. Mas é isso que vou recomendar."

O brig-gen Kelly disse que não lembra dessa conversa específica. Ele disse que apreciou o risco de vida potencial que uma ruptura através de Kut iria representar. Num e-mail recente do Iraque, onde ele está servindo uma segunda temporada, ele escreveu, "A escolha entre missão e homens... nunca é entre um ou o outro, mas sempre um equilíbrio."

Dentro de uma hora ou tanto, cel Dowdy e dois de seus batalhões moveram-se para Kut. Imediatamente, eles encontraram resistência, com combatentes saindo das portas e vielas. "Minha metralhadora estava enlouquecida," disse o oficial brevetado (Warrant Officer) Thomas Parks, um atirador deslocando-se na dianteira.

Os batalhões se detiveram diante de um tanque iraquiano, que o atirador Parks atingiu com um rojão, provocando fogo de resposta de um barraco de dois andares, alinhado com a estrada. A porta do "Humvee" do atirador Parks, foi arrancada de suas dobradiças, enquanto projéteis enchiam a porta da viatura do cel Dowdy, de acordo com os dois homens. Momentos mais tarde o atirador Parks deu uma olhada e viu o cel Dowdy correndo para uma família de civis iraquianos. O coronel recolheu duas crianças e enfiou a família numa cratera de bombas, como cobertura, disse o atirador Parks. Um combatente iraquiano movendo-se por uma viela, apontou uma metralhadora contra o cel Dowdy. O atirador Parks o baleou na cabeça. "Isso me exigiu três tentativas," ele disse.

A decisão de pressionar ou não, através de Kut era, no fim, do cel Dowdy. Mas nas horas antes e durante a luta, ele e seu estado-maior dizem ter recebido orientações conflitantes. No telefone de campanha, o brig-gen Kelly estava dizendo para pressionar através de Kut. Mas no rádio, o comando da divisão estava solicitando uma retirada. "Havia uma porção de confusão," disse o cel Dowdy. "Vão. Não vão." O brig-gen Kelly concorda que havia discussão sobre o que o regimento devia fazer.

Portanto, o coronel Dowdy tomou uma decisão crucial: ele decidiu não ir através da cidade. Alcançar Bagdá mais cedo não valia o risco, ele disse. "Nesse ponto, talvez você seja condenado se você vai e condenado se você não vai," disse o sargento-mor Gregory Leal, o praça mais graduado no regimento do Cel Dowdy. "Não há livro nenhum que diga, 'É assim que você liberta e ocupa um país.' "

Ao pôr-do-sol, o 1º Regimento de Fuzileiros Navais começou a se mover para uma área de estacionamento com o resto da divisão através de um contorno de 350 quilômetros em volta de Kut. Os homens do cel Dowdy haviam recolhido 30 prisioneiros e, o coronel disse, "eu sentia vontade de levá-los para a divisão e dizer, 'olha, seus babacas, nós enfrentamos resistência e aqui está a prova.' "

Faróis dianteiros ligados e atraindo fogo intermitente de camponeses iraquianos, o regimento cobriu os quilômetros em cerca da metade das 36 horas que se supôs que levariam. Em 4 de abril de 2003, o regimento rolou para Numaniyah, onde os Fuzileiros Navais tinham planejado se reunir. O regimento havia completado sua missão com amplo tempo para se juntar ao assalto sobre Bagdá.

Porém, a carreira do coronel Dowdy estava morta.

Um helicóptero aguardava quando o cel Dowdy chegou a Numaniyah. O cel Dowdy e o sargento-mor Leal embarcararm. O major-general Mattis havia pedido para vê-los. Eles voaram até o acampamento do general, cerca de 100 quilômetros de distância.

Quando chegaram, o sgt-mor Leal disse que o maj-gen Mattis o levou para um lado. "Como seu chefe está se saindo?" o sargento-mor relembra dele perguntar. "Eu respondi, 'ele está se saindo bem, senhor.' " Então, de acordo com o sgt-mor Leal, o general o cortou, bruscamente: "Vocês não estão engajados o bastante. Vocês tinham quatro batalhões e vocês não estão insistindo com o ataque.' "

"Eu disse para o general não demití-lo," relembra o sgt-mor Leal. "Eu disse, 'diga-me o que nós precisamos fazer e nós faremos.' "

Os homens sob o comando do major-general Mattis dizem que ele toma decisões rapidamente e nunca olha para trás. O sgt-mor Leal disse que acreditava que o maj-gen Mattis já tinha tomado sua decisão.

Granadas de artilharia rugiam por sobre as cabeças e os tanques e caminhões do 5º Regimento de Fuzileiros Navais avançavam barulhentamente, passando pelo cel Dowdy, enquanto ele abria caminho para a tenda do maj-gen Mattis. Lá dentro, o coronel sentou encarando os generais Mattis e Kelly enquanto um ordenança servia chá quente. O coronel diz que sabia no seu íntimo que estava perto de ser demitido. "Era como se eu estivesse em algum lugar onde nunca havia estado," ele relembra. "Estou falhando miseravelmente e não sei como e porquê."

Ele disse que o maj-gen Mattis começou com um tom simpático: "vamos dar a você algum descanso." O general Mattis trouxe de volta o incidente do "bulldozer". Então, de acordo com o cel Dowdy, o general disse que o coronel se preocupava demais com a resistência inimiga e observou sua falta de experiência de batalha.

O cel Dowdy disse que respondeu: "eu estive lutando para abrir caminho por esta estrada fodida nas últimas duas semanas." Ele relembra de apelar ao general Mattis para reconsiderar. "Pense na minha família, na minha unidade," ele relembra de dizer.

Mas isso de nada não adiantaria. Quando o general Mattis requisitou sua munição, o cel Dowdy, lhe assegurou que ainda considerava a si próprio como um membro dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos. O general abrandou-se. Em breve, o cel Dowdy pegou um helicóptero para o Kuwait. Ele chamou sua esposa Priscilla. Ela já havia visto as novas na CNN.

As novas de sua demissão rapidamente percorreram o caminho até seus homens. Fuzileiros que estavam lá disseram que houve conversas esparsas sobre motim. "Eu queria ir com ele," disse o sargento-de-armas Kane. "Uma porção de sujeitos, sentiam o mesmo. Se o cel Dowdy dissesse, 'peguem suas coisas, vocês vem comigo,' eu iria, mesmo se significasse o fim da minha carreira."

Nos dias que se seguiram, as publicações da imprensa e os "chat rooms" dos Fuzileiros Navais na Internet especularam sobre a remoção do coronel. Um dia ou mais, após sua demissão, o cel Dowdy escreveu uma carta que foi postada num "web site" que congrega familiares da 1ª Divisão de Fuzileiros Navais.

"Como todos estão cientes... eu não sou mais um membro do Regimento," a carta dizia. "Que fique claro, ninguém, exceto eu, é responsável por minha realocação. Priscilla e eu permanecemos leais ao Corpo de Fuzileiros Navais, à nossa Divisão e à seus muito capazes líderes." O coronel Toolan, chefe de estado-maior do major-general Mattis, assumiu o comando. O regimento entrou em Bagdá, se estabelecendo numa favela antes conhecida como Saddam City.

Umas poucas semanas mais tarde, o cel Dowdy encontrou o oficial-brevetado Parks, que estava voltando para os EUA, como a maioria da 1ª Divisão. O coronel arranjou para que seu subordinado conseguisse roupas civis e assim, pudesse pegar um vôo comercial e encontrar a esposa em Nova Iorque. "Ele chamou o comandante e disse, 'tenho um herói voltando, tome conta dele,' " o brevetado Parks relata. "Então ele ficou um pouco emocionado, eu fiquei um pouco emocionado, embarquei no helicóptero e saí."

O cel Dowdy diz que não sentiu prazer algum na sua próxima designação, como chefe de pessoal na Estação Aérea dos Fuzileiros Navais, em Miramar, Califórnia. Em junho, a 1ª Divisão concedeu-lhe uma avaliação de desempenho. Ela o culpava por "estar fatigado além do normal" e "por não empregar o regimento até seu pleno potencial combativo," ele disse, citando o documento. Também estava escrito que ele estava "excessivamente preocupado com o bem-estar" de seus fuzileiros navais, de acordo com o Cel Dowdy. Por política, os Fuzileiros Navais não comentam sobre suas avaliações de desempenho.

Em novembro último, pela primeira vez em 25 anos, o cel Dowdy e sua esposa evitaram o Baile do Corpo de Fuzileiros Navais. A 1ª Divisão retornou ao Iraque nessa primavera. O Cel Dowdy recebeu permissão para se reformar mais cedo, e deixou os Fuzileiros no mês passado. "Eu acho que eles, provavelmente, não sabiam o que fazer comigo," disse.

A questão da velocidade no Iraque permanece em debate. No último outono, o Colégio de Guerra do Exército, uma escola financiada pelo Pentágono onde oficiais analisam táticas, liberou um estudo dizendo que há poucas evidências de que a velocidade tenha afetado o resultado da guerra. A dura resistência fora de Bagdá sugere que as forças dos EUA teriam feito melhor movendo-se a um passo mais cadenciado, entrando em mais cidades, desentocando combatentes e deixando mais tropas nas províncias para reforçar a ordem, diz o relatório.

Entretanto, em outro estudo ainda por ser completado, o Centro Conjunto para Lições Aprendidas das Forças Armadas diz que a velocidade foi parte integral dos sucessos militares dos EUA no Iraque. Num discurso em fevereiro, o almirante E.P. Giambastiani, comandante das Forças Conjuntas, disse que a velocidade "reduz os ciclos de decisão e execução, cria oportunidades, nega opções ao inimigo e acelera seu colapso."

O general reformado Zinni diz que, para o cel Dowdy, a questão é acadêmica. "O chefe é o chefe," ele diz. "Se o general Mattis sente que você precisa se mover mais rápido, então você se move mais rápido." Ainda assim, ele diz que a demissão do cel Dowdy irá atormentar o maj-gen Mattis também. "Isso não irá somar ao brilho de Jim Mattis."

O sargento-mor Leal, agora estacionado no Texas, freqüentemente fala ao coronel Dowdy que sua reputação irá ser limpa, um dia. "Eu acho que ele sempre será conhecido como o sujeito que escolheu os homens sobre a missão," diz o Sargento Leal. "Se é assim que ele irá ser lembrado, tudo bem."


______________________

(*) Mas eu já li que foi o Exército americano quem tomou a pista de pouso. E que os fuzileiros só tiveram o trabalho de desembarcar nela, roubando os méritos dos soldados. Mais um exemplo das "fofoquinhas" inter-armas dos americanos...

(**) Uai! Sendo os U.S. Marines tão badalados, um pobre paisano como eu iria esperar um pouco mais de iniciativa individual de gente que é profissional do ramo. O cara era um capitão, não um recruta. Estava sentado em cima do trator, com uma porção de buracos na sua frente. Era mesmo necessário alguém esfregar no focinho dele, um pergaminho, dizendo: "Em nome do Presidente Bush Baby, eu te ordeno que use o seu trator e tape todos os buracos"?




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Re: Batalhas da Guerra do Iraque.

#40 Mensagem por Clermont » Qua Mar 26, 2008 2:10 am

OPERAÇÃO VIKING HAMMER.

Sargento-Mor K. Cleveland, sargento de operações do Destacamento 091, III Batalhão, 10º Grupo de Forças Especiais (Aeroterrestre).

Um grupo de forças especiais consiste de três batalhões, com três companhias cada. Um major e um sargento-mor comandam a companhia conhecida como destacamento operacional “B” ou equipe-B. Um destacamento operacional alfa (DOA) consiste de 12 homens; o comandante de equipe (capitão), o subcomandante (suboficial [warrant officer]), o sargento de equipe (sargento-mestre), um sargento de informações (sargento 1ª classe) e dois sargentos cada das seguintes especialidades das Forças Especiais: sargento de armamentos, sargento de engenharia, sargento médico, sargento de comunicações.

Qualquer soldado nas Forças Especiais deseja ser um sargento de equipe de destacamento de Forças Especiais. Eu tive sorte o bastante para ter esta honra por quase 6 anos. Eu fui sargento de equipe para o Destacamento Operacional de Forças Especiais 091 (DOA 091) e nós éramos a “Equipe Vamos-Lá”. Em outras palavras, se houvesse uma missão, que você desejasse que saísse direito, você queria o DOA 091 cumprindo-a.

Em 2002, nós sabíamos que os Estados Unidos iriam à guerra contra o Iraque; a questão era, exatamente quando. O DOA 091 tinha a missão de ir para Iraque antes, ligar-se com forças curdas do Peshmerga e estabelecer os mecanismos para receber o restante do 10º Grupo de Forças Especiais. Seis equipes eram parte desta missão e anexadas à Companhia B, III Batalhão para comando e controle. Pelos próximos cinco meses, nós treinamos sistemas de armas, comunicações de longo alcance, operações de ligação e outras tarefas de “trabalho de campo”. No todo, nosso treinamento pré-missão durou cinco meses.

Em janeiro de 2003, o DOA 091 e outros cinco destacamentos partiram do Fort Carson, Colorado para Stuttgart, Alemanha. Aí, as equipes iriam continuar treinando e se preparando para uma infiltração para se ligar com forças da coalizão o que se mostrou uma tarefa mais árdua do que pensado antes.

Nós fomos capazes de enviar algumas equipes divididas, (DOAs de 6 homens) para o Iraque, através da Turquia, entretanto, o restante de nós não foi tão feliz. Várias vezes, nos preparamos para sair e então, tivemos de ficar. Durante esse ciclo sobe-e-desce, o treinamento continuou com a esperança que nós, eventualmente, iríamos entrar no país e sermos capazes de cumprir nossa missão. Manter elevando o moral da minha equipe transformou-se numa minhas maiores tarefas. Quase um mês depois de chegarmos na Alemanha foi decidido sair e se mover para uma base intermediária de estacionamento.

Após várias tentativas para alcançar o Iraque nós atravessamos para território hostil, eu podia ver as traçantes do fogo anti-aéreo e ouvi-lo atingindo o fundo do MC-130H. Eu vi uma luz muito brilhante e ouvi um sonoro “bang”, e pensei, “Fomos atingidos”, mas aconteceu se tratar da aeronave lançando chaff. Então ouvi um ruído seco e vi o mestre de carga da Força Aérea olhando pela janela. Eu perguntei, “Que aconteceu?” Ele disse, “Acabamos de perder o motor número 3”. Eu sentei e disse a mim mesmo que ainda restavam três motores para nos levar até a pista de pouso. Finalmente, aterrisamos numa suja pista no campo de pouso As Sulaymaniyah.

Nós nos apressamos em desembarcar todo o equipamento para que a aeronave pudesse sair da pista e abrir espaço para o restante das surtidas. Após pegarmos todo nosso material da aeronave, nós o carregamos em ônibus e táxis, e rumamos para uma casa segura. Ao longo da rota, cada 10 m ou tanto, um soldado peshmerga curdo mantinha guarda em nossa rota. Tudo parecia surreal até um dos soldados curdos disparar acidentalmente seu RPG, que colocou as coisas de novo em foco. Nós chegamos a casa segura, inventariamos todo nosso equipamento e fomos para a cama. Na manhã seguinte, recebemos a ordem de aviso para a missão vindoura.

A missão primária do 10º Grupo de Forças Especiais (Aeroterrestre), [10th SFG (A), ou 10th Special Forces Group (Airborne)] eram as três divisões iraquianas justo ao norte da “linha verde”, mas também a organização terrorista Ansar al-Islam (AI) ao sul. Forças curdas foram dispostas e engajaram os terroristas e não iriam voltar sua atenção para os iraquianos até que essa ameaça à sua retaguarda fosse eliminada. Enquanto preparativos continuavam para a batalha com as divisões iraquianas, a Companhia Charlie tinha a missão de eliminar a ameaça AI. Com seis destacamentos de forças especiais ela se ligou com uma força de 6.500 peshmergas e se aprontou para a batalha. O tenente-coronel Tovo, comandante do III Batalhão do 10º Grupo de Forças Especiais (Aeroterrestre) e Kaka Mustafá, o comandante da União Patriótica do Curdistão (PUK), formularam um ataque de seis pontas para rechaçar o AI para fora do vale e de uma cidade chamada Sargat. O plano recebeu o codinome Operação VIKING HAMMER. Os DOA 081 e DOA 091 compunham o esforço principal para o assalto subindo o vale rumo a Sargat. Os outros iriam fornecer apoio e atuar como forças de bloqueio durante o assalto.

Pelos próximos dois dias, a liderança da equipe para cada ponta iria trababalhar com suas contrapartes peshmerga para finalizar e sincronizar a operação. Um dia, dentro de nosso planejamento foi determinado que duas pontas adicionais eram necessárias, uma Negra e uma Laranja. O DOA 091 tinha de preencher as vagas para a Ponta Laranja, portanto o debate começou, “quem de nossa equipe iria se separar e se mover para a Ponta Laranja”. A doutrina salientava que o subcomandante deveria assumir o elemento separado e comandar a Ponta Laranja, mas o suboficial da equipe não queria deixar o esforço principal e a Ponta Amarela. Eu decidi que iria pegar o sargento subalterno de armamentos e o superior médico, movê-los para a Ponta Laranja, e liderar o elemento curdo de 1650 homens. Eu pensei comigo mesmo, “outra mudança na missão,” mas, pelo menos desta vez, eu iria estar encarregado desta parte da operação.

Nós deixamos a instalação de Halabja as 23:00 de 27 de março de 2003, e efetuamos nossa ligação com Kak Hamis Hagighalib, o comandante peshmerga da Ponta Laranja. Os objetivos principais da Ponta Laranja eram selar seis vilarejos ao noroeste que o Grupo Islâmico do Curdistão (IGK) tinha abandonado e, então, estabelecer uma posição de bloqueio no topo da Colina 1351. Meu intérprete através de toda a operação iria ser o filho do comandante da Ponta Laranja, Reb War. Ele iria se mostrar um grande guerreiro com um excelente domínio da língua inglesa.

Às 06:00 h, em 28 de março, a Operação VIKING HAMMER começou. As forças da Ponta Laranja começaram ocupando os vilarejos sem nenhuma resistência significativa e nós iniciamos nossa própria movimentação com o equipamento orgânico peshmerga à reboque, que incluía um velho caminhão lança-foguetes Katyusha e uma metralhadora pesada.

O esforço principal da Ponta Laranja parou antes da Colina 1351, no vilarejo de Banasar e deu início ao assalto inicial. O caminhão lança-foguetes Katyusha disparou 20 projéteis e eu requisitei ataques aéreos de B-52, mas de nossa posição, eu não podia ter uma efetiva BDA (Battle Damage Assessment ou Avaliação de Danos de Batalha) sobre o alvo e recomendei a Kak Hagighalib que nós deveríamos nos mover para mais próximo. Às 10:00, chegamos a Yalanpe, um vilarejo a uns 1500 metros ao noroeste da Colina 1351 e nos juntamos à unidade peshmerga que já estava debaixo de fogo inimigo. Este provinha de estruturas e dos flancos da crista de montanha acima da Colina 1351. Os combatentes AI estavam cerca de 150 à 180 metros acima do vilarejo e podiam atirar direto para baixo contra nossas forças. Um tocaieiro e uma metralhadora aferraram os curdos, e nós caímos debaixo de fogo, meia hora depois de alcançar Yalanpe. Por volta das 11:00 h, eu iniciei um novo pedido por apoio aéreo cerrado (CAS) contra a Colina 1351. Pelas próximas três horas ou tanto, o sargento subalterno de armamentos e eu, tentamos conseguir um ataque efetivo. Os primeiros dois “ligeirinhos” F/A-18s, Yahoo 11 e Yahoo 12, zuniram por cima do topo da colina, o que pode ter levado os combatentes do Ansar (ou IGK) a se ocultarem. Nas subseqüentes passadas, aqueles jatos falharam em desfechar ataques efetivos. Nós ajustamos o fogo para o sul do impacto inicial e voltamos a atacar, sem avaliar danos significativos. Soldados curdos ao sul, começaram a se movimentar rumo à Colina 1351 e atrasaram posterior apoio aéreo de combate. Os ataques aéreos não tiveram o efeito que estávamos buscando, portanto, decidimos iniciar a arriscada escalada do lado sudoeste da colina. Enquanto nos movíamos, colina acima, os desafios para mim e outros elementos FE, eram manter um traço das forças amistosas na linha de frente. Nós estávamos, provavelmente, há uns 500 metros antes do topo da colina, quando eu vi um peshmerga da Ponta Negra, correndo colina abaixo. Isso parecia com uma ruptura das linhas do tempo da guerra civil, pelo modo como eles corriam, colina abaixo. Os peshmergas das Ponta Negra e Laranja tinham se misturado e por meio de Reb, descobri que a Ponta Negra tinha chamado um ataque aéreo sobre o topo da colina. Com toda a confusão, eu chamei o comandante da Equipe B, que estava controlando todo o fogo, e coloquei o ataque aéreo no status de “fogo sustado” (Check-Fire). Uma vez que consegui o traçado da linha de frente de todas as forças amistosas, eu confirmei o ataque aéreo. Entretanto, estávamos tão próximos do alvo que tive de fornecer minhas iniciais devido ao perigo de CAS próximo. Eu pude ouvir as bombas voando sobre nossas cabeças, e quando elas impactaram, provocaram uma grande projeção de escombros e detritos, que fizeram chover pedras sobre nós. Os soldados curdos estavam excitados e pensavam que isso era a maior coisa do mundo. Infelizmente, esses destroços que voaram sobre nossas cabeças, mataram um dos peshmergas que tinham corrido anteriormente, colina abaixo.

Após o ataque aéreo, cerca de 16:00 h, minha equipe e os remanescentes peshmergas continuaram nosso avanço para o objetivo. Tão logo divisamos o topo da colina, o fogo inimigo nos aferrou. Os projéteis da metralhadora inimiga estavam pipocando as rochas na minha frente e eu sabia que estávamos próximos o bastante quando vi uma traçante passar por cima da minha cabeça. Nós fomos capazes de executar técnica de movimento individual até 100 metros da metralhadora, mas não pudemos nos mover mais. Meu sargento de armamentos continuou a disparar alto-explosivo de 40 mm, até que me contou estar reduzido à três cartuchos. Eu lhe disse para esperar e guardar o resto de seu alto-explosivo. Eu pedi a Reb para arrumar um atirador de RPG e trazê-lo para a frente.

Estávamos ficando sem a luz do dia quando o atirador e Reb me alcançaram. Nós trabalhamos num plano para alvejar a metralhadora com o RPG, era simples ou eu pensava isso. Meu sargento de armamentos iria disparar um projétil de iluminação para que pudéssemos ver a metralhadora e, então, o atirador de RPG iria alvejá-la. Eu expliquei bem, mas o iluminante subiu com um estalo, e eu fiquei aguardando pela detonação, quando o atirador de RPG se levantou e disparou no escuro, e depois disso, o iluminante acendeu. A barreira de linguagem tornava a coordenação impossível. Eu disse a Reb o que nós queríamos fazer, mas ele respondeu que aquele tinha sido o último projétil de RPG.

Nós cerramos nosso perímetro e aguardamos pelo canhoneiro AC-130 entrar em estação. Eu pedi ao comandante de companhia americano para dar a ele nossa atual posição e pedir um ETA (Estimated Time of Arrival, ou Tempo Estimado de Chegada) para o canhoneiro. Eu também tive de lhe dizer que estávamos reduzidos a menos de um pelotão em nosso perímetro, e que o restante tinha caído fora mais cedo. Eu descobri que iria levar entre 2-4 horas antes que o canhoneiro pudesse estar em estação, dependendo sobre a prioridade de fogo. Reb estava preocupado e não queria aguardar, porque ele disse, “o inimigo poderá rastejar e arremessar granadas contra nós”. O comandante peshmerga nos queria fora da colina, também, meu patrão americano concordou. Eu forneci as coordenadas ao comandante de companhia para o canhoneiro AC-130 e, então, saímos na cobertura da escuridão e sob fogo.

Justamente antes da meia-noita, eu voltei a Halabja e fui para o quarto em que tínhamos estado para dormir um pouco, mas descobri que as equipes do 3º Grupo de Forças Especiais tinham chegado e tomado nosso canto. Eu fui até o S-3 de batalhão e consegui o “OK” inicial para pegar um par de Viaturas de Mobilidade Terrestre (Ground Mobility Vehicles ou GMVs) do 3º Grupo para voltarem de manhã comigo. Eu coordenei com os líder e sargento de equipe do DOA 392, para ver como poderíamos utilizar a equipe deles para voltar de manhã. Eu planejei chamar CAS a partir de Banishar, movimentar-nos com os caminhões armados até Yalanpe, para suprimir o inimigo no topo da colina, e finalmente progredir colina acima sob a cobertura dos lança-granadas e metralhadoras pesadas do DOA 392. Nenhum dos curdos gostou do plano; eles achavam que era arriscado demais e que se continuássemos a jogar bombas na colina, acabaríamos vencendo. Cerca das 10:00 h, saímos com 4 GMVs e nos movemos para o norte, para nos ligar com forças curdas.

Chegamos em Banishar, cerca de 11:00 h e eu apresentei o plano aos comandantes curdos no terreno, ao invés de começarmos o ataque, eles queriam fazer seu lanche e discutir um pouco mais. Nós concordamos que, depois do lanche, iríamos tentar chamar o apoio aéreo de combate de Banishar e, então, nos movimentar para Yalanpe, se necessário. Ao invés de ser eu a tentar chamar o CAS, entretanto, o DOA 392 tinha um grupo de controle aerotático da Força Aérea (Air Force Tactical Air Control Party ou AF TACP) que iria tentar fazer as coisas “certas”.

Infelizmente, ele não pôde manter comunicações com a aeronave, portanto, após duas horas de tentativas de chamar o CAS contra o topo da colina, eu decidi deixar Banishar e me mover para Yalanpe; eu pensei que, mesmo se não pudesse obter melhores comunicações de lá, ao menos estaria mais perto. No caminho para Yalanpe, eu recebi informes da Ponta Negra de que eles tinham chegado ao topo da Colina 1351 sem encontrar nenhum resistência inimiga. Ao invés de parar, eu disse ao motorista no GMV de ponta para continuar através de Yalanpe e chegar ao topo.

Nós chegamos na Colina 1351, por volta das 15:00 h. Enquanto se encontravam com o comandante da Ponta Negra e avaliavam a situação, nossos peshmergas viram mais de 20 Ais correndo por sobre a montanha rumo ao Irã. O TACP do 3º Grupo pediu outro ataque aéreo para pegar os AIs fugitivos antes que chegassem ao Irã, mas os pilotos estavam receosos de que suas bombas pudessem voar por sobre o alvo e caírem no Irã, portanto, isso foi cancelado.

Como descobrimos, aquelas coordenadas que eu havia fornecido para o AC-130 na noite anterior, tinham funcionado. Nós encontramos dois AIs mortos e a massa gelatinosa de um outro. Em adição, após olhar em volta, descobri que nós tínhamos estado dentro de uns 50 metros da metralhadora na noite passada, não os 100 metros que tinha imaginado.

Sargat foi assegurada e a ameaça do Ansar al-Islam eliminada, a Operação VIKING HAMMER era uma missão completa. Os peshmerga da Ponta Laranja perderam 8 homens, com 3 ou 4 feridos. Meus dois membros da equipe e eu, fomos condecorados com a Medalha Estrela de Bronze (BSM) com distintivo “V” (de Valor) e o distintivo Ponta de Flecha para a medalha da Campanha do Iraque por nossas ações.




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Re: Batalhas da Guerra do Iraque.

#41 Mensagem por Clermont » Sáb Set 13, 2008 3:34 pm

OPERAÇÃO RIVER GATE: PÁRA-QUEDISTAS ENFRENTAM INSURGENTES EM HAQLANIYAH.

Por Aaron B. Baty – Infantry Magazine, março-abril de 2008.

Como subcomandante da Companhia “Alpha”, III Batalhão, Regimento 504 de Infantaria Pára-quedista, participei na batalha de Haqlaniyah, que foi parte da Operação RIVER GATE, em 4 de outubro de 2005.

Em 2005, a província de Al Anbar, era um leito para a insurgência. Combatentes estrangeiros usavam a “linha de ratos”, vindos da Síria e abriam caminho rumo à Bagdá. Terroristas entrariam próximo a Al Qaim, que bordejava a Síria, e viajariam, de cidade em cidade, descendo o vale do rio Eufrates. Lá, eles ficariam com simpatizantes; receberiam armas e missões; e moveriam-se para Ramadi, Fallujah, Samarra e, eventualmente, para a própria Bagdá. As operações de seguimento – Operação STEEL CURTAIN e STEEL CURTAIN II – iriam continuar a pressionar rumo oeste. A Operação RIVER GATE era uma ofensiva combinada do Exército e do Corpo de Fuzileiros Navais americanos, para varrer o rio Eufrates, incluindo Haqlaniyah, Barwanah e Haditha.

A missão da Companhia “Alpha’ era atacar para limpar múltiplos alvos de grande valor (HTV, ou High Value Targets). Uma vez que os HTVs fossem limpos, os pelotões iram estabelecer postos de combate avançados (COPs ou Combat Outposts) e começar a dominar a área, através de patrulhamento agressivo. Nosso plano de infiltração era levar 16 caminhões de 7 ton que podiam transportar cerca de 15 soldados por vez, e descarregar cerca de cinco quilômetros ao sul de Haqlaniyah. Eu estava em uma das viaturas de retaguarda, já que eu iria viajar com o 3º Pelotão da Companhia “Bravo” (3º/B), que foi anexado à nossa companhia para a missão. Após desembarcar da viatura, assumiria a retaguarda da formação com o 3º/B. O plano era para ambas, as companhias “Alpha” e “Bravo” se infiltrarem por meio dos caminhões; a “Alpha” iria atacar do sul, enquanto a “Bravo” iria se mover vinda do oeste. A Companhia “Charlie” ainda estava posicionada nos aeródromos em Al Asad e iria conduzir uma infiltração por assalto aéreo na cidade de Bani Dahir. Esta era conectada com Haqlaniyah pelo norte.

O plano era para três estruturas serem destruídas no início da missão, por aeronaves de asa fixa: uma da qual se suspeitava servir de fábrica de IEDs, o Hotel Haqliniyah e a ponte que conectava Haqliniyah com a cidade atravessando o Eufrates. O Hotel Haqliniyah era uma ameaça porque sua estrutura de três andares tinha grandes campos de fogo e de observação, não somente ao longo da estrada margeando o rio, mas também para o sul. A ponte devia ser bombardeada pois era a única rota de evasão para o inimigo, e a fábrica de IED seria bombardeada para liquidar com a arma favorita dos insurgentes. Sob a ordem de se pôr em movimento, eu segui na retaguarda da formação do pelotão, com o sargento de 1ª Classe David Stewart. Logo após começarmos o movimento, vimos uma enorme explosão ao noroeste. O contato havia sido feito, mas não estávamos certos de por quem. Meus óculos de visão noturna estavam ofuscantes, devido às explosões secundárias. “Cara, a gente pegou mesmo aquela fábrica; olha só, toda essa munição voando pelos ares,” pensei. O que eu não sabia, e continuaria sem saber até dois dias depois, era de que uma de nossas viaturas antitanque, com quatro pára-quedistas à bordo, tinha batido numa mina enquanto escoltava a Companhia “Bravo” em posição. Três pára-quedistas foram mortos e o quarto sofreu queimaduras de terceiro grau pela maior parte do corpo.

Pelas próximas duas horas, nos movimentamos lenta e deliberadamente, através dos wadis (leitos secos de riachos) de Haqlaniyah. Nenhum de nós esperava que o sistema de wadis fosse tão severo, como ele era ao sul, e isso retardou nosso movimento, de forma incrível. A companhia estabeleceu uma posição de assalto, no último sistema de wadis, ao sul da cidade. Às 02:00 h, o pelotão líder começou sua infiltração na cidade. Lentamente, os outros dois pelotões atravessaram a Linha de Fase “Japão” (PL, ou Phase Line), que era a estrada ao sul que corria paralela à cidade. “Até aqui, tudo bem,” pensei, “estamos na parte sul da cidade e os três pelotões tinham se infiltrado sem qualquer problema”. Olhei meu relógio, era 02:30 h da madrugada; “minha esposa está pegando nosso filho na escola, bem agora,” pensei. Fiquei observando enquanto o pelotão na nossa frente, atravessava a PL “Japão”, e entrou na cidade. O 3º Pelotão da Companhia “Bravo” teve de seguir uma rota diferente da Companhia “Alpha”, já que nossos alvos estavam abaixo de uma colina, para o leste, enquanto a companhia tinha de se mover mais para o norte. Nós precisávamos atravessar a PL “Japão” e proceder através de uma viela que era paralela ao cemitério.

Começamos com o 1º GC avançando pela viela, a seguir, o 2º GC e, depois, o 3º GC... todos indo tranqüilamente. Tão logo cruzei a estrada e entrei na viela, ouvi uma única M-4 abrir fogo. Imediatamente, senti a concussão de duas ou três granadas de mão, explodindo. Neste ponto, a viela inteira entrou em erupção. O soldado ponteiro tinha dobrado o canto na viela, e viu quatro ou seis insurgentes dormindo, encostados numa casa, com seus AKs atravessados no colo. Imediatamente, ele levantou sua arma e começou a engajar o inimigo. Quando isto aconteceu, os insurgentes, num telhado paralelo à nós, abriram fogo com uma PKM e uns poucos AK-47. Ambos, o grupo de combate e os insurgentes, tomaram cobertura; os insurgentes numa casa, e o GC, juntamente com o restante do pelotão, tomando cobertura atrás de seis pilhas de pedras, de cerca de 1,20 m de altura, que estavam na viela. Os atiradores, no telhado, continuaram a disparar armas automáticas, enquanto os soldados devolviam o fogo, e arremessavam granadas, para empurrar o inimigo para dentro da casa. Neste ponto, o pelotão inteiro, exceto o Grupo de Apoio (Weapons Squad), estava no lado norte da PL “Japão”. O líder do Grupo de Apoio ordenou que uma peça de metralhadora iniciasse fogo supressivo sobre a casa à leste, de onde estávamos recebendo fogo. A outra peça veio para trás de nós e se posicionou ao sul do cemitério, ligeiramente a oeste de nós, e começou a disparar fogo supressivo sobre os insurgentes no telhado. A nordeste de nós, outro insurgente começou a nos engajar com fogo de arma automática, de outro telhado.

Eu estava por trás do monte de pedras da retaguarda, com o sargento de 1ª classe Stewart e o socorrista do pelotão. Eu tinha o sargento de guerra química da companhia servindo-me como rádio-operador. Agarrei o rádio dele e chamei meu comandante, capitão Nathan Molica, e lhe passei o relatório de situação (SITREP, ou Situation Report) sobre nosso contato. A viela na nossa frente continha todos os três GCs em linha, portanto, o elemento da retaguarda não era capaz de engajar qualquer dos insurgentes devido ao temor de fratricídio.

Nós estendemos a segurança para nosso oeste e leste, escutamos o 2º tenente Richard Chudzik assumir o controle de seu pelotão e dirigir seus líderes de GC. À minha direita (leste), havia uma cerca coberta de folhas de palmeira. Enquanto estávamos prestando atenção ao contato na frente, no começo, não percebemos os projéteis vindo através da cerca, mas, rapidamente, eles chamaram nossa atenção. Um insurgente estava saindo de uma casa a leste de nós e, esporadicamente, disparava seu AK-47 na vizinhança da cerca, onde pensamos que ele estivesse. O problema é que não sabíamos onde ele estava e não podíamos enquadrar um alvo; tudo o que víamos eram as traçantes de sua arma. No entanto, a peça de metralhadora do Grupo de Apoio que estava cobrindo o leste, foi capaz de disparar contra o insurgente e impedi-lo de continuar disparando contra a linha de cerca.

Tudo isto aconteceu em questão de minutos, embora, parecessem horas. Durante o contato inicial, e a troca de tiros subseqüente, o observador avançado (FO, ou Forward Observer) do 3º/B estava tentando pedir uma missão de fogo de supressão imediata para nossos morteiros. A Seção de Morteiros 60 mm da companhia tinha recebido a missão e começado a processar os dados, aguardando por permissão. Porém, foi negado o fogo de morteiros, porque o tiro destes não estava registrado, e nós estávamos muito próximos ao alvo, e em área urbana.

Enquanto o GC da ponta continuava a disparar sobre o inimigo, o GC da retaguarda percebeu que havia um poste de luz por trás da gente, sobre a linha de fase, iluminando nossa posição. O GC fez mira na lâmpada e a apagou. Quando ela foi destruída, nossas metralhadoras M240B aumentaram suas cadências de fogo, para fornecer cobertura ao líder do Grupo de Apoio, sargento-ajudante (Staff-Sergeant) Quentin Campbell, que estava se movendo para minha posição. Uma vez que o sargento Campbell chegou, ele disparou um rojão AT-4, no telhado do edifício de onde provinha o fogo de armas automáticas. Não estávamos certos de isto tinha funcionado, mas, pelos próximos poucos minutos, nenhum fogo de metralhadora caiu sobre nós, vindo daquela seção do telhado.

Foi por essa altura, que a Companhia “Charlie”, executou seu assalto aéreo sobre Bani Dahir. Enquanto estávamos engajados naquela viela, os CH-46 e H-53 voaram para as zonas de desembarque ao norte de Haqlaniyah. O atirador insurgente, a nordeste de nós, decidiu que as aeronaves eram alvos mais lucrativos e desviou seu fogo de nós, para varrer na direção do norte, com seu fogo automático, sem tirar o dedo do gatilho. Eu, ainda, não tinha percebido muito de seu fogo traçante no nosso tiroteio, mas, quando olhei e vi a enorme linha de traçantes se afastando de nós, na direção dos helicópteros, fiquei chocado. Como foi que ninguém ainda tinha sido atingido?

Durante toda a operação, uma canhoneira AC-130 “Spectre” estava em estação, mas, durante os choques iniciais, ela estava engajando outros alvos. Depois do assalto aéreo da Companhia “Charlie”, o “Spectre” foi alocado para nosso pelotão. Nosso FO dirigiu seu fogo contra a casa, a nordeste, e, depois que a poderosa onda de luz infra-vermelha do “Spectre” a identificou, o telhado, absolutamente, entrou em erupção, e o fogo inimigo ficou em silêncio.

Tão logo a metralhadora, a nordeste, foi silenciada, o líder do GC de ponta, foi atingido por um estilhaço de granada, na boca. Ele foi movido para a retaguarda, onde sua boca foi enchida de gaze. Neste momento, o tenente Chudzik compreendeu que seu pelotão era incapaz de manobrar à frente, contra o inimigo. Embora o pelotão tivesse superioridade de fogo, ele não tinha comandamento de qualquer terreno e estaria assaltando numa encruzilhada, com duas direções de estrada e três vielas. Nós começamos a trazer o pelotão de volta pelo wadi, atravessando a estrada. A peça de metralhadora à leste, dispôs segurança enquanto o 3º GC, com o líder de GC ferido, e a outra peça de metralhadora atravessavam a rua. Após estarmos em posição, o 2º GC se movimentou, e, então, o 1º GC se retirou. Uma vez que estávamos no lado oposto da rua, chamamos pelo helicóptero de evacuação médica (MEDEVAC).

Enquanto estendíamos segurança, aguardando pelo MEDEVAC, os insurgentes subiram num telhado, na nossa frente e, também, tentaram nos flanquear, a partir do leste. Cada vez que eles tentavam flanquear, eram empurrados para trás pela peça de metralhadora no lado oriental. Havia um atirador que estava se escondendo atrás do telhado e, somente, colocando seu AK-47 por cima da crista e disparando. Neste momento, suspeitei que os insurgentes estivessem recolhendo seus mortos e feridos, tirando-os da área de engajamento. Enquanto aguardávamos a MEDEVAC, recebemos uma canhoneira AH-1 “Cobra” para nos ajudar com o atirador no telhado. O AH-1 teve de realizar uns poucos sobrevôos, antes de ser capaz de identificar o edifício-alvo. Nós disparamos umas poucas granadas de fumaça M-203 de 40 mm no edifício, num esforço para ajudar o piloto a identificar a casa. Também utilizamos os lasers de nossas PEQ-2 e PAQ-4 para ajudar a identificação. Nenhum destes métodos foi, totalmente, bem-sucedido. Uma vez que o AH-1 conseguiu identificar a casa, devido ao fogo do insurgente, ele executou duas surtidas, disparando um míssil TOW, em cada uma delas. O primeiro TOW atingiu o lado esquerdo do edifício, e o segundo atingiu o meio. Depois disto, não recebemos mais nenhum fogo.

Quase que imediatamente, após o AH-1 ter limpado a casa do fogo inimigo, o 3º/B passou à ofensiva, novamente. O tenente Chudzik deixou-me com uma esquadra de fuzileiros, para segurança, enquanto aguardávamos o MEDEVAC e, então, o 3º/B passou a limpar a área de engajamento. Aproximadamente, 10 minutos após o 3º/B sair, o MEDEVAC pousou e levou o líder de GC ferido, de volta para o Hospital de Apoio ao Combate de Al Asada (CSH, ou Combat Suppor Hospital). Depois de o botarmos no helicóptero, fomos nos juntar ao pelotão.

Enquanto entrava na casa que havíamos engajado, fiquei espantado com o pouco dano que os mísseis TOW tinham feito a ela. Depois de dispararmos granadas de M-203 na frente da estrutura e enfiarmos dois mísseis nela, havia dois buracos de tamanho médio e alguns destroços dentro. Enquanto aguardávamos pelo helicóptero, um GC limpou a casa de onde tinha saído a maior parte do fogo contra os. Dentro dela, vivia uma mulher, umas poucas crianças, e dois homens. Apenas um dos homens afirmou que os dois eram irmãos; quando os separamos e os interrogamos, descobrimos quem era o mentiroso e a quem pertencia a casa. Nós encontrarmos o AK-47 que o insurgente tinha utilizado contra nós; ele só tinha uns poucos cartuchos no carregador e tinha sido disparado, recentemente. Nós detivemos este indivíduo e o trouxemos para fora, onde estava o restante do pelotão. Estávamos estendendo segurança e limpando as outras casas na viela de onde tínhamos recebido fogo. O edifício principal de onde tinha vindo o fogo de armas automáticas, tinha, apenas, um rádio e estojos no teto. Havia trilhas de sangue e marcas de arrasto, mas nem um só corpo ou arma. Havia outro rádio, deixado na viela, mas ele parecia suspeito, portanto, o deixamos onde estava. Limpamos as casas que estavam na área de engajamento e continuamos rumo a nossa casa-alvo. Os insurgentes retiraram quaisquer baixas que tivessem e esconderam suas armas em depósitos, antes do sol nascer. Nós nunca encontramos sequer um corpo do tiroteio desta noite. Uma vez que alcançamos nossa casa-alvo, capturamos o HVT sem incidentes, dentro dela estavam sete homens de idade militar, três dos quais, estávamos procurando. O resto da casa estava cheio de mulheres e crianças.

Em retrospectiva.

Após sentar lá, durante horas, escrevendo os detalhes do engajamento, umas poucas coisas começaram a ficar mais claras do que antes. As pedras empilhadas na viela eram, originalmente, para serem utilizadas numa obra em uma das casas próximas. Após preenchermos o relatório pós-ação (AAR, ou After Action Report) do engajamento, consideramos que havíamos atingido uma célula de ataque com IEDs. Eles tinham o domínio do cruzamento e estavam equipados com rádios e armas automáticas. Eles tinham usado os montes de pedras como obstáculo para impedir quaisquer viaturas de avançarem pela viela, e cerrarem distância com os insurgentes. Isso também lhes dava rotas de escape seguras.

A emboscada na qual tínhamos caído era do tipo “Fechando o ‘U’ Inverso” (Inverted Closing U). Esta é uma adaptação urbana da emboscada vietnamita Haichi Shiki, de acordo com John H. Poole em seu livro “Militant Tricks: Battlefield Ruses of the Islamic Insurgent.”. Os insurgentes irão aferrar as forças amistosas numa viela, e flanqueá-las por um lado, tentando atacar o elemento deste lado com fogo de armas automáticas. A única coisa que os impediu de fazer isto foi a nossa peça de metralhadora, no leste, não deixando que os indivíduos no quintal pudessem atirar através da cerca; esta técnica também foi utilizada na Batalha de Fallujah.

O que eu gostaria de ter feito.

Eu tinha acabado de me tornar o subcomandante da Companhia “Alpha”, duas semanas antes do desdobramento. Eu não estava muito certo sobre qual função um subcomandante devia ter, em combate. Portanto, eu focalizei demais em logística e em apoiar a companhia, enquanto estávamos em guarnição. Se meu comandante tivesse ficado incapacitado para liderar, durante a operação, eu teria sido pego com as calças na mão. Eu deveria ter estado mais focalizado no plano, não no processo de planejamento, necessariamente, mas nos detalhes, tais como a rota, fogo de apoio, e outras missões do pelotão. No que me concernia, eu estava, somente, anexado ao pelotão para estabelecer uma base firme a fim de conduzir operações posteriores. Eu queria estar certo de não atravessar o caminho do líder de pelotão, ao primeiro sinal de um tiroteio. Eu queria muito me levantar e começar a manobrar GCs e fazer pedidos pelo rádio, mas aquele não era o meu lugar. Eu sentei e estabeleci segurança. Isso foi uma boa coisa, já que o 2º tenente Chudzik era um líder de pelotão, extremamente competente, mas eu levei as coisas longe demais.

Antes do desdobramento, eu não fiz nenhuma pesquisa ou treinamento nas TTPs dos insurgentes iraquianos (Táticas, Técnicas e Procedimentos). Eu não era mais líder de pelotão; eu era o oficial logístico da companhia. Este era o estado mental errado para se ter. Quanto tive tempo livre, ao invés de ler sobre a Operação ANACONDA, eu deveria ter lido sobre as batalhas em Fallujah contra um grupo terrorista na província de Al Anbar. Se eu tivesse estado mais envolvido no processo de planejamento, poderia ter sido capaz de pedir por refinamentos durante o processo, tais como pedir por um corredor de tiro, o que nos teria permitido disparar os morteiros 60 mm da companhia, imediatamente. Tudo bem, isso é visão retrospectiva 20/20, mas havia muitas coisas das quais eu devia ter estado por dentro e, assim, eu poderia ter sido capaz de ajudar mais na batalha.

O subcomandante precisa, sempre, compreender o plano, não só o dos pelotões ou o da companhia, mas o do batalhão, também. Eu estava a um tiro no alvo, de me tornar um comandante de companhia, e sempre devia ter estado pronto para isso. Como subcomandante, eu não era, apenas, o administrador do comando e da logística da companhia, eu era o tenente mais antigo naquela subunidade. Confrontado com esta situação, você, sempre, precisa estar pronto para apoiar os tenentes modernos, e ajudar a guiá-los, também; o comandante de companhia nem sempre está por aí. Antes de nos movimentarmos para a missão, eu devia ter coordenado com o tenente Chudzik e conversado com ele a respeito, apenas, para deixá-lo saber que eu não estava lá para atrasar a vida dele, mas para ajudá-lo a conseguir quaisquer meios que ele pudesse julgar necessários e, desse modo, deixando-o livre de ter de se preocupar com coisas adicionais. Comunicação prévia com o líder de pelotão irá ajudar a aliviar qualquer confusão quando chega a hora para agir.

A Companhia “Alpha” e a Força-Tarefa “Blue Devil” (III/504 de Pára-quedistas) permaneceram em Haqlaniyah, de 3 a 31 de outubro de 2005. Durante este tempo, nós perdemos cinco pára-quedistas, mas impusemos ao inimigo uma sólida derrota. Nós cumprimos nossa tarefa em assegurar a cidade de Al Haqlaniyah para o referendo constitucional, como também aos insurgentes o uso da cidade como abrigo seguro. Nós tivemos mais engajamentos com o inimigo e cumprimos nossa missão. A Força-Tarefa “Blue Devil” iria continuar a caçar insurgentes por toda a província de Al Anbar, até o fim de 2005.

Eu os deixo com uma citação, feita a nós, por nossos adversários, no vale do rio Eufrates. Essa transmissão foi captada por uma unidade de comunicações anexada. Ela é uma conversação entre um líder insurgente em Al Haqlaniyah, que nós iremos chamar “AH”, com outro líder de célula, além do rio, que nós chamaremos de “AR”.

AH: “Eles nos pegaram pelo pé.”

AR: “Estes caras (Blue Devils) são especiais, eles não são Marines. Esses aqui são soldados de elite; você nem pode chegar perto deles, estão por toda parte...

AH: “É, eles pegaram a gente pelo pé, mesmo. A coisa tá assim por aí, também?

AR: Não, por isso a gente não entende, meu pessoal (outros insurgentes) em Barwana e Haditha estão se movimentando livremente. A gente não entende por quê em Haqlaniyah é tão diferente.

AH: Eu também não, mas a gente não pode fazer nada. Não dá pra nos tirar daqui?
______________________________

O capitão Aaron B. Baty, na época em que escreveu este artigo, estava participando do Curso de Carreira de Capitães de Manobra, em Fort Benning, Geórgia. Atualmente, ele está participando do Curso de Qualificação de Forças Especiais e irá ser designado para o 3º Grupo de Forças Especiais, após a graduação, em julho. Suas prévias designações incluem serviço como subcomandante e comandante da Companhia “Alpha”, III/504 de Pára-quedistas (atualmente, transformado em I/508 de Pára-quedistas). O capitão Baty graduou-se na Universidade de Drexel, e foi comissionado oficial pelo programa de CPOR desta universidade, em 2003.




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Re: Batalhas da Guerra do Iraque.

#42 Mensagem por Clermont » Qua Fev 15, 2012 11:41 pm

OS CAIXÕES DE MUQDADIYAH.

Por David Bellavia.

9 de abril de 2004 - Província de Diyala, Iraque.

A poeira cobre nossos rostos, invade nossas narinas e faz arder nossos olhos. O calor evapora a umidade de nós sem perdão. Nossa temperatura corporal sobe sem parar. Nossos ouvidos zumbem. No limiar da exaustão pelo calor, ficamos tontos enquanto nossas barrigas roncam.

Nós temos espasmos de diarréias, com fisgadas de dor em nossas tripas, liquefeitas graças a coleção de bactérias locais. Dentro das sujas privadas externas de nossas bases, ondas de moscas nos cobrem. Sem ventilação, estas privadas são fornalhas, com o fedor acre de urina bem-cozida.

Tudo isso, e somos alvejados também.

Bem-vindo à infantaria. Este é o nosso dia, nosso trabalho. Ele fode, e nós o odiamos, mas nós agüentamos por duas razões. Primeiro, há nobreza e propósito em nossas vidas. Nós somos a classe guerreira da América. Nós protegemos; nós vingamos. Segundo, cada momento na infantaria é um teste. Se nós nos mostrarmos à altura dos piores dias como este, isto prova que somos uma raça à parte de todos os outros homens.

Onde trabalhamos não há cubículos. Não há salas de descanso. Gravatas são objetos alienígenas; nós viajamos em viaturas blindadas de combate.

Nosso local de trabalho não é algum estéril escritório ou uma ruidosa fábrica. É uma faixa de uma desolada auto-estrada numa vasta e deserta terra. Uma torre de guarda queima no fundo. Corpos destroçados juncam o solo à nossa volta. Olhos vazios de cadáveres, esbugalhados e cheios de horror, nos contemplam. O fedor de carne queimada pesa em nossas narinas. Este era, uma vez, um posto de controle do Corpo de Defesa Civil Iraquiano (CDCI), designados para regular o trânsito para dentro e fora de Muqdadiyah, uma das cidades-chave da Província de Diyala. Graças à um ataque de surpresa desfechado cedo da manhã, ele não é mais nada do que uma pira funerária. Nós chegamos tarde demais para ajudar e nossos sinceros mas destreinados aliados morreram horrivelmente, enquanto os insurgentes os avassalavam. Um soldado iraquiano tomou um impacto direto de um rojão antitanque RPG. Tudo o que sobrou dele foram seus coturnos e pilhas gosmentas de carne sanguinolenta espalhadas pela torre de guarda.

Este é o nosso local de trabalho. Nós começamos a nos aclimatar com tais horrores logo após chegar ao país. Durante nossa segunda patrulha no Iraque, um caminhão de doces civil tentou se misturar com uma coluna de nossas viaturas blindadas, apenas para ser atropelado e amassado. Os ocupantes foram esmagados, ficando irreconhecíveis. Nossa primeira visão de morte foi um homem e sua esposa, ambos rasgados ao meio e desmembrados, com seus intestinos misturados junto com caixas despedaçadas de barras de doces. O pelotão inteiro não comia há vinte e quatro horas. Nós paramos e enquanto montávamos guarda em volta das ferragens, nossa fome aumentava. Finalmente, eu roubei uns doces de uma das caixas limpas. Outros limparam a nojeira e combustível dos invólucros e se juntaram a mim.

Isto foi há três semanas atrás. Nós agora somos veteranos, orgulhosos de ter estômago para tais visões e ainda levar à frente nosso trabalho. É esta miséria que nos define, nos dá nossa identidade. Ela também coloca os infantes à parte de todo mundo mais de farda. Alguns chamam isto de arrogância. Que seja. Nós chamamos isto de orgulho já que acreditamos fervorosamente no que estamos fazendo.

"Dá uma olhada nisto," chama o sargento-ajudante Colin Fitts. Ele aponta para um Humvee seguindo a auto-estrada rumo ao nosso campo de batalha.

Nós dois paramos e observamos a aproximação. Fitts é um mississipiano com uma voz grave e olhos intensos. Nós somos tão próximos que muito tempo atrás eu aprendi a contar cada história divertida da vida dele com mais detalhes que ele pode, e ele pode contar o mesmo sobre a minha.

O Humvee freia e pára a curta distância de nós. No assento direito está um major com uniforme bem-cortado. Com seus pequenos óculos de aros metálicos, ele se parece com um contador em Kevlar. Ele é tão limpo que eu duvido que tenha mais do que umas poucas horas desde sua última chuveirada. Eu nem mesmo posso lembrar quando foi a última que eu tive. Nós estamos nos virando com "banhos de puta" - lenços umedecidos de bebê para as axilas e as partes pudendas - já que água corrente é um luxo não concedido à infantaria.

Bem aqui temos a dicotomia que define nossas forças armadas. Nós todos envergamos a mesma farda, mas bem poderíamos ser de dois exércitos diferentes. Nós somos os "come-chumbo" da linha de frente. Este oficial incorpora tudo o que desprezamos sobre a outra metade. Ele é limpinho; nós somos sujos. Sua pele raramente viu sol. Nós estamos queimados de sol e com o couro duro. Ele está bem-alimentado e um pouquinho estofado. A maioria do nosso pelotão perdeu mais de 4,5 Kg desde a chegada em Diyala. Talvez isto seja porque quando temos uma chance de comer, o apetite não dure muito. Nosso salão de rancho é um necrotério abandonado iraquiano.

"Rapazes", o major exclama, "Vão dizer ao sargento de vocês que o Um-Quarto de Cavalaria está aqui!"
[1º Esquadrão do 4º Regimento de Cavalaria.] O major, obviamente, pensa ter talento para o drama. Ele não percebe que acabou de insultar a nós dois. Fitts e eu somos ambos sargentos-ajudantes [staff-sergeants]; nossas insígnias de graduação não passam facilmente despercebidas. Fitts fica vermelho.

Em nosso mundo, o mundo da infantaria, este major é um fanfarrão. Ele senta-se seguro por detrás do arame, mas tenta interpretar o papel de um líder de combate. Na maior parte do tempo nós simplesmente agüentamos idiotas como ele, enquanto tratamos de nossos negócios.

E eu estou pronto para simplesmente fazer isto. Fitts, por outro lado, não tem censura interna. Ele é alérgico a babaquice e não tem medo de nada. Ele fez um bocado de inimigos em nosso batalhão por causa disto, mas você tem de admirar um homem que reage com pura honestidade a toda situação e nunca, nem uma só vez, considera as conseqüências para sua carreira. Várias vezes ele perdeu sua graduação, mas sempre ganhou suas divisas de volta.

Fitts acenou com a cabeça para o major e gritou para o líder de sua Esquadra de Fuzileiros "Alfa", no outro lado da estrada, "Ei, sargento Misa! O "Um-Quarto de Cavalaria" está aqui. Que porra é essa? Você também está cagando e andando para isso? Bem, então somos dois, 250 mil se você contar o setor inteiro."


[No Exército americano, um "staff-sergeant" comanda um GC; um "sergeant" comanda uma esquadra]

Meu queixo caiu. Fitts tinha acabado de fazer o major de babaca do mesmo jeito que teria feito com um praça. Eu esperei pela reação.

O major, gaguejando, endireitou os óculos no nariz, voltou-se para seu motorista e disse, "Vamos andando."

O Humvee acelerou pela auto-estrada rumando para a segurança Base de Operações Avançadas "Normandia" (FOB). O fato de que estamos dispostos a submeter-nos à condições de sujeira e a combates brutais, algumas vezes nos dá passe livre com a outra metade do exército. Este é uma carta que salva nossos traseiros de acusações de insubordinação.

O sargento Warren Misa pisa por cima de um cadáver esfarrapado iraquiano e se aproxima de Fitts. Um musculoso filipino nativo de Cebu, que cresceu em Cincinnati, Misa é o único home que já conheci que fala tagalog com sotaque do Ohio. Nós mal conseguíamos compreendê-lo.

"Sargento Fitts?"

"Sim, Misa?"

"Eles estão querendo falar com você no rádio. Há problemas em Muqdadiyah de novo."

Nós rumamos para nossas Viaturas de Combate "Bradley" e nos empilhamos lá dentro. Os interiores destes transportes blindados de pessoal são como fornos móveis no calor iraquiano. Com nossos vinte e dois quilos de tralha completa de batalha - Kevlar- armadura, munição, armas, água e visores noturnos - nós suamos litros em cada volta. Isto nos faz ansiar pelo menos terminal calor das privadas das FOB.

Os "Brads" dão uma guinada à frente, deixando o destroçado ponto de controle com sua poeira. Uma curta viagem depois, alcançamos o centro de Muqdadiyah. Foi aqui, um dia antes, que nosso pelotão viu sua luta mais pesada em sua curta carreira de combate.

"Puta merda," chega a voz do nosso sargento de pelotão, James Cantrell, pelo alto-falante interno do "Bradley". Eu dou uma espiada pela seteira e engasgo.

Estamos cercados de caixões.

Eles se alinham em ambos os lados da rua. Em alguns lugares estão empilhados com dois ou três de altura. Próximo, um velho inclina-se sobre duas tábuas enquanto maneja um martelo. Percebo que está fazendo uma tampa de caixão. Mais tampas jazem espalhadas na rua em volta dele, bloqueando nosso caminho à frente.

Cantrell nos dá ordem para desmontar. A rampa de nossa viatura desce, tombando na rua. Nós damos um pique para fora, no brutal sol da manhã. Edifícios ainda fumegam. Uma casa danificada pelo combate já foi demolida por homens com marretas. Por toda a nossa volta, misturados entre os caixões, mulheres choravam e crianças olhavam para o espaço. Velhos, sobreviventes do reino de violência de Sadddam, a guerra com o Irã e a 1ª Guerra do Golfo, olhavam-nos com olhos fundos.

Lentamente abrimos caminho para a casa que usamos como ponto de coleta de baixas no dia anterior. Empilhados em frente a ela, estavam três ataúdes. Eu me perguntei se um deles guardava o garoto no qual eu tinha atirado.

No meio do confronto de ontem, meu grupo de combate alcançou uma casa murada e com portão. O sargento Hugh Hall, nosso atarracado arrombador, destruiu o portão e liderou o caminho até o quintal. Justamente quando entrávamos, a frente da casa, de repente, explodiu. Um pedaço de concreto colidiu com Hall e mandou o resto de nós voando em busca de cobertura. Uma repentina barragem seguiu-se, enquanto três viaturas blindadas "Bradley" abriam fogo com seus canhões Bushmaster 25 mm em resposta á explosão do rojão inimigo. Enquanto os projéteis de alto-explosivo dilaceravam a área fora da casa, o barulho era tão intenso que eu mal podia escutar.

Pelo rádio, percebi Cantrell gritando - "Bellavia, me dá a porra de um relatório." A voz de Cantrell é a única coisa que pode suplantar a cacofonia de um tiroteio. Ele tem um autêntico dom aí.

Confuso e atordoado, inicialmente deixei de responder. Cantrell não gostou disso. "BELLAVIA, PORRA, VOCÊ ESTÁ BEM?"

Finalmente consegui dar um jeito de responder. Tudo o que eu tinha ouvido era o fogo dos "Bradley", então finalmente gritei de volta, "Parem de atirar! Vocês estão atingindo nossa localização."

"Ei, bundão, não fomos nós. Isso foi a porra de um RPG," a voz de Cantrell explodiu através do rádio. "E aí vem outro."

O topo de uma grande palmeira no quintal explodiu acima de nós. Cantrell e os outros "Bradleys" imediatamente devolveram o fogo. Lascas de madeira e folhas queimadas choveram sobre nós. Hall, já coberto com pó de concreto, sujeira e sangue, falou de sopetão, "Será que eles já mataram esse filha da mãe?"

"Vamos entrar e tomar o telhado," eu gritei por sobre o fogo de nosso "Bradley".

Os homens moveram-se para a porta. Enquanto forçavam o caminho para o interior, eu espiei em volta do canto e avistei um atirador num telhado próximo. Eu o estudei por um instante, inseguro sobre de que lado ele estava. Ele podia ser um local amistoso. Nós os tínhamos visto antes, atirando contra os milicianos vestidos de preto do Mahdi que infiltraram-se nesta parte da cidade no início da luta. Nem todo mundo com um fuzil era inimigo.

O atirador no teto era um adolescente, de talvez dezesseis anos. Eu podia vê-lo procurando por alvos, de costas para mim. Ele portava um AK-47 sem coronha. Era apenas um garoto estúpido tentando proteger sua família? Era um dos fanáticos xiitas de Muqtada al-Sadr? Eu mantive os olhos nele e rezei para que ele baixasse o AK e apenas voltasse para dentro de sua própria casa. Eu não queria atirar nele.

Ele se virou e me viu, e eu pude ver o terror no rosto suado dele. Eu o enquadrei na minha mira, justamente enquanto ele posicionava seu AK no ombro. Eu o bati no saque. Minha própria carabina estava ajustada no meu ombro, a mira fixa nele. O garoto não tinha chance. Minha arma só precisava de um giro no seletor de segurança e um beijo de borboleta de pressão no gatilho.

Por favor, não faça isto. Você não precisa morrer.

O AK ficou em posição plena. Estaria ele mirando em mim? Não podia ter certeza, mas o cano estava ao meu nível. Eu atiro? Arrisco em não atirar? Estaria ele silenciosamente tentando salvar-me de alguma ameaça fora de vista? Eu não sabia. Eu tinha de tomar uma decisão.

Por favor, perdoe-me por isto.

Eu puxei o gatilho. O queixo da garoto encostou no peito e um gemido gutural escapou de seus lábios. Eu disparei de novo, errei, então puxei o gatilho mais uma vez. A bala arrancou fora seu queixo e a orelha. O sargento Hall chegou do meu lado, viu o AK e o garoto e acabou com ele com quatro tiros no peito. Ele caiu pesadamente contra a parede baixa do telhado.

"Obrigado, companheiro. Eu perdi meu 'zero', disse a Hall, explicando que as miras da minha carabina estavam desalinhadas, embora esta fosse a última coisa que passou pela minha mente.

Agora, um dia depois na rua, cercados por caixões e familiares em prantos, a dor deles é demais para presenciarmos. Estas pobres pessoas tinham sido pegas no meio, abusadas por fanáticos que escolheram nos enfrentar. Os milicianos do Mahdi de Muqtada al-Sadr são os peões do levante xiita. São eles que criaram o caos em Muqdadiyah. Eles usam as casas e negócios de gente inocente como posições de combate e pontos de emboscada.

(...)

____________________________

(continua...)




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Re: Batalhas da Guerra do Iraque.

#43 Mensagem por Clermont » Sáb Fev 25, 2012 12:42 pm

(...)

O sargento de 1ª classe Cantrell dá ordens para retornarmos aos nossos "Bradleys". Eu entro. A rampa é fechada por trás de mim. Começamos a nos mover. Pelo rádio, ouvimos que o nosso comandante de batalhão, [II Batalhão do 2º Regimento de Infantaria] tenente-coronel Peter Newell e seu grupo de segurança tinham feito contato com insurgentes. Nós corremos para apoiá-lo.

O Humvee de Newell tinha uma metralhadora M2 calibre .50 na sua torreta. Quando chegamos, seu atirador, sargento Sean Grady, estava ocupado varrendo um bosquete de árvores que os insurgentes estavam usando para ocultação. Em resposta, um trio de rojões RPG caiu em frente ao seu Humvee. Nosso comandante de batalhão ignorou os projéteis e do seu assento direito continuou a coordenar a luta com um rádio em cada orelha. Ele é imperturbável.

O som do rádio nos deixa tensos e ansiosos para entrar na refrega.

O comboio de duas viaturas de Newell recebe fogo de ambos os lados da auto-estrada. O volume cresce enquanto mais rojões atravessam a estrada. De repente, um garotinho de talvez cinco ou seis anos, sai da rua. De pé, próximo ao Humvee de Newell, o menino levanta dois dedos, então cinco dedos.

O sargento Grady gira sua metralhadora .50. É óbvio que o menino está sinalizando para os milicianos do Mahdi quantas viaturas e soldados americanos estão presentes.

Enquanto Grady arma o ferrolho de sua metralhadora, Newell percebe o que o seu atirador tem em mente. "Não metralhe a criança," ele ordena.

"Senhor, o guri está entregando nossa posição," diz Grady, sua voz quase apagada pelo crescente volume de fogo chegando.

"Não metralhe a criança," reitera Newell, sua voz férrea. Grady entende a mensagem. Nosso coronel possui um senso de moralidade preto-no-branco. A criança, independente do que esteja fazendo, não será visada. Às vezes, a adesão de nosso comandante de batalhão a tais gentilezas nos frustra, mas eu sei que em algum tempo iremos agradecer a ele. Ninguém quer uma criança na sua consciência.

No assento de trás do Humvee, o oficial do Corpo de Defesa Iraquiano acompanhando Newell inclina-se para a frente diz, "Estes homens lá fora, senhor, são meus."

Nunca intimidado, Newell ignora o coronel iraquiano e permanece focado na luta da sua força-tarefa. O coronel iraquiano fica em silêncio e se volta para olhar pela janela. Grady o vê sorrir. Ele é um simpatizante da milícia do Mahdi, também?

Pelo tempo em que meu "Bradley" alcança o chafurdo e baixa sua rampa, o sargento-ajudante Colin Fitts já está no terreno antes de mim, com todo seu grupo de combate mais a minha Esquadra "Bravo". Eles estão avançando na direção leste debaixo de fogo pesado. Nós temos de alcançá-los e dar-lhes apoio. Nós damos um lanço através do terreno aberto, fazendo uma louca corrida através de fogo pesado de metralhadora mas pobremente mirado. O profissional em mim zomba da habilidade deles.

Estes bastardos podiam nos matar a todos, se apenas mirassem uns dois dedos à frente de alvos móveis.

O calor da manhã já é intenso. Pelo momento em que alcançamos um grupo de edificações, estou com a cabeça leve e um pouco aturdido com a exaustão pelo calor.

Fuzis de assalto pipocam. Balas pingam ao nosso redor. Corremos ao longo de uma parede, viramos uma viela, e começamos a costurar em volta de casas e barracos. Cada portal, janela e telhado é uma ameaça potencial. Nós mantemos nossas cabeças girando enquanto corremos, procurando por atiradores.

Nós atravessamos duas vielas antes de uma onda de fogo de armas leves explodir em nossa frente. O rápido espoucar metálico da carabina M4 de Fitts segue nos calcanhares dos estampidos mais leves do fogo do AK-47. Fitts e uma dúzia de bons homens, seu grupo de combate de nove homens e mais três do meu GC, estão lá fora sem apoio. Nós temos de alcança-los. Nós avançamos na direção do som da batalha.

Atravessamos mais vielas, passamos por mais casas. À frente, uns poucos quarteirões, eu avisto três dos homens de Fitts abraçando um muro e mandando brasa com suas carabinas. Onde está Fitts? Eu me volto e lidero meus homens subindo uma viela. Eu tenciono mover-me paralelo à posição do GC dele com a intenção de envolver o inimigo que Fitts encontrou.

Atrás de nós, uma carabina M4 pipoca. Eu giro e vejo o tenente Christopher Walls, nosso líder de pelotão, com o dedo no gatilho. No labirinto de vielas, sei que vai ser uma dureza para ele nos achar enquanto continuamos o avanço. Eu digo ao especialista John Ruiz, o praça de 1ª Classe Raymond Cullins e o sargento Allan Pratt para ficarem atrás e esperar por ele enquanto eu vou em frente para encontrar Fitts e resolver como podemos consolidar ambos os GCs.

Alcanço uma esquina, espio em volta e finalmente avisto Fitts e o restante do 1º Grupo de Combate. Eles tomaram cobertura acima de uma pequena rua lateral cerca de um campo de futebol distante de mim. Eles estavam uns vinte metros de um pátio murado.

No interior do pátio está uma casa pequena com um ninho de metralhadora protegido por sacos de areia numa janela. O ninho aparenta estar vazio e o cano da arma aponta para o céu. Ainda assim muitos dos rojões e muito do fogo de armas leves sibilando à nossa frente parecem vir desta área.

Fitts está recebendo fogo de sua retaguarda, também. Insurgentes com capuzes pretos cruzam as vielas por toda a volta do GC de Fitts. Rojões zunem e explodem por sobre os pátios de muros baixos. Metralhadoras matraqueiam. Eu posso ver claramente que a milícia do Mahdi cercou o 1º GC. Há somente uma opção para Fitts: colocar seus homens no interior de uma casa e tomar o telhado que poderia ser usado como posição defensiva. A casa mais próxima é aquela no interior do pátio murado. E esta que eu tomaria. Fitts e eu pensamos igual. Ele não me vê, mas eu sei o que ele está fazendo. Se Fitts for capaz de tomar esta posição defensiva dentro do pátio, ele ganhará um sólido ponto de apoio nesta vizinhança e uma posição que poderá resistir ao fogo cruzado que seu GC recebe agora. Eu me preparo para manobrar minha Esquadra de Fuzileiros "Alfa" para apoiá-lo.

Pratt, Collins e Ruiz avançam na minha direção, apenas para receberem fogo de uma viela. Eles param para devolver o fogo, enrolados em sua própria luta. Eu compreendo que minha esquadra não será capaz de apoiar o 1º GC. Nós estamos distendidos por cerca de cinqüenta metros de selva urbana infestada de inimigos e preocupados com nossa própria sobrevivência.

Subindo a viela, eu vejo Fitts concentrando seus homens numa formação em cunha para avançar sobre o pátio e escapar do fogo cruzado. Ele lidera da frente, abrindo numa formação de ferradura invertida. Fitts está agindo pelo manual. Tão logo alcançam o exterior do muro do pátio, e se movem rumo ao portão da frente, várias metralhadoras desfecham uma torrente de fogo neles dos andares superiores do outro pátio fortificado, cerca de trezentos metros distante.

Desesperadamente, eu busco por alvos. Fitts precisa que eu desfeche fogo supressivo sobre este pátio, mas os edifícios próximos a mim, mascaram minha visão. Não posso ver ninguém em quem atirar.

Fitts lidera os homens à frente mesmo enquanto Misa e outros desfecham uma salva de granadas 40 mm rumo ao pátio fortificado. Elas explodem à distância, mas o fogo chegando não diminui.

Enquanto o grupo de Fitts se aproxima da entrada do pátio, eles mergulham no inferno. Balas colidem em volta deles, na rua, vindo de cada ponto na bússola. Os insurgentes estão disparando de toda parte. O 1º GC foi pego num fogo cruzado triplo. Sua única esperança é entrar na edificação.

Enquanto uma chuva de balas rasga o terreno em volta de Gross e Contreras, Fitts nunca hesita. Com sua M4 detonando, Fitts lidera seu 1º GC e a minha Esquadra "Bravo" num lanço rumo à casa. Traçantes caem em volta deles, como cinzas quentes de uma fogueira atingida pelo vento. Estou fervendo. Não posso ver ninguém em quem atirar. Não posso ajudar. Meu primeiro instinto é correr no aberto e dar ao inimigo alguém mais em quem atirar.

Estou justamente para me mover quando acontece. Fitts está acocorado e atirando contra o outro lado do pátio quando seu antebraço direito recua violentamente. Um esguicho de sangue voa pelo ar. Ele não faz uma pausa. Ele dá mais dois passos, troca sua carabina para seu braço esquerdo e o aperta sob sua axila. Ele a dispara como um brinquedo de criança com seu único braço são.

Então, seu braço esquerdo treme e arqueia enquanto outra bala atinge-o no bíceps esquerdo, bem acima do cotovelo. Sua carabina inclina-se para o chão com ele pressionando o gatilho disparando vários tiros no solo. Ele cambaleia, larga a carabina e cai.

Dez metros atrás de Fitts, o especialista Desean Ellis gira para trás e grita. Mesmo de meu distante ponto de observação, quase uma centena de metros distante, posso ouvir um terrível som de dilaceramento, como um jeans sendo rasgado. Uma bala o atingiu no quadríceps direito. Enquanto ele girava, pude ver uma mancha escarlate nas calças de Ellis. Ele desaba no chão.

Reunindo suas reservas de força, Fitts recupera sua carabina M4 e fica de pé. Ele despeja quatro ou cinco tiros rápidos na casa, enquanto cambaleia para a frente. Atrás dele, seus homens colocam suas armas em posição de fogo automático total. Soldados de infantaria adequadamente treinados nunca fazem isto num combate cerrado, exceto em circunstâncias desesperadas. Confrontados com a perda de seu líder, eles não tem escolha a não ser transformar suas armas em chuveiros letais.

Uma forma aparece no portal. Fitts dispara sobre o insurgente, apoiando a arma e apertando o gatilho agora com seu polegar. O sargento Hall desfecha uma salva também. O inimigo tomba no portal. Segundos mais tarde, outro toma seu lugar. Contreras o alveja, matando-o com dois cartuchos bem-colocados.

A metralhadora abandonada na janela do segundo andar, repentinamenate gira. Eu vejo o movimento e compreendo o que significa. Agora alguém está guarnecendo a arma, e nossos homens estão no aberto. Eu ainda não tenho nenhum tiro claro. Não posso ajudar. Meu estômago revira. Eu fico furioso com meu próprio desamparo.

A arma pipoca. Balas irrompem em volta do grupo de combate. Os homens correm por suas vidas. Fitts não tem chance nenhuma. Eu o vejo dobrar-se enquanto fontes de sangue irrompem de seu joelho direito, seu terceiro impacto. Ele afunda na sujeira, o sangue empoçando em volta dele.

Eu não posso crer no que estou vendo. Fitts, meu amigo mais chegado, foi baleado três vezes e eu estou impotente para ajudar. O calor escaldante percorre minha espinha. Eu perco as sensações nas minhas pernas. Não posso me mover. Não posso pensar. Tudo que posso fazer é olhar horrorizado. Eu penso na esposa do Fitts. Ela está em casa, grávida do terceiro filho. Como vou explicar este dia para ela?

Não posso olhar, mas eu tenho.

Fitts está jazendo de rosto para baixo na sujeira, cerca de dez metros da porta da frente da casa. Misa desfecha outra granada de 40 mm contra o ninho de metralhadora acima enquanto dois homens saem pela porta da frente.

Para meu espanto, Fitts agarra sua M4 de novo e abre fogo. Ele ainda está cheio de espírito de luta.

O especialista Michael Gross mata o primeiro homem saindo pela porta. O segundo, um homem baixo com barba escura, dispara pelo portal e passa direto na linha de fogo do praça de 1ª classe Jim Metcalf. Ele e o especialista Lance Ohle disparam vários cartuchos e o baixote morre apenas uns poucos passos de Fitts. Simultaneamente, mais dois milicianos saem de uma casa vizinha. O especialista Jesse Flannery os abate enquanto Contreras corre para Fitts, recolhendo-o e começa a arrastá-lo de costas para o refúgio do pátio murado.

"Me larga, cacete, e estabeleça segurança neste barraco aí atrás," ordena Fitts. Por trás do GC está um pequeno barraco contra o interior do muro do pátio. Além da própria casa, é sua melhor esperança. A casa parece estar limpa de combatentes inimigos. O perigo repousa no fogo vindo das edificações vizinhas. No meio do pátio, Fitts e Contreras são patos sentados.

"Não vou te deixar aqui," argumenta Contreras.

"Me larga, porra. Me deixa aqui."

Relutantemente, Contreras solta Fitts, justo quando outra rajada de fogo envolve o GC vindo da esquerda. Contreras cai sobre um joelho, volta-se e descarrega seu carregador na direção de onde veio o fogo. Ele está exposto, mas não se importa. Ele continua martelando alvos que eu não posso ver. Estojos vazios voam da porta de ejeção da arma e tombam sobre Fitts, que começou a rastejar para a frente, rumo ao inimigo.

Eu ouço um fuzil pipocar de algum lugar na minha frente. Eu avisto um iraquiano de cara escura, com óculos Ray-Ban. Ele está no telhado usando um fuzil de fabricação iraniana. Eu não posso dizer se ele está do nosso lado ou não, mas ele parece estar suprimindo o inimigo em volta de Fitts e do restante do 1º GC. Não longe do pátio, um miliciano manejando um lança-rojão abandona a cobertura. O "Senhor Ray-Ban" no telhado o abate com uma série de tiros bem-colocados.

Estou danado de confuso agora.

Fitts fica de pé. Usando sua carabina como bengala, ele se volta e manca o restante do caminho até o muro do pátio sem assistência. Hall move-se rumo a Fitts, mas eu o vejo, repentinamente, tremer e girar. Um "geiser" de água jorra de sua mochila de hidratação CamelBak.

"Hall, você foi atingido, homem?" grita Misa.

"Eu sei. Eu sei, companheiro." Hall não pára, embora três balas tenham acabado de o atingir nas costas. Somente sua armadura o salvou.

O GC toma cobertura na parte interior do muro do pátio. Segundos mais tarde, um RPG destinado ao "Bradley" do sargento-ajudante Cory Brown viaja alto e explode contra a parte externa do muro.

Um miliciano aparece num telhado, procurando por um novo ângulo de onde disparar contra o GC encurralado. Ele é o primeiro alvo real que eu tenho e eu descarrego nele. Ele se esquiva e desaparece e eu me exaspero comigo mesmo por errá-lo.

O "zero" da minha arma está desalinhado.

Atrás de mim, Pratt e Ruiz ainda estão batalhando pela viela. Insurgentes estão disparando neles de entre dois edifícios. Eles não estão em condições de ajudar. Balas atingem em volta deles, com altos zumbidos e silvos.

Eu resolvo que preciso me movimentar. Eu fico de pé e faço ziguezague descendo uma viela, então viro numa esquina. Eu paro logo. Eu saí bem atrás de um homem fumando um cigarro. Seu braçal dourado denota sua qualidade de membro da milícia do Mahdi.

Ele não me percebe. Está preocupado com o "Senhor Ray-Ban" no telhado apenas uns poucos metros distante. Está de costas para mim. Ele casualmente continua a fumar, com seu AK na bandoleira no ombro direito. De início, acho que estou alucinando. Será que essa besta pensa que algum sindicato estabelece que haverá pausas para o cigarro no meio da batalha?

Minha arma toma posição automaticamente. Eu nem mesmo raciocino. No segundo que leva para colocar a carabina em fogo de rajada controlada, minha surpresa abre espaço para uma fúria fria. O cano faz contato com a nuca dele.

Foda-se o "zero". Não posso errar agora.

Meu dedo preme o gatilho duas vezes. Seis cartuchos atravessam o seu crânio. Seus joelhos desabam como ele tivesse acabado de quebrar ambas as pernas. Enquanto ele grunhe, resfolegando como um porco, eu abaixo o cano e disparo outra rajada de três tiros no seu peito, só por garantia. Ele cai ao chão, com um ruído de carne batida.

Sua cabeça move-se para frente e para trás. Ele resfolega de novo. Eu me convenço de que este é o homem que atirou em Fitts, e fico cheio de raiva. Sua cara parece com uma sangrenta máscara de Halloween e eu piso nela com meu coturno até que ele finalmente morre. Enquanto eu inutilizo sua arma, amassando o cano para garantir que qualquer um que a utilize só vai machucar a si próprio, percebo que meu coturno inteiro está banhado em sangue e nojeira.

Rojões voam. Nossos atiradores nos "Bradleys" acertaram a mira, agora. O especialista Shane Gossard, atirador do "Bradley" do sargento-ajudante Brown, explode as posições insurgentes afastadas, enquanto abre caminho para o grupo de combate de Fitts. O atirador de Cantrell, sargento Chad Ellis, mata dois homens correndo com sacolas de rojões em suas costas. Na cobertura deste caos, meus homens correm e abrem seu caminho à tiros, para o pátio. Finalmente, eu atravesso o portal e corro para Fitts.

Eles está deitado de costas, seu rosto branco. Posso dizer que ele está em choque.

"Como vai indo, mano?"

"Já estive melhor. Isso dói pra caralho."

Isso é tudo que ele diria, apesar de tomar três balas de três armas diferentes.

Eu peço para Cantrell trazer um "medevac" e tirar Fitts e Ellis. Quando nosso sargento de pelotão percebe que dois de seus homens estão feridos, ele fica desvairado. Ele acelera seu "Bradley" para nos resgatar. Inicialmente, ele não pode nos achar, e sua raiva cresce, até eu temer que ele estivesse à beira de um aneurisma. Ele bota os bofes para fora repetidamente pelo rádio.

Eu dispo Fitts de sua arma, carregadores, visores noturnos e ferramentas. Ele compreende. Ele não está em condições de lutar e vamos precisar de tudo para o que está à frente. Eu tiro tudo dele, exceto sua latinha de tabaco de mascar, "Copenhagen".

O "Bradley" de Cantrell chega. Rapidamente, embarcamos Fitts e Ellies à bordo. Mesmo enquanto a rampa é erguida, eu ouço Fitts dando ordens aos seus homens enquanto Ellis grita pela sua casa.

O "Bradley" vai em frente, com meu melhor amigo sangrando dentro.

Momentos mais tarde, voltamos à luta. Nós combatemos de edifício em edifício. A matança continua sem se abalar, enquanto a escuridão se aproxima. Depois de ficar escuro, a vantagem será nossa. Com nosso equipamento de visão noturna, somos os donos da noite. Os milicianos do Mahdi são fanáticos, porém mal-treinados. Eles apenas sabem como morrer.

Um jato F-16 da Força Aérea chega, voando para frente e para trás, por sobre nossas cabeças, com as bombas pendentes nos pilones de armas sob cada asa. Elas ficam nestes suportes.

O piloto não recebe permissão para lançar seu material bélico. O comando divisionário não quer ter de reconstruir os danos que as bombas dele causarão. Aparentemente, nós estamos travando uma gentil guerra de cavalheiros.

Bem-vindo à infantaria. Onde edifícios "hadji" valem mais do que nossas vidas. Jóia, nós viveremos com este ônus. É só mais outro teste, outra medida que nós coloca à parte dos tipos daquele major do "Um-Quarto de Cavalaria".

Em Diyala, a 9 de abril de 2004, estamos em plena batalha. A luta urbana de alta-intensidade que praticamos desde o treinamento básico, agora, finalmente tem permissão para ser liberada contra o nosso inimigo. Não há nenhum general de quatro-estrelas de estômago fraco para colocar rédeas em nós. Nós somos de novo a 1ª Divisão de Infantaria do Vietnam e das praias da Normandia. Nós irrompemos através dos portões dos pátios, fuzis ao ombro, alvos caindo enquanto acionamos os gatilhos de nossas armas. Os milicianos do Mahdi correm de esquina em esquina, mas nós somos rápidos e precisos com nossas miras. Nós os abatemos no ato. Nossos "Brads" estão rolando, desfechando salva após salva de seus Bushmasters nos edifícios próximos. Mesmo assim, os milicianos recusam-se a desistir da luta. Traçantes de posições inimigas não avistadas entrecruzam-se acima de nós. Eles nos obrigam a conquistar cada casa e cada centímetro.

Esta é a nossa guerra: nós não podemos atirar em todo alvo, nós não podemos dizer sempre quem é o alvo; mas nós tomamos conta uns dos outros e não nos importamos em fazer o trabalho sujo da nação. Os pilotos da Força Aérea e os majores do Exército especialistas em Microsoft Power Point tem uma visão perfeitamente clara disto. Nós não teremos apoio se isso provocar bagunça.

Podem mandar ver.

Nós somos a infantaria.

A guerra é uma puta usando capacete.


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Extraído de "House to House - An Epic Memoir of War", Staff-Sergeant David Bellavia."

(* O sargento Fitts recuperou-se de seus ferimentos, recusou ser reformado por razões médicas e voltou ao serviço ativo, meses depois, a tempo de liderar seu GC na Batalha de Fallujah, em novembro de 2004.)




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