Bolovo escreveu:Nossa.

Não tinha pensado por esse lado. Boa questão, Leandro.
Pois esté é o ponto mais importante.
Um programa espacial, como aliás qualquer trabalho de engenharia, precisa ter um objetivo. No caso específico dos foguetes, este objetivo pode assumir diversas naturezas, que inclusive geralmente se sobrepõem em um mesmo programa. Vejamos alguns deles (não é uma lista exaustiva, apenas coloquei os mais evidentes):
1- Desenvolvimento tecnológico em geral.
2- Obtenção de mísseis militares.
3- Propaganda (prestígio nacional).
4- Acesso sem restrições às aplicações espaciais.
E como o VLS está com relação a cada uma destas opções? Vejamos:
1- Por serem sistemas que trabalham no limite, buscando o máximo de desempenho e utilizando níveis elevadíssimos de potência, o desenvolvimento de foguetes de grande porte tem o potencial de ser um grande indutor do avanço tecnológico geral de um país, nas mais diversas áreas como materiais, técnicas de construção, sistemas eletromecânicos e eletrônicos, etc... . Mas o VLS é um projeto com cerca de 30 anos de idade, e embora após o acidente na última tentativa de lançamento ele tenha sofrido algumas revisões (inclusive com ajuda russa) ele não sofreu nenhuma modificação importante que pudesse acrescentar nada ao patrimonio tecnológico do Brasil nos últimos 15 anos. Pelo contrário, com certeza muitas das modificações efetuadas foram feitas justamente para adequar o projeto às novas tecnologias que surgiram para outras aplicações enquanto a construção dos foguetes se arrastava, como os materiais compostos e a usinagem CNC avançada. Mesmo o único aperfeiçoamento previsto, que é a introdução do combustível líquido, planeja utilizar o projeto de um motor russo da década de 50!
No início o VLS cumpriu o seu papel de catalizador do desenvolvimeto tecnológico nacional, com o desenvolvimento de ligas especiais de aço, sistemas de soldagem robotizados, etc... . Mas esta fase já passou há bem mais de uma década, e somente um projeto de concepção totalmente nova poderia trazer de volta este aspecto ao programa. O VLS em si é velho demais para isso.
2- Nem é preciso falar muito, uma vez que o Brasil abdicou do interesse em mísseis de médio/longo alcance com o fim do regime militar. Mesmo que o interesse retornasse agora os motores do VLS dariam no máximo para o desenvolvimento de um míssil com alcançe na faixa dos 1500 ou 2000 Km, o bastante para impressionar a Argentina ou a Venezuela, mas para nada além disso. E na conjuntura atual eu realmente não acho que o Brasil precise desperdiçar esforços para impressiorar estes países, nem quaisquer outros de nosso continente. E para mostrar alguma coisa que chame a atenção de países de fora da América do Sul teríamos que desenvolver motores muito maiores que os do VLS, ou seja, um novo foguete.
3-Com relação à propaganda, um foguete da classe do VLS em um mundo onde a China já está trabalhando para lançar homens à lua e a Índia acaba de iniciar o programa de uma nave espacial tripulada..., sei não, dá até vergonha tocar no assunto “prestígio nacional” quando o que temos é apenas o VLS. Até o Irã já está no seu terceiro satélite... .
4- O acesso às aplicações espaciais (satélites de sensoreamento remoto, imageamento, previsão do tempo, comunicações, etc...) é cada vez mais importante para o desenvolvimento das nações. E como muitas destas aplicações são sensíveis (reconhecimento e comunicações militares, guiagem de armas por GPS ou equivalentes, etc...), a capacidade de lançamento de seus próprios satélites é um recurso estratégico para os países que querem realmente se considerar importantes e independentes. Mas praticamente todas estas aplicações exigem satélites com massas maiores em altitudes mais elevadas do que o VLS pode colocar. Mesmo a versão modernizada com o terceiro estágio de combustível líquido vai deixar a capacidade do foguete no máximo marginal com relação ao que seria necessário, e totalmente fora do que seria preciso para atividades importantes, como comunicações, navegação e previsão do tempo. Os satélite que o VLS poderá lançar serão basicamente para aplicações experimentais ou observação da Terra com recursos limitados, que não afetarão de forma significativa a nossa posição de dependência com relação a outros países no que tange ao uso do espaço.
Pode-se imaginar que o eventual lançamento bem sucedido do primeiro VLS terá a importante missão de finalmente provar que o Brasil é capaz de desenvolver seus foguetes espaciais, e que isto daria um novo impulso ao programa espacial brasileiro, que à partir daí poderia perseguir um ou mais dos objetivos apresentados acima (ou outros quaisquer que se possam imaginar). Mas então o mesmo poderia ter sido obtido como lançamento de um foguete muito mais simples e barato (o VLM), que poderia ter sido lançado há muito mais tempo. Além disso, esperar anos e anos para lançar um VLS para só depois pensar em tudo o que mencionei acima não me parece uma estratégia muito inteligente. Manteremos sei lá por quanto tempo o desenvolvimento de um foguete que sabemos ter muito pouco a acrescentar ao país para só depois pensar no que realmente temos a ganhar com o desenvolvimento de foguetes? Devo confessar que não consigo ver qual o sentido disso. Porque já não estamos discutindo isso agora (na verdade há pelo menos 10 anos)?
Então ficamos assim, o VLS vai sim voar um dia. E daí?
Leandro G. Card