Mal-estar de Dilma abala confiança dos governistas
A notícia de que Dilma embarcara num avião-ambulância rumo a São Paulo teve efeito devastador no ânimo dos defensores da candidatura presidencial da ministra.
O blog ouviu na noite passada três expoentes do consórcio governista –dois do PMDB e um do PT. Falaram sob a condição do anonimato.
Os três expressaram uma opinião óbvia e coincidente: as dores que levaram Dilma ao Hospital Sírio Libanês não ajudam a consolidar a candidatura dela.
O petista repisou a tecla de que seu partido não trabalha com Plano B. “Nossa candidata é a Dilma. E ponto”.
Manifestou, porém, o receio de que a novidade sirva de tônico para o que chamou de “maluquice”. Referia-se à idéia do terceiro mandato para Lula.
Fez questão de dizer que a tese é refutada pelo presidente da República e pela direção do PT. Se é assim, por que o receio?
“Cada vez que um maluco aparece defendendo essa bandeira, inviável por todas as razões, enfraquece um pouco mais a candidatura da Dilma”.
A dupla de peemedebistas que falou ao repórter reconhece que, de fato, não há plano alternativo a Dilma.
A diferença é que o PMDB não festeja o fato. Longe disso, lamenta. Espraia-se pelo partido a impressão de que Dilma pode se tornar uma candidata inviável.
“Uma coisa é a solidariedade que a doença desperta nas pessoas. Outra coisa é a desconfiança que provoca no ânimo do eleitor”, disse um dos caciques do PMDB.
Ele esmiúçou o raciocínio: “O eleitor pode não querer dar o seu voto a uma pessoa que, na cabeça dele, vai conviver com o risco das recaídas. Câncer não é gripe”.
Acrescentou: “Veja o caso do [vice-presidente] Zé Alencar. É um bravo. Faz uma cirurgia atrás da outra. Não há quem não seja solidário...”
“...Mas o fato é que, apesar de todos os esforços, o câncer continua atormentando o Zé Alencar”.
O caso da Dilma pode ser diferente, não? “Claro que sim. Mas vá dizer isso ao eleitor...”
“...É preciso considerar um detalhe: “No caso de Dilma, não estamos falando de um vice em fim de mandato. Falamos de uma candidata a quatro anos de governo”.
O outro líder do PMDB que dividiu suas apreensões com o repórter informou que, de concreto, o drama de Dilma já produziu no partido um sólido efeito político.
A despeito dos esforços de Lula para amarrar o quanto antes a aliança do PMDB com a candidatura da ministra, o tema será tratado a golpes de barriga.
“A ministra tem toda a nossa solidariedade. Mas não daremos nenhum passo antes que a situação dela esteja inteiramente aclarada”.
Pendurou na conversa uma interrogação: “O tratamento da Dilma está apenas começando. Será que teremos respostas até o final do ano?”
Acha que, do ponto de vista da opinião pública, foi para o espaço a idéia que Lula tentou passar, no mês passado, de que o câncar de Dilma era página virada.
“À sua maneira, o presidente fez o que lhe cabia. Tratou o câncer da ministra como assunto resolvido...”
“...Disse que o tumor havia sido extirpado e que as sessões de quimeoterapia eram meramente preventivas. Quem já lidou com o câncer sabe que não é bem assim”.
De resto, lembrou que o tratamento de Dilma conspurcou-lhe a agenda de pré-candidata. “Ela viajava toda semana. Não viajou mais...”
“...Estava estreitando relações com os políticos. Não se ouve mais falar em reuniões com os partidos...”
“...Não vai aqui nenhuma crítica. Para Dilma, a saúde tem de vir mesmo antes da política. O que se discute é a viabilidade da candidatura dela”.
Ausente do noticiário, esse tipo de reflexão tende a ganhar, nas próximas semanas, as conversas mantidas entre quatro paredes.