Carlos Lima escreveu:Como mencionei originalmente (não as partes boas mandam lembranças)
Além disso se eu não me engano foi na Decolagem de um Sonho que ele deixa claro diversos momentos não agradáveis da história do AM-X.
É claro que ao longo dos anos o discurso original com relação ao programa foi mudando... foi mudando... foi mudando e motivos não faltaram para tal mudança.
Business...
Mas a realidade é que ele deu uma dor de cabeça íncrivel até porque nunca foi 'brasileiro' e para o Brasil no fim das contas conseguir o real direito a sua participação originalmente prevista, na prática, teve que brigar muito...
Isso sem contar com obviamente crises economicas, situação mundial e falta real de definição da FAB sobre o que queria com o AM-X (caça bombardeiro, transformado em 'caça', mas que nunca possuiu de fato um míssil ar-ar ou radar, e que nunca possuiu nem um missil ar-terra para ataques anti-navio ou anti-superfície... ou seja... não necessariamente bom em uma coisa (nunca seria um bom caça) ou outra (virou transporte de foguete e bomba burra) ).
Infelizmente para o ego nacional e militar ele foi mais propaganda do que qualquer outra coisa...
[]s
CB_Lima
Eu havia retirado a parte do Oziris, porque eu acabei achando meio deslocado do que vc havia escrito.
Mas vamos lá falar sobre o AM-X:
É necessário separar o Programa AM-X da aeronave AM-X.
O Programa AM-X tinha como seu principal objetivo, além de dotar a FAB de uma frota de aeronaves de ataque, com longo raio de ação, e com excelente desempenho à baixa altura (de onde se explica a preferência pelo motor Spey), o de capacitar o parque industrial aeroespacial brasileiro. A Aeronáutica conseguiu convencer o governo brasileiro da época que para alavancar tecnologicamente a indústria aeroespacial brasileira era necessário participar de um programa ainda em sua fase de definição. Caso solicitasse recursos para a compra de aeronaves “off the shelf”, não os receberia.
Foram estudadas diversas hipóteses de colaboração e acabou sendo escolhida a associação com o projeto italiano, já em estágio inicial de desenvolvimento pelas empresas Aeritalia e Aermacchi. (procurem a história no Google)
Foi então ativado o Programa Inicial de Capacitação (PIC), onde entraram diversas empresas, tais como Embraer, Aeroeletrônica, Tectelcom, etc. etc.
Dentro desse programa, a Embraer recebeu enormes investimentos em termo de treinamento de pessoal e de infraestrutura (hangares, máquinas de usinagem de 5 eixos, sistema CAD/CAM, ferramental, etc. Este programa viabilizou o desenvolvimento do Brasília e da família BEM 145. Somente estes dois programas “pagaram”, com troco, o Programa AM-X.
A filosofia do Programa AM-X previa que um terço da aeronave seria de responsabilidade das indústrias brasileiras e dois terços pelos italianos. Esta proporção obedeceria às quantidades a serem adquiridas pelas respectivas forças aéreas.
Esta mesma proporção foi aplicada na divisão de trabalho para a fabricação da aeronave, sendo que o Brasil deveria fabricar 01 terço da aeronave (em valor) e a Itália 02 terços. O Brasil ficou responsável pelas asas, entradas de ar e outras partes e equipamentos. A Itália com a fuselagem e o restante da aeronave. As partes de cada país foram chamadas de “ship set Brasil” (asas e outros) e “ship set Italia” (fuselagem e outros).
As linhas de montagem final ficariam nos dois países, 01 no Brasil e 02 na Itália.
Para evitar que houvesse transferência de divisas, a FAB compraria, para cada aeronave da sua frota, 03 “ship set Brasil”, ou seja 03 conjuntos de asas e etc. Um “ship set Brasil” seria entregue à Embraer para a montagem final e 02 “ship sets Brasil” seriam enviados para a Itália para trocar por 01 “ship set Itália”.
Desta forma, a FAB, teoricamente, nunca enviaria divisas para a Itália, pois o contrato da compra dos “ship sets Brasil” era para pagamento em moeda nacional.
Porém, o Brasil “quebrou” em janeiro de 1987, decretando moratória. Em 1988 foi promulgada uma nova constituição. Em 1989 terminou a guerra fria. E em 1990, assumiu o presidente Collor. E o orçamento do AM-X sumiu.
A FAB teve dificuldades para adquirir os “ship sets Brasil” para enviar para a Itália, que necessitava das asas para a montagem final das suas próprias aeronaves.
Este atraso no programa “liquidou” as empresas nacionais menores. Na prática, somente escapou a Embraer, que foi mantida com “soro nas veias” pela FAB até a sua privatização.
A fabricação dos motores Spey na Celma teve trajetória semelhante.
Bem, este é o programa AM-X. Mal ou bem, a capacitação industrial prevista no início dos anos 80 com o programa AM-X possibilitou que o Brasil tenha hoje a terceira maior empresa aeronáutica do mundo. Graças à visão dos engenheiros da FAB, entre eles o Brigadeiro Lôbo, Ferolla e Taveira.
A falta de recursos provocou atrasos na produção, no desenvolvimento, na aquisição da logística, na perda dos prováveis nichos de exportação, e tudo o mais.
O preço da aeronave A-1, caso considerarmos os valores investidos no programa como um todo, desenvolvimento, produção e capacitação industrial, é extremamente alto. Mas não é assim que se calcula o preço de uma aeronave. Como informado, este era um programa de capacitação industrial, e somente assim ele pode ser entendido e avaliado.