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Durante a Segunda Guerra Mundial o mundo vivenciou uma das mais drásticas mudanças de cenários de poder. O centro do poder, que até então estava na Europa, foi se transferindo aos poucos para a periferia de então: Estados Unidos e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
Foi nesse contexto, e na tentativa de evitar uma expansão da Alemanha nazista para espaços de influência direta dos Estados Unidos, como é o caso da América Latina, que os Estados Unidos criaram a Quarta Frota. Ela durou de 1943 a 1950, quando então a ameaça nazista já não era mais significativa e o Atlântico Sul deixou de ser um espaço considerado estratégico pelas potências emergentes e pelas decadentes.
Recentemente, quase 60 anos depois de sua desativação, a Quarta Frota foi novamente criada pelo governo norte-americano, o que tem trazido muito desconforto e acusações por parte de governos e sociedade civil da América Latina. Em grande medida, acusa-se os EUA de usar o poder militar para garantir influência na região, além de ser uma forma de se posicionarem perto de uma região que tem conduzido vários governos de esquerda (alguns radicais) ao poder, como uma forma de isolá-los e, quem sabe, neles intervir quando necessário.
A resposta oficial é de que a Quarta Frota é apenas uma unidade administrativa, ou seja, não teria poder militar efetivo. Assim sendo, seu objetivo está restrito à organização do poder naval norte-americano para auxiliar em missões de paz e outras ações que também seriam benéficas à região, como é o caso de ajudas humanitárias e do controle marítimo para combate de tráficos internacionais.
O Embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Clifford Sobel, declarou recentemente para um conjunto de senadores brasileiros que a Quarta Frota não terá navios próprios e que não passa de um conjunto de aproximados 120 profissionais alocados em Miami. Colocou, ainda, que o exercício naval que o porta-aviões USS George Washington (Sétima Frota) realizou na América do Sul é apenas um treino normal que o porta-aviões fez em seu caminho para o Japão, onde ficará.
O que mais chama a atenção não é a reativação da Quarta Frota em si, mas o momento. A América do Sul não se apresenta num momento de tensão que indicaria uma ruptura institucional generalizada. Ao mesmo tempo, no governo George W. Bush a América Latina não teve um espaço importante na agenda, bem ao contrário, foi claramente relegada a segundo plano na lista de regiões a ganharem relevo na política mundial dos Estados Unidos.
Uma das possíveis explicações para o que está ocorrendo liga-se diretamente com o que tem ocorrido na América do Sul, especialmente no Brasil, em termos de desenvolvimento de potencialidades no médio-prazo.
O Brasil tem consolidado algumas dinâmicas que o diferenciam da quase totalidade dos demais países do globo. Dentre elas, destaca-se a grande capacidade agrícola (tanto já utilizada quanto potencial, já que ainda apresenta grandes espaços de terras agriculturáveis ainda não utilizadas) quando uma grande capacidade de produção energética (tanto em termos hidroelétricos e de biocombustíveis, quanto em termos de reservas de petróleo).
Desta forma, no médio prazo o Brasil terá uma produção agrícola e energética que superará significativamente sua demanda, tornando-o um potencial exportador dos produtos derivados dessas duas áreas. Num cenário de crise na oferta de fontes energéticas (com o preço do barril de petróleo batendo recordes constantes de preço) e agrícolas (com os preços dos alimentos a subir significativamente nos últimos meses), o Brasil deixaria de ser um simples exportador, para se tornar um jogador estratégico em termos mundiais.
Num cenário no qual as atuais tendências continuem, ou seja, haja um desequilíbrio na relação entre oferta e demanda ou o aumento dos preços de produtos agrícolas e energéticos, certamente a América do Sul se tornará uma região com alta capacidade de influência no sistema internacional. Com isto, o controle sobre o Atlântico Sul, já que o Atlântico Norte já está controlado pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), passa a ser fundamental.
Pode ser que, por enquanto, a Quarta Frota não passe de uma unidade administrativa e que apenas navios de passagem se envolvam em treinamentos na região, mas no médio prazo isso certamente vai mudar. O acúmulo de conhecimentos e experiências desta área do mundo será um importante elemento de poder, quando o espaço marítimo do Atlântico Sul for ocupado por um importante fluxo de fontes de energia e alimentação.
* Rodrigo Cintra é Diretor da Focus R. I. – Assessoria & Consultoria em Relações Internacionais e professor de Relações Internacionais da ESPM. Saiba Mais:
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