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A Fênix Negra - Capítulo IV - Parte II PDF Imprimir E-mail
Escrito por Túlio Ricardo Moreira   
Seg, 09 de Novembro de 2009 10:51

Segunda Parte – Ratos que Atacam.

O Coronel Bolovo, seguido pelos RATOS, avançava cuidadosamente por um longo corredor, a que levara a porta que haviam cruzado ao fundo do hangar. Devido à possibilidade muito forte de interceptação, as comunicações interpessoais estavam desligadas, apenas a camuflagem e o visor funcionavam, além das armas. Comunicavam-se por sinais. Ele, Bolovo, mantivera a sua ligada, pois falava alemão e poderia ser necessário iludir alguma patrulha, ao menos o suficiente para os homens poderem tomar posições vantajosas para liquidá-la a seguir. Ao passarem por um monitor preso à parede, Bolovo lembrou-se de algo que lera no manual que acompanhava os uniformes. O monitor parecia desligado. Impressionou-se com a pouca espessura da tela, muito menos de um milímetro, ficava parecendo um poster. Girou o pequeno disco ao lado do visor, acompanhando os termos que lhe apareciam ante os olhos até encontrar ‘Interaktivität’, que ligou com uma leve pressão do dedo, ainda olhando para o monitor. Imediatamente a tela ganhou vida, mostrando menus só acessíveis a quem dispusesse de um visor como o daquele uniforme. Encostou o dedo na tela onde dizia Karte Germania (NDA: Mapa de Germania) e ficou impressionado: o lugar era imenso. Rapidamente localizou a si próprio, estava quase no centro do que era chamado ali de ‘parte alta’, obviamente as duas montanhas que cercavam o vale eram ocas e continham também laboratórios, oficinas, fábricas, centros médicos e de pesquisa, sendo interligadas por várias ruas subterrâneas, numa das quais ele estava, numa das montanhas. Na outra, haviam apenas duas coisas que lhe chamavam a atenção. Um dos lugares era chamado de Centro de Controle. O outro de Ala dos Superiores.    

 

 

Brasília. Palácio do Planalto. Gabinete da Presidência.

O Presidente está ao telefone, falando com a operadora.

- Eu não quero saber, me localize o Maltez agora mesmo, inferno!

Estava furioso. Aquilo tudo não podia estar acontecendo, ainda por cima às vésperas de um ano eleitoral, de sua cada vez mais improvável reeleição. A ligação do Presidente dos EUA o deixara aniquilado. O Brasil estava sendo invadido por forças estrangeiras, suas próprias forças estavam engajadas em combate contra elas e ele estava completamente por fora. Sabia que não era particularmente apreciado pelos militares como Presidente mesmo tendo sido um deputado benquisto na caserna, que simpatizava com seus pontos de vista em defesa da Amazônia. Ao começar seu relacionamento com a Jungle Watch, iniciou-se paralelamente um esfriamento de suas relações com os fardados, eternamente desconfiados – “paranóia de alta pureza”, pensou – de ONGs, principalmente estrangeiras e na Amazônia. Mas não se importara muito, pusera como Ministro da Defesa um homem bem relacionado nos meios castrenses apesar de ser conhecido como “O Portuga”, sabia que era o homem certo no lugar certo, ouvira muito tempo antes uma conversa entre graduados onde seu amigo era citado com uma certa admiração pois, podendo viver tranquilamente em Portugal constava em sua ficha que viera ao Brasil aos dezoito anos e se alistara no Exército, não sendo aproveitado com a eterna desculpa do ‘excesso de contingente’. A razão real é que ninguém queria ser responsável pelo súbito aumento das risadas em razão de seu estranho sotaque e, naturalmente, das piadas de português. Ademais, era um homem de porte físico avantajado, poderia quebrar a cara de algum graduado e seria bastante desagradável se a história fosse parar na mídia e o caráter na verdade não tão ‘assimilador e democrático’ dos brasileiros fosse assim exposto em sua realidade nua e crua. Mas o caso volta e meia era mencionado à socapa entre os militares, além do proverbial conhecimento do Ministro em questões de defesa. E onde andaria o filho da puta?

     

 

Sala de Controle. Todos os links já foram estabelecidos, dezenas de caças e os sistemas de armas de meia dúzia de belonaves estão agora sendo diretamente monitorados de Germania.

- Frantz, me dê uma ajuda aqui, posso transferir um caça para você? Estou com sete, não vai dar para...

- Sem problemas, me passe até dois se quiser, só tenho dois e um destróier americano mas com este bastará eu iniciar a seqüência e o resto ele fará sozinho.

- Obrigado. Transferindo o controle.

A voz do comandante se faz ouvir na fonia aberta:

- Senhores, creio que já temos o suficiente. Vamos manter assim para estabilizarmos as conexões e a seguir usar tudo de uma só vez. Preparem o envio dos algoritmos de autocancelamento e autoapagamento dos comandos de dados, nada deve restar como pista de nossa atuação no incidente.

- Senhor, imaginei que iríamos derrubar os satélites após...

- Não, Lütz, se começarem a cair satélites a toda hora alguém pode começar a achar estranho. A discrição sempre nos manteve a salvo e me parece mais salutar mantê-la.

- Sim senhor.

- Bem, estou passando os dados gerais à mesa do Reichsführer. Ele comandará pessoalmente o início da ação. Heil Hitler!

De todos os consoles partiu a mesma resposta:

- Sieg Heil!

    

 

O Sniper americano se aproximava lenta e furtivamente, rastejando pela mata. Pela redução do porte da vegetação podia saber que estava próximo do vale. Breve pôde vê-lo, ainda que mal, já que se encontrava agora num ponto alto e com um amplo declive até lá. Não se importou com isso. Havia algo infinitamente mais interessante para ver. Aliás, para não ver.

Porque, olhando através do retículo, observou primeiro um soldado brasileiro agachado com um Para-FAL na mão, apontado para algum ponto à esquerda e abaixo de onde estava. Então, entre ele e o soldado passou algo. Não tinha como saber exatamente o que era. Simplesmente o vulto que observava pelo retículo pareceu ondular com reverberações de calor. Não obstante, sendo um atirador experiente, sabia que não poderia ser isso, não ali. Moveu a mira pouco mais para o lado, para a direção seguida pela estranha manifestação. Logo a encontrou de novo, desta vez contra alguns troncos de árvore.

- Porra! Esses russos desta vez se superaram, nunca vi uma ghillie tão boa. O safado está praticamente invisível...

Começou a seguir o vulto com o telescópio, ele claramente buscava uma aproximação maior dos brasileiros. Curioso, devia ser outro Sniper mas por que diabos precisava chegar tão perto assim? Já estava numa posição estupenda de tiro! Dali mesmo onde estava, bem atrás do suposto russo, podia matar facilmente o inimigo. Ao mover de volta o visor B&L do fuzil M-25, buscando outra vez o brasileiro, nova surpresa. Mais duas daquelas estranhas tremulações da imagem. Estava se acostumando àquilo e agora filmava e transmitia pelo data-link do TCC, ao mesmo tempo em que sua mente tentava automaticamente definir silhuetas humanas a partir de tão pouca coisa para se ver.

     

 

O SS-Sturmbahnführer Lang progredia pela selva, acompanhado por seus homens em formação bem aberta. Haviam parado para dar tempo às duas alas de avançarem adiante deles. Já via diante de si um número bem maior de brasileiros, havia mais de duzentos na contagem dos sensores. Outra vez a luzinha que avisava que alguma transmissão estava sendo feita nas proximidades começou a piscar. Nunca vira isso na selva, tantas transmissões inimigas simultâneas, será que aqueles americanos não sabiam que quem transmite em um meio como aquele está pedindo para ser detectado?

Mas nada podia fazer a respeito naquele momento. Ademais, a julgar pelo que havia sido descoberto pela interceptação das comunicações deles, no que percebessem o inferno que seria desencadeado brevemente sobre os brasileiros aproveitariam a deixa para correr tão rápido quanto suas pernas o permitissem, seria a única opção para poderem sair vivos e livres dali e tinham ciência disso. Talvez até fugissem junto com os russos, igualmente enrascados. Não, os americanos que se fossem se foder com seus antiquados brinquedinhos tecnológicos. Desligou os avisos do sensor. Pela fonia corrigiu as posições de alguns dos seus Waffen, que podia ver em uma tela projetada contra o cenário em cor bem destoante. Estava na metade de uma frase a um Rottenführer quando sentiu o violento impacto na nuca, que o jogou de rosto contra o tronco de árvore à sua frente. Nem ouviu o Sturmscharführer Schreiner, que vira a cena, passar em fonia:

- Comandante abatido. Repito, comandante abatido!

      

 

O Sniper, imediatamente após atirar, tornou a recuar para trás da elevação, colocando-a entre si e seus possíveis e mesmo prováveis perseguidores. Nem com um canhão conseguiriam atingi-lo agora, teria como recuar bastante e aguardar que alguém se aproximasse o suficiente, apenas isso, o suficiente para mais um tiro. Mais uma morte.

       

 

O piloto da aeronave parada e camuflada na selva consultou seu relógio. Haviam passado quase quarenta minutos. Já devia estar havendo contato entre a força de Lang e aqueles filhotes de macaco. “Que merda”, pensou, “são quase todos uns porras de índios piolhentos. Até matá-los deve ser nojento, algo como matar um daqueles insetos que fedem muito quando mortos”. Olhou novamente para o nível das baterias. Várias horas ainda pela frente, sem problemas por enquanto...

      

 

Sala de Controle. A imagem do Reichsführer aparece em tamanho reduzido diante na tela de cada monitor. Está concluindo seu pequeno discurso antes de dar a ordem final.

- Senhores, o que iremos fazer a seguir será uma candente demonstração da superioridade da raça ariana. Faremos duas potências inimigas lutarem entre si. Talvez, se a experiência for positiva, possamos inseri-la no Grande Plano e acelerar assim o ressurgimento da nossa Fênix. Alguma pergunta antes de começarmos?

Um breve instante de silêncio. Então a voz aguda do Untersturmführer Frantz. Sempre ele! Por que diabos não aprendia a calar a boca e se limitava a fazer o que lhe mandavam, como todo mundo?

- Senhor, há algo que ainda não compreendo. São duas potências nucleares, arriscamos mais a destruir a Fênix do que a reerguê-la. Que planeta terra sobraria para nós após uma guerra atômica?

O Reichsführer respirou fundo. Teve de se conter para não dizer um palavrão. O cara podia até ser um bom operador de sistemas mas era de uma idiotice a toda prova para outras coisas. Teria de se lembrar de dar um jeito de colocá-lo como instrutor ou algo assim, perguntas como aquela, feitas assim, em público, tendiam a baixar o moral.

- Untersturmführer Frantz, asseguro-lhe que tudo foi pensado e sopesado. A desproporção entre ambos, no aspecto de poderio nuclear, é tão vasta que os chineses jamais teriam coragem de atacar os americanos. Seria uma ogiva chinesa com tecnologia inferior contra dezenas e dezenas de americanas, muito melhores e mais precisas. Não, eles lutarão ferozmente mas apenas de modo convencional...

- Com o perdão do Reichsführer, ouso dizer que...

“Ousa demais, seu merda!”, pensou o Reichsführer.

... que os americanos poderiam não pensar assim e atacar primeiro.

“É. O merdinha tinha que dizer isso, não? Tinha mesmo, porra...”

Dissera ao filho da puta, corno safado do Segundo Führer, a mesmíssima coisa. Palavra por palavra. Repetiu-lhe a resposta, mas sem o tom desdenhoso:

- Meu caro, isso está fora de questão. Se atacarem terão contra si ogivas russas, indianas, paquistanesas, todos os países que serão afetados, ainda que indiretamente pelo ataque irão revidar e isso se não o fizerem ainda no momento mesmo em que os primeiros ICBMs começarem a subir. Não, esta hipótese foi cuidadosamente analisada, lhe asseguro.

- Senhor, não quero ser irritante mas...

- Então, por gentileza, não o seja. Apenas confie. “Tenho mesmo que tirar esse fresco daqui. No que acabar a operação vou mandá-lo para Berlim, aquele outro merda que o agüente.”

- Sim senhor, desculpe senhor.

- Sua pergunta foi pertinente, meu caro, gostei do seu interesse. Vou recomendá-lo para um serviço onde poderá usar melhor sua curiosidade sobre o cenário internacional... – um sorriso perigoso lhe bailava nos lábios. Um aviso. Uma promessa.

Encantado, Frantz pensou:

“Cara, não é que me dei bem? Chamei a atenção do Reichsführer para mim. Quem sabe não esteja a caminho uma promoção, quem sabe uma chefia e talvez até um casamento vantajoso. Ué, por que não?” E sorriu para os colegas, deliciado com seus sonhos grandiosos. Olhou para Lütz e estranhou sua expressão. Devia ser inveja.

“Idiota, está ferrado e não sabe...”, pensava Lütz. Não sabia que também estava.

- Bem, cavalheiros, vou desligar. Iniciem a seqüência em dois minutos a contar de agora. Germania conta com os senhores. Heil Hitler!

- Sieg Heil!

A imagem do Reichsführer desapareceu das telas, restando apenas imagens de navios e aeronaves, além de muitos números e símbolos, representando mísseis e seus alvos. Apenas mais dois minutos...

        

 

O Perdigueiro começara a mancar levemente. A morfina devia estar perdendo o efeito. Então uma levíssima, quase suave picada na coxa. A dor, bem como o manquejar, cessaram quase que imediatamente, sendo substituídas por uma certa euforia. Nunca se sentira tão bem na vida, tinha certeza. Apenas uma progressiva necessidade de entrar em ação logo o atazanava. Que inferno, o Ratão bem que podia se decidir, entrar logo por uma daquelas portas e arrasar com tudo. Isso sim, seria divertido, não aquele passeio turístico cheio de cautelas. Então, ao fazerem uma nova curva, seguindo ordens diretas do comandante, viram-se diante de uma porta guarnecida por dois homens que pareciam saídos da tela de um filme de segunda categoria sobre a segunda guerra mundial. Os homens de negro olhavam diretamente para eles mas não os viam. Portavam estranhos bastões. Antes de receber qualquer ordem, saltou à frente do seu grupo e efetuou dois disparos com a arma em potência máxima. Um para cada nazista, que foram quase partidos em dois. Sim, isso era divertido...

 

O Coronel Bolovo soltou uma imprecação em russo. Job Tvojematj. Vá foder sua mãe. Qual a necessidade daquilo? Não estava ferido nem havia lido sobre todas as capacidades dos trajes de combate, assim ignorava por completo o que se processava com o Perdigueiro. O homem apenas parecia exageradamente nervoso, nenhum soldado treinado em operações especiais agiria de modo tão impensado, sem sequer aguardar uma ordem, um sinal. Bem, teriam de ver o que havia por trás da porta, com sorte o lugar estaria vazio e poderiam esconder os cadáveres ali. Foi até a porta e tocou com a ponta do indicador na chapa metálica ao lado. Sua arma estava pronta. Havia lido o que estava escrito acima: Sala de Controle.

      

 

O Coronel Bender, com um punhado de homens, seguia rapidamente em direção ao vale. Sua fonia, até então muda, subitamente começou a funcionar. A vegetação estava começando a ficar mais baixa, o teto vegetal já apresentava vários buracos. Sim, ali os satélites eram mais eficazes.

- Senhor, fala o Tenente Revers, over.

- Roger, é Bender, prossiga, over. – o Coronel parou, ajoelhando-se no solo fofo e úmido. A um breve gesto, todos o imitaram, formando um perímetro defensivo.

- Recebi um filme bem estranho do Tenente Wesley, dos Snipers, senhor. A princípio não entendi até que lembrei do que o senhor falou lá do...bem, o senhor sabe. Over.

- Passe para o terminal delta-papa-onze. Over.

- Sim senhor, agora mesmo. Over.

O Coronel fez sinal ao sargento que conduzia o terminal de dados, um laptop reforçadissimo. Este chegou e, mediante ordem, abriu a maleta dentro da qual ficava o aparelho. A mensagem já havia sido recebida. Ordenou que fosse aberto o arquivo e ficou no aguardo. Poucos minutos depois:

- Tenente Wesley, aqui é o Coronel Bender, se está ouvindo responda. Over.

O silêncio permaneceu. Quando Wesley enviara o filme estava no topo da elevação, agora estava primorosamente camuflado entre trocos apodrecidos de árvores e vegetação entrelaçada. Totalmente invisível. Para olhos humanos...

     

 

...não para os eletrônicos que o observavam e retraduziam a imagem definida, aí sim, para um par de frios olhos azuis. Lang estava sentado no chão, amparado por um de seus Waffen, esperando passar a tontura do impacto na cabeça. Sabia que bastava aguardar respirando tão profunda e calmamente quanto possível para o efeito euforizante dos medicamentos que os sistemas de suporte à vida do uniforme de combate lhe haviam introduzido na corrente sangüínea se dissipasse. Então restaria apenas lucidez, bem-estar e ânsia por cumprir bem o dever, como sempre. Reclamara muito daquilo em seus relatórios, particularmente no último, quando um de seus subordinados havia sido atingido na cabeça e, sob o efeito dos químicos, se expusera em demasia no afã de exterminar o atacante. Sim, nos treinamentos era diferente, a carga de adrenalina do combate real não podia ser reproduzida mesmo no mais severo exercício. Agora sabia como o homem se sentira daquela vez e realmente era muito difícil manter o autocontrole, principalmente logo após se reerguer após ser atingido. Forçou-se a prestar atenção à fonia, alguém o chamava:

- E então, senhor? Ele está na minha mira...

Sentia ímpetos ferozes de se erguer de uma vez, ordenar ao soldado que não abrisse fogo e ir lá pessoalmente matar o filho de uma porca. Respirou fundo mais algumas vezes, após falar para o outro aguardar novas ordens. Precisava se recompor logo, que diabo!

      

 

O Tenente Wesley era visto de lado pelo Waffen, igualmente imóvel mas muito melhor camuflado. Desligara seus sistemas de detecção geral para melhor poder observar e transmitir para seu comandante, sem interferências ou competições entre prioridades de sensores. Os que lhe interessavam agora eram apenas seus olhos e os do atirador inimigo. Estes se voltaram para ele por um momento, depois mais além. Manteve-se imóvel, olhando fixamente para o oponente. Ele se voltou novamente para onde olhava, parecendo falar sozinho. Então a ordem:

- Vá em frente, acabe com ele e depois nos alcance.

- Sim senhor.

Apontou sua arma.

 

Tudo foi indescritivelmente rápido. Sua atenção foi despertada por um forte clarão à esquerda. Havia fumaça também, pouca mas havia, dava para notar. Então algo aconteceu bem perto, algo que ele nunca tinha visto e Deus sabia que ele já havia visto muita coisa...

        

 

Frantz olhou com interesse para a porta que se abrira sem ordem. Ninguém passou por ela. Por um instante imaginou que seria o próprio SS-Reichsführer, interessado em seu trabalho.

  

Lütz também olhou. Igualmente nada viu.

  

 

O Coronel Bolovo abarcava a sala com sua visão. Não era tão grande comparada às que conhecia em seu país embora nunca tivesse visto sistemas como aqueles. Tudo parecia extremamente simples, espartano até, mas não iludia com essa aparência, vira uma versão bem menor daquela sala em Brasília e simplesmente não conseguira entender de modo algum como aquilo era operado. Como funcionava. Não havia como, seria como ensinar aos velhos bolcheviques da Grande Guerra Patriótica – um deles seu pai, ainda com quinze anos mas já em armas pela Mãe Rússia embora achasse que o estivesse fazendo por Stalin – a operar IGLAs, mísseis antiaéreos portáteis (MANPADS) de fabricação russa. O abismo tecnológico era largo demais.

De qualquer modo, esgueirou-se para perto dos operadores, ouvindo-lhes a conversa e vendo sem entender direito as imagens nos monitores. Aparentemente estavam controlando aviões e mísseis que iriam atacar algo ou alguém. Um homem magro de voz aguda disse algo sobre a Rússia não gostar do que iriam fazer. Iam atacar sua pátria dali? Ouviu outro falar algo sobre menos de um minuto para ataque. Já vira do que eram capazes aqueles demônios. E não tinha onde nem como conservar prisioneiros. A decisão a tomar era a mais óbvia possível. E foi o que fez, removendo o bocal da máscara da vestimenta de combate e gritando em português:

- Atenção! Matem todos!

Não pôde ver o sorriso embriagado do Perdigueiro. Seu ferimento fora interpretado como incapacitante pelos sensores internos do uniforme e este reagia enviando doses cada vez mais fortes de medicamentos para conterem a dor e o choque. Apenas quando o efeito da morfina passara é que os terminais nervosos de seu corpo haviam começado a emitir sinais de emergência, que haviam sido interpretados erradamente pelos sensores, os quais julgaram que ele tivesse acabado de ser ferido. Apontou para o primeiro dos homens de branco e o destroçou com um disparo. Não pôde conter uma risada de alegria, que ficou abafada pela máscara fechada e sem fonia. Outro se ergueu do console e olhou para o morto, começando a se voltar e abrindo a boca para um grito. Não pôde completá-lo pois o Perdigueiro praticamente lhe desintegrou a cabeça. Gargalhou alto. Que dia maravilhoso estava sendo aquele...

 

O que o Coronel nem qualquer outro RATO não podiam perceber enquanto atiravam também é que estavam em companhia de um homem que se tornava rapidamente um psicopata assassino. E que contava com os mesmos recursos que eles e sabia usá-los tão bem quanto qualquer outro. Enquanto matavam friamente pela noção de estrito cumprimento do dever, o Perdigueiro o fazia pelo puro prazer de tirar vidas. E nada friamente. Estava adorando aquilo...

    

 

O Coronel Bender, vendo que o Sniper não podia ser contatado, verificou as coordenadas de envio da última mensagem. Relativamente perto. Comandara uma agressiva e perigosa progressão rápida pela mata. O grupo estava quase alcançando o ponto, bem no alto de uma elevação. Não havia mais sinal de contato do TCC em seus sensores, só podia contatar os mais próximos. Então, recebeu na fonia:

- Aqui é Wesley, alguém na escuta? Over.

Respondeu imediatamente pelo microfone preso á garganta:

- Wesley, aqui é Bender, saia daí. Saia agora!

- Coronel? Como assim? Acabei de acertar um cara com a melhor ghillie que já vi. Devem estar no meu encalço. Over.

O Coronel não respondeu. Dedos de gelo se fecharam sobre sua alma. Sim, ele vira!

 

 

Ao mover rapidamente sua cabeça para olhar em volta se deparara com o mesmo fenômeno que observara na câmera do infeliz cinegrafista da CNN. O brilho. A distorção sutil da paisagem circunjacente. Olhou peso visor de sua M-4, com zoom eletrônico de quatro aumentos, presente de seu filho mais velho quando passara no exame para os Marines. Lembrou-se por um momento fugaz e com grande carinho da frase no cartão:

“Para que velhos olhos encontrem novos alvos.”

E que alvo encontrara!

Recordava-se do infortunado oficial que fora morto mesmo após ter mandado uma bala .308 perfurante na cabeça daquilo. Entendeu então o porquê do estranho armamento que haviam levado para a selva. Sussurrou:

- Thomas. Thomas! Aqui!

O corpulento sargento portava uma antiga SMAW-NE, munição termobárica lançada do ombro. Embora fosse já antiga, ainda era preferida por muitos por sua simplicidade quase rústica e extrema letalidade.

- Vê aquelas árvores?

- Sim senhor.

- Pode enfiar um treco desses bem no meio?

- Sem problemas, senhor. Tiro fácil.

- Então mande brasa agora que tem um filho da puta ali que vai matar um dos nossos sem demora!

 

O sargento não viu ninguém mas ordens eram ordens. Apontou quase que de modo displicente. Com o rabo do olho viu que não havia ninguém na zona de risco, atrás do lançador. Então atirou.

      

 

O Coronel Wolfgang saltou da cama como se impulsionado por uma mola. Um estridente alarme soava no próprio quarto.

- Mas o que é isso agora?

Arianne olhou para ele sem entender bem a transformação do amante terno e apaixonado em animal de guerra. Podia sentir, ver naqueles olhos agora estreitados pela antecipação do combate, que não aquele o homem que conhecia. Sequer era bem um homem. Um animal feroz, um grande felino predador. Em menos de um minuto ele passara de inteiramente nu a inteiramente vestido. Seus gestos eram fáceis e tinham certa graça. A graça de uma pantera na jaula...

- Algo grave deve ter acontecido. Este toque é o alarme geral, soa em todos os lugares onde haja algum SS. Só o ouvi até hoje em exercícios, jamais assim, para valer. Mas tocou aqui apenas porque o sistema não vê diferença entre membros da SS que ocupem funções de combate e os administrativos como eu. Não se preocupe, eles...

- Não estou preocupado. Há alguma arma por aqui?

- Não, meu querido. Volte para a cama, não é conosco, deixe que...

- Fique bem aí. Vou ver o que está acontecendo e já volto!

Voltou-se de sua maneira tigrina e em segundos já estava na porta. Abriu-a e olhou para fora. Nada. Voltou-se para a porta aberta do quarto. O rosto angelical, com evidentes sinais de medo, surgiu. Ele sorriu. Repetiu:

- Já volto, querida. – E saiu para fora.

 

E Arianne não sabia mas temia que ele nunca mais voltasse.

 

O que era verdade. Wolfgang estava saindo para nunca mais voltar.

 

Continua na próxima semana...

 
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Sobre o Contos Militares:

Sejam bem-vindo(as).

Este Blog apresenta mi-nhas histórias com motivos militares, sempre enfocan-do nossas Forças Armadas, seus integrantes, equipa-mentos, técnicas e táticas em primeiro plano.

Túlio Ricardo Moreira, ou simplesmente "Túlio", tem 46 anos, é Agente Peni-tenciário e escritor. É mo-derador do Fórum Defesa Brasil desde 2006 e cola-borador do site desde 2008.

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