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Terceira Parte – O Inesperado Também Acontece O sargento assestou a mira em algumas árvores próximas ao ponto indicado pelo Coronel Bender. Não que pretendesse atirar ali, apenas proporcionava um ponto fixo onde o laser pudesse marcar a distância. Observando o retículo, viu a pequena bolinha (dot) vermelha de mira se tornar em um verde pulsante. Sim, os dados do laser haviam sido processados no minúsculo computador de tiro da arma, que estava agora pronta para o disparo. Voltou-a então para o azimute indicado e, certo de que não havia ninguém na zona mortal atrás da arma, deu ao gatilho. A pressão de seu indicador no gatilho fechou um circuito elétrico, a corrente deslocou-se quase instantaneamente até o booster do foguete de ejeção, que com um rugido queimou todo o seu combustível em uma pequena fração de segundo, o suficiente para expelir o projétil para fora do tubo sem ferir ou ofuscar o atirador. Ao deixar o tubo, as aletas se abriram, passando a imprimir um movimento giratório ao projétil, estabilizando-o em uma trajetória quase tensa. O booster caiu e rolou pelo chão inofensivamente poucos metros distante do lançador. O motor principal do foguete foi então acionado, já a uma distância segura para o atirador. Enquanto o voo da mortífera carga prosseguia, junto ao detonador da ogiva um pequeno chip associado a um giroscópio contava os giros, com eles calculando continuamente a distância percorrida à luz da que deveria acionar a detonação. Após cerca de trinta metros, comandou o armamento da espoleta que detonaria a cabeça de guerra. Dentro dela, uma razoável carga de explosivos que produziam altíssima temperatura e uma grande quantidade de...pó. Na verdade, nanopartículas de urânio ativado. Era uma versão particularmente pouco apreciada pelas tropas, dados os riscos intrínsecos ao uso de algo tão perigoso à saúde. O Sargento Thomas não se importava, alguns dos ‘cagões do câncer’, como os chamava, gente que não fumava e se borrava só de chegar perto daquela arma jazia esburacada ali pelo mato, grande coisa terem se preservado tanto só para servirem de pasto aos inimigos. O Waffen buscava um ângulo em que sua descarga pegaria apenas o sniper, sem queimar os troncos que o abrigavam, o que seria desperdício de energia e poderia dar chance a um revide. Não sabia que com tal meticulosidade convidava a morte a encontrá-lo. Pelo visor desligado não tomava ciência de que dois outros companheiros corriam colina acima para encontrá-lo do outro lado. Um deles era o SS Hauptsturmführer Lang em pessoa. Hesitou. Apesar da ordem de disparo, talvez ele quisesse finalizar pessoalmente. Vingança. Hesitou. Foi seu último erro. Aquelas botas com multiamortecimento ativo eram mesmo demais. Lang juraria que mesmo o campeão olímpico dos cem metros rasos não conseguiria na reta e em condições ideais de vento e temperatura correr tão rápido quanto ele e o Scharführer Lindemann, que ia alguns metros à frente, subindo a colina para chegar ao outro lado. Os inúmeros sensores espalhados pela selva o haviam alertado por data-link para a presença de um grupo inimigo nas proximidades, era provável que nem vissem o Waffen mas nunca se deixa um companheiro só, sem cobertura. Já estavam quase no topo... O projétil, voando velozmente, chegou ao ponto de detonação. O número de giros estava completo. A espoleta foi acionada pelo chip e provocou a detonação da carga explosiva, que arremessou a vários metros a carga de pó, invisível a olho nu, tal a velocidade com que se propagava. Poucos metros abaixo, o Waffen notou o clarão e voltou-se para ele, momentaneamente esquecido de seu alvo. Já era tarde... O Scharführer Lindemann chegava ao topo da colina, seguido de perto por Lang. Notou um leve rastro de fumo e logo a seguir um clarão a alguns metros, perto de umas árvores. Bem acima de um kamerad. A explosão arremessou a vários metros de distância a carga mortífera. Cada nanopartícula de urânio ativado arrebanhava em sua trajetória todas as moléculas de oxigênio que estavam em seu caminho, completando o seu ciclo de destruição. Agora havia comburente e combustível. Então a chama chegou. Um sol em forma grosseiramente parecida com um guarda-chuva aberto se formou. As violentas chamas sugavam todo o ar circundante para alimentar a combustão, eis que o urânio ativado demora a queimar completamente. Após alguns segundos, exaurido o combustível e o ar disponível, a nuvem de calor siderizante começou a retrair com rapidez, deixando um imenso vácuo ao seu redor. E este vácuo precisava ser preenchido, é uma lei da natureza... Lang chegava agora ao topo da colina. Ao ouvir a explosão, agachou-se instintivamente. Mas viu. O Waffen mais adiantado foi envolvido por uma bola de fogo, sendo quase desintegrado. O Sturmführer Lindemann simplesmente pareceu voar em direção à chama que recuava, caindo estatelado de bruços. Havia chamas em seu uniforme também, embora nada fatal, aparentemente. O que inquietava é que a resina que cobria o macacão parecia ter sido derretida, ele podia ser visto a olho nu. E isso era um problema. Então um forte puxão, um vendaval que parecia vir de algum ponto às suas costas. Lang também estava no ar. Havia calor. Caiu poucos metros atrás de Lindemann mas sem largar a arma. Não sabia ainda mas o calor, vento e variação da pressão haviam literalmente varrido e queimado a resina eletricamente ativada que era a chave de sua invisibilidade. Assim, ainda zonzo, tentou erguer-se e apontar a arma para algum lugar quando viu um sujeito enorme chegar correndo e arremessá-la longe com um chute. No instante seguinte, vários homens o subjugavam. Era impossível se mover. Como podiam vê-lo? Algo estava muito errado. E aquela sensação de torpor, seria tão bom poder tirar uma soneca, apenas uns minutos e estaria ótimo. Tudo foi se apagando, não havia mais kameraden nem inimigos, apenas paz... Não sabia mas seus sofisticados equipamentos de manutenção de vida e lucidez, que ficavam numa caixa próxima da cintura haviam sido destroçados pela explosão. Estava inteiramente por sua conta. E nas mãos de inimigos. Não viu quando Lindemann, mesmo bastante ferido, tentou se erguer e ajudá-lo. Uma M-240 cantou sua melodia de morte e destruição, ele se voltou para ela tentando reagir e recebeu os impactos no peito. Era a parte mais espessa de sua blindagem mas fora bastante danificada pela explosão e o calor. Notou que os impactos não eram tão violentos quanto deveriam. É que apenas alguns haviam atingido o que sobrara da blindagem, os restantes a penetraram e invadiram seu peito, quebrando costelas, dilacerando órgãos e vasos, esburacando seus pulmões e finalmente estraçalhando seu coração. Lindemann estava irremediavelmente morto. Nem os maiores peritos de Germania poderiam fazer mais do que providenciar-lhe um funeral de herói. Vários soldados o cercaram, armas ainda embaladas e apontadas. - É...eles também morrem, os safados... – disse o Sargento Thomas, apontando a M-4 para o cadáver. – isso foi pelos coitados dos rapazes lá no Afeganistão, filho de uma puta! - Vamos amarrar este merda aqui, pessoal! – a voz de comando do Coronel Bender era inconfundível. – está vivo e o equipamento parece ter sofrido poucos danos. Vamos retrair e levá-lo conosco. Vão adorar isso lá em casa. - Retrair como, senhor? Os brasileiros, os russos e os cupinchas desse aí... - Brasileiros e esses monstrengos aí já devem estar se pegando, isso cria uma cobertura excelente para a gente dar no pé. Mandem e continuem a mandar a ordem pelo TCC, todo mundo caindo fora para o ponto de exfiltração alpha, umas vinte horas de progressão se a gente levar em conta que logo o inferno inteiro vai estar no nosso encalço! Sebo nas canelas, pessoal! - E os russos? - Não são burros, devem estar fazendo a mesma coisa, viu algum deles ou ouviu algum tiro nos últimos minutos? O Coronel Borodin conseguira, não sem algum custo, reunir seu pessoal. Os batedores haviam notado e reportado que os brasileiros estavam lutando furiosamente contra alguém, não eram eles, deviam ser os americanos. Óbvia oportunidade para uma evasão. - A sorte não nos abandonou: vamos cair fora! Qual o ponto de exfiltração mais próximo, Kamov? - O barco deslocou para um ponto a umas seis ou sete horas de marcha forçada por onde viemos, deve estar quase lá, senhor. - Então vamos embora, pessoal. Nossa missão está inviabilizada. E os mortos? - Todos os que encontramos foram bem enterrados. Na contagem faltam dois. Temos onze feridos mas dá para levar... - Que se foda, os políticos ganham muito mais do que nós, eles que se virem para explicar se os defuntos forem encontrados. Atenção, coluna por um, mantenham a formação, acelerado! E mantenham os olhos e ouvidos bem abertos, podem haver minas e armadilhas por aí... - Maltez, onde você anda, porra? Estou com uma crise dos diabos aqui e você... - Senhor Presidente, estou bem no meio dela. - Como assim? Que inferno, por que você..? - Eu também não sabia, senhor. Fui apenas dar uma olhada nas novas instalações em Belém, está inclusive na minha agenda para ontem só que o que vi me manteve aqui e vai manter ainda por uns dias, a não ser que o senhor... - Puta merda, cara, o que está acontecendo aí? - Ainda não entendi direito, o Brigadeiro parece ter tomado o freio nos dentes, estão saindo e voltando a toda hora missões não-autorizadas. Parece também que a Brigada de Operações Especiais está inteirinha aqui. Reclamei e ele quis me dar uma desculpa fajuta, então me tranquei com ele em sua sala e disse que só sairíamos dali depois de eu ter ouvido uma explicação convincente. Bom, o homenzinho esperneou, fumou um monte de cigarros mas acabou entregando o jogo... – riu. - Fale de uma vez, homem! – o Presidente não agüentava de ansiedade. - Bem, parece que tudo começou com uma incursão – só para variar o script, não-autorizada – em uma suposta mina de ouro operada por uns alemães. Suspeitava-se que tinham ligações com a Jungle Watch... – fez uma pausa, saboreando o impacto sobre o mandatário. – Bem, despacharam uma companhia de elite do Primeiro BIS para lá. Pouco depois que chegaram, relataram que haviam feito contato com alemães mas eles eram muito mal treinados, não deram nem para a saída. - Como sabiam que eram alemães? E quanto à Jungle Watch, há provas? Expulso eles na hora! – o Presidente tinha a voz trêmula. Temia ouvir algo que o obrigasse a isto. Já podia até ver o líder da oposição esbravejando jubiloso sobre o envolvimento de seu governo com uma ONG predatória. Adeus, reeleição. - Não, os soldados relataram apenas que eram homens brancos com cabelos e olhos claros. Nenhum símbolo ou documento que os ligasse à Jungle Watch. - Prisioneiros? - Não senhor. A soldadesca chegou, os gajos reagiram e foram todos mortos. Na selva é assim, senhor... Contendo a custo um suspiro de alívio, o Presidente tornou a falar: - Você falou que a Brigada de... - Sim senhor, está todo mundo aqui, a Base parece um circo de tanta tenda... - E no comando do Exército aí, quem está? - O Kratos, pessoalmente, quem mais? “Bem, agora ferrou tudo mesmo. Se eu mexer uma palha perco o líder de governo no Senado e ele não ia ficar de boca fechada, a imprensa adoraria crucificar mais um presidente. Não, não posso me meter nisso...” - Maltez, pelo que vejo está feito, os milicos perderam as estribeiras e estão comandando o show. Faça assim, vá apoiando até ter condições de assumir o controle por aí... - É precisamente esta a linha de ação que adotei, senhor. Aos poucos o pessoal já está começando a procurar a minha opinião, o senhor sabe que de política eles entendem pouco, para não dizer nada. Com o tempo vão vir todos bem mansinhos para a minha mão, principalmente se alguém fizer cagada, o que sempre acontece... - Perfeito. Por favor, me mantenha informado. Ah, o Presidente dos EUA... - Ah, ele falou, então? Pois é, esqueci de dizer, há forças americanas e russas por aqui também, estavam brigando feito doidos uns com os outros quando chegamos, o nosso pessoal só estava acompanhando e tirando uma casquinha quando dava. Não parece uma invasão ou algo assim, os próprios milicos nossos reconhecem, a impressão é que eles buscavam o mesmo que nós e nem sonhavam que estávamos chegando. O pessoal da Aeronáutica observou com aqueles aviões-radar e os últimos informes mostram que estão todos recuando, a idéia aqui é não perseguir, há alguma outra força atacando e são fodidos – perdão – em sua capacidade de matar sem serem vistos. - Baixas? - Uma porção, sinto dizer. Os informes ainda são poucos e meio desencontrados mas parece que a coisa lá está feia, há pouco decolaram mais de uma dúzia de transportes levando quase mil homens a mais. Também há mais de meia centena de aeronaves de combate, entre jatos, Tucanos e helicópteros armados na área, isso aqui está uma loucura, é um vai e vem de avião e helicóptero que não acaba mais... - Bem, me informe de qualquer novidade. - Fique tranqüilo, senhor. O Presidente desligou. Sentia-se aterrorizado com as possibilidades. Pelo que entendia, estivera à beira de sofrer um golpe militar. Eles não teriam ousado contrariar tão frontalmente uma ordem presidencial se não estivessem muito bem resguardados. Bem, era uma lição a ser aprendida, nunca afrontar demais a caserna, pois quem tinha as armas eram eles... Washington DC – A Casa Branca - Bem, nem tudo está perdido! – exulta o Secretário de Estado. – no fim das contas até que nos demos bem... “VOCÊ se deu bem, seu filho da puta ganancioso” – pensa o Diretor da CIA – “o pessoal está trazendo um prisioneiro completamente equipado com toda a sua querida e preciosa tecnologia. Sim, você só tem a ganhar agora e pouco está ligando para mais de vinte homens bons que agora estão mortos, enterrados em algum buraco no meio daquela maldita selva. Filho de uma cadela...” O Secretário prosseguiu: - Os chinas enfiaram o rabo entre as pernas e caíram fora, pelo menos foi o que aquela bicha que mandei para lá me disse. Estamos com aquele satélite doido bem firme nas mãos. Nosso pessoal lá no Brasil conseguiu pegar o queríamos que pegassem e está voltando em segurança. Sim, hoje foi um dia maravilhoso, pela graça de Deus! – e esfregava as enormes mãos de contente. - Não é tão simples, Joe. Basta o presidente deles começar a berrar e você terá uns dias bem interessantes pela frente... - E eu dou bola? Ele que diga o que quiser, invento algo, tipo um avião em trânsito caiu, uma patrulha se perdeu, sei lá, ele pode provar que há soldados americanos mortos lá, sim, isso ele pode, agora dizer que estávamos invadindo é meio pesado, se invadíssemos mesmo ele só ia saber quando aquele tal de palácio lá dele lhe caísse por cima da cabeça...- e caiu na gargalhada. O Presidente apenas sacudiu a cabeça. Mas não podia desdenhar de Joe, ele realmente era o cara certo para a função, sabia exatamente quando gracejar e quando falar sério, além de ter um senso lógico impressionante. Apenas suas constantes fanfarronices cansavam um pouco as pessoas... O Coronel Wolfgang corria pelo longo corredor. Ninguém à vista. Um homem em trajes sumários vinha correndo. À frente da tropa, o Coronel Bolovo apontou a arma. Lembrou-se de acionar o zoom do visor e teve um choque: Wolfgang! O que diabos estava fazendo ali? Teria sido aprisionado e estaria tentando a fuga? Muita sorte. Fez sinal para os demais ficarem onde estavam e avançou em direção a ele. A uns dez metros, desligou a invisibilidade. O choque foi grande. Num momento Wolfgang estava num corredor vazio, agora um sinistro homem de negro se materializava diante dele. Nem reduziu o impulso mas projetou-se com todo o seu peso e à máxima velocidade contra ele. Rolaram ambos pelo chão. O Perdigueiro não entendia nada. Ali estava o Ratão fardado, lutando contra o Ratão sem farda alguma. Havia cheiro de traição no ar. Não podia haver DOIS ratões, um era falso. Em um momento reconhecia o fardado, cuja identificação era bem clara no visor. Mas seus olhos reconheciam o Coronel Wolfgang. Um sósia? Podia bem ser. Aqueles demônios eram capazes de tudo. Decidiu. Destravou a arma e apontou para o sem farda. Acionou o primeiro estágio do gatilho, obtendo um suave zumbido. Só mais uma leve pressão e estaria resolvido. Precisavam se separar um pouco para ter um bom alvo. Se não o fizessem atiraria de qualquer modo, traidores têm que morrer e baixas colaterais são aceitáveis, mesmo sendo o próprio Comandante. Então o homem à paisana empurrou o fardado com força usando as duas pernas. Separaram-se. Era o momento. Com as veias repletas de adrenalina, o Perdigueiro deu raivosamente ao gatilho. Sorria, antegozando uma nova morte... - Irmãos, há combate em Germânia. Von Lübeck ergueu levemente uma sobrancelha, sua voz subindo meia oitava: - Como assim? O Reichsführer resolveu botar as unhas de fora? - Não, ele está tão por fora quanto nós. Alguém se infiltrou usando equipamentos e armas nossos... - O prédio de Brasília! - Sim, agora sabemos que alguém, de algum modo e dolosamente, burlou a nossa segurança, entrou, pegou o que quis e ao sair derrubou o prédio. Isso explica muitas coisas que estavam obscuras e nos deixa numa posição de assumir medidas emergenciais... Herr EisenKopf temia as palavras que seriam proferidas a seguir mas sabia que não o seriam por pessoas insensatas. Jamais seria tolo de discordar de homens – no mínimo – tão perspicazes quanto ele. Talvez até mais. Aguardou. Von Lübeck tornou à carga: - Senhores, embora ainda não estejamos inteiramente prontos, vou lançar uma proposta à votação. Proponho também que ninguém deixe esta sala até que tenhamos um veredito unânime: sim ou não. Não preciso dizer que, seja qual o resultado, nenhum ranço ou mágoa deve se instaurar entre nós, somos irmãos! Os outros três sentiam a importância do momento. Sentiam-se também incomodados. Desde o início sabiam que cedo ou tarde aquela decisão seria tomada. A Fênix abriria suas asas em fúria e arrasaria a humanidade. Von Hühn atreveu-se a perguntar: - Irmão, e Germania, a nossa jóia mais preciosa? - Irmão Von EisenKopf? – transferiu a pergunta. - Bem, Germania não é mais a nossa jóia mais preciosa, eu a encaro mais como um celeiro de mentes valiosas. Já há mais de uma década tenho peneirado os arquivos e trazido o supra-sumo para cá, na mini-Germania, digamos assim, que construímos sob a sede do EisenBank. Toda a produção científica de lá vem direto para cá e está sempre à nossa disposição. Mesmo os planos da aeronave e os possíveis aperfeiçoamentos, mesmo a futura versão está sendo desenvolvida aqui, não lá. - Mas os malditos untermenschen vão botar aquelas mãos imundas em tudo, é o que digo. E usarão contra nós. - Não, irmão. Toda a energia de lá é produzida por aquele reator de antimatéria que temos nos subterrâneos. Minúsculas porções de anti-ar são misturadas com ar logo após de passarem no compressor da Grande Turbina, já dentro da câmara de combustão, sob altíssima pressão e temperatura. A explosão é tão violenta que o eixo gira por quase uma hora, suprindo todas as necessidades com folga... - E o que tem isso a haver com...parou. Claro. Cuidadosamente estocada havia uma vasta quantidade de antimatéria, que servia não apenas como combustível mas também para miríades de experiências. Trêmulo, ainda que a contragosto, perguntou aquilo cuja resposta já sabia mas queria, precisava ouvir: - E há cargas de alto-explosivo por todo o depósito, não? - Sim. Podemos acioná-las daqui. Herr EisenKopf tomou a palavra: - Temos os dois únicos arianos nível dez da história lá e já começaram a cruzar. O avião está no mato e quase sem combustível. Devem perecer seres que aguardamos por tanto tempo? Com tanta ansiedade, irmão? - Não necessariamente. Há meu irmão lá também, há sua esposa, há alguns cientistas e técnicos diferenciados... - E como tirá-los de lá? Logo a seguir a idéia surgiu. Esquecera-se completamente do rio subterrâneo. Fora cuidadosamente alterado pelos engenheiros, tornando-se quase uma linha reta entre Germania e um afluente pouquíssimo frequentado do Amazonas. Mais de mil quilômetros pela água. A velocidade, quase cem nós em cruzeiro; com os primeiros cento e vinte quilômetros, onde o rio era plano e largo e ainda com forte corredeira a velocidade chegava quase aos cento e cinqüenta nós. Daria para fazer se agissem rápido mas com discrição. Sim, era uma solução. - Vamos precisar de algum tempo para reunir a todos. Irmão Von Lübeck, sinto dizer que seu irmão pode não querer... - Lamento por ele. – foi a resposta seca do Cavaleiro Teutônico. “Sim, ele aqui seria sempre uma acusação: deveria estar em seu lugar” – Pensou Von Huhn. Mas nada disse e, no fundo, admirava o desprendimento de Von Lübeck. Von EisenKopf foi dar as ordens. As pessoas da lista deveriam estar na Alemanha o mais breve possível. Ante a resposta de que o avião estava indisponível, determinou o barco. O Reichsführer, desconfiado, perguntou: - Devo ir também? - Está louco? Temos uma crise das grandes aí, precisamos de você para resolver. Não quero prisioneiros, descubra e mate todos os traidores envolvidos. Decrete imediatamente Lei Marcial e ponha os Einsatze nas ruas. Desobediência por menor que seja, é matar e seguir em frente! O Reichsführer delirou. Sempre sonhara, mesmo sem esperança alguma, com um momento assim, empolgar o poder total e indiscutível sobre Germania. E era logo aquele idiota do Segundo Führer que lhe punha o bastão nas mãos. Bem, debelaria os tumultos, mataria todos os que se opusessem e, finalmente, assumiria o controle total de Germania. Então algumas coisas mudariam, se a Alemanha quisesse algo, teria de negociar, ordens não mais seriam aceitáveis. Sim, o momento chegara e ele estava ali, pronto para tomar conta de tudo. “Sempre achei que aquele corno era idiota, agora sei que é mesmo...”- riu alto. Então respondeu, sua última resposta abjetamente servil àquele monte de bosta de porco: - Será feito como ordenou, mein Führer! A lista dos que devem partir será escrupulosamente cumprida, estarão todos a bordo em menos de duas horas, tem minha palavra! Sabendo perfeitamente o que o traidor tinha em mente, Herr EisenKopf retrucou, mantendo o tom duro e desdenhoso: - Espero que ao menos desta vez não me desaponte. Estou começando a cansar de você. Veja se faz algo que preste, ao menos uma vez! – e desligou na cara do Reichsführer, que desta vez não se enraiveceu. - Vai aproveitando, filho de uma porca sem raça, em poucos dias você vai estar falando fino comigo, rastejando como uma cadela aos meus pés... – sorriu amplamente com a contemplação de seus sonhos de poder. Após, deu as ordens pertinentes. Alea Jacta Est. - Bem, Irmãos, está feito. Começamos alguma contagem regressiva? - Não será necessário. Quando ele informar que o barco partiu, marcaremos oito horas, depois detonaremos as cargas e liberaremos a antimatéria. A quantidade que há, em minhas teorias, criará a maior montanha de vidro da história... - Pena. Milhões de valiosos arianos mortos em vão... - Não será em vão, Irmão: são inegavelmente arianos puros mas também professam uma ideologia nociva. Quem não se adequar à lei dos Teutônicos, ou seja, a nossa, não terá lugar no novo mundo. Bem, há outras coisas que deverão ser aceleradas. – disse Von EisenKopf. – Irmão Von Huhn? - Poderia estar melhor, mas estou em condições de iniciar minha parte e levá-la até o fim com louvor. - Irmãon Von Lübeck? - Poderia começar agora mesmo. - Calma, irmão, começaremos segundo a cronologia original, apenas adiantada. Indagado, o último Teutônico respondeu do mesmo modo. - Bem, Irmãos, estamos então acertados. Já que não nos é mais possível seguir o cronograma original, vamos antecipar tudo. Haverão perdas que gostaríamos de evitar mas as alternativas que nos restam são todas amargas. Cabe a nós encará-las. Olhou demoradamente para os três homens. Achou interessante encerrar a conversa citando Shakespeare: “E lá vai o velho soldado, a consciência vasta como o inferno”. Apropriado, não? Teria o Bardo sonhado conosco um dia? Ninguém respondeu. Estavam todos absortos no que deveriam fazer e em como fazê-lo. Todos tinham consciência que o mundo jamais seria o mesmo após a Fênix Abrir suas imensas asas sobre a humanidade. Grande parte desta – a esmagadora maioria, na verdade – estava condenada. Ali seu destino fora traçado. Então todos passaram à antiga capela para rezar. Sim, estavam fazendo o trabalho do senhor, finalmente outorgando a terra ao verdadeiro Povo Eleito: os Arianos... Continua na próxima semana.
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