|
Quarta Parte – A Calmaria antes da Tempestade Washington DC – A Casa Branca - Boss, por melhor que estejamos nos saindo, tenho a dizer que o mundo atual está...eu diria...algo inquietante... - Eis aí uma afirmação com a qual posso concordar integralmente – dia o Diretor da CIA. – Há uma inaudita calmaria nos assuntos internacionais e isso nunca prenuncia nada de bom... - Como assim? – pergunta o Presidente. Quase tivemos uma guerra mundial há pouco e vocês vêm me falar em calmaria? - Bem – replica Mr. Pepper – isso foi um caso fortuito, isolado. O que me deixa inquieto é que nunca ouvi falar de terroristas e guerrilheiros recolhidos por tanto tempo em seus campos de treinamento. Temos informes seguros de que chegam constantemente novos recrutas, armas, munições – algumas de última geração – explosivos, grandes quantidades de equipamentos e eles lá, só treinando e recebendo em dia. Os israelenses estão ficando malucos de tão exasperados, nada acontece. Ademais, seus agentes infiltrados estão sendo descobertos e executados um a um. Há cada vez menos vazamentos de informações confiáveis, os melhores informantes que sobreviveram deram no pé e preferem ser presos a voltar. - É, não deixa de ser muito estranho. Já deveriam ter aprontado alguma. Em sua opinião, o que pode estar acontecendo? - Não é só a nossa opinião, os ingleses, franceses, israelenses, sauditas e egípcios pensam igual: algo muito grande está em andamento. Mas há fatores ainda mais intrigantes: o mesmo está se dando na África, de uma hora para outra pararam as matanças, os mais sanguinários ditadores mantêm suas tropas nos quartéis e seus aviões nas bases, os piores e mais cruéis grupos guerrilheiros não se movem para nada, é um surto tão impressionante de paz que basta para apavorar qualquer pessoa que saiba como funcionam as coisas no mundo. Só para ficar na África, e para o senhor ter uma idéia, faz mais de um ano que não houve um único ataque a algum comboio de alimentos e remédios da ONU. As barreiras-relâmpago nas estradas, as cobranças de ‘pedágios’ e propinas pararam de chofre, atualmente é como se nunca tivessem existido. E há mais. Por exemplo, veja esta foto – mostra ao Presidente uma fotografia onde aparecem três negros. Soldados. Fuzis Kalashnikov displicentemente presos pelas bandoleiras. Todos sorriem para a câmera, dentes alvíssimos. Nenhum dos homens sequer toca em sua arma. É como se fossem penduricalhos inúteis... O Diretor da CIA prossegue: - A imprensa está aparvalhada. São muito bem tratados onde quer que vão, e note o senhor que aquilo lá sempre foi um verdadeiro matadouro de jornalistas. A mesmíssima coisa está acontecendo por toda a Ásia, Oriente Médio e América Latina. Nesta as FARC e os MARAS parecem ter simplesmente evaporado, transita-se livremente e sem preocupações por toda parte. OO Rio de Janeiro voltou a ser o paraíso dos turistas, o crime organizado se mantém escrupulosamente em seus morros e favelas, não descem para nada. Parece até que está chovendo dinheiro nas mãos dessa gente... - Ora, isso me parece bom, talvez as ajudas que temos enviado finalmente estejam surtindo efeito... – pondera o mandatário. - Sinto discordar, senhor, mas a mim parece algo bem diferente... - O quê? - A calmaria antes da tempestade. O Judeu sentiu o que o Perdigueiro pretendia fazer. Antes mesmo de ouvir o zumbido que indicava condição de disparo da arma ele já saltava sobre o companheiro, dando-lhe um violento encontrão que o arremessou contra a parede. Os demais apenas assistiam, atônitos. Também haviam percebido que algo estava terrivelmente errado. A verdade era clara como a água: o Perdigueiro havia tentado matar o Coronel Wolfgang. O disparo saiu mas de maneira inofensiva, dispersando sua energia pelo ar e criando apenas uma mossa na parede metálica ao fim do longo corredor. Mas o mais chocante ainda não acontecera. Com fonia aberta, o Perdigueiro gritou: - Traidores! Vou matar todos vocês! – e voltou sua arma indiscriminadamente contra o grupo. Ninguém entendia nada. Coube novamente ao Major Freitas saltar sobre ele: - Ajudem aqui, seus fiadasputas, não tão vendo que o cara tá louco? Saindo do choque, vários saltaram sobre o companheiro ensandecido, evitando cuidadosamente ficar na linha de tiro da arma, pois haviam ouvido novamente o zumbido. Finalmente o imobilizaram. Os dois coronéis em luta corporal não haviam notado o drama que se desenrolava entre os subordinados. Lutavam sua própria batalha. Wolfgang tinha os pés, mãos, joelhos e cotovelos esfolados e doloridos pelos impactos contra a resistente vestimenta envergada por Bolovo, o qual tentava evitar machucar o amigo. Procurava apenas imobilizá-lo mas não era nada simples, o homem era uma fera. Cansado, o Coronel Wolfgang parou por um instante, aguardando o ataque do oponente. Surpreso, viu quando este simplesmente ficou em pé, parado, e tirou a viseira. Logo a seguir, o capacete. - Bolovo! Que diabos está fazendo aqui? – disse, ofegante. - Viemos resgatá-lo, homem! Mas você não me parece muito interessado em cair fora deste lugar maldito... - Puta merda, e como eu ia saber? Você chega parecendo o diabo em pessoa, aparece do nada , o que eu... - Tá, deixa pra lá, vamos tratar de dar no pé daqui. O restante da tropa ainda estava invisível. Pela fonia, o Major Freitas: - Senhor, temos um problema aqui! O imenso Boeing C-17 cruzava o Mar das Antilhas. A bordo quase uma centena de Boinas Verdes, alguns deles feridos, e uma carga muito especial: um homem todo de negro inteiramente amarrado, dos pés até o pescoço. O SS Sturmbahnführer Lang. Seu capacete e viseira haviam sido removidos e guardados numa caixa metálica, junto com sua arma. Aliás, tudo o que pôde ser destacado de seu uniforme efetivamente o foi, sendo depositado junto com os demais equipamentos. Aos poucos foi recobrando a consciência mas evitando cuidadosamente dar sinais disso, mantendo os olhos fechados e respiração regular mas com os ouvidos bem atentos. Nem precisou tentar se mover para perceber que estava completamente imobilizado. Nada podia fazer no momento, concluiu. Deveria aguardar simulando inconsciência até que uma chance de fuga se apresentasse. Tinha a mais absoluta certeza de que ela viria cedo ou tarde e estaria preparado para aproveitá-la. Recordou-se então de como Lindemann fora massacrado com aquelas armas obsoletas. Sim, era muito difícil matar em combate um Waffen bem treinado e completamente equipado, mas não impossível... Especulou então sobre como estariam se saindo as tropas que ainda estavam no TO amazônico. Não haveria qualquer problema operacional causado por sua perda; a partir do momento em que um grupo era fracionado cada unidade passava a agir de modo totalmente independente, apenas seguindo – e a seu modo - instruções genéricas de um comando central. Ou seja, ele, Lang. Estando incapacitado, como aliás estava, cada grupo atuava de acordo com as instruções de seu próprio comandante. Auftragstaktik à enésima potência. Mesmo um Waffen isolado saberia como atuar tendo sempre em mente o objetivo e todas as opções para atingi-lo, agindo como uma unidade de um homem só. Essa filosofia de emprego os tornava ainda mais perigosos que os sofisticados equipamentos que empregavam. Com eles, então, eram praticamente imbatíveis. E isso não era por acaso, levava-se anos para formar um Waffen SS operacional e mais alguns para ele ser considerado apto a integrar uma unidade de elite. E a sua era a melhor de todas. Os brasileiros deviam estar suando sangue diante de adversários tão terríveis. Sentiu vontade de sorrir de orgulho com o pensamento. Mas se conteve: não convinha... O Capitão Domenico seguia cautelosamente à frente de um pelotão reforçado. Observou com alguma irritação que os homens se haviam dispersado um pouco além do que ordenara. Maldisse silenciosamente os Sargentos. Aquilo não estava de acordo com os manuais. Devia ser mantido contato visual ao menos com algum membro de cada GC. Como iria controlar tudo, porra? Também, aqueles malditos índios até podiam ser os tais em se movimentarem furtivamente naquela maldita selva mas não entendiam porcaria nenhuma de táticas. Afinal, por que passara pelo inferno do Curso para Oficiais do CIGS? Deveriam estar cientes de que ele sim, sabia quando, como e o porquê de qualquer procedimento. Os Sargentos também tinham curso mas Sargentos...bah, Sargentos! O que sabiam eles, afinal? Seu mundinho limitava-se ao GC, um punhado de índios feios e de hábitos estranhos. E Sargentos sempre passavam metade da vida reclamando, queriam trocar elementos, enchiam o saco com suas lamúrias de que achavam ter pouco poder de fogo, as rações estavam vencidas, vinham em bloco reclamar quando o pagamento dos homens atrasava, mas que merda, não estavam no Tio ou em São Paulo, cidades repletas de pagadorias e agências bancárias, estavam é no meio do mato, ali tudo tinha que vir de avião ou barco. Gente burra! E dependia de uns merdas assim para poder cumprir sua missão, enfrentar um inimigo que desconhecia por completo. Nos exercícios era bem melhor, sabia-se onde estava a oposição, que material dispunha, que objetivos tinha. Afinal, para que servia a Inteligência? As aeronaves de reconhecimento? E ainda, se algo desse errado, apoio de fogo vindo do céu e das bocas largas dos obuseiros e morteiros nunca falhava. Já ali, naquele maldito inferno verde-escuro, era cada um por si. Pior do que isso, era obrigado a depender de um bando de quase-macacos que nem falar direito sabiam, e isso quando se davam ao trabalho de falar algo. Enquanto resmungava sozinho não notava de modo algum o crescente nervosismo dos homens mais próximos. Dedos crispados, quase encostando nos gatilhos dos PARA-FAL, olhos apertados, nada viam mas sentiam um cheiro estranho, que jamais haviam sentido. Cheiro de morte. Havia alguém bem próximo e aquele Capitão doido insistia em avançar. Instintivamente iam se afastando uns dos outros, tentando complicar a solução de tiro para algum metralhador muito bem oculto, dificultando sua tarefa de abater vários com uma só rajada. Sabiam que alguém tombaria mas os demais, alertas, cobrariam o justo preço no instante mesmo em que soassem os primeiros disparos. Já andavam quase agachados, tudo para complicar ao menos um pouco a vida de quem sentiam que os emboscava. Sim, sabiam que rumavam diretamente para dentro de uma armadilha. E aquele idiota ali na frente, parecendo pensar que estavam numa parada militar ou algo assim... O SS-Rottenführer Krause comandava um pequeno Gruppe composto por ele e outros quatro Waffen. Em seu visor apareciam dezenas de alvos. Pareciam se mover cautelosamente, espalhando-se aos poucos. Admirou seu sendo tático, estavam dificultando um pouco sua tarefa. Mas era apenas um pequeno contratempo. Orientou os homens para que se concentrasse em um grupo cada um, sua esmagadora superioridade tecnológica compensaria a grande desvantagem numérica. Afinal, não podiam ser vistos. Ele próprio já notara quem comandava. Parecia-lhe um tipo qualquer de kamikaze, o homem avançava destacado à frente da tropa, quase ereto, fazendo constantes sinais aos seus subordinados, aparentemente tentado reuni-los mais próximos de si. Além de parecer estar sabotando o trabalho de suas próprias tropas, era como se o homem estivesse andando às cegas pela mata aos gritos de “olhem aqui, inimigos, eu sou o comandante, eu sou o melhor alvo”. O sujeito parecia mesmo querer morrer e Krause decidiu fazer-lhe a vontade. Assestou sua arma calmamente, o retículo sincronizado com seu visor assestado bem no centro da silhueta humana. Seu polegar moveu a tecla de seleção de modo de disparo para ‘S’. Fogo pesado. Imobilizou-se completamente, então premiu o botão de disparo. Um zumbido levíssimo. Na selva, para ouvidos treinados, os sons vão longe e sempre têm algum significado. Mal o perceberam, os homens se colaram ao solo e os fuzis iniciaram sua canção mortífera, dirigidos mais ou menos ao ponto de onde proviera o zumbido. Surpreso, o Capitão Domenico se voltou, já começando a gritar para cessar fogo, não havia dado ordem alguma nem visto ou ouvido nada. Uns cagões ainda por cima, eis o que lhe haviam dado para comandar. Mas não chegou a proferir algum som minimamente inteligível, percebeu apenas uma intensa sensação de calor no seu flanco. Menos de um segundo depois a vida já havia deixado seu corpo... Os homens atiravam genericamente na direção do zumbido. Krause, surpreso, recebeu três impactos quase simultâneos no tórax e abdômen. A flexível armadura se adensou no exato instante em que os sensores perceberam que ela havia sido atingida, onde e com que intensidade. Trataram de preservar a vida do Rottenführer. Aliás, o endurecimento progressivo foi tão rápido que Krause sentiu apenas a força dos projéteis a impulsioná-lo para trás, fazendo-o cair de costas sobre o mato. O Sargento Padilha, que havia estado a poucos metros do falecido Capitão rastejou rápida e cautelosamente até o corpo. Ficou estarrecido, enorme cratera se abrira na linha do abdômen, do seu centro até quase o meio das costas. Ferimento horripilante, lembrava vagamente aquelas fotos que vira de pessoas atingidas por disparos de metralhadoras .50. Mas era diferente, não havia sangue nem pedaços de carne e ossos espalhados em volta do cadáver. Incompreensível: projétil incendiário? Mas onde estavam as chamas e a fumaça? Reanimado quimicamente, Krause se reergueu. Algo abalado pelo violento coice que o lançara de costas contra o solo coberto de selva, logo viu um homem agachado ao lado de sua vítima. Na queda deixara cair a arma. Voltou-se, afastando galhos e tufos de mato para apanhá-la, decidido a abater mais um. O Soldado Vieira (seu verdadeiro nome Tykuna era considerado impronunciável pelo Exército que lhe havia então conferido este ‘nome de guerra’) vira, logo em seguida aos disparos, movimento na mata densa. Mas deveria ter visto um corpo caindo também, da posição e distância em que se encontrava. Não obstante, só a vegetação se movera, como que sob o peso de algo que não podia ser visto. Seu sangue gelou ao recordar das lendas e superstições de sua tribo: um demônio! E demônios não se mata com tiros, devia ter levado vários e mesmo assim, pelos novos movimentos que observava na mata, se reerguia para ceifar mais vidas. Aquele Capitão abestalhado já fora tarde, não sentiria sua falta mas havia vários amigos entre os camaradas de armas, tinha de zelar por eles como o faziam por ele próprio. Lembrou-se então que se usava o fogo para espantar a maioria dos demônios. Então, sem mais conjeturas, sacou o carregador do PARA-FAL, que de qualquer modo já estava quase vazio mesmo e puxou a alavanca do ferrolho, ejetando o cartucho que estava na câmara. Nem prestou atenção ao seu voo, indo perder-se no matagal. Foi tudo extremamente rápido, em mãos tão altamente treinadas. Inseriu um cartucho de projeção no mesmo carregador, que não largara, e recolocou-o na arma. Nem perdeu tempo atarraxando a peça que estreitava a boca do cano do fuzil para aumentar a eficiência do jato de gases superaquecidos. Finalmente, encaixou a granada de bocal no cano. Munição anticarro, boa contra casamatas, produziria provavelmente o efeito que desejava, espantar aquele Anhangá. Aliás, era só o que possuía, teria de servir. Rezando fervorosamente para seus deuses tribais desejando que lhe dessem tempo para disparar antes que o demônio o notasse, viu alguns ramos se moverem mais ou menos à altura do ombro de um homem. Era ali que ele devia estar, tramando nova maldade. Elevada a mira do próprio projétil, calculou apressadamente a distância – anos de prática – e, firmando a coronha do fuzil contra o flanco (no ombro o recuo o incapacitaria dolorosamente de prosseguir no combate) disparou. Um estrondo surdo, violento movimento do fuzil e o longo projétil com a cabeça rombuda de carga moldada iniciou seu voo destruidor, podendo ser visto a olho nu. Parecia uma flecha a Vieira... Krause, a visão ainda meio enevoada, tratava de enquadrar o Sargento Padilha, que começava a se afastar do oficial morto. Notou vagamente algo vindo em sua direção. No instante seguinte tornou a receber um impacto quase no centro do tórax. Mas dessa vez foi diferente. Os sistemas de autoproteção detectaram de imediato o novo golpe, o avaliaram e enrijeceram proporcionalmente a área atingida. Mas não haviam sido projetados para o que viria a seguir. Ao impactar, o detonador interno da carga explosiva, bem à retaguarda da ogiva, foi acionado. Do modo como uma carga moldada é construído, a explosão resultante da percussão do detonador forma um plasma de altíssima temperatura orientado diretamente para a frente, cuja finalidade para o qual foi projetado é derreter as blindagens contra as quais é disparado e arremessar uma massa de calor e metal derretido contra quem estiver por trás dela. Foi mais ou menos o que ocorreu ao desditoso Krause. Mesmo com enrijecimento máximo a armadura foi perfurada como manteiga por uma lança incandescente e por trás dela havia apenas o peito macio do SS-Rottenführer, que morreu instantaneamente. A cessação de seus sinais vitais foi imediatamente transmitida aos líderes dos pequenos Gruppen via data-link. Logo todos ouviam e retransmitiam em fonia: - SS Krause abatido. Baixa fatal. O Soldado Vieira foi rastejando veloz e sinuosamente como uma serpente até o corpo do ‘demônio’. Curiosamente a camuflagem continuava funcionando, exceto nas proximidades do impacto da ‘hollow charge’, onde o intenso calor derretera a resina eletricamente ativada. Então, o que o assustado Soldado viu foi apenas um buraco sangrento em volta de uma espécie de círculo negro, meio queimado, meio derretido, meio chamuscado. Horror dos horrores. Então estavam mesmo lutando contra demônios que nem um corpo identificável como tal possuíam. Tinha de repassar a informação aos demais camaradas, os tiros de fuzil apenas retardavam a ação dos monstros, eram necessários explosivos potentes para matá-los. O mais agachado que podia, correu então em ziguezague para onde sabia estar o grosso da tropa, buscando sempre a proteção de troncos e rochas contra os poderes maléficos daqueles seres horrendos. Um tronco semi-apodrecido fumegou e ardeu uma fração de segundo após Vieira mudar de posição para trás de uma rocha. Que merda mesmo, os demônios queriam vingar seu companheiro... O Perdigueiro estava deitado com as costas contra o piso emborrachado. Dois homens sobre cada um de seus membros e o Judeu montado sobre a barriga, tentando segurar sua cabeça, que se debatia violentamente em todas as direções. A seguir, e tomando o máximo cuidado para evitar de partir seu pescoço na tentativa de conter os movimentos espasmódicos, o Major Freitas passou a tirar-lhe a viseira. Saiu fácil. A primeira coisa que notou foram os olhos injetados de sangue, desmesuradamente abertos, pupilas dilatadas ao máximo. Olhos de louco. Brilhavam de fúria. A seguir foi soltando uma a uma as presilhas do capacete. Então subiu sobre o peito e calçou o pescoço do companheiro com os joelhos, puxando o capacete tão suavemente quanto possível. Custou um pouco mas saiu sem danos ao soldado fora de si. O rosto do Perdigueiro estava quase que inteiramente purpúreo. Grossa baba lhe emanava dos lábios roxos entreabertos num esgar de ódio. Mesmo assim era possível perceber os dentes fortemente cerrados. Não falava nem gritava mais, apenas rugia. Sua força era imensa, amplificada pelos mecanismos de apoio ativo do uniforme. Todos ali dispunham dos mesmos sistemas mas mesmo assim era tarefa hercúlea contê-lo. Os Coronéis Bolovo e Wolfgang se aproximaram: - E essa agora, Wolfgang? Nunca tinha visto nada assim, parece muito de longe com um ataque de epilepsia mas... Wolfgang lembrou-se de uma de suas muitas conversas com o culto e afável SS Steiner: - Bolovo, esse homem foi ferido ou algo assim? Bolovo descreveu em poucas palavras o acontecido no prédio da Jungle Watch, em Brasília: -...e ficou sem metade do pé, mas perfeitamente cauterizado. Insistiu em vir, então o tratamos com morfina e... – o homem contido no solo conseguiu arremessar longe um dos que seguravam sua perna direita, o qual foi bater contra uma parede mais adiante. Outro imediatamente ocupou seu lugar e a luta continuou. - Nunca vi isso, Wolfgang, parece possesso por mil demônios... - O que você sabe sobre esses uniformes? - Li umas coisas num manual deles e aprendi outras na prática, por aí... - Bolovo, creio sei o que aconteceu. Essa roupa tem sistemas ativos de manutenção de vida e lucidez. Enquanto a morfina estava funcionando o sistema considerou que o soldado estava normal e apto para o combate, no que começou a perder o efeito ele interpretou como se ele tivesse sido gravemente ferido. - E..? - E começou a injetar uma mistura de antiinflamatórios e analgésicos concentrados... - Excelente, oras. O que tem isso de mal? Deveríamos é ter algo parecido para as nossas próprias tropas... Wolfgang o olhou de modo penetrante: - Por enquanto eu vou ficar na minha mas não esquecerei de lhe perguntar mais tarde sobre esse ‘deveríamos’... Bolovo entendeu. Wolfgang o conhecia, sabia que era russo e do FSB, claro que estranhava sua presença no comando da mais secreta unidade de elite brasileira. - Isso pode esperar, não? Quanto ao Perdigueiro... - Bem, pelo que entendi não são apenas antiinflamatórios e analgésicos que um ferido recebe. Lembremos que é uma veste específica para combate das Waffen SS. Para essa gente um homem ferido deve continuar a lutar e com maior vigor ainda... Todos os RATOS restantes já se amontoavam sobre o companheiro ensandecido e mesmo assim só a grande custo o mantinham onde estava. Sua força atingia agora níveis inacreditáveis. Rilhava os dentes, trincando e quebrando alguns no processo. Os Coronéis trataram de ajudar,enquanto Wolfgang prosseguia a dar suas informações, sentindo-se fraco como nunca se sentira antes diante de tão estupenda força: - ...então injetam também uma mistura muito potente de estimulantes e euforizantes os quais, associados à cessação quase que imediata da dor do ferimento, induzem um desejo insano de lutar mais e mais. Isso foi... Não conseguiu concluir. O antebraço esquerdo do Perdigueiro se soltou por um momento e o atingiu em cheio nas costelas, derrubando-o. Meio boleado e com alguma falta de ar, segurou-lhe o pulso com ambas as mãos e usando de toda força de que dispunha. Frustrou-se logo: era como uma criança pequena tentando conter o pulso de um homem forte e enfurecido. O Pajé notou e se deslocou mais para a extremidade, falando com sua voz abafada pelo capacete: - Deixa comigo, Ratão, só vai se machucar se insistir... O Coronel Bolovo: - Mas e então, Wolfgang, como se lida com isso? - Teríamos que dispor de algo que eles chamam de Kromatonol ou algo assim, é um sedativo poderosíssimo. Não tenho a menor idéia de onde obter nesse momento ou que dose usar... O Judeu percebeu em seu visor de combate e reportou: - Senhor, tropas se dirigindo para cá. Menos de dois minutos para o contato... - Inferno – exclamou Bolovo – se soltamos esse cara ele nos ataca, se ficamos segurando os caras nos matam aqui mesmo, indefesos. Merda! – pensou por um instante – sinto muito, amigo, é você ou todos nós... Com um empurrão afastou o Judeu e, segurando firmemente a cabeça do Perdigueiro, partiu-lhe o pescoço. O homem continuou estertorando. Os demais voltaram o rosto. - Wolfgang, sabe usar essas coisas? - Sim, me explicaram e deixaram experimentar, mas claro, sem armas carregadas nem baterias... - Bem, tem um minuto. Vamos lá, pessoal, vamos tirar isso do Perdigueiro, o Ratão está de volta e não vai conseguir sair daqui sem isso! A Casa da Montanha - Bem, Irmãos, concluímos todos que a hora é chegada, mesmo que um pouco mais cedo do que prevíamos. Há gente demais interessada em nossas operações, seria apenas questão de tempo nos descobrirem e frustrarem o nosso Grande Plano. É então chegado o Momento Supremo, aquele tão sonhado e anelado por todos nós e os que nos antecederam, o alvorecer da Nova Era, a Era dos Cavaleiros Teutônicos. A Fênix Negra vive em nós e nós a somos. Bem, que ela então abra as suas asas de fogo sobre este mundo corrompido. Que reduza a cinzas e pó toda a ganância e podridão. Que do cataclismo emerja a Raça Pura, os Novos Senhores, que não conhecerão fronteiras nem guerras, disputas religiosas nem ideológicas pois a religião será apenas uma – a nossa – e a ideologia também apenas uma – a nossa! A Lei será a dos velhos e bons costumes que aqueles que envergaram estes trajes e empunharam estas espadas antes de nós falharam em impor por serem humanos demais, falíveis por sua própria natureza. Herr Otto Von Eisenkopf tomou fôlego enquanto observava disfarçadamente o efeito de seu discurso. Os rostos dos demais continuavam imperscrutáveis. Nada fora do normal... - Estamos acima disso! Somos os escolhidos por Deus para trazer a paz, a concórdia e a prosperidade à Sua terra. Então, que se cumpra a Sua vontade! Então ele silenciou. Ninguém falou mais nada. Nenhum aplauso, nenhum apupo, nenhuma pergunta. Refletiram todos por longos minutos, expressões graves, o silêncio sepulcral sublinhando o quão solene era aquele momento para todos. Era uma decisão da qual não se poderia voltar atrás. Após algum tempo, ainda em silêncio, Herr Otto apanhou uma antiqüíssima taça de fino cristal, ricamente trabalhado, e serviu uma dose de um vinho tinto grosso e aromático. Apresentou-a a um dos Cavaleiros: - Irmão Von Huhn, a honra da primeira ação pertence por direito! Von Huhn olhou para a taça. Apanhou-a, mirou por um instante o conteúdo e a esvaziou por completo. Então se ergueu: - Por minha fé em nosso Deus, não falharei convosco, Irmãos! E deixou a sala, dirigindo-se a passos firmes à que abrigava os sistemas de comunicação. Dali podia falar com o mundo todo. Von Eisenkopf não pôde furtar-se a uma analogia bíblica: eles eram os Quatro Cavaleiros do Apocalipse e o que desencadearia a guerra pelo mundo todo estava em seu caminho para cumprir sua missão. Os sofisticados sistemas de comunicação por voz e dados que empregaria seriam a sua trombeta, anunciando o julgamento dos impuros. Quando chegasse a vez dele, Cavaleiro Otto Von Eisenkopf, então tocaria a quarta e última trombeta. Então a Fênix ressurgiria na plenitude de sua terrível glória. Sentiu os olhos úmidos. O sonho de muitas vidas começava a se realizar... E o mundo inteiro ignorava o tremendo horror que implacavelmente se abateria sobre ele. Nada poderia deter aqueles quatro homens. Quatro Cavaleiros Teutônicos. Os Cavaleiros do Apocalipse. Continua na próxima semana.
|