| A Fênix Negra - Capítulo III - Parte IV |
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| Escrito por Túlio Ricardo Moreira | |||
| Seg, 26 de Outubro de 2009 11:14 | |||
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Quarta Parte – Batalha na Selva! O Tenente Revers é chamado por um dos sargentos, que operava o termal: - Senhor, há pontos de emissão da uma às três. Vários. - Não pode ser gente nossa? - Negativo, senhor. Não temos ninguém lá. - Que merda, devem ser os brasileiros... “Porra, e essa agora? Não podemos ser pegos aqui nem recuar, iam achar nosso rastro e nos perseguir. De qualquer maneira teremos de nos render ou combater...” – pensa o oficial. Diz ao sargento: - Aguarde e fique de olho neles. Vou falar com o Coronel. - Pelo jeito estão se olho em nós também, senhor. Pararam e estão assumindo uma formação de combate. Parece com as dos brasileiros, bem aberta, mas é meio esquisito isso... - Como assim? - Não sei, senhor, é mais um palpite, a forma das armas é estranha, parecem AKs e os brasileiros não usam isso, exceto talvez em alguma unidade especial. Além disso não sabia que eles agora estavam usando termal, só assim para nos detectar... - Não desperdice seu tempo com especulações, apenas observe e mantenha o pessoal em alerta. - Difícil, aqui o TCC não está funcionando direito, mal consegui acessar o senhor e alertar o pessoal mais da vanguarda... - Faça o seu melhor, Já volto. - Sim senhor. – disse o sargento, num sussurro, e continuou sua tarefa. Não estava gostando daquilo, já observara brasileiros na selva antes e poderia jurar que não eram eles...
- Coronel Borodin, contato no termal. - Merda mesmo, devem ser os brasileiros. – tomou o visor e observou. Eram muitos pontos. - Como nos acharam? - Sei lá, senhor, nunca soube que... - Pois é, eles sempre desprezaram equipamentos eletrônicos na selva; mudaram, pelo jeito... - Senhor, devemos nós... “Não vou correr desses índios de merda, vamos ver quem é realmente osso duro por aqui.” – pensa o Coronel russo. Sabia que a captura por rendição e o escândalo internacional daí resultante encerrariam prematuramente sua carreira e poderiam mesmo acabar com a própria existência da unidade. - Formação de combate! Vamos ver do que são feitos esses filhos da puta!
A formação brasileira se aproximava pelo sul, indo direto às coordenadas que deveriam atingir. Quase todos de origem indígena, silenciosos e rápidos, avançavam já em formação de combate, mantendo-a mais por instinto do que pela visão/audição. Os que iam à frente apresentavam um constante dilatar/contrair das narinas. Sentiam um cheiro estranho, de homens e objetos estranhos e que representavam perigo. Aliás, cheiro de gente na selva sempre era perigo, haviam aprendido desde meninos...
Os nazistas, liderados por Göertz, não passavam de um pequeno grupo de dezessete engenheiros e técnicos de aviação, mineração e metalurgia, muito pouco preparados ou treinados para operações de combate. Simplesmente não se pensara nisso, que de algum modo pudessem ser algum dia descobertos.
De qualquer modo, o que estava nos monitores não podia ser ignorado ou mesmo atribuído à sorte: três forças do tamanho de companhias reforçadas convergiam exatamente em sua direção. Göertz estava ciente de que todas as imagens estavam sendo enviadas em tempo real a Germania, que certamente enviaria ajuda, mas para eles seria tarde demais. Se os brasileiros sabiam onde era a localização da sua base certamente saberiam como encontrá-los também e eram índios, claro que os matariam a todos de qualquer maneira e isso até seria muita sorte, mil vezes pior seria expor Germania, o que fatalmente aconteceria se algum fosse capturado com vida. Não, o melhor era morrerem todos lutando. Rapidamente concebeu e expôs seu plano simples: avançariam até a entrada sul do vale e, devidamente abrigados, se aferrariam ao terreno e enfrentariam a força que vinha do sul. O que não disse foi que ficaria mais para trás e, se visse algum companheiro se rendendo, imediatamente o fuzilaria pelas costas. Não era de modo algum um covarde, teria seu quinhão do combate e pretendia morrer lutando mas não se podia expor Germania, como SS (o único ali, encarregado da segurança) sabia o que fazer. Já que não se podiam salvar, deviam todos morrer. A esta altura, quando finalmente os brasileiros conseguissem descobrir e abrir a primeira das portas altamente camufladas o avião já estaria voltando cheio de soldados Waffen SS que os massacrariam a todos. Invisíveis e com devastador poder de fogo, não se salvaria nenhum dos malditos índios intrometidos. Depois os Kameraden recolheriam seus corpos e os levariam para Germania. Mesmo morto, voltaria para casa como um autêntico herói alemão e isso não era de se desprezar para a alma romântica de um ariano puro. Talvez até descobrisse que o Valhala realmente existia. Sorriu algo tristemente da idéia e apanhou o velho StG-98, o último fuzil de assalto na configuração tradicional feito em Germania. Pouco poderia fazer além de retardar um pouco o avanço dos malditos brasileiros em direção a uma das maiores fontes de riqueza da Vaterland...
O elegante Airbus A350 XWB da Jungle Watch mal iniciara a travessia do Atlântico rumo à Europa. Apenas dois passageiros a bordo, o SS Reichsführer e o próprio Segundo Führer. Conversam sobre questões relativas à política alemã quando uma das lindas comissárias de bordo se aproxima sorridente e, após pedir perdão pela interrupção, anuncia que há uma chamada de Germania em grau máximo de privacidade para o Reichsführer na cabine dois. Ante o olhar interrogativo de Herr Otto ela diz que é claro que pode transferir para ali a ligação. - Não, obrigado. Estou com sono, vou dormir um pouco em minha cabine pessoal. – ergue-se. - O senhor quer que o acompanhe? – o sorriso dela se alarga e se torna claramente sugestivo, lascivo mesmo. O homem mais poderoso a bordo e sem dúvida um dos mais poderosos do mundo declina da oferta, com ar triste. Sim, deveria dar logo um jeito naquele sujeitinho asqueroso de olhos aguados: entre outras demonstrações de seu mau caráter, providenciara para que todas as comissárias de bordo da Jungle Watch fossem egressas da Escola Especial de Moças e as selecionara uma a uma para o treinamento. Aproveitara para desvirginá-las no processo. Todas logo passavam a agir e pensar como prostitutas. Quase tivera um ataque quando Arianne, então com dezessete anos, manifestara o desejo de fazer parte do Corpo de Comissárias. Sabia bem o quanto a garota era e mesmo gostava de ser rebelde mas relevara, com o natural espanto que alguém com larga experiência de vida sempre sente quando presencia a manifestação entusiasmada de um adolescente por algo que lhe causará tristeza e sofrimento. Acuado, contou a uma escandalizada Condessa para que caminho a jovem pretendia se voltar e não omitiu nada. Poucas semanas depois a jovem, sem nunca mais tocar no assunto dos aviões, manifestara o desejo de ingressar nas SS. Herr Otto aceitou com naturalidade o mal menor. Nas SS em Germania ela somente se corromperia se realmente quisesse, eram muitos controles e mesmo um louco sexopata como o Reichsführer temeria forçar algo com uma subalterna que era ao mesmo tempo a filha dele, Otto Von Eisenkopf, e o único ariano de nível dez já conhecido. Já as outras... Dirigiu-se à cabine, com a enorme cama de casal, onde se deitou. A porta se trancava automaticamente à entrada dele e só abriria se ele assim o quisesse... O Führer tudo sabe, o Führer tudo vê. Os dois monitores diante de Herr Otto transmitiam separadamente as imagens e sons de um e outro lado da linha. No da esquerda se via o rosto odiento do Reichsführer. No da direita o do subcomandante militar de Germania, com ar compungido, explicando que os brasileiros estavam atacando a área de mineração. Volta e meia o rosto do homem desaparecia para dar lugar às imagens dos sensores na área da conflagração. Aquilo era sem dúvida impressionante, primeiro explodiam o prédio principal da Jungle Watch no mundo todo e agora atacavam diretamente a uma das mais importantes áreas de financiamento da Operação Fênix. Mas não havia qualquer sinal de que soubessem de algo, o governo continuava amistoso, quase subserviente: quem estaria fazendo aquilo? Cheirava a algum tipo de traição mas não conseguia atinar com quem poderia estar por trás. O Reichsführer não poderia ser, o mantinha sob estrita observação, sabia que ele estava conspirando, com quem, quais os planos e como pretendia executá-los. Até quem pretendia usar para comandar o ataque à Casa da Montanha era do conhecimento do Segundo Führer e mesmo os meios que empregaria. Não, ele dependia demais do sucesso da Fênix para poder tentar por sua própria traição em movimento, ele não faria nada assim. Quem, então? Desligou os monitores com a conversa ainda em andamento e chamou o comandante do voo, determinando-lhe que mantivesse a rota para a Alemanha e a máxima velocidade de cruzeiro que pudesse manter sem precisar pousar antes de chegar. Precisava reunir-se aos demais Cavaleiros Teutônicos ainda naquela noite e analisar a situação com extremo cuidado. Jamais Os Quatro reunidos não haviam, com seus grandes poderes e riquezas, seus múltiplos contatos pelo mundo todo e suas mentes privilegiadas, achado uma solução para um problema grave e mesmo vital como aquele. Fechou os olhos por alguns minutos, ainda pensando no caso quando foi chamado apenas por fonia. Era o comandante do voo: - Mein Führer, o SS Reichsführer me ordena que altere a rota de volta para o Brasil, já expliquei que a ordem emana do senhor em pessoa mas... Antes mesmo do comandante concluir aparece o rosto do Reichsführer no outro monitor. - Mein Führer, há problemas graves, temos que voltar agora mesmo ao Brasil, eu preciso... - Como ousa você discutir uma ordem minha? Está louco? - Mein Führer, eu disse que... - Não estou interessado no que diabos você disse e muito menos no que pensa! Tenho que estar na Alemanha ainda hoje e estarei! Se quiser, mande reabastecer o avião e volte depois. Agora me deixe dormir, estou mesmo cansado, que inferno. E não ouse tornar a me incomodar! – lembrou-se do olhar de luxúria que o homenzinho desprezível dirigira à jovem comissária quando esta se oferecera a ele. Aproveitou então para a ofensa final: “E diga àquela garota, como é mesmo o nome, Greta...?” - Gerda, Mein Führer...- o Reichsführer buscava meios de se conter. - Isso. Diga a ela para vir aqui agora mesmo! - Jawohl, Mein Führer.
Menos de um minuto depois deixou a porta abrir para dar passagem à jovem. Esta, os lábios convidativamente abertos e úmidos, dirigiu-se lenta e sensualmente a ele: - Deseja minha companhia, Mein Führer? - Sim, preciso dormir e não consigo relaxar... - Deixe então tudo comigo, Mein Führer... – e começou a despir-se com vagar e técnica elogiável. Que stripper o mundo estava perdendo, pensou ele, ainda entristecido com o que um mau elemento podia fazer à alma pura dos alemães. Mas deixou que ela concluísse a demonstração de suas habilidades, revelando por fim um corpo estonteante, maravilhosamente curvilíneo. “Ah, a aerodinâmica...” – pensou sem saber bem por que. Quando ela, totalmente nua, começou a subir na cama, ele disse com simplicidade: - Minha jovem, aprecio sua habilidade e beleza, mas desejo apenas uma massagem... Já sobre a cama, andando de quatro, ondulante como uma felina, ligeiramente de lado para ele, de modo a que pudesse melhor observar seu corpo perfeito, a encantadora Gerda respondeu com um quase sussurro, quase um gemido: - Era exatamente o que eu ia fazer, Mein Führer...é assim que começo... Então, já montada nele, começou a desabotoar-lhe a camisa enquanto movia sensualmente as ancas. Abaixou o rosto sobre o dele e sussurrou ainda mais baixo, umedecendo-lhe o ouvido e os pensamentos: - Prometo-lhe que nunca esquecerá esta massagem, Mein Führer...
Logo que o avião decolou o Coronel Bolovo encostou o rosto a uma das janelas. Estava invisível mas com o visor desligado. Teve a idéia de ligá-lo para ver se conseguia observar algo mais do objetivo que descobrira. Ficou assombrado com o que viu. Lá embaixo haviam inúmeros pontos em movimento, convergindo para a área de mineração. Quem seriam? Ajustou o zoom e foi aumentando até ter uma imagem fugaz de um soldado, aparentemente russo, pelo padrão de camuflagem e pelo fuzil. Mesmo estando o soldado praticamente de costas, o AK-103 era inconfundível. Então haviam mesmo mandado o seu pessoal... Não pôde ver muito mais. A aeronave disparou em velocidade altíssima, que ele constatou apenas porque a vegetação e toda a área se tornou um borrão indistinto. Tudo no interior da cabine estava imóvel, no entanto, como se ela estivesse parada. Que tecnologia... Para o Coronel Bender tudo se tornara uma imensa confusão. Os sensores do TCC se haviam tornado praticamente inoperantes na densa e úmida selva tropical, como ele temia, agora chegava aquele tenente avisando que havia uma formação inimiga, possivelmente brasileira, à frente. Antes mesmo de responder algo ou de fazer uma pergunta, os disparos começaram, seguidos pelos gritos e explosões. - Putaquipariu, quem mandou começarem a atirar? - Senhor, dei ordens claras para apenas observar o inimigo... - Bem, pelo jeito o inimigo não cumpre ordens nossas...
O sargento Johnson notou o leve movimento na densa selva à sua frente. Sabia que não era sua gente. Não podia continuar imóvel, logo seria detectado e atacado. Logo em seguida ouviu disparos à sua esquerda, encolhendo-se instintivamente. Não eram para ele, sentiu, ainda pareciam algo distantes. Mas o baile havia sem dúvida começado. Sacou uma granada de mão do colete tático, puxou o pino, soltou a alavanca percussora e arremessou-a em direção ao ponto onde vira movimento, encolhendo-se mais após. Logo a seguir o violento estouro. Imediatamente trocou de posição, avançando sobre o ponto que atacara. Havia muita fumaça, mas deu para ver mais movimentos à direita do local que atacara. Imediatamente abriu fogo com seu FN-SCAR 5,56mm, não podendo ver se atingira algo ou não. Violentos estrondos por toda parte. Encolheu-se atrás de um enorme tronco de árvore meio caído. Lascas voaram. Sim, agora era com ele. Rastejando, deu a volta pelo outro lado. Ao chegar pôde ver por um instante, pura sorte, um clarão a menos de dez metros, era dali que estavam atirando em full-auto. Pelo ruído, juraria que estava sendo atacado com um AK. Atirou duas rápidas bursts rumo ao alvo e, apesar das explosões, disparos e gritos ao redor, juraria ter visto o movimento de um corpo caindo e ouvido o baque da queda. Imediatamente tornou a mudar de posição, buscando novos alvos. O sargento Grigorov, com dois camaradas lhe dando cobertura, avançava pela mata densa. Engraçado como do alto a selva sempre parecia uma imensa planície. Ali embaixo era muito diferente, sempre se estava subindo ou descendo, o solo era muito desnivelado. Estavam subindo um morrote coberto de selva, com um pouco de sorte acharia no topo algum campo de tiro para seu lança-rojões RShG-2 com ogiva termobárica. Lá chegando, desapontou-se. Apenas mais selva densa, podendo ver aqui e ali indícios de novas subidas e descidas. Que floresta infernal, absolutamente inadequada para uma arma como aquela e com ogiva termobárica ainda por cima. Quem teria sido o idiota que insistira para que fossem trazidas em tal quantidade? Então um dos rapazes deu um grito e começou a atirar, enquanto Grigorov e o outro se plasmavam ao solo. O que atirara imediatamente tratou de trocar de posição, enquanto Grigorov tratava de colocar a tiracolo o lançador e armar seu próprio AK-103. Rastejou bem para o topo mas agora na direção para onde o outro atirara. Forçando a vista, percebeu uma bota e parte de uma perna sobressaindo da vegetação. O rapaz era bom, acertara exatamente como nos treinamentos, instantânea e instintivamente. Sentiu vontade de chegar mais perto e olhar a cara do maldito índio piolhento – odiava aquela raça, lhe lembravam os igualmente malditos mongóis – mas sabia que não seria nada prudente, se havia um, havia outros. Fez sinal aos outros dois: progredir obliquamente para a esquerda...
Os alemães estavam preparados e esperando, todos armados com fuzis e entrincheirados atrás de árvores e pequenas elevações comuns ali, porém sempre podendo ver-se uns aos outros. Göertz estava pouco atrás, dando cobertura, segundo ele próprio. Então um grito. Um dos homens se ergueu, retirando algo do pescoço. Um dos outros se aproximou dele. Soou um disparo e ele caiu. O homem que gritara começou a recuar, caminhando ereto e rápido, como um prussiano em uma parada militar. Göertz quase achou graça daquilo. O homem continuava com algo na mão e vindo em direção a ele. Viu então que sua boca abria e fechava, espumando. Deixara o fuzil cair. Logo a seguir novo disparo. Ruído de um corpo que tombava. Göertz não prestou muita atenção, fascinado com o que via. Então o homem da boca espumejante, ainda muito rígido em seu andar marcial, caiu ao solo, continuando o movimento como um boneco de corda caído. Pouco depois cessou. Como cessou a vida de Göertz quando a mata ganhou vida. Sequer viu a faca, totalmente negra, que lhe cortou a garganta. Nem o rosto moreno, de inexpressivos olhos amendoados, que por um instante observou seu corpo morto e no seguinte não estava mais ali. O batedor buscava novos alvos. Estava tão fácil que nem tinha graça, lhes haviam dito que teriam adversários temíveis pela frente e lhes davam aqueles merdinhas, praticamente uns escoteiros. Infiltrar-se entre eles era brincadeira de criança, faziam tanto barulho o tinham cheiro tão forte de gordura e alguma outra coisa e eram tão desatentos que passar entre eles era quase o mesmo que estar sozinho na selva. Só se o tal ‘inimigo temível’ fossem aqueles que estavam tiroteando mais ao norte. Aliás, tiroteando contra quem? Que soubesse, nenhuma outra tropa brasileira estava ali, apenas eles. Só se haviam mais daqueles homens de cabelos amarelos e olhos claros do outro lado, mas ainda assim, contra quem estavam lutando? Bem, em breve iria saber, pois quando ele e seus companheiros tivessem acabado com aquele grupinho de amadores iriam avançar e ver o que estava acontecendo do outro lado, isso se sabia do treinamento, ninguém precisava dizer...
O Tenente Andersen, paramédico, avançava cuidadosamente com um sargento. Ouviu um impacto num tronco a poucos metros, agachando-se imediatamente e olhando na direção de onde o som viera. Um objeto passou velozmente em seu campo de visão, quicando uma vez no solo. Ele o observou e identificou: uma granada de mão! Foi a última coisa que viu na terra. O sargento não teve melhor sorte.
O Capitão Kurov ergueu lentamente a cabeça de trás do tronco onde se abrigava. Observou agudamente a mata fechada. Um leve movimento numa moita o fez voltar-se para lá e apontar seu fuzil. Mas não chegou a abrir fogo. Sua cabeça foi literalmente desmanchada pelo pesado projétil calibre 7,62mm Match que a atravessou, disparado de uma distância de menos de vinte metros. Um sargento logo atrás dele cerrou o punho e abaixou-se mais, imitado pelos outros mais atrás. “Mais essa agora” – pensou o Sargento Kaminsky. – “Um filho da puta de um Sniper...” Por gestos, ordenou aos homens que se abrissem em leque para tentarem uma manobra em pinça sobre o maldito matador solitário mas sem muita esperança, gente assim não atira e fica onde está. Bem, melhor isto do que dar ao desgraçado um monte de alvos fixos. Todos se movimentando o obrigariam a ter muita cautela e, com sorte, a cometer algum erro...
E o Airbus estava sobre o continente europeu, menos de meia hora para Berlim. O Segundo Führer saiu do banho. Não saiu só. Nem no banho ele fora poupado das deliciosas torturas de fraulein Gerda. Mesmo sem ter podido dormir um instante, sentia-se revigorado. Ela passou a enxugá-lo, lambendo gulosamente cada parte que enxugava com a toalha. Ele queria lhe dizer que bastava, precisava se vestir, logo pousariam e tinha muitas coisas a fazer. Mas simplesmente não conseguia...
Os brasileiros haviam acabado com os alemães, disso tinham certeza. Não havia ninguém vivo ali além deles. O tiroteio e explosões continuavam a vir do norte. Havia um problema: o vale era totalmente despido de vegetação no seu interior e quase reto, arriscariam muito atravessando-o assim, em campo aberto. As encostas, no entanto, tinham muitas árvores e mata densa, e foi por elas que avançaram. Seguiam bem rápido agora, quem quer que estivesse lutando ignorava sua presença por completo, já que nenhum disparo lhes era dirigido. Após passarem o vale, sempre na base de avanços curtos e rápidos e cobertura, retomaram a formação de combate original, só que mais aberta agora: haviam notado que os contendores desconhecidos atiravam por um amplo arco de noroeste a nordeste. Havia que se fazer uma pausa e despachar alguns batedores para silenciosamente descobrirem quem estava lá. Foi o passo seguinte e era o que deveria ser feito. O estranho engenho pousava. Olhando pela janela novamente, o Coronel Bolovo sentiu um frio na espinha. A planície do vale onde desciam era, em todas as fotos e filmes que vira, uma montanha sólida, mas pudera vê-la pelo que realmente era. Mas não fora isso que causara apreensão ao Coronel: próximo a onde parecia que iam pousar, havia cerca de meia centena de homens com armas e uniformes iguais aos seus e não havia onde se esconder, tudo era limpo e plano. Bastaria que apenas um os visse e estariam em desvantagem relativa, já que estavam em menor número mas os homens perfilados estavam com a camuflagem desligada e sem os capacetes e óculos especiais. Diante deles, um louro alto fazia algo como uma preleção.
O Sturmbannführer Lang acabava sua preleção à tropa que comandaria: - Assim, não podemos nem devemos deixar ninguém vivo. Matem a tudo e a todos que lhes cruzarem o caminho. O destino de Germania está em nossas mãos, senhores. Heil Hitler! - Sieg Heil! – foi o coro entusiasmado que obteve em resposta. Via a sombra do avião com a camuflagem desligada que pousava a uns cinqüenta metros atrás de si. Os homens começaram a colocar os capacetes, preparando-se para embarcar. - Calma, senhores. Eles ainda vão ter de recarregar as baterias do avião, para que gastarmos as nossas à toa? Vamos precisar muito delas lá para onde vamos... Voltando-se para o aparelho, comandou uma elegante continência mesmo com as cabeças descobertas quando as portas se abriram e as escadas desceram. E um estupefato Coronel Bolovo desceu por uma delas, seguido pelos RATOS, diante da tropa perfilada e em saudação. O instinto militar quase o fez corresponder. O de sobrevivência, no entanto, o fez olhar em volta e procurar por alguma porta de hangar ou qualquer outro meio por onde pudessem sair daquele lugar arriscadíssimo. Bem, portas haviam várias, apenas duas delas abertas, uma imensa, certamente a do hangar. Outra devia ter sido por onde aqueles soldados haviam saído. Por que continuava aberta? Estariam vindo mais? Seguiu para a do hangar que, aliás, estava mais perto.
O batedor rastejava como uma serpente, moldando-se ao solo. Os cheiros eram muitos, pólvora queimada, explosivo de granada, suor, sangue, gordura, óleo lubrificante de armas. Sentiu que havia alguém nas proximidades. Encolheu-se todo junto a uma rocha, inteiramente misturado à vegetação. Então sentiu um violento impacto em seu ombro. Um homem saltara exatamente para onde ele estava e batera nele. O Sargento William Lopes era brasileiro de São Paulo e entrara para o US Army pelo Green Card e pela possibilidade de estudar. Após dois períodos no matadouro do Afeganistão, onde fora ferido em ambas as ocasiões, tomara gosto pelo Exército. Quando surgiu a oportunidade de ir para Fort Bragg fazer parte dos famosos Boinas Verdes – fora rejeitado para a Força Delta – não pensou duas vezes. Agora estava ali, de volta ao Brasil e, até onde sabia, lutando contra seus próprios compatriotas, mas se sentia americano, não brasileiro. “Quem sai daquela merda lá nunca mais volta” – costumava dizer. Curiosamente, estava ali. Estranha é a vida. Após matar um inimigo que se expusera em demasia – na verdade não tinha certeza, atirara com o SCAR contra parte de um vulto e vira o sujeito cair para o lado, não ia cair nessa de ir ver. Devia estar morto, isso bastava. Viu uma enorme rocha coberta de vegetação logo adiante e imaginou que, mesmo que lhe lançassem granadas ali estaria seguro. Saltou e bateu contra algo que certamente não tinha a consistência de rocha, terra ou vegetação. Era gente. Voltou o rosto ao mesmo tempo em que voltava o fuzil para o sujeito. Bruscamente a arma foi bloqueada em seu movimento circular. Sua cabeça não. Viu o índio ali. Seus olhos frios e repuxados o encararam sem expressão nenhuma. Então, o movimento brusco, a mão do índio ia e voltava de seu corpo. Queria dizer a ele que estava tudo bem, que também era brasileiro, que até lhe cantaria uma música da Legião Urbana se quisesse mas que parasse de fazer aquilo, não que doesse mas lhe causava agonia. Não conseguia dizer nada, não obstante. As primeiras punhaladas lhe perfuraram os pulmões e o índio o esfaqueava incessantemente, parecia a William que ele nunca iria parar, não importava o quanto pedisse. Sentia-se muito cansado e sonolento. Pensou então em cochilar um pouco, depois conversaria com o homem e tudo estaria certo. Ele entenderia então que não podiam ser inimigos, já que eram compatriotas. O sono era cada vez mais pesado e ele achou que se enganara e na verdade amava o Brasil. “Acho que nem vou voltar para os Estados Unidos” – foi seu último pensamento antes de dormir o último sono – “aqui se dorme bem melhor...” E um espantado Coronel Bender achara o primeiro cadáver inimigo. - Mas que porra é essa? Esse cara é russo, tem que ser! Que diabos estão fazendo aqui?
E um igualmente espantado Coronel Borodin achara o primeiro cadáver inimigo. - Mas que vá foder sua mãe! Um americano! Que merda é essa? O que estarão fazendo aqui?
E os batedores haviam voltado. Havia americanos a nordeste e russos a noroeste. Estavam fazendo contato ao norte e lutando uns contra os outros como demônios. Rápida conferência entre os oficiais. Nem precisaria disso, pensavam os praças, o próximo passo era óbvio: montar um dispositivo ligeiramente mais ao norte, manter os batedores à frente e aguardar que o combate amainasse ou que um ou ambos os contendores viessem em sua direção. Imediatamente o dispositivo defensivo passaria a ofensivo e o resto seria com Deus ou Tupã ou fosse lá quem fosse. Eram guerreiros, não sacerdotes.
E a tropa de Waffen SS finalmente embarcava. Os protestos do comandante da aeronave, alegando que era apenas um protótipo e que o costume era examiná-lo detidamente após cada voo para sanar eventuais problemas - como os que apresentara no retorno, já que as baterias haviam consumido energia como se houvesse quase duas toneladas de carga a bordo e não havia carga nem passageiros, haviam voltado vazios – foram sumariamente ignorados. Não havia outro aparelho que pudesse transportar aquela tropa e ela era indispensável nas circunstâncias atuais. Teriam de arriscar. Por Germania! Pelo Führer! Pela Fênix!
Continua na próxima semana...
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Sejam bem-vindo(as). Este Blog apresenta mi-nhas histórias com motivos militares, sempre enfocan-do nossas Forças Armadas, seus integrantes, equipa-mentos, técnicas e táticas em primeiro plano. Túlio Ricardo Moreira, ou simplesmente "Túlio", tem 46 anos, é Agente Peni-tenciário e escritor. É mo-derador do Fórum Defesa Brasil desde 2006 e cola-borador do site desde 2008. |