| A Fênix Negra - Capítulo Final - Parte V |
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| Escrito por Túlio Ricardo Moreira | |||
| Ter, 26 de Janeiro de 2010 12:04 | |||
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Os Cavaleiros do Apocalipse V – O Terceiro Cavaleiro **
** ** A Casa da Montanha Ao lado da Sala das Armas, onde se reúnem os Cavaleiros Teutônicos, há uma outra, bem menor, que vários séculos atrás era um Relicário, mandado construir por um dos primeiros Grão-Mestres. O motivo para a existência da sala era manter as relíquias, ossos de santos, armas ricamente trabalhadas e jóias usadas em combate por outros Cavaleiros precedentes, inspiradoramente próximas de onde os líderes organizavam os Conselhos e se tomavam as decisões. Conta-se aos Aprendizes, a título de anedota e com alguma intenção subjacente de intimidá-los com os horrores já perpetrados por seus antepassados, que ali pelo século quatorze um jovem Aprendiz, futuro Cavaleiro Teutônico, teria seduzido e desonrado a filha donzela de um dos Cavaleiros, Hermann Von Huhn, já prometida ao filho de outro. O pai da infeliz jovem comunicara a desgraça de sua filha ao Grão-Mestre que, por sua vez, reunira o Conselho da Ordem, que à época ainda possuía vários Cavaleiros, mais o queixoso e o pai do Aprendiz. A acusação era grave: traição! O rapaz havia confessado ao pai o que fizera e o porquê. Este expôs francamente o que lhe fora dito. Não tinha grandes esperanças, a falta era demasiado grave. Não se atentava de modo algum contra um Bruder (Irmão) e isso era extensivo a seus familiares, amigos, empregados e mesmo escravos. O honrado Cavaleiro Manfred Von Siebert não tinha ilusões. Seu filho primogênito manchara o nome da família para sempre. Percebia a piedade que os demais já sentiam por ele, seria um pária entre eles, o pai de um monstro luxurioso que atentara contra a própria Ordem. Jamais haveria outro Von Siebert entre os Teutônicos. Como ele próprio não era acusado de nenhuma falta, permaneceria na Ordem mas seria pouco a pouco afastado da esfera decisória e de qualquer comando ou cargo honorífico. Com o tempo, permaneceria no gozo da proteção dos Teutônicos mas seria evitado como um leproso. O Pária, em suma! E isso era demais para o orgulhoso guerreiro. Enquanto os debates prosseguiam, algo monótonos em razão de todos saberem o previsível resultado, pediu licença ao Grão-Mestre e, com os olhos marejados, deixou a sala. A porta do Relicário, por alguma razão, estava entreaberta. Parecia convidá-lo a entrar. Entrou, ajoelhou-se e começou a orar. Pedia perdão pelo que seu filho havia feito e piedade pela alma dele. Em dado momento começou também a pedir piedade por sua própria e perdão pelo que pretendia fazer. Tomara a decisão ali, em presença do Criador e das, para ele, evidentes marcas de Sua presença. Desembainhou uma curta e afiada adaga e, sem hesitar um instante, rasgou a própria garganta, seu sangue jorrando sobre as relíquias. Em seus últimos momentos de vida ainda conseguiu se afastar o suficiente para não desabar por sobre elas, caindo para o lado, contra a parede. Mais de um hora depois o veredito estava dado mas se fazia necessária a presença do pai do Criminoso para recebê-lo. Um dos Cavaleiros se prontificou a chamá-lo, devia estar rezando na Capela, um andar abaixo. O Grão-Mestre, grande amigo de Von Siebert, já temia por algo. O valoroso guerreiro não se conformaria à vida de sutil desonra e silenciosa tristeza que teria pela frente. Esperava convencê-lo mais tarde a ingressar em um mosteiro, onde o homem que amava como verdadeiro irmão de sangue terminaria encontrando a paz na oração e recolhimento e ainda ao menos poderia visitá-lo algumas vezes. Era um grande amigo e um valioso conselheiro. Maldito garoto inconsequente... Não ficou muito surpreso com o retorno quase imediato do Cavaleiro, olhos arregalados: - Ai de nós, aconteceu uma desgraça! O Relicário é agora maldito! A Morte entrou nele! E se persignou, trêmulo e ofegante. Todos o imitaram, olhos inundados de horror. Exceto os do Grão-Mestre. Estes brilhavam de dor. E ódio. Por ordem do Grão-Mestre, as relíquias foram todas removidas. Algumas ficaram num armário na própria Sala de Armas. Outras foram removidas para a Capela. O Relicário estava vazio. Era uma peça com uns quinze metros quadrados e sem janelas, apenas a grande porta de carvalho grosso reforçada por barras de ferro. O jovem Criminoso foi então trazido à presença da Assembléia. Um dos Irmãos relatou a gravidade de seu crime. Declarou maldito o seu nome, a partir dali e pelos séculos vindouros. Mas nada falou da sentença. Apenas disse, a guisa de conclusão: - O nosso amado Hochmeister (Grão-Mestre) se encarregará pessoalmente de tua punição. Que o nosso Deus tenha piedade de tua alma pecadora. Então os demais Cavaleiros do Conselho foram deixando a Sala das Armas, restando apenas o jovem, com as mãos amarradas às costas, e o Grão-Mestre, sentado, a fitá-lo intensamente. Nada dizia. Então, ergueu-se e tirou da cintura uma pequena adaga. - Reconheces isto? - Sim, amado Mestre. É de meu pai. - Não mais. Aproximou-se, agarrou um dos ombros do rapaz e o fez voltar-se. Cortou as cordas que o mantinham atado. - Anda. O antigo Relicário onde teu pai tirou a própria vida em desagravo da vergonha que sobre ele lançaste será agora a tua morada. Lá expiarás tuas culpas, que não são poucas. O jovem então foi conduzido pessoalmente pelo líder até lá. Este mandou que se despisse. Recolheu o hábito de Aprendiz e o jogou para fora da sala. Sentenciou então: - Aqui ficarás privado dos nossos alimentos e do repouso para o teu corpo, exceto se como o animal que pareces ser te resignares a dormir no pó onde rastejam as serpentes. Apenas água te será dada. E a cada vez que te apanhar repousando te cortarei a carne com esta adaga e outras coisas farei, em honra à alma perdida por suicídio de um bom e honrado amigo que teve a infelicidade de criar um monstro. O jovem nu caiu de joelhos. - Piedade! Matai-me agora, Mestre, eu o mereço! O que aconteceu então foi totalmente inesperado. Com um movimento rápido, o Grão-Mestre agarrou a mão esquerda do jovem e, com a afiada arma, amputou-lhe o dedo mínimo. O rapaz, sem esperar pelo ataque, apenas urrou de dor e susto. Sem mais palavras, o líder deixou a sala, trancando-a por fora e com o dedo do rapaz ainda na mão, gotejando sangue. O jovem gritava, aos prantos: - Perdão, Mestre. Perdoai-me. Matai-me agora.
Na manhã seguinte o Grão-Mestre, com um balde d’água na mão, destrancou e entrou na sala. O jovem estava a um canto, sentado. Dormitava. Os lábios começavam a gretar pela sede. Lançou o conteúdo do balde em seu rosto. Ele acordou. - Esta água era para beberes. A desperdiçaste dormindo. Agora irás lamber o que puderes porque só amanhã voltarei.
Voltou na tarde seguinte. O rapaz novamente dormia. Repetiu-se a cena. Com a diferença que ele imediatamente começou a lamber-se. A seguir, passou a lamber o chão irregular, buscando avidamente pequenas poças. Pisando-lhe na mão direita, o guerreiro amputou-lhe outro dedo mínimo com a adaga.
Na manhã seguinte abriu a porta. O rapaz estava acordado. Estendeu as mão mutiladas para o balde. - Não! Te arrastes até aqui e bebas como o animal que és. O jovem enfiou o rosto no balde e bebeu com sofreguidão. Após se saciar: - A fome me devora, Mestre. Por caridade, apenas um pedaço de pão ou de carne. - Jamais terás pão novamente. Mas há carne para ti... Sacou da algibeira os dois dedos amputados, já iniciada a putrefação. Lançou-os suavemente no rosto do Criminoso: - Eis o único alimento que terás. Dá graças ao demônio que te guia os passos. Voltou-se e saiu.
Durante o dia o rapaz gritava e lançava-se contra a porta. Queria sair, queria alimentar-se, queria água. Os outros Cavaleiros, algo incomodados com a inaudita crueldade do Grão-Mestre, tratavam de se manter afastados da Sala das Armas, onde ele já passava praticamente o tempo todo, delegando cada vez mais funções aos demais. Ao invés de gerar revolta, aquele comportamento o tornava terrível e maravilhoso a eles, e o temiam. E o amavam cada vez mais. Eram guerreiros ferozes e cruéis e admiravam aquele que demonstrava ser o mais feroz e inumanamente cruel dentre eles. Mas fugiam de sua companhia...
Ele abriu a sala. Mais de uma semana agora. O jovem estava prostrado, já meio cego pela constante permanência nas trevas da sala sem janelas. Enfiou o rosto no balde e bebeu. Murmurou “comida”. Ouviu apenas o silêncio, depois o som do aço deixando uma bainha de couro. Não hesitou. Estendeu a mão esquerda para a frente. - Todos, por caridade.
No quadragésimo nono dia o Grão-Mestre abriu a porta. O rapaz estava morto. Chamou os criados e mandou recolherem o corpo esquelético. Um deles vomitou e foi expulso a pontapés. O que os demais tiraram da sala tinha pouco a haver com um ser humano. Não havia mãos, pés, lábios, orelhas, pálpebras, nariz. E se podia ver marcas de onde pedaços dos braços e pernas haviam sido arrancados a mordidas. O cabelo e barba haviam crescido e ficado totalmente desgrenhados. - Juraria que é um Troll – murmurou, estremecendo de horror, um dos criados para o outro. - Calai-vos! Lançai este rebotalho parricida na floresta, onde os outros lobos lhe darão fim aos restos que não pôde devorar ele mesmo. Ide agora! Depois limpai cuidadosamente esta sala e a deixai trancada.
O Grão-Mestre Torwald Von Eisenkopf voltou à Sala das Armas. Sentou-se e sacou a pequena adaga. Sorriu suavemente. Seu amigo estava vingado. Bem vingado... ** ** ** Na Sala Vazia, como passara a ser chamada com o tempo, os Teutônicos haviam instalado equipamentos de comunicações em época imediatamente anterior à Primeira Guerra Mundial. A memória dos feitos horrendos de Herr Torwald fora se esvaindo e vivia agora apenas em um conto resumido, usado para atemorizar os Aprendizes e incutir-lhes alguma noção de quem e o quê eram os que os haviam antecedido. A Sala Vazia acabara por ser conhecida como Sala de Comunicações. Era interessante à Ordem que ficasse bem ao lado de onde se reuniam os líderes. Quando se está decidindo é da maior conveniência que se tenha as informações mais exatas e recentes bem ao alcance... ** ** Neste momento um descendente direto de Herr Torwald está ali. Também leva o título de Hochmeister. Há um enorme monitor à sua frente. O único móvel do aposento é uma poltrona medieval, grande e desconfortável. Herr Otto medita, após longa consulta às informações disponíveis. **O fato é que o Primeiro Cavaleiro havia efetivamente causado um imenso estrago, fraturando duramente as cadeias de comando e organização do mundo inteiro, ao provocar violência e guerras por toda parte e ao mesmo tempo. Após o curto período de tempo necessário para que a situação de caos de firmasse e as forças legalistas começassem a se organizar para o contra-ataque, um golpe ainda mais duro: a peste. Isso literalmente arrasou com qualquer possibilidade de recuperação, ao menos em período de tempo que fosse suficiente para obstar-lhe os planos. Agora o Terceiro Cavaleiro tocara sua trombeta. E era tão terrível quanto as duas que a haviam precedido, ou mesmo pior... **Von Regensdorf, ao longo dos anos, havia tomado o controle, direta ou indiretamente, da vasta maioria dos recursos alimentares da terra. Depósitos, silos, fazendas, grandes redes de supermercados, moinhos de cereais, empresas de beneficiamento de alimentos. Quando começou nenhum deles tinha uma idéia exata de como empregar isso em benefício da Fênix mas confiavam na tecnologia de Germania. E foi precisamente de lá que veio a resposta. Para gáudio de Von Lübeck, fora justamente seu irmão, o Doktor-Professor que, reunindo os dados de uma experiência sua sobre as características dos vírus e as de outro cientista sobre um fungo particularmente daninho às plantações, pela voracidade e velocidade de reprodução que demonstrava, considerou que tinha diante de si um produto comercializável pelas empresas da Fênix na Alemanha. Seria relativamente fácil, com a sofisticada engenharia genética disponível, combinar as características dos dois organismos e criar um híbrido que poderia ser quimicamente induzido a alimentar-se apenas de determinados tipos de vegetais, destruindo-os no processo. Relatara isso a Von Eisenkopf em uma de suas visitas a Germania como Segundo Führer, acrescentando a sugestão de que poderia ser um produto comercialmente imbatível para combater ervas daninhas em jardins e plantações sem prejudicar os vegetais que interessavam. Havia outros usos possíveis, como atacar plantações de drogas em florestas ou próximas a elas sem danificar um único arbusto nativo. Bastaria uma simples fumigação. Com um embrião de idéia começando a se formar em sua mente, Herr Otto indagara de modo casual se isso não poderia ser feito também com animais. Por exemplo, os carrapatos que atacavam o gado. A resposta o agradara imensamente. Pedira então ao Doktor-Professor que criasse um grupo de trabalho para isso e o supervisionasse. Depois de concluído o estudo, todo o material deveria ser passado aos laboratórios instalados no que eles, de modo bem humorado, se referiam como a ‘mini-Germania’, localizados e distribuídos por dezenas de andares sob o cofre principal subterrâneo do Eisenbank, em Berlim. Lá os produtos finais seriam desenvolvidos, patenteados e comercializados. Isso fora o que dissera ao cientista, pois subitamente se dera conta do que fora colocado diante de si: a Terceira Trombeta. A fome... ** O desenvolvimento fora rápido e fácil, em poucos meses o resultado dos estudos estava em Berlim. Os cientistas de lá então fizeram as modificações necessárias e os devidos testes de validação. O resultado era uma devastadora arma biológica. Os seres eram inicialmente cristais em escala nanométrica, ao estilo dos vírus, só que ainda bem menos detectáveis. Durante algum tempo permanecera insolúvel a questão de como ativá-los todos ao mesmo tempo e não da maneira quase aleatória dos vírus comuns. Como os dados das pesquisas eram todos abertos na rede interna do Kraut, alguém notou o método usado nos nanorrobôs e resolveu experimentar. Em menos de uma semana, o último obstáculo caíra. Seria usado um comprimento mais longo de onda e uma freqüência diferente, de modo a não haver confusão no momento da ativação e também para que os minúsculos organismos não fossem prejudicados pelas irradiações normalmente usadas na preservação de alimentos e que, aliás, também haviam sido produtos originalmente de Germania. Por fim, também foram criadas uma onda e uma freqüência específicas para desativar permanentemente, ou seja, matar os vírus antes de eclodirem como fungos. Isso devia ser feito para que as milhares de pequenas Germanias, onde se seguia a doutrina da Fênix e não a dos nazistas, espalhadas pelo mundo todo não passassem pelo mesmo drama. Isso tomara tempo a Von Regensburg, que antes tivera de avisar em rede mundial para que utilizassem os emissores de ondas em suas criações, plantações e alimentos estocados. Depois tivera de esperar até todos relatarem que estavam prontos. Então sim, liberara o sinal. ** ** Pelo mundo todo os rebanhos e plantações começaram a morrer. Apodreciam ainda vivos. O cheiro era insuportável no campo. Nas cidades não estava melhor, pois além do alto percentual de mortos, feridos e doentes pela guerra e pela peste, um novo horror chegava... ** ** ** Monique chamara as crianças para a escola. Com a peste, que lhes levara o pai e a ela o marido, bem como muitos outros da vizinhança, as aulas eram bastante improvisadas, mas era melhor isso do que nada. Sabia que teria de repetir o chamado, à medida que cresciam elas pareciam se tornar mais e mais preguiçosas. Antes, quando estudar ainda era novidade, elas é que a pressionavam para liberá-las logo porque tinham pressa em ir ter com os novos amiguinhos, agora faziam corpo mole, inventavam doenças e desculpas para não irem. Ultimamente tinham começado um novo boicote, atrasavam-se de propósito para o desjejum. Gritou-lhes para que se apressassem enquanto tratava de adiantar a sua parte. Apanhou a caixa de flocos de milho açucarados e despejou nas tigelas. Estranhou um pouco o cheiro mas, na azáfama em que estava, não prestou atenção. Apanhou a caixa de leite, abriu a tampa de plástico e despejou sobre os flocos, que agora, prestando atenção, lhe pareciam ter uma coloração algo estranha. O leite jorrou de modo nada natural, parecia uma porção de bolotas esverdeadas misturadas com uma água de aparência oleosa. E o cheiro era nauseante. Só faltava essa, leite estragado logo de manhã, isso prenunciava um dia daqueles... Irritadíssima, Monique apanhou outra caixa de leite. Desta vez olhou a data de validade. Perfeito, podia ficar até meses ainda estocada. Colocou-a sobre a mesa sem abrir, enquanto apanhava as tigelas e as lançava com seu fétido conteúdo na lixeira do lado de fora. Vedou-a bem. Abriu as janelas para que o ar frio levasse embora aquele aroma de podridão. Ao normalizar o ambiente, tendo também se utilizado de um spray aromático, notou que as crianças haviam finalmente descido de seus quartos e ali estavam, famintas como todas as crianças pela manhã. - Até que enfim. Vão chegar atrasadas, meninas. Sentem-se que a mamãe já vai servir o cereal. Apanhou a caixa. Ao tornar a abri-la o cheiro veio de dentro. Atingiu suas narinas com a sutileza de um murro. Horrível. Rasgou a parte de cima e olhou. Onde havia flocos agora se podia ver apenas uma massa gosmenta e malcheirosa. Agora realmente irritada, Monique enfiou aquilo num saco plástico e amarrou a ponta. O saquinho começou a inflar lentamente. Os fungos, alimentando-se e se reproduzindo em velocidade alucinante, produziam muitos gases no processo, o que gerava o mau cheiro. Monique sentia o volume inflando em sua mão. Correu para a lixeira e a abriu para lançar o pacote antes que estourasse e a cobrisse com aquele fedor. Não suportou o que veio de lá, voltando-se para o lado e vomitando. Jamais sentira algo tão nojento em suas narinas. As meninas estavam à porta: - Que cheiro ruim, mamãe! - Calem a boca e vão sentar! Monique mal conseguia se controlar, chorava alto e sentia a cabeça rodando. O que estava acontecendo? Contendo-se a custo, enxugou a boca e os olhos no avental de cozinha e apanhou outra caixa de cereais. Sequer a abriu, ao invés do alegre chocalhar dos flocos secos sentiu-a pesada e mole. Não a abriria nem para salvar sua vida. Sabia o que continha. Experimentou as outras duas. Mesmo resultado. Atônita, decidiu apanhar algo na geladeira com a idéia de improvisar uma refeição matinal para as meninas com o que tivesse. Abriu a porta branca e, um segundo antes de desmaiar, viu o que havia em seu interior. As crianças gritaram de terror ao verem a mãe caindo ao solo duro da cozinha. Passaram logo a tossir, aterradas com o cheiro de podridão que vinha de dentro da geladeira. Cobrindo o narizinho, a pequena e curiosa Annette foi ver o que havia lá que fedia tanto. Diante de seus olhos infantis a cena apareceu. Carne, vegetais, doces, ovos, tudo estava disforme, apodrecido, desfazendo-se e escorrendo por entre as prateleiras gradeadas. Então seguiu o exemplo da irmã, abraçando-se à mãe desfalecida e chorando. Os pequenos estômagos começavam a roncar de fome... ** ** O velho Rosenblatt não conseguia acreditar. Tinha o que ele mesmo alegava ser o maior e melhor açougue de Tel Aviv, o que não era nenhuma mentira. E tudo rigorosamente kosher. Supervisionava em pessoa os abates e efetuava ele mesmo o corte da carne junto com seus empregados. Pois agora um surpreso Rosenblatt não conseguia sequer chegar perto de seu negócio, tal a fedentina de carne podre. Quando criança estivera em Dachau, tendo sobrevivido apenas por sua sorte e pernas ligeiras. Décadas de análise o haviam feito pôr de lado, em algum canto escuro de suas memórias, ao menos um pouco, o cheiro horrendo de cadáveres apodrecendo. Pior, de pessoas apodrecendo ainda em vida. Então ouviu um triste e fraco mugido vindo da área onde ficavam os animais destinados ao abate. E lá estava o bom e velho Rosenblatt, definitivamente de volta a Dachau. Mas sua mente não voltaria mais de lá... ** ** ** Zeferino estava contente. O dono da churrascaria realmente parecia apreciar seu trabalho de assador e lhe acenara com um aumento de salário já no final daquele mês. Não era nenhuma fortuna mas...bem, dinheiro é sempre bom. Ademais, gastava pouco, não jantava nem almoçava, alimentava-se com as aparas de carne que volta e meia tirava para ver se já estava no ponto de ser servida aos clientes e, além disso, um pouco de feijão, arroz, polenta, massa e salada sempre sobravam na cozinha. Assobiando, verificava os espetos com o zelo e a calma competência de um experiente guarda de trânsito. Cortou uma lasca de picanha ainda meio crua, bateu fora o excesso de sal grosso e comeu deliciado a carne macia e suculenta. Nunca entenderia qual a graça que alguém poderia achar em picanha bem passada, tinha que se segurar para não rir quando, indo ao banheiro, via algum daqueles engravatados da classe média cortando a carne em pedaços pequenos e mastigando feito chiclete. Tinha vontade de dizer que isso era uma verdadeira heresia aos costumes gaúchos, picanha só presta se for mal passada, sangrando. Mas vá explicar isso àqueles apaulistados grã-finos, teriam um acesso de nervos só de ver um filete de sangue escorrendo da carne. Bichas... Então, percebeu de súbito um leve odor estranho. Nada que devesse esperar em uma churrasqueira. Cortou outra lasca distraidamente enquanto tentava localizar o que seria. Colocou na boca e, com apenas uma mascada, engoliu. Extremamente macia. A carne já descera ao estômago quando a informação das papilas gustativas foi finalmente assimilada pela mente. - Putaquipariu, carne podre! Merda! Apanhou uma garrafa de ‘canha’ forte que sempre mantinha nas proximidades e tomou um largo gole. Isso mataria qualquer germe. Por precaução, tomou outro, maior ainda. Tossiu, engasgado. Deu-se então conta que agora havia um cheiro intenso de carne podre no ar. Envergonhou-se, se o dono da churrascaria aparecesse nesse momento ia ser feio de explicar, numa churrascaria de primeira – e aquela o era - um dos deveres do assador é escolher a carne que vai aos espetos. De algum modo escolhera assar carne estragada. Não conseguia acreditar. Logo a seguir, de inopino, um forte arroto subiu por sua garganta. No exato momento seguinte esqueceu tudo, seu estômago era uma fonte inexaurível de dor, parecia estar tentando forçar caminho para fora do corpo. Caiu ao chão, contorcendo-se em espasmos. Queria gritar por socorro mas arrotava quase que sem parar. Não ouviu os gritos que vinham da cozinha e das mesas. Nem sequer notou que a carne agora inteiramente putrefata começava a desabar dos espetos sobre o braseiro ardente... A picanha que descera por sua garganta já em avançado processo de putrefação acomodou-se em seu estômago, junto a outros pedaços semi-digeridos. Percebendo novas fontes de alimentos, os fungos passaram para elas, reproduzindo-se em sua normal alta velocidade. Seu ritmo de ação não podia de modo algum ser acompanhado pelo suco gástrico e enzimas que tentavam digerir a carne. Gases subiam sem parar do estômago e geravam os incessantes arrotos. Mas havia um inconveniente pior: a alimentação e reprodução dos fungos não gerava apenas gases mas também vários outros subprodutos, diversos deles extremamente tóxicos. Breve estariam em sua corrente sanguínea. A cachaça, de alto teor alcoólico, fez a diferença. Os fungos, como aliás praticamente todos os organismos microscópicos, têm pouca ou mesmo nenhuma tolerância ao álcool. Começaram a morrer em proporção muito maior do que conseguiam se reproduzir. Sem saber disso, e ainda se contorcendo de dor, Zeferino estendeu a mão para a garrafa e bebeu com avidez. “Se tenho mesmo que morrer, quero ir para o inferno de cara cheia, já vou chegar dando um coice na bunda do diabo, ah se vou”. Arrotou novamente. Já não havia tanta dor, a bebida lhe espalhava agora um calor agradável pelo corpo, uma malemolência gostosa. Conseguiu sentar-se. Arrotou forte novamente mas dessa vez deu uma risada, falando alto para si mesmo: - Cara, não é mole, ó eu aqui, sentado no chão, bêbado no trabalho. É hoje que eu tomo um pé na bunda, que merda, até que era um emprego legal. E estou com um bafo que parece que comi merda... Não conseguiu prosseguir, forte e dolorosa contração estomacal precedeu uma violenta golfada de vômito. Ainda com os olhos fechados e sentado no chão com as pernas abertas, bebeu novo gole. Então abriu os olhos e viu o que pusera para fora: - Cara, não é que eu comi merda mesmo? E caiu na risada. ** ** ** Sede do Eisenbank, Berlim. Sala do Presidente.Rudolph Eisenkopf, diante do afastamento do pai, exercia interinamente a presidência, como diversas vezes já fizera. Sabia de todos os detalhes – ou quase – da partida que estava em andamento. A fúria da Fênix se desencadeara sobre a humanidade. Acompanhava os acontecimentos pelo grande monitor instalado diante de sua mesa – a de Herr Otto, na verdade – e informava ao pai sempre que julgava que este deveria prestar atenção a determinado fato. Por exemplo, o Kraut captara e decodificara imagens de um satélite militar russo que passava sobre Germania. Salvara as fotos do desastre e as mandara a Herr Otto. Sim, era fato que Germania não mais existia, apenas um gigantesco lago estava lá agora, em lugar do belo vale e das altas montanhas. Havia um ponto em que a profundidade ultrapassava a das fossas abissais. Algum dia iria figurar em um livro ou site dedicado a recordes mas a razão de sua existência permaneceria oculta. Há muitas coisas sob o céu cujas razões é melhor que as pessoas desconheçam. Então, um bip no monitor chamou a atenção de Rudy. Quando compreendeu o que era, seu sangue gelou: Kurt! Vivo! Buscou os detalhes. O sinal fora emitido da Flórida, EUA. Dava-o como gravemente ferido. Mas vivo. - Meu Deus, Kurt! – suas mãos suavam e tremiam. As últimas informações que tinha sobre o amigo o davam como morto em combate. Acompanhara pela rede quando ele partira de Germania no comando de uma missão praticamente suicida contra os brasileiros que invadiam instalações de mineração. Aquele era o verdadeiro Kurt, corajoso até os limites da insensatez. Depois gemera baixinho quando ele fora atingido na cabeça por aquele maldito tocaieiro. Mas nada de grave. Finalmente, a explosão. Vira pela câmera instalada no capacete de Lang quando os covardes inimigos haviam massacrado o outro pobre Waffen, Lindemann. Era como ver pelos olhos de Kurt. Como ele devia ter sofrido ao assistir aquilo. E a seguir aqueles homens avançando sobre ele, sobre Kurt, o seu amado Kurt. E então os sinais vitais haviam desaparecido. Chorara e arremessara objetos longe. Terminara se embebedando. Dias haviam passado mas a dor não. E agora ele estava ali, ferido. Precisando de socorro. Pelo próprio monitor, chamou o hangar onde ficava baseado o Airbus A350 XWB da Jungle Watch: - Quero o avião pronto e abastecido para partir para os Estados Unidos a qualquer momento. Esperou a resposta afirmativa que veio sem demora. Era tradição que aquela aeronave e uma tripulação completa estivessem sempre de prontidão, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. A seguir fez contato com a ala científica, dezenas de andares abaixo: - Preciso de uma equipe médica de emergência, os melhores disponíveis. Vou passar os dados do problema agora para o seu terminal. Quero que sejam transportados com todo o equipamento necessário para o aeroporto tão logo estejam prontos. ** ** **O SS Sturmbahnführer Kurt Lang era um homem de ação. Percorrera quase todo o aeroporto em busca de alguém que pudesse obrigar a abastecer e voar um dos vários jatos abandonados nos hangares. Mas quase todo mundo estava morto ou doente, sem condições de fazer nada. Pensou então no estacionamento. Podia apanhar um daqueles milhares de veículos e seguir adiante, mesmo que sem destino, a idéia era achar algum lugar de onde pudesse se comunicar com Germania ou algum de seus agentes para poder obter transporte de volta ou para a Alemanha. Então, a voz em inglês: - Quem é você? Voltou-se. Espantado, percebeu que era o piloto que salvara. O homem estava ali, em pé, meio pálido mas serviria. Sorriu dentro do capacete enquanto respondia no mesmo idioma: - Sou seu passageiro, amigo, e estou com pressa... ** ** **Anna Von Eisenkopf, aka Von Huhn, esposa de Rudy, estava feliz e sabia que ele ficaria também. Embora fosse um marido pouco presente e parecendo quase que totalmente desinteressado em sexo, tratando o assunto como mera necessidade fisiológica e reprodutiva, era um homem gentil e generoso. Havia maridos bem piores, diziam suas poucas amigas. Mas não deixava de ficar espantada com a frieza sexual dele, e logo com ela, ex-aluna da Escola Especial de Moças. Via que todas as técnicas sofisticadas com que o tentava eram mais suportadas com estoicismo do que apreciadas. Sabia que não era particularmente bela de rosto ou corpo mas também não era nenhuma horrorosa e conhecia todos os truques com perfumes e maquiagem. Bem, talvez com essa notícia ele se animasse um pouco... Apanhou o telefone e ligou para o seu número privativo. Ele atendeu: - Querida? Tudo bem com você? Algo que eu possa fazer? “Na verdade sim, você bem que podia me foder direito de vez em quando” – pensou ela, mas não disse. Apenas: - Rudy, meu amado, estou grávida, o médico confirmou há pouco! O grito de alegria de Rudy a fez sorrir. Seu sorriso se alargou com o que ele disse a seguir: - Minha amada dama, tão logo eu consiga sair daqui teremos que tratar de treinar bastante para o próximo! “Vai melhorar” – ela pensou, feliz como nunca, ao despedir-se e desligar. “Bem, aí vem meu irmão caçula...” – pensava Rudy. Mas estava feliz, era um segredo apenas entre ele e Herr Otto, o verdadeiro pai da criança. Resolveu comunicar isso a ele. Sintonizou o monitor na Casa da Montanha. - Pois não, Rudolph? - Senhor, Anna está grávida. Um leve sorriso floresceu nos lábios do terrível senhor da Fênix. Sim, a continuidade dos Eisenkopf parecia assegurada. - Deus seja louvado. Mas teremos outros, não? Quero muitos...netos. - Bem... - Não se preocupe, o material coletado daria para engravidar sua mulher pelo resto da vida. Nunca vou entender a lógica da genética original, tamanho desperdício... - Então esteja tranqüilo, não lhe faltarão...netos. Ah, alguma notícia do Barco? - Ainda não, mas ainda não estou preocupado, aquela região tem muito urânio – só nós sabemos disso, claro – e as comunicações são difíceis até mesmo para nós. Mas tão logo a lancha se desloque alguns quilômetros teremos notícias. Ah, notei que o Airbus foi acionado... - É Rudy, senhor. Está vivo porém ferido nos Estados Unidos... - Filho... - Não se preocupe, papai. É meu amigo. E um grande soldado. - Espero realmente não ter de me preocupar. Você é meu filho, ele não. - Já lhe disse, papai, ele será útil. E não causará problemas. - Nem quando ele souber que seus queridos nazistas são apenas átomos que fazem parte de uma imensa lagoa agora, Rudy? Os pais e amigos dele estavam lá... - Ele saberá apenas o que lhe dissermos, papai. E não tem nem jamais terá acesso à Kehlsteinhaus, assim... - De qualquer modo, para que precisaremos de um soldado, por melhor que seja, para um mundo sem exércitos? - Bem, diria que, pelo que tenho acompanhado dos acontecimentos, ainda há bastante gente viva e com saúde por aí. Gente armada, inclusive. E descobriram que podem salvar um monte com simples choques elétricos... - Essa realmente foi uma coisa inesperada, nunca previmos isso... - Pois é, pai, e o que mais não terá sido deixado de lado? Pelo que sei a Fênix atacou antes do seu tempo, ainda não estávamos totalmente prontos. Entendo as razões e o senhor bem sabe que apóio, estávamos perto demais para arriscarmos ser descobertos e desarticulados mas insisto no ponto: teremos que dispor de força militar até tudo estar estabilizado. E quem comandaria melhor esta força do que o maior dos Waffen? Uma verdadeira lenda... - Há, como sempre, razão no que diz, filho. E dizer que por centésimos não atingiu o nível dez... - E precisaria? O senhor o é e, através de sua semente, todos ou quase todos os meus filhos o serão, Anna é nove vírgula dois mas tem baixa dominância, ao contrário do senhor. A mamãe é menos de oito e... - Vamos ver. Agora, se me dá licença... - Sim, papai. Se acontecer algo eu informo. - Adeus, filho. Cuide-se, aí não será um lugar seguro por muito tempo... ** ** **Rudy, ao desligar, teve a sua atenção despertada por novo ponto de chamada no canto da tela do monitor. “Eis aí o que eu chamaria de um dia emocionante” – pensou. Era do norte do Brasil. Um transmissor portátil de áudio e vídeo. Ampliou a imagem. Um homem com fardamento de oficial naval disse: - Senhor, sou o Comandante da lancha Altmark, encarregada de levar os passageiros de Germania até o aeroporto. Tivemos um terrível problema e estamos a pé na floresta. Há mulheres e crianças. No total, eu e meus marujos incluídos, chegamos a quase cem. Poderia mandar alguma embarcação de resgate? “Esse idiota pensa que está falando com Germania” – pensou Rudy. Respondeu: - Aqui é Berlim. Germania não responde a nenhum contato, não sabemos o que aconteceu por lá, as últimas notícias falavam em grupos de sabotadores agindo internamente até que, em dado momento, caíram todas as comunicações. Tem idéia do que houve lá? O Comandante pensou. Não seria conveniente comentar o que quer que fosse, alguns passageiros lhe haviam dito ter visto o Reichsführer em pessoa despachando Einsatzgruppen e dando ordens de matar quem oferecesse a mínima oposição. Vira também o estado em que o médico chegara a bordo. Não seria sensato falar do Reichsführer, melhor que os líderes descobrissem, por si mesmos. - Não senhor, apenas boatos de todos os tipos... “Está com medo de falar, pensa que aquele doido ainda está vivo e pode querer se vingar.” - Escute, ache uma clareira e acampe o melhor que puder. Vou despachar um helicóptero da Dschungel Wachen para aí imediatamente. Vão ser umas três viagens e um tanto desconfortáveis, acrescento. Assim, ponha as mulheres e crianças no primeiro voo, são menores e ficarão menos incomodadas. Aliás, quantas são? - Dezoito mulheres adultas e quinze crianças e adolescentes. - Perfeito, um helicóptero só vai dar. Tenho um EC-725 a uns duzentos quilômetros daí, quando ouvir o barulho dos rotores oriente-o pelo comunicador. Conhece as freqüências militares que usamos? - Sim senhor, já me comuniquei com helicópteros em diversas ocasiões... - Então está ótimo. Em uma hora, pouco mais, estará aí. Ah, a Condessa e sua filha estão bem? - A Condessa parece que sim, a filha não pára de chorar, parece que perdeu o marido, coitadinha... - Como assim, perdeu o marido? - Não sei bem, ela falou algo para a mãe dela sobre o cara ter que estar a bordo e não estava... Arianne estava sentada no chão, com o rosto escondido pelos braços cruzados sobre os joelhos. Sentia vontade de morrer sem seu Wolfie. E dizer que chegara a odiá-lo um dia... Dentro de seu corpo um milagre se formava lentamente. O milagre da vida. Células que um dia formariam um corpo humano completo se subdividiam e reproduziam dentro dela, cada vez mais rápido. Arianne estava grávida. ** ** ** Base Aérea de Belém, PA O enorme helicóptero pousou. Já devidamente identificados pela equipe de C-SAR, ninguém os impediu de deixar a aeronave quase correndo em direção à sala de comando. À porta, o Brigadeiro em pessoa, segurando o nariz com os dedos. Eles haviam recolocado os capacetes e máscaras ainda em voo. Perfilaram-se e bateram continência, ao que ele correspondeu com um simples aceno de cabeça. O Coronel Wolfgang tirou o capacete para falar diretamente com seu comandante e amigo. A lufada de ar podre atingiu-o de modo implacável, fazendo-o tossir e finalmente abaixar o tronco e vomitar. Ofegante, perguntou: - Mas o que é isso, senhor? Alguém dinamitou as latrinas? – fez sinal aos outros para não tirarem os capacetes. - Pior, Wolfgang, muito pior. De uma hora para outra todos os nossos estoques de alimentos apodreceram. Parece que está acontecendo em toda parte. Não tenho a mínima idéia do modo como isso pôde ocorrer. Para você ter uma idéia, organizamos um grupo de faxina para o rancho e eles estão lá com máscaras contra gases. Mesmo assim três já deram baixa para a enfermaria. Aliás, coisas bem estranhas andam acontecendo, uma misteriosa praga matou e incapacitou gente pelo mundo todo, aqui mesmo tivemos um mundaréu de baixas. O Doutor Rômulo veio com uma história de dar choque nos doentes, quase o prendi quando soube mas me informaram que por alguma razão estavam melhorando. Você não vai achar aqui um único alojamento de praças que não esteja funcionando como enfermaria, está bem feio o negócio... - Então todo mundo está passando fome, senhor? - Não exatamente. Os caras do BIS entraram no mato levando os soldados ainda capazes e estão trazendo caça, frutos e raízes. Quando a gente conseguir se livrar dessa fedentina vamos ter uma bela refeição, ainda que meio...selvagem... - Sobraram muitos do BIS após a tal praga? - Aí é que está, nenhum soldado índio sentiu qualquer mal estar. Um sargento lá deles comentou comigo que os remédios de branco – os que tomamos – eram veneno e um dia iam acabar nos matando. Você tinha que ver o ar de triunfo dele quando falou isso. “Índio não toma essas porcarias, tudo o que precisamos tem na floresta, ao alcance da mão”. Vá entender essa gente... - E de pilotos, como o senhor está? - Ah, está melhorando, metade dos Rafales já têm pessoal completo, ainda que meio estropiado, tanto para pilotagem quanto para manutenção. - Senhor, falo da nossa atividade-fim... - Transporte? Bem, não estamos tão mal, perdemos dois Hércules que estavam no ar quando a praga começou a agir, os caras já deviam estar mortos quando os Gordos descambaram lá de cima. O resto estava no chão, então... - E pilotos? - Bem, podemos botar uns cinco 390 no ar a qualquer momento... - Não é bem nisso que estou pensando, senhor. Vamos entrar e vou lhe contar uma estranha mensagem que recebi enquanto aguardava o C-SAR e uma idéia que me ocorreu... ** ** ** O Boeing Presidencial com as cores da FAB decolou de Fortaleza, após embarcar os quatorze homens estranhamente fardados que haviam desembarcado do KC-390. A maior autoridade militar do país assim o determinara. O Brigadeiro. Determinara também o destino do voo. ** ** ** Berlim.Para lá também se dirigia um Boeing 737, tomado por Lang. O Tenente-Coronel Bertinelli não tivera escolha, o homem de negro apontara aquela sua estranha arma para um cadáver a uns cinqüenta passos de distância e, após um leve zumbido, o corpo fora literalmente destroçado. Como lutar contra aquilo? Melhor fazer o que aquele sujeito mandava e cair fora tão logo fosse possível. Mas... - E quando chegarmos lá? Vai me matar, não? Seria mais simples eu apenas iniciar um mergulho rumo ao Atlântico Norte, pelo menos levaria você junto para o inferno... - Tolice. E não vou matá-lo. Posso precisar voar de novo. Ademais, não sou assassino, sou soldado, não sabe a diferença? Assassinos matam qualquer um por qualquer bobagem, soldados matam apenas inimigos e apenas quando isso é necessário. Bertinelli encerrou a conversa. Podia mesmo meter o Boeing num mergulho mas não teria chance alguma, estaria morto segundos após o impacto. Já até Berlim e mesmo lá sempre poderia ter uma chance de escapar... ** ** ** Rudy precisava saber mais de Kurt. Selecionou-o entre os milhares de portadores de equipamentos de comunicação usados pela Fênix. Instantes depois a resposta. - Rudy, vejam só, quem diria. Como está, meu velho? - Muito melhor agora. E você? Constava como gravemente ferido... - Não, apenas levei uns pontapés lá na selva após uma explosão e perdi os sentidos. Daí tiraram meus equipamentos e fiquei sem contato com ninguém. – e contou resumidamente o que lhe tinha acontecido até então. - Bem, que nunca o acusem de azarado. Eu estava com o Airbus em prontidão para ir buscá-lo mas pelo que vejo você já está se deslocando para cá a quase quinhentos nós, como foi, aprendeu a pilotar? - Não, de algum modo salvei a pele de um piloto que estava agonizando e agora ele está me retribuindo o favor. - Incrível. Bem, haverá uma limusine blindada à sua espera no aeroporto. Nosso pessoal o está mantendo aberto embora hajam pouquíssimas operações de pouso e decolagem... - Ótimo. Poderemos passar alguns dias juntos, depois você manda me levarem de volta a Germania. Rudolph Von Eisenkopf hesitou. Decidiu nada dizer por enquanto, depois, aos poucos... - Bom, estou a sua espera, então. Grande prazer em saber que está bem. Auf Wieder Sehen. Rudy foi até a geladeira e apanhou uma maçã. Trincou-a com os dentes. Deliciosa... ** ** A algumas centenas de quilômetros dali Monique e suas filhas estavam exaustas. Haviam percorrido todos os pontos de venda de alimentos que conheciam. Sempre a mesma cena, donos e fregueses do lado de fora. O fedor de comida podre estava em toda parte. Voltaram para casa. As meninas choravam sua fome. O cão de estimação, Lou-lou, tentava animá-las. Monique olhou para ele. Tinha fome também, suas rações estavam tão apodrecidas quanto qualquer outro alimento naquela casa. Então ela levou as crianças para o seu quarto, deixando-as a chorar na grande cama de casal onde haviam sido concebidas. Depois desceu as escadas até a cozinha. Apanhou a grande faca de carnes e chamou: - Lou-lou, venha cá. O animalzinho veio, abanando alegremente o rabo peludo. -Meninas, venham jantar! O aroma de carne assada era delicioso. Estava temperada apenas com sal e vinagre, curiosamente não afetados pela estranha praga. As meninas comeram até se fartarem. - Bem que podia ter um molho e um pouco de arroz ao menos, mamãe. - E bem que você podia ter ido dormir sem jantar, não? - Onde está o Lou-lou? – perguntou a pequena Annette, com alguns ossinhos na mão. – Quero dar isso a ele, adora roer osso... Foi até a porta da cozinha e chamou o animal. Cansou-se e voltou. - Por onde andará ele? - Deve ter ido procurar comida para si, querida. Talvez nunca mais o vejamos. – disse Monique, com os olhos cheios de lágrimas. ** ** ** E Otto Von Eisenkopf, Grão-Mestre da Ordem dos Cavaleiros Teutônicos, meditava. Deveria tocar logo a sua trombeta – a última – ou aguardar um pouco mais para ver a evolução dos acontecimentos? ** ** ** E um dia antes um homem conhecido pela CIA como Grizzly finalmente pescara suas trutas e remara o pequeno barco para uma ilhota no meio do lago, onde ficava o seu refúgio predileto. Uma pequena caverna com a entrada voltada para o lado oposto ao da casa. Gostava dali porque os agentes encarregados de sua segurança não podiam vê-lo lá. Desceu do bote, o amarrou a um tronco meio fino mas forte o suficiente para contê-lo e sentou-se na entrada da caverna com um balde d’água. Começou a limpar os peixes. Após terminar, colocou carvão na pequena churrasqueira de metal que deixara na ilhota justamente para isso e acendeu o fogo. Meia hora depois o aroma já era delicioso. Mas o sol estava muito forte, entrou até o fundo fresco da caverna. Deitou-se de encosto a uma parte abaulada, sacou o cantil e bebeu um longo gole. Absolut. Sim, os suecos sabiam fazer vodka. Terminou se embebedando e adormecendo ali. A carne queimou nos espetos. O sinal de morte enviado dos céus não atravessou as paredes da caverna. Quando acordou, ainda tonto, logo se deu conta e amaldiçoou a tudo o que existia. Estragara aqueles peixes tão gostosos. E já estava anoitecendo. Ainda meio cambaleante, desamarrou o barco, entrou e remou até a casa. Curioso, ninguém acendera as luzes. Americanos incompetentes, como sempre. Ao desembarcar foi direto para a casa. Abriu a porta já em completa escuridão, enfiou a mão e acendeu a lâmpada dos fundos. A seus pés um agente morto. O que estaria acontecendo? Enfiou a mão por dentro do casaco do agente e sacou sua pistola. Uma Glock .40. Bem, ao menos não o pegariam desarmado. Passou a percorrer a casa, acendendo todas as luzes e encontrando o segundo agente morto sobre um sofá. A sala bem iluminada não deixava dúvidas: aquele homem não fora ferido de forma alguma, simplesmente caíra morto. Veneno? Radiação? Bem, não importa. Ligou para o número que lhe fora fornecido por Mr. Pepper. Ninguém atendeu. Tentou então o próprio Mr. Pepper. Idêntico resultado. Teve então a idéia de ir a seu quarto, onde estava seu laptop permanentemente conectado à internet. Tentaria se comunicar com alguém que lhe dissesse o que estava acontecendo. Subiu rápido as escadas e entrou. Lá estava o laptop, sobre a escrivaninha, ao lado de um livro aberto. Tinha duas mensagens. Uma do Coronel, aliás, General Bolovo e outra de seu subdiretor no FSB. Leu cuidadosamente as duas e depois serviu-se de outra dose de vodka. Começou a pensar. Pelo quinto copo se decidiu. Apanhou seu telefone celular e chamou um número que jamais imaginaria ter de chamar outra vez. Uma voz masculina atendeu em russo: - FSB. Diretoria Central. Que deseja? - Transfira-me agora para o Diretor em Exercício. - Não funciona assim, identifique-se e... - Agora escute aqui, seu pedacinho de merda, quer que eu me identifique? Está bem, eu sou o chefe dele e vou fritar as suas bolas em azeite se não transferir agora mesmo essa porra de ligação, pode ser? - Só um segundo, senhor, já estou transferindo... Instantes depois ele é atendido: - Chefe Kurgan, por onde...? - Como sempre, cortando algumas cabeças... - Deve ter cortado muitas, o mundo todo está um... - Eu sei. E sei como acabar com isso. Vou dizer onde quero que me resgate, vim parar aqui nos Estados Unidos mas anonimamente, minha extração deve ser uma operação bem discreta. - Não vai haver problema, eles estão tão perdidos quanto nós, podiam até seqüestrar o Premier e o Presidente e nem saberíamos. Isso se não estivessem mortos, claro... “Então estão mortos mesmo...” – pensou. Isso lhe dava idéias que valiam muito mais do que os cem milhões em ações dos doze bancos e uma casa diante de um lago com trutas... E apenas ele sabia de sua traição. Os americanos que o conheciam estavam todos mortos. As possibilidades eram estonteantes agora. Literalmente o céu era o limite. Mas, para que o plano que começava a tomar forma em sua mente pudesse ter êxito, precisaria fazer o que Bolovo lhe pedira...
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comentários
- Transporte?
Esta é a verdadeira TAB!!!
Essa parada da fome fico boa, bem explicado, só queria saber quantos vão sobrar pra força tarefa final :p, tomara que tenha. Vlw ae manda brasa!