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A Fênix Negra - Capítulo Final - Parte III PDF Imprimir E-mail
Escrito por Túlio Ricardo Moreira   
Seg, 11 de Janeiro de 2010 14:50

Os Cavaleiros do Apocalipse III – Desenvolvimentos Subjacentes

**** **

O Tenente-Coronel Bertinelli, piloto, se sentia péssimo. Sua visão começava a embaçar. O frio aumentava. Mesmo vendo que a temperatura na cabine estava devidamente estabilizada em confortáveis vinte e cinco graus sentia que seus dentes começavam a bater. Doíam também. Olhando para o lado, não notava nada de especial com o co-piloto, imóvel eu seu posto, parecendo cochilar. “Bem, melhor que Carl assuma, não vou conseguir desse jeito”, pensou, batendo levemente no ombro do companheiro de voo:

- Carl...Carl, está acordado?

O homem continuou imóvel e silencioso. Esticou então o braço e o sacudiu. Na segunda vez Carl apenas foi caindo para a direção oposta, quase preguiçosamente. Tombou numa posição algo estranha, como uma marionete cujos cordões tivessem sido cortados de maneira abrupta. Permaneceu imóvel. O piloto não precisava de nenhuma outra confirmação: o homem estava morto.

Sentindo-se realmente mal e agora assustado por não haver mais ninguém capacitado a conduzir e pousar a aeronave, contatou a torre mais próxima, informando de modo sucinto o que estava acontecendo na cabine e que temia pela centena de pessoas que se encontrava a bordo, confiantes em sua habilidade para levá-las em segurança até seu destino. Sabia que se encontrava em vias de desfalecer.

E estava apavorado com a possibilidade.

Após o que lhe pareceu uma eternidade, obteve uma resposta. Mas não da torre que contatara e sim do NORAD, de uma central de comando localizada nas entranhas da terra, mais de cem metros abaixo da superfície.

- O que está havendo?

- Sem co-piloto. Morto. Estou muito mal também. Autorização para pousar na pista mais próxima.

Aquilo podia ser tudo menos uma comunicação entre um piloto e um controlador de voo. Nada de convenções nem códigos, até porque ele não recordava nenhum. Apenas a idéia fixa: pousar enquanto ainda estava em condições de fazê-lo. Depois sim, podia dar-se ao luxo de dormir. Ou desmaiar. Ou morrer...

O controlador se sentia confuso. Não estava acostumado a comunicações desse tipo, nada convencionais. Mas era profissional e suficientemente experimentado para prender-se a detalhes assim, sabia que algo estava muito errado com aquele voo e que devia concentrar-se apenas em trazer o avião de volta ao solo inteiro. O silêncio das torres civis de controle aéreo já era inquietante que chegue. Só que isso era trabalho dos outros, os ‘estrelados’, não dele. Havia um risco, no aeroporto mais próximo da aeronave não havia qualquer tráfego que ele pudesse detectar mas também não havia qualquer comunicação possível com ninguém, embora todos os canais estivessem abertos e disponíveis. A impressão era que todos haviam resolvido ir para casa e que se fodesse o controle das atividades aéreas. Teria de arriscar.

“Que se dane tudo” – pensou. A seguir, autorizou o pouso. Não tinha como saber quais pistas estariam disponíveis mas lembrava-se que a doze era considerada a melhor pelos pilotos que conhecia. Indicou-a. Uma voz mastigou um ’Roger that, twelve’ ou algo assim. Pediu para o piloto comunicar quando visse a pista bem como fosse falando durante o ‘approaching’ e o pouso. Claro, o cara parecia estar à beira de um desmaio ou algo assim, tinha de fazer o máximo para mantê-lo consciente.

O piloto agora se sentia como se tivesse bebido dez baldes de vodka e levado uma surra de pauladas logo após. Tinha que fechar um olho para conseguir ver os instrumentos e o que havia lá fora, a vista custava a acomodar-se e estabilizar as imagens. Mas viu o aeroporto e logo após a pista.

- A doze...n...não vai...não vai dar...tem algo...sei lá...um avião...todo arrebentado...todo...nela...arrebentado...fumaça...bastante...não dá, eu...eu acho...parece...espere...é...a vinte...isso, a...vinte...vazia...boa...

“Meu Deus, o cara está nas últimas”.

- Pouse na vinte, pouse na vinte! Copiou?

O piloto não respondeu. Melhor, aparentemente sequer havia parado de falar:

- ...é o que...o que...disse, não? Não? Vinte, né? Bem, lá vou eu...que...que é que tenho...que fazer...mesmo? Fazer...ah, diminuir...diminuir...o quê..?

- Abra os flaps, abra os flaps!

- ...diminuir a velocidade...é isso...reduzir...reduzir...manetes...é, manetes...motores...estou...alto, acho...que...que merda...

- Flaps! Flaps! Flaps!

O controlador sentia como se estivesse a bordo. Via em sua mente um homem se equilibrando furiosamente para não cair de seu assento e tentando manter alguma lucidez. Mas o que estava havendo, por Deus? Ele estava no curso certo mas alto e rápido demais para um pouso razoavelmente seguro...

- Flaps! Flaps, seu filho da puta, abra as merdas dos flaps, porra! Vai se matar desse jeito, desgraçado! Flaaaaaaaps!

- ...hmmmm...acho que...que...ainda falta algo...que merda...merda mesmo...ruim...pensar...difícil...isso...merda...

- Flaps! Flaps! Flaps, porraaaaaaaaa!!!

Seu superior imediato se aproximou, atraído pelos verdadeiros urros que lançava:

- Thompson, parece perturbado. O que está havendo?

- Flaps, filho da puta, flaps! Vai se matar, maldito!

- Thompson, poderia me...

O controlador se voltou ligeiramente. Estava rubicundo.

- Senhor, vá pra puta que o pariu! – e retomando a fonia:

- Flaps, sua bicha, flaaaaaaaaaps!

Chocado, o superior apenas ficou olhando aquilo. Em torno quase todos também acompanhavam aquela cena, o sempre frio e imperturbável Thompson ali, aos berros, parecendo um possesso. Ele pareceu se dar conta e abriu a fonia para todos. Uma voz aparentando sair direto de uma sepultura monologava:

- ...e não tá...não...tá...mole, nem...nem...sei a quanto...eu...a quanto...estou, que...que merda mesmo...mesmo...Mayday! May...may...day...acho...que...acho...vou...estou...pousando...toque...isso, toque...depressa...demais, acho...demais...não...tem...não...pista...pista...su...ficiente...eu...eu...e dói essa...essa mer...merda...porra, tá...tá...acabando...virar...virar...campo...bonito...bem...bem...verde...descansar ali...ali...bonito...sim...

Um barulho alto e forte. Chiados. Estática. Depois silêncio.

- Os flaps, seu corno, eu falei para baixar as porras dos flaps, por que não me abriu a fonia, filho de uma puta? Era tão difícil assim, porra? Pobre filho da puta, que Deus o guarde, merda mesmo...

O controlador chorava abertamente. O “Ice Thompson” em pessoa, a lenda, o cara que ficava impávido nas piores crises e desgraças estava ali, se debulhando em lágrimas como uma criança que levara uma sova. Cruzara os braços sobre o painel e escondera o rosto neles. Soluçava. Ninguém riu. O superior colocou a mão em seu ombro.

- Descanse um pouco, Thompson. Estamos todos sendo exigidos demais aqui...

- Senhor, era só ele ter estendido os malditos flaps...

Um chiado. Fonia.

- Cara...foda essa...nunca...nunca...mesmo...ninguém...acreditar em...em mim...fodi essa coisa...toda...mas...fodi...paramos...nada de fogo...que...que merda...mesmo...no duro...fodi tudo...agora...sone...soneca...sou...sou...eu...euuuuuuuuu...

O urro de alegria de Thompson estremeceu a sala toda. O segundo foi seguido pela equipe. O chefe berrou o mais alto que pôde.

- Vou afogar esse filho da mãe em cerveja, ah se vou! Me achem uma equipe de resgate, quero tirar pessoalmente esse cara do que sobrou do C-17...

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**

Na área de carga do C-17 o Sturmbahnführer Kurt Lang permanecia imóvel, olhos fechados e respiração regular. Mas seus ouvidos estavam atentos. Ouviu um gemido perto de si, alguém gritou algo, parecendo alarmado. Novos baques. Os homens pareciam estar caindo por toda parte mas a aeronave, até onde Lang podia constatar, parecia estabilizada. Arriscou-se a abrir um olho. Após acostumar-se a ver novamente, pôde constatar que os soldados estavam caindo por toda parte. “Que é isso? Parecem doentes ou algo assim...”, pensou. Abriu ambos os olhos. Ninguém parecia dar a mínima a ele. Voltou a cabeça o quanto as cadeias que o mantinham imóvel permitiam. O interior do cargueiro estava coalhado de homens caídos ou caindo, tentando se segurar em algo. Um deles voltou-se e o encarou. Lang lhe devolveu o olhar. E viu, no fundo daqueles olhos, o que já vira muitas vezes. Um soldado morrendo. O homem esbugalhava os olhos, boca entreaberta, como que tentando reconhecê-lo. Ergueu levemente a mão direita em sua direção. Emitiu um som sem significado algum. Depois desabou, ficando com sua trêmula agonia no piso de metal. Os dentes eram branquíssimos e Lang aprovou em silêncio essa curiosa demonstração de higiene. Sentia-se estranho também, rosto afogueado e uma leve fraqueza.

Lang havia percebido que a aeronave fazia uma suave curva e parecia estar descendo. Mas o que estava acontecendo, nunca soubera de nenhum fato similar, seria alguma doença de selva que aqueles caras haviam contraído? E ele, por que não fora afetado? Ou fora? Sabia que seus sistemas de manutenção de vida se prendiam ao efeito de impactos, armas e explosões, não de doenças que, ademais, não penetrariam seu uniforme levemente pressurizado. Só que estava sem o capacete com o visor e o respirador que lhe garantiriam proteção NBC e isolamento total do ambiente em que estivesse, preservando-o de doenças. Sentiu um leve arrepio. O que quer que aqueles malditos inimigos estivessem sofrendo eles poderiam ter-lhe passado. A cabeça começava a doer um pouco. Talvez fossem as horas de imobilidade forçada, ou então...

Que merda, morrer de uma maldita doença desconhecida e não como um autêntico Herói Alemão, lutando até o final. Não temia a morte nem o sofrimento ou a mutilação mas aquilo era demais. Começou a forçar mais para se soltar, o que estivera fazendo disfarçadamente desde pouco após a decolagem, quando os soldados inimigos haviam parecido perder o interesse nele. Fazia-o agora com a força do desespero, não queria morrer assim, amarrado como uma salsicha, imóvel e indefeso. A aeronave sofreu um forte abalo. Estavam pousando.

- Se este cara pilotasse para mim eu daria uma surra nele, quase partiu essa merda em dois, nem pilotos que prestem esses caras aí têm... – falou alto, ciente que ninguém ouviria mesmo.

Lang não sabia do que havia acontecido. Somente os integrantes do círculo íntimo dos Cavaleiros Teutônicos tinham conhecimento dos verdadeiros detalhes da Fênix Negra. Aos nazistas Von Eisenkopf apresentara meras utopias as quais apenas rematados fanáticos como aqueles engoliriam. E ele,   Kurt, desconhecia também algumas propriedades de seu próprio uniforme. Aliás, apenas os Cavaleiros sabiam disso. Não haviam vacinas contra os nanorrobôs. Depois de ativados, cumpririam sua missão, fosse contra quem fosse. Como viajante regular, havia sido obrigado a tomar algumas vacinas e medicamentos pelo mundo, parte delas infectada pelos excipientes malditos. Os minúsculos mensageiros da morte estavam também em suas veias. Mas poderiam ser necessários soldados, ao menos num primeiro momento, após o início da instauração do reinado da Fênix, e o sistema de manutenção de vida recebera um pequeno chip que detectava a ordem central e emitia novo sinal que interrompia a montagem dos artefatos antes que fosse completada. Claro, sempre haveria um pequeno atraso entre a ordem e a contraordem que permitiria que alguns entrassem em ação. Mas eram poucos e tudo o que produziram em Lang foi um suave e infrutífero início de leucemia, pois os poucos robôs que chegaram a ser montados se encontravam nas proximidades de importantes conexões nervosas, o que gerou o mal estar e a cefaléia. Mas mataram e exauriram proporcionalmente poucos leucócitos, elevando minimamente sua produção global. Finalmente suas baterias exauriram a carga e foram então eliminados junto com os glóbulos mortos ou moribundos que habitavam.

Mas a vida de Lang ainda corria riscos, que ele começava a adivinhar. Algo estava realmente bem errado com aquele avião ou com o piloto, parecia estar em ziguezague na pista e um voador experiente como Lang nunca experimentara nada assim. Mas sentia que não estava correto. Forçou mais. A mão direita estava quase solta. A esquerda ia pelo mesmo caminho. Então começaram os solavancos, cada vez mais fortes.

- Esse maldito incompetente saiu da pista, só pode! É de amargar, morrer ou por alguma doença desgraçada ou todo estropiado por causa de um piloto idiota!

Um solavanco muito mais forte; percebeu que o enorme cargueiro dava um salto no ar. Depois aterrissava com um baque violentíssimo e ruído ensurdecedor. Homens mortos ou agonizantes voavam descontrolados pelo interior da fuselagem e caíam sobre ele, batiam em suas pernas, braços, tronco, cabeça. Era insuportável. Mais um arranco e a mão direita finalmente estava livre. Sentiu uma lufada de ar puro. A porta de carga se abrira totalmente. Tudo se movia lá fora. Mas cada vez mais devagar. Sua mão esquerda já ajudava a direita no afã de libertá-lo. O C-17 finalmente parou. Aterrado, Lang sentiu cheiro de incêndio. Isso lhe descarregou adrenalina suficiente no corpo para acabar de se libertar. Ergueu-se e, cambaleante, saiu pela porta de carga, apenas para ver algo que jamais imaginara em sua vida.

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Arianne gritara aterrorizada. O Barco deveria estar a uns cem metros da porta que conduzia ao rio subterrâneo quando ela foi arremessada como um míssil contra a embarcação. Esta nem sequer chegou a explodir, não ao menos que fosse possível perceber pois o jato de água sob altíssima pressão levou tudo por diante, passando por cima dos mais de mil metros de largura do afluente, caindo tudo sobre a floresta, bem além e fora da visão dos que estavam na grande lancha de evacuação. Após isto, todos notaram que a lancha se movia a ré, mesmo com os motores ainda desligados.

- O rio está entrando no buraco! – gritou um dos marujos, apontando com o indicador.

Com efeito, o largo afluente do Amazonas era usado para preencher o vazio abaixo e adiante de si. A gravidade puxava a água para preencher os imensos espaços agora vazios. E o barco seguia junto, naquilo que rápida e inexoravelmente se transformava numa veloz corredeira.

- Mein Gott, vamos todos morrer! – gritou uma aguda voz de mulher. Um homem se atirou à água numa tentativa de salvar-se, nadando os pouco mais de doze metros que os separavam da terra. A crescente correnteza o arrastou sem qualquer piedade por seus gritos desesperados. O nível da água começava a baixar visivelmente. O Comandante da embarcação determinou com uma calma quase sobrenatural que os motores fossem ligados e postos em potência máxima a vante. Na praça de máquinas o contramestre resmungou algo sobre os motores durarem pouco desse jeito mas, sentindo que algo deveria estar ameaçando a lancha, cumpriu imediatamente a ordem sem qualquer outra queixa. O Comandante continuava a gritar ordens à marujada:

- Leme a boreste, todo a boreste, força máxima, preparem as amarras. Andem, vamos durar pouco aqui!

O barco todo estremecia pela luta entre suas hélices e a corrente cada vez mais violenta. Na verdade, podiam todos ver que esta estava levando a melhor e ficando cada vez mais forte e rápida. A grande lancha se movia mais rápido para trás, em direção ao horrendo buraco na encosta daquele monte, como uma enorme e negra boca desdentada, ansiosa por devorá-los a todos.

- Não quero morrer! – gritava alguém incessantemente. – não quero morrer, não quero morrer...

“Morrer sem nunca mais vê-lo...”, pensava Arianne. Era triste. Mas havia também algum alívio nisso, morta não sentiria a horrenda saudade que a consumia. Sim, a idéia não era tão má assim...

O casco estalou lugubremente.

- Essa merda vai se desmanchar toda, estamos fodidos! - gritou um marujo. Uma bofetada do Comandante o calou.

- Tenha a bondade de portar-se como um Homem Alemão, sim?

Novo estalo, ainda mais alto. Até uma criança saberia que aquela embarcação estava condenada. Alguém de voz grave berrou lá de baixo:

- A porra da casa das máquinas está enchendo de água, os motores vão parar sem demora, inferno! Estamos mesmo na merda!

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- Me mantenha informado, Bolovo, não vou poder olhar muito para trás.

- Certo, RATÃO!

O Coronel Bolovo arrastou-se por cima dos homens até chegar à popa. Começou a reportar por fonia.

- Cara, tá doido, tem uma coluna de água com uns duzentos metros ou mais de altura vindo bem em nossa direção. Aumenta isso aí, porra!

- Estou a mais de quarenta nós, quer tentar com um remo?

- Putaquipariu, tá desabando e gerando uma onda do tamanho do inferno!

- Caralho! Caras, se segurem, tem uma curva ali, é meio fechada demais para a velocidade em que estamos mas é isso ou ser atropelado pelo trem expresso que vem aí.

- Vira logo, porra, tá muito mais rápida que nós, vai...

- Vai nos pegar num segundo, sei. Agora!

A lancha quase capotou com a curva extremamente fechada. Bolovo caiu por cima dos homens, todos deitados no fundo. Lanchas não têm a aderência de um carro e ela deslizou lateralmente, indo de encontro às margens, passando por cima de matas e ramos felizmente macios o suficiente para não causarem maiores danos e ainda proporcionarem apoio razoável à retomada do curso e aceleração. Wolfgang se mantinha firme ao volante. Em segundos estavam novamente no meio líquido e com velocidade crescente. Mais sentiram do que viram a imensa e veloz massa de água seguir reto, com algumas poucas e inofensivas quantidades desviando em sua esteira sem sequer tocá-la. Estavam salvos.

Ao menos por enquanto.

******

Brasília. Palácio do Planalto. Tudo é silêncio. Um alto assessor, louro de olhos azuis, entra sem bater no Gabinete Presidencial. Caminha com desenvoltura pela ampla e confortável sala. Há um belo Portinari ali, sempre quisera tê-lo. Vai até a parede e o avalia. Não, sozinho jamais sequer o removeria dali, quanto mais levá-lo embora. Bem, haveria tempo para isso. Dirigiu-se então à escrivaninha presidencial, saltando sobre o cadáver de um General. Diante da mesa, caído em posição grotesca, o Ministro da Defesa. O Presidente estava em sua cadeira, apoiado na mesa sobre os braços.

“Cada jeito que encontram para morrer”, pensou, algo divertido. Então, surpreendentemente, o Presidente ergue os olhos baços e fala:

- Hermann, que bom que veio. Por favor, pode me ajudar aqui? Não estou nada bem...

“Essa agora”, pensa o louro, com algum enfado.

- Mas claro, Senhor Presidente. – diz, com sua costumeira cortesia. Dá a volta à mesa e abraça o mandatário.

- Nossa, o senhor parece mal mesmo, hein? Vou ajudá-lo sim. Só que meu nome não é nem nunca foi Hermann, sou na verdade o SS-Hauptsturmführer Wenzel... – diz, sorridente, seus olhos azuis faiscando.

Envolve então o pescoço do Presidente com as mãos e o estrangula. O mandatário o encara com os olhos arregalados. Ele sorri largamente, os dentes cerrados pelo esforço.

- Sim, pobre diabo. Não há lugar para nenhum untermensch nas terras da Fênix!

Só o larga quando tem certeza de que está mesmo morto. Depois sai, assobiando...

“Mas vou voltar com uns caras para pegar o meu Portinari, arte verdadeira não tem raça...”

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Washington DC. A Casa Branca.

O mesmo silêncio. Donny, o cão do Presidente, cheira e lambe o rosto de seu dono. Quer que ele se levante e brinque, lhe faça festas, como sempre. Mas em algum recôndito de sua percepção animal sabe que nunca mais brincará com seu dono, apenas não se conforma...

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O bebê chora. Tem fome. Sua mãe, ao contrário de todas as outras vezes, não vem para confortá-lo e lhe dar o seio, fonte de prazer e alimento. O pequeno não pode vê-la agora, caída na cozinha, morta. O pai está na sala, sentado, olhos piscando, tentando focalizar algo com o que lhe resta de visão. Mórmon fervoroso desde a infância, não tem idéia prática dos sintomas de uma bebedeira, mas é o que está sentindo, além daquela maldita febre, que transforma seus ossos e dentes em verdadeiros chocalhos. O bebê aumenta o volume do berreiro que faz. Entra alguém. O homem a reconhece, aquela estranha vizinha, que apenas olha e logo desvia o olhar quando é cumprimentada. Agora ela entrou e, ao vê-lo, diz:

- Deus, o que está acontecendo?

Ele tenta falar mas não consegue articular som algum. Ela põe a mão em sua testa.

- O senhor está queimando em febre. Deve ir imediatamente para a cama. Não vou conseguir levá-lo sozinha, precisa me ajudar.

Ele a olha com gratidão. Ela o agarra pelos ombros e dá um arranco. Ainda que meio surpreso, ele tenta fazer sua parte. De algum modo, consegue ficar razoavelmente na vertical e ajudar, com seus passos trôpegos e incertos dados pelas pernas que parecem de borracha, que ela o conduza ao quarto, aos trambolhões e cambaleios. Desaba na cama. O bebê berra como nunca. Ele olha na direção do som, mesmo praticamente cego agora. Ela torna a falar:

- Calma, pelos berros ele está bem melhor do que o senhor.

Então começa a despi-lo. Breve está inteiramente nu. Envergonhado demais. Ela não o encara. Apenas cobre-o com o edredom. Depois sai. Vai até a cozinha e encontra a mulher. Nem precisa se abaixar para saber que está além de qualquer auxílio. Recita uma prece silenciosa. Depois vai até o quarto do bebê. Este tem a face purpúrea de tanto berrar. Agarra a criança no colo. A embala. Fala docemente com ela, que busca seu seio com sofreguidão.

- Não, meu menino, não tenho mais isso. Mas tenho algo que você vai gostar lá em casa. Vamos?

E sai com a criança nos braços, esta agora sem berrar, pois sente que será confortada e alimentada logo.

Na cama o homem sua profusamente e treme sem parar. Mas se sente algo melhor. Começa a ver um pouco também, apesar da penumbra.

Alguma horas após, a mulher retorna. Toma-lhe a temperatura agora com um termômetro digital.

- O senhor parece estar melhor. Quarenta e um. Devia estar à beira do choque quando o encontrei. Mas acho que sai dessa. Não entendo o que está acontecendo, há gente morta por toda parte, parece castigo de Deus. Mas o senhor não deve ter tantos pecados sobre si, pois acho que vai se salvar...

Começa a revirar os armários e cobri-lo com tudo o que acha, acolchoados, peles, toalhas, tudo.

- Esse tratamento não deixa de ser perigoso mas costumava funcionar no interior quando alguém passava muito tempo exposto ao frio. Meu pai dizia que quem tem têmpera sobrevive, quem não tem morre e a terra pertence aos fortes de corpo e espírito. Sinto dizer que teremos de ver do que o senhor é feito. Ah, vou alimentá-lo com canjas e bastante água pura. Se esforce para absorver o máximo, vai precisar de toda nutrição possível de realmente quiser viver para criar seu filho. Caso não consiga então morra tranqüilo, eu o farei por você e sua esposa.

“Beth morta...tão jovem, tão linda, tão cheia de vida...”

Lágrimas rolavam, por seus olhos.

- Poupe líquidos, vizinho. Vai precisar. Chore quando tiver certeza que não fará outros chorarem pela sua perda. Lembre de seu filho. Viva para ele.

E a misteriosa mulher se retirou.

Mas voltou várias vezes, o encontrando às vezes lúcido, às vezes desmaiado ou em sono profundo e às vezes delirando. Mas voltava sempre e o obrigava a beber canjas, chás e muita água.

******

A Casa da Montanha

Von Regensdorf retornara após quase duas horas. Fora o que mais demorara em sua tarefa. O mesmo semblante imperscrutável. Nada disse, apenas sentou-se novamente em seu lugar. Von Eisenkopf o olhou, algo interrogativo. Ele apenas assentiu gravemente. Depois voltou-se para o fogo na lareira.

“Sempre fechado, o velho Regensdorf. Mas sólido como uma rocha!” – pensou Herr Otto.

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Mike já estava se acostumando à visão de pessoas mortas. Ali na área de abastecimento daquele heliporto havia muitas mais. Não deu muita atenção. Completou o nível máximo de combustível de sua aeronave e partiu sem olhar muito em volta. Não iria gostar mesmo do que veria...

Duas horas depois – doze após deixar a estranha base para onde fora levado – pousava numa pracinha a um quarteirão de sua casa. Quando descia do helicóptero a pick-up do xerife parou a poucos metros.

- Filho, se importa de me dizer o que está fazendo aqui com isso?

- Xerife, estou voltando para casa... – Mike dirigiu-lhe um sorriso cansado.

- Suba aqui, vou levá-lo. Seus pais disseram que havia sido seqüestrado.

- E fui. Mas é uma história comprida e queria dormir um pouco antes... – disse Mike, embarcando. Finalmente a exaustão começava a chegar a ele.

- Vamos ver, garoto, vamos ver...

- Uma coisa, tem gente morrendo por toda parte, xerife.

- É, informaram. Mas aqui não vi nada, exceto pelo velho Tom, que foi achado caído no meio dos porcos dele e a pequena Mattie, que morreu dormindo no berço...

- Talvez Deus goste de nós, porque mais adiante está bem feio...

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Von Eisenkopf sabia que a terceira trombeta demoraria bem mais que as duas primeiras para gerar seus efeitos mas seria fundamental para quando chegasse a sua vez. Sim, ele completaria em definitivo a Santa Obra.

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Continua na próxima semana...

 

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Túlio Ricardo Moreira, ou simplesmente "Túlio", tem 46 anos, é Agente Peni-tenciário e escritor. É mo-derador do Fórum Defesa Brasil desde 2006 e cola-borador do site desde 2008.

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