| A Fênix Negra - Capítulo Final - Parte II |
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| Escrito por Túlio Ricardo Moreira | |||
| Seg, 04 de Janeiro de 2010 14:29 | |||
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Os Cavaleiros do Apocalipse II – O Segundo Cavaleiro
Eles corriam meio agachados, o que era algo tolo tendo em vista sua virtual invisibilidade. Chegaram rapidamente e sem incidentes à sala indicada pelo Coronel Wolfgang, um laboratório de pesquisas com vegetais. Liderando, ele conduziu os doze homens a uma porta ao fundo da sala. Não havia maçaneta, fechadura ou o que fosse para abri-la. O controle ao lado da porta não funcionava. Wolfgang não sabia se estava inoperante ou apenas certas digitais podiam abri-la. Imaginou que fosse o segundo caso. - Bolovo, não abre. Tem plásticos aí com você? - Espere, vamos ver o que esta belezinha aqui faz...afaste-se daí! O Coronel Bolovo se abrigou atrás de uma mesa a uns dez metros da porta e aguardou que todos estivessem igualmente protegidos. Gritou-lhes para que não encostassem em nada, apenas se protegessem. Wolfgang agachou-se a seu lado. - Vai atirar nela? Estamos meio perto, a energia não vai...? - Homem de pouca fé... - sorriu Bolovo. – Abaixe a cabeça! E não encoste em nada! Disparou. Não do modo normal, um leve e curto toque no gatilho. Desta vez pressionou com força e manteve a pressão. O zumbido emitido pela arma ficou mais forte, saiu o disparo e o zumbido aumentava cada vez mais. A arma vibrava. O metal pintado borbulhava. Depois começou a brilhar e a seguir escurecer, e não apenas no ponto de impacto inicial mas pela porta inteira. Mais um instante e a porta voou completa para fora. Bolovo rapidamente retirou a bateria principal da arma e colocou outra, uma das que havia tomado aos Waffen mortos. Sorriu: - Tinha lido isso no manual, Wolf. - Manual? Nunca me falaram deste uso... - Imagino. Ali dizia que era proibido fazer isso, risco de morte e bobageiras afins... – e seu sorriso se alargou. - Tá, mas morte por que? - Bem, o que mandei para lá não foi um simples jato de energia direcionado, era na verdade um plasma eletronicamente moldado. Se a única coisa entre a arma e a porta fosse a gente ou algum material não-metálico, o plasma se teria espalhado por nós. Corpos vivos são bons condutores de energia, não? - Mas e por que...? - Bem, olhe todas essas mesas e cadeiras de metal. Neste momento você não pode ver mas estão impregnadas de plasma, do mesmo modo que vi nas grades dos dutos de ventilação daquele edifício lá em Brasília. Encoste um dedo e se prepare para virar toucinho... – riu alto agora. - Mas e as armas, equipamentos, uniformes? - Tudo isolado. Só que não conheço inteiramente as propriedades dos uniformes, assim, prefiro não arriscar, já perdemos um homem... – disse, com simplicidade. – Você sabe, sou formado em eletrônica pelo Instituto de Moscou mas nunca vi nada assim, melhor ir devagar... - Devagar nada, vamos é cruzar este buraco que você abriu e cair no mundo, porra! – voltou-se para os homens: - Coluna por um, todos me seguindo, não encostem em nada. Vamos cair no mato, pessoal! E saiu correndo, semi-agachado, arma apontada para onde sua cabeça se voltava. Sem hesitação, o Coronel Bolovo e os demais RATOS o secundaram. Instantes depois, todos estavam em plena selva amazônica. Rápida busca revelou onde havia sido deixada a lancha. Menos de um quilômetro do rio. A puxaram para fora do esconderijo, surpresos com a facilidade em fazê-lo, pois não era nada leve. Mas começavam a se acostumar àqueles estranhos uniformes que, entre outras coisas, lhes amplificavam as forças... ** ** Kehlsteinhaus O grande e antigo relógio suíço da sala mostra aos Quatro, imóveis e inexpressivos como répteis, que faltam menos de dez minutos... “Não deixa de ser um desperdício” – pensa Von Lubeck. Mas guarda para si. Seu semblante pálido e olhos frios nada revelam aos outros. Breve cumprirá sua parte e se sabe preparado para isso. Simples e fácil, mas com consequências terríveis para os que estariam enfrentando a fúria da Fênix que renascia, mais poderosa do que nunca. “Bem, os caminhos de Deus sempre foram estranhos a nós, pobres homens” – consola-se... Von Huhn tem a mente vazia. É sua defesa natural contra choques emocionais. O homem não é absolutamente um psicopata assassino nem um covarde, acredita sinceramente no que faz e nos benefícios que isto trará para a humanidade. Uma única instrução que deu foi disseminada por uma vasta e anônima rede de contatos. Como resultado, milhões estão morrendo, sendo feridos e mutilados a cada hora que passa. Matar-se-ia imediatamente se tivesse a mais leve desconfiança da legitimidade do que havia feito, aos olhos de Deus e dos homens. Está em paz consigo mesmo... Von Regensdorf fora o único dos Quatro que jamais pisara em Germania. Pouco se importava. Se Von Eisenkopf dissera que era preciso, bem, então era preciso e pronto. Sequer entende aquele ar de solenidade, a cidade servira ao seu propósito, agora deveria desaparecer justamente para não criar possibilidades de revanche contra a Fênix. Isso lhe parece bem. Está tranqüilo e preparado... E Von Eisenkopf sonha com o Império da Fênix Negra, eles quatro comandando com iguais poderes um mundo novo, sem pátrias, bandeiras, exércitos, armas nucleares e principalmente, sem noventa e poucos por cento da população mundial. Os restantes, escolhidos a dedo, já estavam a salvo em suas colônias afastadas, suas comunidades rurais em vales esquecidos, verdadeiros kibbutzin onde ao lado de cenouras e batatas se produziam artigos de alta tecnologia. Sim, os filhos da Fênix, ele cuidaria bem deles todos, lhes daria a sua religião e sistema político, ético e moral para norteá-los em sua jornada rumo à construção da sociedade de Deus. Eram Os Eleitos. Seus Eleitos... E o monótono e alto tique-taque continuava. Seis minutos ainda... ** ** Mike Thornton abriu os olhos tão logo lhe tiraram a venda. Estava em pé numa sala ampla, que parecia um grande depósito abandonado. A iluminação era boa e logo pôde distinguir os dois homens que estavam diante dele. Um era bem alto, olhos e cabelos castanhos, um terno muito bem cortado. Sorriu-lhe: - Eis aí o Barão Vermelho dos helicópteros, o ás dos ases em pessoa... – bateu palmas. O outro homem era obviamente um soldado, parecendo um pouco com aqueles dos filmes onde aparecem unidades da SWAT ou SAS, só que em uniforme de camuflagem. Posicionava-se com firmeza e solidez, pernas entreabertas e algo flexionadas, tronco levemente inclinado para a frente. Empunhava um fuzil curto, apontado para baixo. Um M-4, todo customizado, com Piccatinnys onde se aninhavam miras laser, lanterna, visor dot e sabe-se lá mais o que. Abaixo do capacete, uma balaclava verde, cujos olhos ficavam cobertos por negros óculos de combate. Não seria um cara para se arranjar encrenca, pensou o garoto. Mas não falou nada. Aguardou. O homem de terno tornou a falar: - Garoto, antes que comece a pensar bobagens, deixe-me esclarecer algumas coisas. Não somos criminosos nem seqüestradores, não tencionamos pedir resgates ou coisa assim por você. Na verdade o trouxemos para cá com a aprovação do governo, para quem você já deve ter adivinhado que trabalhamos. - Se são mesmo do governo, devem saber que isso é crime, tenho direitos... – falou timidamente Mike, baixo mas inteligível. - Sim, e quer continuar a tê-los, não? Bem, que tal um pouco de...deveres então? Jovem, seu país precisa de você e precisa agora, compreende? Temos um grande problema nas mãos e você é a solução. Estamos autorizados a requisitá-lo mas a natureza secreta da missão nos forçou a agir assim, de modo algo...pouco ortodoxo, digamos... – sorriu, como que se desculpando. - E o que...? - Ah, não é muito para alguém como você. Mas é de suma importância para este país. Siga-me. – convidou, voltando-se e seguindo a passos largos para uma ampla porta a uns trinta metros. O Soldado ficou imóvel vendo-o passar, então voltou-se e o seguiu, mantendo-se poucos passos atrás. Mike olhou algumas vezes para o guerreiro silencioso que o seguia. Queria perguntar por que estava sendo vigiado, afinal, faria qualquer coisa pelos EUA. Era um patriota, jamais ‘combatera’ por outra bandeira ou tendo por companheiros pessoas que não fossem sua gente, boa gente americana. O Homem de terno pareceu adivinhar seus pensamentos: - Calma, rapaz, o Sargento Hawkins está aqui expressamente para se encarregar de sua segurança, ninguém poderá lhe fazer nada de mal com ele presente. Nem mesmo eu. Seja um bom rapaz e o considere seu amigo, sim? Se algo acontecer, será ele a se interpor entre alguma desgraça e você... Mike se sentiu um pouco mais tranqüilo. Queria que aqueles bobocas como Fat Josh, que gostava de persegui-lo na escola, chamando-o nerd, emo e bobagens do gênero o visse agora. Adoraria perguntar-lhe: “E aí, FAG (bicha) Josh, quem é emo agora?” – riu à socapa. O homem de terno notou mas se conteve. O garoto estava começando a gostar e o que veria atrás daquela porta o colocaria de vez no jogo, era só uma questão simples de manipulação... - Garoto, como aquele seu pequeno MD-500 consegue abater até Apaches Longbow? - Ei, o senhor joga? - Não, gosto mais de assistir. E então? - Bem, à medida que passamos fases e cumprimos missões, ganhamos bônus, uma espécie de dinheiro virtual. Com isso podemos comprar equipamentos para customizar e melhorar nossas aeronaves. Tipo um carro tunado. A empresa que desenvolveu o jogo oferece vários. Só que desenvolvi uns tunings só para mim e foram aceitos pelo desenvolvedor. Ser campeão mundial tem suas vantagens... – sorriu abertamente agora. – Apenas eu os uso e fazem muita diferença em missões difíceis mas o principal é que apenas eu sei usar, nunca ensinei a ninguém... - Quer dizer, como aqueles... - Sim, os supressores superdimensionados acoplados ao NOTAR. Nada de emissão de calor ou som. Tive ainda que pesquisar um bocado na internet para achar motores e transmissões que se adequassem ao MD para lhe aumentar a velocidade, carga e manobrabilidade, bem como rotores resistentes, de ótimo perfil aerodinâmico e baixo RCS. O FBW eu inventei sozinho, me baseei num artigo sobre o Mirage 2000 e acredito que tudo isso funcionaria de verdade, num helo real... - Veremos isso em breve. – disse o homem de terno, escancarando a porta. Venha cá, garoto! Veja como uma simples fantasia adolescente às vezes pode se tornar real... Mike parou no umbral da porta, estarrecido: via diante de si a materialização de tantos sonhos que tivera, de estar um dia realmente dentro da cabine de seu helicóptero de guerra... O helicóptero de linhas avançadíssimas, pequeno e letal, estava ali, diante dele. Tudo no lugar, os sistemas, as armas, tudo. Era como se tivesse voado para fora da tela de seu PC. Mike nunca sentira uma emoção tão forte em sua vida. Até a pintura era a mesma! - E então? Vamos ver se voa mesmo? – convidou o homem de terno, com um sorriso cálido. - Você é da CIA? - Não, garoto, não nos misturamos com amadores. Nossa agência nem sigla tem, somos secretos mesmo! Só obedecemos e damos satisfações ao próprio Presidente. Aliás, esta missão foi determinada por ele em pessoa, incluindo a sua participação. Ah, ele é seu fã, sabia? - Meu fã? O Presidente? – Mike estava de olhos arregalados. - Sim, na final do campeonato o homem deixou dois ministros ingleses esperando na ante-sala enquanto roía as unhas assistindo, quase teve um treco quando aqueles caras dos Mi-28... - Ah, aquilo? Eu já os tinha visto, apenas estava me posicionando de modo a poder pegar um de cada vez... - Bem, vamos ver na vida real se você é tudo que parece ser... Joe! – chamou. Desceu um homem do helicóptero. Roupa de piloto de combate. Entre negro e mulato. Muito sério. Estendeu a mão para Mike: - Capitão Joe Spinelli. - Você não tem cara de italiano. - Nem você de Barão Vermelho. Mas cada um é o que é. Vamos fazer um breve briefing da missão, tenho quase duzentas horas nesta versão especial, vou ser seu 2P até poder voar sozinho, se recebermos permissão para isso. O de terno se intrometeu: - O que Spinelli quer dizer é que dependerá do relatório dele se o Presidente vai autorizar que você cumpra a missão monoplace ou com 2P. - Negativo, eu só voo sozinho em combate! – protestou Mike. - Você diria isso ao Presidente? Que se recusa a cumprir uma ordem pessoal dele, uma missão que lhe pode salvar a vida numa hora terrível como essa? Faria mesmo isso? Que tipo de americano você é? Envergonhado, Mike baixou os olhos. Bem, teria de impressionar bastante o tal negro italiano, então... No briefing lhe foram explicadas as diferenças entre o voo com a aeronave real e a virtual. Os rotores mais largos lhe proporcionavam realmente maior sustentação e, por conseguinte, maior capacidade de carga e manobrabilidade, mas a um custo de maior consumo de combustível e perda de sustentação e velocidade em curvas muito fechadas. Os escapamentos ultrasilenciosos haviam sido profundamente redesenhados pois no projeto original não fora levado em conta o possível superaquecimento da turbina. E muitas outras modificações, que em sua maioria pouco afetavam o desempenho ou as características de pilotagem da máquina. - Você só vai estranhar no começo, até compreender as limitações da máquina real... “Vamos ver” – pensou Mike. A verdade é que estava doido para por as mãos no coletivo e mandar brasa. “Esse negão aí vai ver com quem ele se meteu. Se bobear pode até acabar empalidecendo...” – e teve que segurar a gargalhada que já ia lhe subindo pela garganta... ** * Barco chegava ao fim de sua jornada. A um toque num botão do painel, uma imensa porta começou a se abrir. O Comandante então reduziu a velocidade para menos de vinte nós. Voltou-se para o imediato, no assento ao lado: - Como estamos de energia? - Excelentes, senhor! Poderíamos rodar mais umas duas mil milhas náuticas em alta velocidade sem problemas... A porta estava inteiramente aberta agora. À medida que se aproximava mais, a resina que recobria o Barco era eletricamente ativada, passando a um perfil de quase total invisibilidade. Finalmente saíram para o exterior. Voltando-se para boreste o Comandante viu, a alguns quilômetros, a grande lancha da empresa-fantasma que levaria os passageiros até o porto de Manaus, de onde os evacuados de Germania voariam para um destino desconhecido, determinado pelo Segundo Führer em pessoa. Velozmente o Barco se aproximou da lancha, emparelhando com ela e abrindo sua grande porta de desembarque bem sobre o passadiço principal. Os poucos soldados a bordo passaram a encaminhar apressadamente os passageiros para que a transferência se efetivasse logo. Em menos de dez minutos tudo estava feito. Silenciosamente, o grande Barco negro deu a volta e tornou a se encaminhar para a porta, já novamente fechada. Os passageiros e tripulantes tentavam ver algo além da esteira deixada. Quase nada. Então viram, justamente pela esteira, que o Barco dera uma volta de uns 90 graus e se encaminhava lentamente para a porta, que começava a abrir. Arianne arregalou os olhos e gritou! ** ** ** A lancha singrava velozmente rio abaixo. Os RATOS agachados, tão comprimidos contra o fundo quanto possível, decisão do Coronel Wolfgang, o único que havia freqüentado curso do equipamento. Não chegava a ser um expert mas havia treinado junto com os outros membros da malfadada equipe anterior e sabia tanto quanto eles. Podia extrair o máximo desempenho do veículo do modo mais eficiente e seguro. Já estavam a mais de trinta nós e acelerando, aproveitando que aquele trecho era largo e isento de pedras submersas e troncos flutuantes. Pouco adiante havia um ponto de curva, onde uma parte do rio seguia em frente e outra bifurcava para bombordo. Já estavam a dezenas de quilômetros de Germania mas não convinha facilitar, quem sabia do que poderiam ainda dispor os nazistas? Só se sentiria inteiramente seguro quando pudesse avistar uma base brasileira e isso não poderia fazer com a lancha, deveria levar o grupo para tão longe quanto possível do ponto de onde se evadiam e então se comunicar com Manaus para serem resgatados, os homens por helicópteros e a lancha pelo que julgassem mais apropriado. Então ouviu o estrondo. Automaticamente seus olhos se dirigiram para o retrovisor. Não acreditava no que via. - Que diabo é isso, inferno? ** ** **O Reichsführer esbravejava: - Mas que merda é essa? Como assim, não acham o cara? Ele está aqui, porra! - Herr Reichsführer, vasculhamos tudo, casa por casa, oficinas, laboratórios, enfermarias, depósitos, nem sinal. Talvez os terroristas o tenham apanhado como refém para garantir-lhes a rota de fuga... - Terroristas? E como saberiam do valor deles para nós? Não, não são terroristas, Heinz... - Como assim, Mein Herr? - Segundo os poucos informes disponíveis, eles aparentemente se vestem, combatem e agem como Waffen SS, não? Bem, quem garante que os malditos palhaços fantasiados de barões medievais não conseguiram se comunicar com alguns adeptos aqui? - Mein Führer, o senhor sugere que esteja havendo....? - Traição, claro! Que mais poderia ser? Há uma Waffen nossa e outra que é fiel ao outro lado. Eu deveria ter contado com essa possibilidade... - Mas e o que faremos, então? - Faça assim: mantenha em serviço os comprovadamente fiéis e requisite os que lhe causem a menor dúvida para um curso de doutrinação política. Ali verificaremos qualquer dúvida sobre sua lealdade. Ademais, quem não comparecer nem estiver morto ou ferido nas enfermarias e hospitais deverá ser considerado inimigo do estado. É isso, vamos dar nomes aos bois, basta de ficar caçando fantasmas... - Jawohl, Herr Reichs... - Diabo, que foi isso? * * ** ** A Casa da Montanha - O grande relógio badalou lugubremente, assinalando a hora fatal. - Irmãos, não fiquemos tristes, pois a hora é de júbilo. Esta imensurável perda irá temperar nossa determinação em prosseguirmos até o final. Agora nada mais pode impedir a Fênix de abrir suas asas sobre esta terra. – disse com suavidade Herr Von Eisenkopf. Os demais apenas assentiram gravemente, sem nada dizer. ** ** **Interior da mais profunda caverna de Germania, propositadamente isolada do restante da cidade subterrânea. O gerador ainda gira pelo efeito inercial da violenta explosão em seu interior, produzindo vários gigawatts para alimentar o considerável consumo da cidade. Há muitos conectores de altíssima tensão, que enviam energia para diferentes locais e níveis de consumo. Um deles leva cerca de um décimo da energia produzida diretamente para um grande cofre de metal. Dentro do conector uma luz vermelha que piscava cada vez mais rápido fica acesa, parou de piscar: é a hora. Os nanoexplosivos transformam imediatamente o conector inteiro em minúsculos fragmentos de porcelana. O fio condutor para o cofre é inteiramente rompido no processo. Dentro do cofre, o poderosíssimo campo de força eletromagnético se desfaz de imediato. O conteúdo parece ganhar vida, espalhando-se em todas as direções. Os primeiros grânulos entram em contato com as paredes interiores de carbono, reagindo com ela, desintegrando-se mutuamente e, no processo, gerando tanta energia que as grossas paredes externas de metal se transformam em milhões de minúsculos estilhaços, impulsionados em velocidade vertiginosa em todas as direções e sendo ainda mais acelerados pelas reações matéria-antimatéria em sua retaguarda. Paredes sólidas de rocha natural que ficam no caminho são mais combustível, perfuradas e explodidas pelo material que avança a vários quilômetros por segundo. O verdadeiro solvente universal, destrói tudo em seu caminho, cada destruição gerando vasta quantidade de energia que o impulsiona cada vez com mais velocidade e poder destrutivo. Em menos de um minuto tudo o que é Germania está acima de uma gigantesca caverna. Então, o teto desta explode para o alto. A cidade começa a ser rapidamente engolida, as explosões agora parecem ser apenas uma só, contínua e cada vez mais violenta. Para Germania, é o fim inevitável. O Reichsführer vai à porta de sua sala ver o que está acontecendo. Abre-a. Ao fundo do corredor, um clarão fortíssimo. Nada mais viu ou sentiu, a antimatéria o consumiu avidamente, gerando novas e novas reações. Já agora Germania inteira despencava sobre o imenso buraco, sendo imediatamente engolida e usada como combustível para alimentar as reações. A caverna ainda se expandia lateralmente. Chegou aos dois rios próximos, um subterrâneo e o outro a céu aberto. A reação foi terrificante, água sendo desintegrada em vasto volume. A explosão contínua engolia volumes cada vez maiores de líquido a montante e descarregava a energia resultante a jusante. Bem na direção por onde haviam seguido o Barco e a lancha com os RATOS. ** ** ** A Casa da Montanha Todos refletem em silêncio. Lentamente, Von Eisenkopf se ergue, enche uma taça de vinho e, pondo a mão esquerda sobre o ombro de Von Lubeck, fala mansamente: - Irmão, a hora é chegada. Sua trombeta deve soar. Von Lubeck apenas o fita intensamente. Respira fundo, então apanha a taça, muito antiga, onde muitos Cavaleiros Teutônicos beberam antes dele. “Mas nenhum chegou a este ponto” – pensa. – “Poder executar pessoalmente o Plano do Senhor.” Esvazia a taça, olha para os outros Três e, decidido, se encaminha à Sala de Comunicações. Mais um horror está para se abater sobre a humanidade, tão macabro quanto o desencadeado pelo Primeiro Cavaleiro. Minutos depois retorna. Pensa em algo para dizer aos demais. Decide-se por uma frase curta proferida milhares atrás por um outro homem em um outro contexto. As duas palavras podem ser interpretadas de diferentes formas mas a dele e a do outro têm basicamente o mesmo significado. Diz então, baixo: - Consumatum Est. Está consumado. Fez-se a vontade de Deus. ** ** A Diaba Ruiva estava no novo acampamento, para onde haviam se retirado os combatentes do MST. Os dois ferimentos leves feitos pela submetralhadora do homem do GATE foram medicados pessoalmente pelo amoroso ‘Inácio’. Por ela nada se faria, que se curassem com água e sabão. Mas ele, terno, insistira. Ela não viu nem ouviu o sinal codificado transmitido clandestinamente por todas as antenas e satélites do mundo. Também não tinha idéia do que começava a acontecer no interior de seu sangue. Os excipientes contidos nos medicamentos nela usados – e em bilhões de pessoas pelo planeta – eram em sua maioria produzidos diretamente ou sob licença pelas empresas controladas por Von Lubeck. Haviam sido desenvolvidos para uma finalidade precisa e seus insumos principais vendidos bem abaixo do custo. Como todo excipiente, tinham apenas componentes inócuos. Exceto por quatro ingredientes tão minúsculos que somente seriam detectados por microscópios eletrônicos mais potentes do que qualquer laboratório do mundo – exceto os da Fênix – possuía. E não eram eliminados naturalmente pelo corpo, tendo na verdade efeito cumulativo. Eram robôs feitos por nanotecnologia, desmontados em quatro partes. O sinal transmitido determinava que se reunissem. Em segundos, estavam completos, milhares por centímetro cúbico de sangue. Cada um, logo após estar montado, iniciava uma sequência de busca e detecção. Encontrado um leucócito, abria um minúsculo orifício e se instalava no interior do mesmo. Depois assumia o comando das ações. Então aquele glóbulo branco passava a detectar e atacar aos demais. Em menos de um minuto após o recebimento da transmissão havia uma verdadeira ‘guerra civil’ no interior do corpo humano, com os leucócitos lutando entre si, devorando-se mutuamente por fagocitose. Os glóbulos ‘normais’ simplesmente não tinham defesa contra os aparentemente seus iguais e se deixavam matar sem resistência. O corpo simplesmente mal conseguia acompanhar a destruição de suas defesas produzindo maciçamente mais e mais glóbulos brancos. Mas já acionava sinais de emergência por toda parte. A Diaba Ruiva se sentia inexplicavelmente fraca. Colocou a mão na testa. Fervia em febre. Mal conseguia ficar em pé, tão tonta estava. Suas pernas tremiam. Tentou dar um passo em direção à tenda e caiu de cara no chão pedregoso. Nem sentiu o nariz quebrar-se e o sangue escorrer. Desmaiou. Não notara que vários também estavam caindo ao seu redor. Todos os feridos da refrega do dia anterior e muitos outros, que simplesmente haviam ingerido algum medicamento, mesmo anos antes. Os nano-robôs exauriam um leucócito e, da mesma forma que haviam entrado nele, detectavam e passavam a outro, assim retomando a sua macabra missão. Sem identificar o inimigo e agindo de modo a tentar salvar o corpo através de um sistema tipo ‘todos são inimigos’, os leucócitos ‘normais’ passaram a atacar tudo o que lhes chegava ao alcance. A dinâmica interna do corpo humano havia simplesmente entrado em colapso. Era uma guerra na qual lutava dos dois lados e, como tal, não havia vitória possível. Então, as baterias dos robôs foram se exaurindo. Não fez diferença alguma a sua desativação. O sistema imunológico havia enlouquecido, mais e mais leucócitos eram lançados na corrente sanguínea e já programados para atacarem qualquer coisa que lhes chegasse ao alcance. ‘Inácio’ viu sua amada caída ao solo. Havia sangue ao redor de seu rosto. Tentou arrastar-se até ela mas seu corpo pouco ajudava. Sentia-se horrível, extremo frio, a ponto de bater os dentes incontrolavelmente. Não sabia mas já passava dos quarenta e cinco graus de febre. Como também não tinha o menor conhecimento da batalha mortal no interior de suas veias. Expirou a menos de um metro dela. Que aliás já estava morta. ** * *** Mike treinara mais de dez horas nas últimas vinte e quatro. Seu juízo era de que o helicóptero real era ainda melhor que o virtual. Havia tido de se adaptar a algumas pequenas mudanças mas em linhas gerais poucas diferenças haviam e, em sua maioria, eram para melhor. Orgulhou-se da capacidade dos técnicos e engenheiros de seu país em tornar melhor a versão real de um sonho virtual. Instantes antes o homem de terno lhe explicara a missão. Tratava-se de interceptar o helicóptero VH-71 de transporte presidencial, também conhecido como Marine One, um Merlin que após muitas marchas e contramarchas fora finalmente adotado. Claro que seria uma missão de teste, a aeronave do USMC era o meio de transporte presidencial até a base aérea onde o aguardava o VC-25, mais conhecido como Air Force One (AFO), um Boeing 747 bastante modificado e que, em emergências como as que se estavam verificando no momento, o conduziria à fortificada base aérea de Offutt, em Nebraska, de onde comandaria o país em segurança. Fora-lhe explicado que, se ele não conseguisse abater o Marine One ninguém mais o conseguiria e o Presidente poderia então se sentir totalmente seguro mesmo em tempos infernais como aqueles. O que não lhe explicaram é que o homem de terno nem americano era, tratava-se de um mercenário russo, ex-FSB, que vivera longamente nos EUA e portanto falava inglês sem qualquer sotaque estrangeiro. O silencioso ‘Hawkins’ o era por falar mal inglês, com forte sotaque palestino. ‘Spinelli’ era egípcio mas falava tão bem quanto o russo e o estranho nome era uma curiosa forma de despistamento, algo do tipo ‘só na América acontecem coisas assim’. Na verdade o intento era atacar o verdadeiro helicóptero presidencial, já que o avião era protegido demais e não seria possível obter algum caça para atacá-lo nem se aproximar o suficiente com mísseis antiaéreos que, ademais, teriam de ser sofisticados além do possível de ser adquirido por qualquer grupo terrorista para sobrepujar suas poderosíssimas contramedidas, que iam muito além dos onipresentes chaffs e flares. E eles eram um grupo terrorista, descendente da extinta Al-Qaeda, financiados por um príncipe saudita. **Mike estava só diante do helicóptero, embevecido com sua simples visão. Era simplesmente lindo à luz do sol matinal! Alguns metros atrás sabia estar o onipresente ‘Hawkins’. O cara se movia como um gato, nunca fazia barulho. Até aquele momento. Um gemido e o som de uma queda. Mike voltou-se. O homem parecia agonizar no chão. Hesitante, pois ainda o temia, aproximou-se: - Ei...você está bem? Novo gemido à guisa de resposta. A mão do homem se moveu levemente. - Posso...posso fazer algo para ajudar? Mike estava realmente preocupado. Agora o homem nem gemia mais. Estava praticamente imóvel. Assustado, o garoto correu para dentro. Logo após entrar, outro soldado caído. Correu para onde sabia ser o escritório do homem de terno, que com efeito estava lá. Só que morto. Mike não entendia o que estava acontecendo. Apavorado, lembrou-se do helicóptero. Abastecido e armado, poderia conduzi-lo para longe daquele lugar maldito. Foda-se a missão, para poder ajudar o Presidente precisava estar vivo, não? Correu para fora novamente, abriu a porta da aeronave, trancou-a, colocou o capacete com HMD e ligou o motor. Logo depois decolava. O que Mike ignorava sobretudo era que, por pura casualidade, nas poucas vezes em que havia necessitado medicação e vacinas o excipiente mortal ou ainda não fora distribuído ou o medicamento que recebera não o continha. Proporcionalmente poucas das mais de oito bilhões de pessoas no mundo tinham a sorte de Mike. Menos de vinte por cento. E muitas dessas estavam sendo vitimadas pelas matanças que se espalhavam por toda parte. E ele voava, o prazer de fazê-lo fazendo-o superar o trauma daquelas estranhas mortes. E sem fazer a mínima idéia de para onde ir. A base aérea no Pará continuava repleta de homens. Quase todos mortos ou agonizando. Na Sala de Comando subterrânea o Brigadeiro, junto com o General Kratos e o Coronel Carlos Mathias, este acompanhado do seu indefectível imediato e amigo, Gerson Vittorio, haviam acabado uma reunião de emergência sobre a guerra que se desenrolava ao norte, englobando Venezuela, Equador e Colômbia. Havia sido decidido que Carlos Mathias comandaria uma PAC próximo da fronteira Venezuela-Colômbia, a primeira de um ciclo ininterrupto até bem depois que cessassem as hostilidades. Só por precaução. Ao subirem, levaram o maior susto de suas vidas. - Putaquipariu, mas que diabo é isso? Nos foderam agora, porra! – exclamou o Coronel, atônito. Mortos a perder de vista... - Caralho! – secundou-o o General Kratos. – Que merda é essa? O Brigadeiro nada disse. Chorava silenciosamente, as lágrimas rolando livremente pelo rosto. Nem se lembrou de fumar. Não tinham a menor idéia que o sinal durara apenas o necessário para ativar os nano-robôs pelo mundo todo e há muito havia cessado. Todos tinham nas veias os minúsculos assassinos mas eles continuavam desmontados, inertes. ** ** A Casa da Montanha - Irmão Von Regensdorf... – disse suavemente Von Eisenkopf, apresentando a taça de vinho e arrematando. - Sua vez. A penúltima trombeta deve soar. Essa é a vontade do Pai.
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comentários
E a terceira trombeta ainda nem tocou...heheheh
PS.: que isso não seja interpretado como uma declaração de que a Fênix vá VENCER, isso nem eu sei...
Muito bem escrito, aguardando a semana que vem.