| A Fênix Negra - Capítulo Final - Parte I |
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| Escrito por Túlio Ricardo Moreira | |||
| Seg, 28 de Dezembro de 2009 12:11 | |||
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Cavaleiros do Apocalipse I – O Primeiro Cavaleiro
Aquela manhã prenunciava chuva com seu céu plúmbeo e pesado. Um céu molhado, diria o poeta. Gonzalez podia sentir a umidade em suas narinas. “Um ótimo dia que começa”, pensou ele. O calor em Bogotá estava simplesmente insuportável, pesado e opressivo. Uma chuva forte e prolongada lavaria as ruas e os prédios, lavaria mesmo o próprio ar, dando-lhe em acréscimo aquele gostoso aroma de chão molhado. Revigorado pela idéia de chuva iminente, entrou em seu carro e ligou o ar condicionado no máximo, tão logo deu a partida ao motor. Tinha, sem entender bem o motivo, a sensação de que seria um dia memorável. E isto que, durante a madrugada uma das crianças havia tido uma leve febre mas melhorara rapidamente com um simples antitérmico infantil, bom remédio americano, que ganhava na base aérea que eles usavam e na qual trabalhava como funcionário civil. Tranquilo e de bom humor, seguia em velocidade moderada. Viu de relance a motocicleta surgir em seu retrovisor, como que do nada, fazendo uma perigosa manobra para ultrapassá-lo. Sem pressa, mesmo algo perturbado pela forma agressiva de conduzir a moto, deu espaço para facilitar a ultrapassagem e se concentrou no trânsito à sua frente. Desse modo não pôde ver o carona sacar a submetralhadora UZI que levava por debaixo da jaqueta e, quando a motocicleta emparelhou com o carro, descarregar os trinta e dois cartuchos de nove milímetros praticamente à queima-roupa sobre ele. O carro cheio de perfurações e vidros estilhaçados, com o condutor morto ao volante, seguiu preguiçosamente ainda mais de uma centena de metros, parando ao bater contra a traseira de um caminhão estacionado. Este teve apenas alguns arranhões no pára-choque.
** Motumbo era o chefe da aldeia. Sua etnia era minoritária em Ruanda, mais ainda após os massacres e perseguições étnicas levados a efeito pela maioria dominante. Estava tudo surpreendentemente calmo fazia quase dois anos, o rebanho crescia, as plantações rendiam cada vez melhor com as novas técnicas introduzidas por aqueles homens de olhos estreitos que eram chamados por algo como ‘chinas’ ou coisa assim. Pouco importava a ele que nome tivessem, eles de fato ensinavam coisas interessantes como rotação e consorciação de culturas, adubação química e manejo de pragas. Vendiam os insumos necessários e compravam a bom preço toda a produção. Motumbo podia se considerar um homem realizado, a tribo prosperava a olhos vistos e sem ser perturbada em sua marcha rumo ao progresso. Haviam, claro, coisas de que não gostava tanto, como ver aqueles garotos que falavam de seus parentes mortos pela etnia rival e se reuniam em grupos cada vez maiores nos chamados ‘santuários’. Nome estranho para o que faziam lá. Isso o agastava um pouco com os rapazes. Aliás, havia cada vez mais garotas também. Mas eram suas crianças, honestas e trabalhadoras, conhecia a todos, os vira crescerem, os ajudara mesmo a sobreviver no auge das perseguições e ‘limpezas étnicas’. Agora que haviam crescido passavam dias em suas misteriosas reuniões e nem mesmo a ele era permitido ver o que acontecia lá ou sequer se aproximar. Mas ouvira falar que os homens de cor estranha e olhos puxados vendiam mais do que insumos agropastoris nas aldeias: aos garotos, segundo corria o boato, vendiam armas e ensinavam a usar. Não obstante, nunca vira ninguém da aldeia armado, podia mesmo ser apenas conversa fiada, apesar dos discursos cada vez mais inflamados pelos centros populacionais, onde se pregava uma coisa chamada vingança. Ele não podia compreender inteiramente o conceito por trás da palavra, o que isso traria de bom? Certamente não reviveria os que haviam morrido mas sim ainda traria mais mortes. O que podia ser melhor do que paz e prosperidade, que era o que finalmente tinham e era tão raro e precioso? Simplesmente não podia compreender aquelas mentes jovens, aquela sede de sangue. Meditava a respeito à sombra de uma grande árvore quando ouviu o já familiar ruído de motores diesel. Achou aquilo estranho, que ele soubesse nada havia sido recentemente colhido ou plantado nem estava em vias de sê-lo, não havia necessidade de caminhões ou tratores naquele dia. Curioso, ergueu-se e mesmo em sua avançada idade, subiu agilmente até um galho alto. De lá pôde ver os seis caminhões cheios de soldados e os quatro carros blindados levantando uma coluna de pó na estrada rústica. Lembranças de um passado terrível lhe confrangeram o coração: iriam começar outra vez as perseguições? Todos os que pudessem deveriam fugir novamente correndo para o mato? A tristeza era imensa agora. Então começaram os disparos, ainda relativamente longe da aldeia, centenas de metros. Isso era bem diferente do que Motumbo recordava, eles costumavam começar a atirar apenas quando entravam na aldeia, não antes. Ficou ainda mais espantado ao ver um dos carros blindados parecer inchar e logo a seguir desaparecer numa violenta explosão. Os soldados não seguiam em direção à aldeia agora, estavam lutando contra alguém mais. Então viu surgir correndo da aldeia um grupo de garotos. Todos empunhavam armas que nunca havia visto. Gritou-lhes de onde estava. Todos olharam para a árvore ao mesmo tempo em que apontavam as armas. Nervosos. Um bem jovem disparou uma curta rajada em sua direção mas ela se perdeu no ar. Tornou a gritar. Um deles, o mais alto, pareceu reconhecer-lhe a voz e ergueu a mão direita. Os garotos baixaram as armas. Motumbo desceu. O garoto alto era seu neto. Aproximou-se e perguntou-lhe o que era aquilo. O rapaz apenas o olhou. Então disse algo como ‘agora não fugimos mais’, deu de ombros e seguiu correndo em direção ao local onde se desencadeava a batalha, seguido pelos demais. Isso era demais, seu próprio neto, sangue do seu sangue, o havia desrespeitado e ainda por cima diante de outros. Uma grande ofensa! Gritou-lhe que voltasse. Queria o que era seu direito, os olhos baixos, as lágrimas, o pedido de perdão que, como sempre, seria bondosamente concedido. Nenhum dos jovens sequer prestou atenção. Nem mesmo a garota com aquele estranho tubo nos ombros. Corriam céleres rumo à celebração da matança. Motumbo sentou-se novamente à sombra mas agora com o coração pesado, pois finalmente compreendia. Então as lágrimas lhe vieram aos olhos e deslizaram pela face marrom: o inferno voltara à África. Desta vez, temia, para ficar...
** Bjaij olhava desolado para as ruínas de sua casa. Malditos israelenses e seus aviões! Alguém começara a lançar foguetes contra seus novos assentamentos e ele, como todos, se rejubilara, dançara e cantara nas ruas porque as vítimas finalmente haviam sido muitas. Estavam pagando uma pequena parcela das inúmeras desgraças e mortes que causavam havia décadas. Mas ele não atirara em ninguém, era um pacato comerciante que sequer possuía ou sabia usar armas, por que o atacavam? Por que sua família inteira estava morta sob aqueles escombros? Por que sua vida como a concebia simplesmente acabara? Então viu o Fedayin. Este olhava fixamente para seu sofrimento. Os olhos sob o keffiyeh eram duros mas aparentavam compreensão. Bjaij aproximou-se:
** Tony Spanks era seu nome artístico. Na verdade se chamava Anthony Miller e era o ‘last action hero’ do momento em Hollywood. Refazia-se de uma pesada carga de filmagens – atuara em dois filmes praticamente ao mesmo tempo, sua energia parecia inesgotável e o alçara ao estrelato em um par de anos – no Copacabana Palace, Rio de Janeiro. Olhou para o relógio. Pouco mais de nove da manhã. Foi até a janela só de cuecas e olhou para a grande piscina. Já havia bastante gente por ali. Reconheceu de longe sua cozinheira particular, especializada em comida japonesa e que o acompanhava a qualquer lugar que fosse. Ela mergulhou impecavelmente na água. “Quando japonesa resolve ser linda não há quem rivalize no mundo” – pensou. Logo que a contratara havia tentado alguns avanços mais ousados até se dar conta de algo que não constava no impecável currículo da bela jovem: era lésbica. “Mas que desperdício”, dissera em voz alta ao ser informado. Mas a mantivera a seu serviço, era uma verdadeira artista da culinária. Perdoara-a silenciosamente até quando ela conquistara uma starlet na qual ele estava bem interessado. Afinal, putinhas lindas querendo saltar alguns degraus na carreira havia aos montes, já uma cozinheira daquele nível e inteiramente disponível era uma autêntica raridade. Escancarou as amplas portas envidraçadas da varanda para melhor apreciar o espetáculo oferecido pela ninfa de olhos oblíquos que jamais lhe pertenceria. Às suas costas a estonteante cantora brasileira o chamou com sua famosa voz rouca para voltar para a cama, o queria agora. Voltou-se e olhou-a. Olhos algo vidrados. A vadia já estava cheirada àquela hora! Seus fãs deveriam vê-la agora, restos de cocaína formando um ligeiro arremedo de bigode sobre os lábios carnudos e sensuais. Com algumas carreiras nas narinas aquela mulher se transformava em uma verdadeira leoa na cama, fodia mais e melhor do que qualquer atriz pornô que conhecesse ou mesmo tivesse ouvido falar. Valia tudo, era assim que ele gostava e por isso a escolhera para compartilhar seu leito durante sua estada no Brasil. Mas agora não o atraía de modo algum, queria era ver Satomi nadar. Fodam-se essa puta e seu maldito pó. Foi até a sacada, ainda seminu, pouco ligando se o vissem. Enquanto a contemplava, bracejando gloriosamente e com ritmo quase profissional, ouviu o assobio crescente. Passara cinco anos com os Marines antes de ser chamado para fazer o seu primeiro filme. Isso incluíra dois períodos de serviço no matadouro afegão. Conhecia intimamente o silvo de uma granada de morteiro. Então, seus instintos, adormecidos mas ainda ali, zelando por ele, reagiram com a rapidez e competência que sempre haviam demonstrado em combate. Apenas pelo som pôde calcular que o projétil cairia a uma distância que pouco risco lhe traria. O ruído aumentou, devia ser de grande calibre, 120 ou 160mm. Chegou a ver fugazmente quando mergulhou na piscina aonde Satomi nadava. Um instante depois parecia haver ali um vulcão em erupção, a água foi arremessada para cima e para os lados, junto com corpos despedaçados e estilhaços de pedra e metal. Agachou-se ligeiramente, não escapando de ser encharcado mas sim de ser atingido por aquele braço que bateu violentamente contra a parede às suas costas. As vidraças se despedaçaram. A cantora gritou sua surpresa com o estrondo e a chuva de cacos de vidro encharcados que desabou sobre seu corpo despido, causando-lhe vários cortes e arranhões, tudo superficial, sem maior gravidade. A suíte ficou ensopada e o chão coberto de cacos de vidro. Tony, mesmo algo ensurdecido pela explosão, percebeu mais assobios. Não era filme, era vida real. Estavam atirando nele. Sua porção Fuzileiro Naval assumiu então inteiramente o controle de suas ações. Estava num andar intermediário e granadas de morteiro vêm de cima para baixo. Sabia o que fazer. Correu descalço pelo quarto, causando vários cortes nos pés, e agarrou a cantora nua que gritava histericamente, jogando-a sobre os largos ombros como fizera antes com companheiros feridos e deixou correndo a suíte, dirigindo-se à saída de incêndio e descendo as escadas o mais rápido que podia. Quanto mais baixo melhor! O prédio tremia, estava sofrendo os primeiros impactos diretos nos andares superiores.
Germania – Gabinete do SS Reichsführer - Então, Heinz, todos os da lista já estão na área de embarque? - Todos exceto dois, Herr Reichsführer: o Doktor Professor Lubeck e o Estrangeiro nível dez. - Razões? - O Professor se recusa a deixar Germania, disse que tem muitos experimentos em andamento e pacientes em observação. O Estrangeiro simplesmente desapareceu. - Como “desapareceu”? Não se “desaparece” em Germania, temos controle total graças a... – lembrou-se – ...sim, grande parte dos sistemas de monitoramento foram destruídos naquele misterioso ataque à Sala de Controle... O Reichsführer pensou. Era-lhe interessante mandar aquela gente embora de uma vez, tinham influência e podiam causar-lhe embaraços. O Estrangeiro – “Hóspede”, como costumava ser chamado” - era muito valioso para o Segundo Führer, seria uma excelente moeda de barganha se ficasse ali em Germania. Após as medidas duríssimas que empregaria para assumir o controle era possível que necessitasse de reposições provenientes do exterior, facilitaria bastante se ele tivesse alguém tão valioso em suas mãos. Por outro lado, Lubeck seria um estorvo, com sua rebeldia e a ilusão de que ainda tinha algum poder ou acesso a isso através de seu irmão. Não, este tinha de ir embora... - Onde ele está? O Professor... - Nos laboratórios, trabalhando como se nada estivesse acontecendo. Aquele homem parece meio... - ...doido, não? Bem, aproveite esta oportunidade ímpar: vou lhe mostrar como se lida com doidos arrogantes. Mande uma unidade Ersatz para a entrada, devem estar lá quando eu chegar. Você me acompanhará, claro. - Jawohl, Herr Reichsführer! – deu a ordem pelo pequeno rádio na gola – estarão lá em menos de dois minutos , Mein Führer! - Então vamos de uma vez, homem! Você é o segundo em comando aqui, é tempo de aprender uma coisinhas... – e riu sinistramente.
** O Coronel Wolfgang mal acabara de vestir o uniforme quando os disparos começaram. Os Waffen que avançavam não sabiam que eram inimigos com seus equipamentos, pensavam que eram tropas das suas. O Comandante chegou a interrogar por fonia: - Por que estão aí parados? Ei, esse cara está... – detectara o cadáver do Perdigueiro. Em sua mente começou a se formar a idéia de que um dos misteriosos terroristas fora abatido. Logo a seguir os RATOS abriram fogo concentrado contra o grupo rival. Surpreendidos, os oito Waffen foram rapidamente abatidos, quase sem reação. Os brasileiros rapidamente os saquearam, tomando todas as baterias intactas que possuíam. - Wolfgang, como se sai daqui? - Sair? Bolovo, há sensores por toda a selva num raio de centenas de quilômetros, até sei por onde se chega ao exterior da montanha mas seríamos caçados e encontrados com facilidade por eles. - Cara, a escolha é entre morrer aqui dentro, mais cedo ou mais tarde, e o que há aqui continuar sendo um segredo ou cair fora e arriscar. Além disso... - Por que não vamos ao hangar e pegamos aquele avião deles? Pense só, a gente levando uma máquina daquelas com pilotos e tudo pro CTA... - Wolf, quando chegamos aquela coisa estava saindo recheada de caras fardados e equipados que nem nós, sabe-se lá quando volta e não podemos ficar aqui esperando... Wolfgang recordou-se daquela vez em que praticamente fora morto ao tentar se evadir. Num laboratório perto da Sala de Controle havia uma porta que evidentemente dava para a selva, sentira-lhe o inconfundível cheiro. E o quadro ficou completo num instante: a lancha fora guardada numa pequena caverna do lado de fora, a poucas centenas de metros do rio, não interessava aos alemães, eis que nada de novo lhes trazia, em termos tecnológicos não passava de uma antiguidade nada interessante. Bastava ser ocultada dos sensores inimigos (e o mundo todo era inimigo) e que apodrecesse onde estava. - Cara, tem um jeito! Podemos usar a lancha com a qual vim para cá. Há um laboratório perto da Sala de Controle que tem uma saída diretamente para o mato. A droga é que vão poder nos monitorar, então creio que... - Já arrasamos tudo por lá, não podem monitorar nada. A não ser que haja mais salas do tipo... - Não, é a única. Jamais supuseram que pudessem ser atacados por dentro... - Então vamos lá!
** A área de embarque estava apinhada. Os primeiros passageiros do barco – era estranho chamá-lo assim, tinha a forma de uma cunha fechada por todos os lados e sem janelas, apenas duas portas, uma maior por onde os passageiros iam a bordo e outra menor para a tripulação. Arianne se perguntava onde estaria seu amado Wolfgang. Segundo um Ersatz que a acompanhara até ali, o Hóspede estava sendo procurado. Não, nenhum corpo fora encontrado ainda, seguramente não estava morto e, como não fora informada a sua entrada em nenhum centro médico, também não devia estar ferido. Na confusão deveria estar perdido mas, com as buscas maciças que estavam sendo efetuadas, logo seria encontrado e conduzido até ali – tranqüilizou-a.
No laboratório número três a porta se abriu. O Doktor Professor Lubeck, em meio a uma delicada cirurgia experimental de reposição de medula num macaco, e que lhe estava dando excelentes idéias para a próxima, voltou-se com irritação para dar de cara com um sorridente Reichsführer: - Você de novo? Quantas vezes tenho que dizer que não quero ser interrompido? Tem alguma coisa contra pesquisa científica? O sorriso se mantinha, cada vez mais sinistro. - Na verdade nada. Apenas determinei que... - Não me interessam suas determinações, estou cansado de suas insolências e perigosamente tentado a lhe mostrar quem sou, então, para o seu próprio bem, trate de... O soco o arremessou por cima da mesa de cirurgia, derrubando tudo e caindo ao chão junto com o símio. O sangue jorrava abundante de seu nariz quebrado. Dois Ersatze o ergueram e soltaram, cambaleante, diante do Reichsführer. Este desferiu novo soco, que o arremessou sobre os soldados, cuspindo mais sangue e dentes quebrados. Foi empurrado para a frente outra vez. A seguir, violenta bofetada o virou de frente para os soldados. Eles riam. Um falou: - Péssimo dia para ser arrogante, velhote... Agarrou-o pelo colarinho e, com um safanão, o virou novamente para seu superior. Este gritou: - Aprenda, filho de uma porca: agora quem manda aqui sou eu! E se digo que você vai fazer ou deixar de fazer algo, é melhor obedecer, para o seu próprio bem. O cientista estava atônito. Mesmo atordoado pelos golpes recebidos – nunca fora espancado em toda a sua longa vida – seu cérebro funcionava furiosamente. Aquele homenzinho ridículo jamais se atreveria a tanto. Algo devia estar bem errado ali. De algum modo a autoridade dos Cavaleiros Teutônicos estava sendo abertamente contestada. O pensamento seguinte o deixou ainda mais perturbado. Sabia que o Reichsführer o odiava, até por rejeitar sua autoridade. Se ele podia espancá-lo abertamente, não podia também matá-lo, se quisesse? E tudo o que queria era que ele partisse com os outros. Melhor ir embora vivo... - Então, seu pedaço de merda, vai enfiar esse seu rabinho em forma de mola entre essas aristocráticas pernas finas e sair bem mansinho ou vou ter que me divertir um pouco mais? Os rapazes aí também podem querer tirar uma casquinha, sabe... Lubeck baixou a cabeça e ergueu o braço na saudação nazista: - Jawohl, Herr Reichsführer, ouço e obedeço. Peço humildemente apenas a bondade de ser amparado até a área de embarque, pois não me sinto bem... O Reichsführer deu uma gargalhada: - Viu, Heinz? É assim que se lida com recalcitrantes! Passou o braço curto e grosso pelos ombros de Lubeck: - Cara, nós dois poderíamos ter sido excelentes kameraden. Bastava você ser um pouco menos orgulhoso dessas bobagens de sangue nobre e cavaleiros de merda. Você é brilhante, admiro seu trabalho e é apenas por isso que o deixarei viver. Deveria saber que aqueles palhaços fantasiados de guerreiros medievais não conseguiriam nos controlar para sempre. Eles o querem, poderia conservá-lo aqui trabalhando para mim mas a esta altura eles têm melhores meios a lhe proporcionar para prosseguir seus estudos. De qualquer modo, terei acesso a tudo, de agora em diante eles vão ter de negociar comigo e não simplesmente ficar cagando ordens em cima de nós. Ah sim, mande-lhes um recado: o outro nível dez fica aqui conosco! Basta dizer isso, eles saberão o que significa, aliás, até um cagalhãozinho como você sabe... – riu novamente. “Vai lhe custar caro, maldito demônio” – pensou Lubeck, com ódio, ainda enlaçado pelo Reichsführer. - Agora vá. Soldaten, acompanhem o nosso bom doutor até a área de embarque. Quando pegarem o Estrangeiro, que ele seja conduzido diretamente a mim! - Jawohl, Herr Reichsführer!
** - Meu Deus, Herr Lubeck, o que foi isso? Aos silvos, com a dificuldade causada pelo septo nasal rompido e dentes frontais destruídos, ele se esforçou para responder: - Ele vai pagar, minha amiga, juro que vai... Minutos após, as portas foram hermeticamente fechadas. Sem ruído, o ar interno foi levemente comprimido, pressurizando a cabine apenas o suficiente para que, se algum choque inesperado ocorresse e causasse algum rompimento, mesmo assim não entraria água. Então todos a bordo sentiram o leve solavanco para a frente que indicava que o Barco estava de partida. Alguns minutos depois o solavanco se repetiu, mais forte, diminuindo progressivamente até alcançarem a velocidade de cruzeiro máximo. Cento e cinqüenta nós.
** Kehlsteinhaus – Salão de Reuniões. Fala Von Eisenkopf: - Irmãos, o barco deve ter partido há umas duas horas. Falta pouco agora para o fim de Germania. Proponho a todos que elevemos uma prece ao Criador pelas muitas almas que terão de partir pelo bem da Fênix. - O perdão nos será concedido, pois estamos fazendo o trabalho do Senhor. – interveio Von Huhn.
** O jovem Mike Thornton saía apressado da escola. Queria voltar logo para o seu computador. Era pela segunda vez consecutiva o campeão mundial online do jogo HeloHell III, verdadeira febre entre os adolescentes do mundo todo. Era o mais perfeito simulador de helicópteros já desenvolvido e posto à venda no mercado comercial. Nas fases de treinamento – dezenas – o rigor e o realismo eram até maiores que nos simuladores das escolas militares. Mike, apesar de seus dezesseis anos, era um autêntico veterano em jogos assim, e levara quase seis meses para completar as fases que lhe permitiam jogar online no servidor oficial. Haviam os torneios piratas mas o pessoal que jogava ali era entediantemente fraco, cansou-se logo e passou a treinar com afinco até conseguir o nível necessário à admissão. Então seu progresso foi notável, era tão espantosamente agressivo e engenhoso em seus ataques e tão difícil de ‘abater’ que logo começaram a chover convites para integrar equipes, alguns oferecendo dinheiro; depois a primeira vitória de um campeonato mundial por equipes, onde ganhara ainda mais. Após, a tranqüilidade financeira, sendo patrocinado por uma empresa de softwares. Já ganhava bem mais do que seu pai. Finalmente veio a vitória individual, repetida naquele ano. Bi-campeão mundial. Fora informado em off que algumas táticas e manobras que desenvolvera estavam sendo estudadas e aplicadas com sucesso em academias militares por oficiais que também jogavam. Não obstante, continuava a ser um ilustre desconhecido no mundo real, embora fosse uma lenda no virtual. O Barão Vermelho dos helicópteros. Parou na esquina e olhou displicentemente para os lados antes de atravessar a rua. Não vinha nada de lado algum, fizera aquilo por puro costume, àquela hora quase ninguém circulava nas largas ruas asfaltadas da cidadezinha sem importância em que vivia. Ao colocar o primeiro pé na faixa de pedestres um SUV escuro, vindo sabe-se lá de onde, freou diante dele. A porta lateral se abriu e um homenzarrão saltou sobre o franzino adolescente, imobilizando-o e saltando junto com ele novamente para dentro do veículo. Durou poucos segundos e não houveram testemunhas. As câmeras de vigilância de todos os cruzamentos próximos haviam sido destruídas minutos antes com armas dotadas de supressor. A porta lateral fechou-se com estrondo e o veículo partiu em velocidade moderada, certamente para não chamar atenção. Minutos depois estava fora dos limites municipais e acelerava. Os olhos de Mike haviam sido vendados. Sentiu a picada de uma agulha próximo ao pescoço. Pouco depois estava inconsciente. A venda não foi removida. - Nunca se sabe... – disse o homem que ainda o mantinha seguro.
** O Tenente-Coronel Vasconcellos, do Batalhão de Operações Especiais (BOE) da Brigada Militar gaúcha, observava pelo binóculo. Deviam haver uns dois mil membros do MST na fazenda recentemente ocupada. Distribuíra seus quase duzentos homens em grupos de oito em todos os acessos, fazendo barreiras para impedir a entrada e saída de veículos e pessoas. Lição básica em qualquer curso de Gerenciamento de Crise: deve-se limitar o evento a uma área tão mínima e restrita quanto possível. Em pontos estratégicos ele colocara suas reservas, tudo de acordo com o manual. Não satisfeito, tinha uma unidade GATE (Grupo de Ações Táticas Especiais) em prontidão, junto a seu QG. Aproximou-se um Capitão da Inteligência: - Senhor, quatro caminhões se dirigem para cá, setor quatro rumo PB4. – haviam agentes à paisana discretamente espalhados pelos arredores, como sempre, providos de binóculos e rádios. O Tenente-Coronel Vasconcellos voltou o binóculo para a barreira correspondente. Depois além. Poucos minutos após viu a nuvem de poeira: haviam deixado o asfalto e rumavam para a fazenda. Aumentou o alcance. Só dava para ver direito o da frente, três pessoas na cabine e uns poucos na carroceria. Deviam estar trazendo suprimentos para os outros. Pelo rádio ordenou a um grupo de reserva, composto por dezoito homens e duas mulheres, que se dirigissem ao local para reforçar os oito da barreira PB-4 (Ponto-Base 4). Lembrou-se do esquadrão de cavalaria e determinou que os vinte integrantes também seguissem para o local. “Com essa gente nunca se sabe, eles precisam ver força para se intimidarem.” – comentou com o Capitão Thomas. Este também observava com seu binóculo. O Comandante do GATE, Major Schneider, sem a balaclava que lhe ocultava a identidade, também observava, interessado. Estava monótono demais ali. Talvez aparecesse algo interessante para o seu pessoal fazer, afinal, eram os únicos que empunhavam armas com munição real e prontas para ação, os demais usavam em sua maioria espingardas pump calibre doze com munição não-letal, balins de borracha. Ninguém queria outra Eldorado dos Carajás. Acompanhou algo enfarado o que ocorria. O primeiro caminhão parou diante da barreira. Um praça se dirigiu à porta do motorista. Reduzindo um pouco o alcance dava para ver que os cavalarianos chegavam. O grupo de reforço, a pé, corria em marcha acelerada e já estava a uns cem metros. Aumentando novamente o alcance, percebeu um enorme alto-falante sobre a cabine do caminhão-líder. Então, o inusitado. A porta do motorista foi aberta. Este saltou. Empunhava uma arma, parecia uma submetralhadora. Dois disparos e o praça caiu ao solo. Mais homens emergiam da poeira. Empunhavam armas, Schneider logo as identificou, eram fuzis de assalto Kalashnikov. Inicialmente os homens da barreira foram todos abatidos. A seguir o fogo convergiu sobre os cavalarianos, que tinham à mão apenas seus longos sabres. Duraram pouco, homens e cavalos mordendo o pó e misturando seu sangue. Um cavalo sem ginete galopava para longe, desenfreado e esguichando sangue dos dois flancos. - Putaquipariu, que diabo é isso? – berrou o Tenente-Coronel. - Estão matando a nossa gente! O Comandante do GATE não ouvira nada, já corria para seu pessoal, alertas e inquietos pelos disparos. Gritava: - Atiradores, atiradores, aqui, porra! Dois homens de negro com seus fuzis HK PSG-1 correram em sua direção, acompanhados por outros dois apenas com submetralhadoras MP-5SD com supressor e grandes lunetas. “Bem, duas duplas é melhor do que nada...” – pensou. O grupo de reforço se aferrara ao solo, disparando suas espingardas sem maiores danos aos atacantes. Seus coletes nível II eram completamente inúteis diante das armas de alta potência, melhor ficar no chão. Mas estavam juntos demais, quando a primeira granada de mão caiu entre eles os que tentaram escapar levantando e tentando correr foram massacrados a tiros de fuzil; os restantes tiveram de agüentar a primeira granada. Depois as seguintes. As mulheres gritavam. Isso não ajudou, morreram logo em seguida, estraçalhadas. Então o enorme alto-falante se fez ouvir: - Companheiros, a revolução começou! Às armas! Às armas! Morte as lacaios do capitalismo! O Tenente-Coronel assistia aquilo tudo acontecer diante de seus olhos sem conseguir compreender. Não estava em nenhum manual que conhecesse. Assustou-se com o primeiro estrondo próximo a si. Afastou o binóculo e olhou. Os homens do GATE estavam todos estendidos no chão. Um dos longos fuzis fumegava levemente. Logo a seguir o segundo disparou. O homem ao lado do atirador, olhando por uma luneta de espotagem, exclamou: - Aí, cara, tri essa: bem na testa, isso é que é tiro! O Major Schneider gritou: - Prestem atenção, olhalá, os filhos da puta têm até bazuca. RPG! Um risco de fumaça se dirigia a eles. Caiu a uns cem metros de distância, explodindo violentamente. Schneider riu: - É, aquele aparelho de pontaria não é para amadores, tem que ser craque para acertar num alvo a quinhentos metros. Mas vão acabar acertando. Moraes, traz a costureira! O Sargento Moraes correu agachado para a viatura camuflada, abrindo a porta traseira e retirando a mais nova aquisição do grupo, após anos de negativas do Exército: uma metralhadora MAG! Outro apanhou o tripé e outros dois todas as caixas de munição e canos extras que podiam carregar. Tão logo se posicionaram novamente onde estavam, agora montando a potente arma, outros correram para trocar suas MP-5 por fuzis FAL. Ia ser feio, todos sabiam. Também trouxeram placas de cerâmica para os coletes, compradas clandestinamente no Uruguai com seu próprio dinheiro, o Exército não aprovava coletes de nível superior ao IIIA, claramente insuficientes contra um disparo de fuzil. Um homem sentava no chão de braços abertos, outros dois inseriam as placas nos bolsos dianteiro e traseiro do colete. Em menos de dois minutos todos estavam com proteção nível IV. Então a ‘costureira’ tocou sua canção alta e tenebrosa. O som realmente parecia o de uma máquina de costura após passar por um amplificador. Quase não dava para distinguir um disparo do subseqüente, mesmo sendo apenas rajadas curtas para poupar os poucos canos extras disponíveis. O Tenente-Coronel Vasconcellos, que observava tudo pelo binóculo, ainda em pé, pôde ver o estrago que o GATE estava fazendo ao pessoal dos caminhões. As rajadas curtas e os snipers cobravam um pesado tributo aos agressores. Já havia mais de meia dúzia caída ao solo poeirento. O cara no alto-falante não parava de se esgoelar. Devia estar agachado dentro da cabine, fora de vista, o sacana. “Meu Deus, temos uma Eldorado às avessas por aqui” – pensou tristemente, um instante antes de ser abatido pelo FAL que vira. Menos de um minuto depois irrompiam no topo. Os homens do GATE não podiam se erguer para entrarem em corpo-a-corpo pois se o fizessem seriam abatidos pelos dos caminhões, que haviam montado metralhadoras também e atiravam sem parar. Os homens e mulheres das foices e facões caíram sobre eles como aves de rapina, sendo alguns abatidos pelos próprios companheiros lá de baixo, que não cessavam de atirar. Mas ainda assim o massacre foi completo, todos os integrantes do GATE e membros do QG eram agora cadáveres mutilados. As mulheres eram as mais cruéis...
A chamavam ‘Diaba Ruiva’. O marido, assaltante, fora morto pela polícia. Não sentira muito, nas raras vezes em que estava em casa só servia para tomar-lhe o que ganhava como faxineira diarista, fumar crack e espancá-la e aos filhos pequenos. Tentara inclusive estuprar a filha mais velha, de sete anos, ela o havia contido a pauladas num verdadeiro ato de heroísmo que lhe custara todos os dentes da frente e várias costelas quebradas. Ferido, furioso e frustrado, ele saíra batendo a porta do barraco onde viviam na Vila Divinéia, deixando-os todos à caridade dos vizinhos. Não faltara isso, ela era bastante benquista entre aquela gente boa, quase todos negros e que lhe haviam aos poucos trazido ojeriza pelos frios brancos, sua própria gente. Sua? Não, sua gente era aquela, preta e sofrida, que fazia toda sorte de malabarismos para sobreviver com alguma dignidade. Sentiase apenas acidentalmente branca, com seus cabelos ruivos e olhos claros. Hospitalizada, ao ter alta encontrou uma obesa assistente social que lhe perguntou o que iria fazer a seguir. Respondeu com franqueza que queria sumir com os filhos para algum lugar em que aquele monstro nunca mais a encontrasse. Logo estaria novamente preso e recomeçaria a rotina de cartas com juras de amor eterno junto com as ameaças e exigências de inserir drogas, celulares, chips e baterias em suas cavidades corporais e levar clandestinamente para a cadeia; “um dia eu vou sair daqui”, era sempre assim que ele terminava as cartas. Esperança ou ameaça? Ambas? Suas crianças não conheciam o sabor de biscoitos recheados mas ela levava a ele duas vezes por semana. Não, não queria mais isso em sua vida. Mas o que iria fazer, para onde ir, como viver? Bem, a assistente social lhe falara em tom altamente elogioso de algo que ela sempre via na TV e temia, algo chamado MST. Insistira com ela. Sem alternativa, acompanhara a mulher que falava lançando perdigotos até um acampamento. Fora fraternalmente aceita com suas crianças. Tudo era dividido entre todos ou ao menos assim lhe parecia no começo. Logo se deu conta que não era bem assim, com sua astúcia natural de favelada percebeu que havia um pequeno grupo de tendas sutilmente separado das demais e, espiando, vira que ali as coisas eram melhores. Um dos homens dali a vira, um negro forte chamado por todos de ‘Companheiro Inácio’. Embeiçou-se por ela. Deu-lhe dinheiro e mandou-a à cidade colocar uma prótese em lugar de seus dentes quebrados. Depois lhe perguntou se queria ser sua mulher. Ela era honesta e contou seu passado. Ele ouviu atentamente. Seu semblante endurecia pouco a pouco. Murmurou “que filho duma puta”. Depois lhe disse que nada mais teria a temer nem passaria qualquer necessidade, nem ela nem as crianças. E a vida seguiu tranqüila pela primeira vez para ela. “Inácio” – nome de guerra, ele lhe contara que na verdade se chamava Uélinton – era um marido gentil e carinhoso e um verdadeiro atleta sexual, jamais a deixara sem ao menos um orgasmo. Amava-o sinceramente. Então, um incidente: durante uma discussão interna, um dos integrantes acusara Inácio, aliás Uélinton, de se preocupar demais com a mulher e ‘aqueles filhos de quem sabe’ e menos com o Movimento. Ela nunca entendeu direito aquilo, no instante seguinte estava sobre o homem, franzino aliás, batendo-lhe a cabeça contra uma pedra. Sentiu que alguém a agarrava por trás, puxou com força e o homem caiu por cima do que apanhava. Retomou o que fazia, até haver quase uma dúzia de pessoas sobre ela. Finalmente a imobilizaram. A tiraram de perto do magricela. Ele estava morto, o crânio partido, a nuca um buraco enorme. Fora de si, ela urrava de ódio, via nele o ex-marido, um maldito branco safado que lhe queria estragar a vida outra vez. Finalmente o novo marido a conteve. Todos falavam dela em voz baixa agora. A Diaba Ruiva. Por seu cabelos naturalmente vermelhos e pelo que era capaz de fazer. O morto fora enterrado bem fundo e se deixara de lado a história. “Inácio” lhe dissera que um homem gorducho chamado “Companheiro Arnaldo” – ela o conhecia, o tipo vivia lhe lançando olhares cobiçosos – propusera que fosse julgada por homicídio por algo chamado ‘tribunal popular’, um grupo integrado pelos líderes, e que devia pagar com a vida pelo que fizera. Seus olhos azuis fuzilaram enquanto ouvia. “Inácio” apressou-se a esclarecer que a proposta não dera em nada, um alto líder visitante deixara claro que tempos duros se aproximavam e iriam precisar justamente de gente que não tivesse receio de lutar até a morte. Isso encerrara a questão. E agora ela acabava de destroçar um daqueles homens de preto que a ferira de raspão com a submetralhadora. Continuava a golpear o homem agonizante, que estremecia mais pelos golpes furiosos do que pelos estertores da morte. Ela estava coberta de sangue. Então notou “Arnaldo”, com um revólver, passando por trás dela, gritando ordens aos outros. Bem ao alcance. Não pensou, apenas girou velozmente a foice e decepou a cabeça dele com um único golpe. Olhou em volta. Ninguém reparou. Voltou-se e continuou a estraçalhar o soldado. Urrava como mil demônios: Naquele dia o Brasil todo sentiu a força dos ditos ‘sem-terra’. De norte a sul as matanças eram incontáveis.
** Palácio do Planalto. Gabinete de Segurança Institucional. Fala o Presidente: - Mas o que inferno está acontecendo? O País todo está em chamas! - Perdoe-me a correção, Senhor Presidente, mas o mundo todo está. Não há um único país na terra que não esteja conflagrado neste momento. Há violentas explosões de terrorismo e guerras civis em quase todos. Até o Vaticano já sofreu só hoje três atentados a bomba e dois de franco-atiradores. A Guarda Suíça está fardada e armada como qualquer outra força militar e recebendo reforços de emergência. Tem ordens de atirar para matar que foram assinadas pelo Papa em pessoa... - Putz, Maltez, o Papa assinando ordens de matar? - Não há alternativa, está tudo se desintegrando. E em outros lugares está pior, além de guerras internas eclodiram também hostilidades externas. Aqui do lado a Venezuela e a Colômbia se engalfinharam ainda de manhã, no começo da tarde o Equador atacou a Colômbia pelo outro lado. Os três estão enchendo o saco para falarem com o senhor, assim como os bolivianos e paraguaios, que se pegaram há pouco... – interveio o Ministro das Relações Exteriores. - Tá na cara, querem enrolar a gente junto nessa lambança... - Exatamente. Disse a todos que o senhor está dirigindo o combate à crise interna e não pode tratar de mais nada por alguns dias. - Excelente. Não quero nem saber dessas sandices dos vizinhos; começaram, que se virem para terminar.
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** Germania. Um contador automático marca T menos trinta e cinco minutos. A pequena carga de nanoexplosivos a que ele está conectado está dissimulada dentro de um enorme conector elétrico que leva energia do reator de antimatéria até o depósito onde se encontram as abundantes reservas dela. É um enorme cofre de aço inoxidável revestido com uma grossa camada de isolante à base de nanofibras de carbono. Dentro um poderoso campo de força eletromagnético, em tudo idêntico aos dos reatores nucleares de fusão. Se deixar de receber energia por um segundo que seja a antimatéria entrará em contato com a matéria, arrombará o cofre e continuará a reagir com toda a matéria que encontrar, seja metal, plástico, madeira ou carne. A explosão do primeiro contato arremessará o conteúdo letal bem longe, para reagir com tudo o que encontrar pela frente e gerar novas explosões e reações. Mas falta ainda mais de meia hora...
** A Casa da Montanha
- Posso começar agora mesmo, Irmão Von Eisenkopf... - Não há pressa. Deixemos que os efeitos da...trombeta do nosso Irmão cheguem à sua plenitude. Então sim, haverá muita gente precisando de medicamentos. As antenas estão todas à perfeição? - Melhor impossível, Irmão. Não os decepcionarei. - Sei disso. Não se incomode, logo chegará a sua vez... **
O Segundo Cavaleiro do Apocalipse estava ansioso para desencadear a sua quota de horrores sobre a humanidade. Breve o faria. Não havia nada que o impedisse mesmo, apenas o senso de momentum de Von Eisenkopf. **
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Sejam bem-vindo(as). Este Blog apresenta mi-nhas histórias com motivos militares, sempre enfocan-do nossas Forças Armadas, seus integrantes, equipa-mentos, técnicas e táticas em primeiro plano. Túlio Ricardo Moreira, ou simplesmente "Túlio", tem 46 anos, é Agente Peni-tenciário e escritor. É mo-derador do Fórum Defesa Brasil desde 2006 e cola-borador do site desde 2008. |
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comentários
O Desenvolvimento da trama esta ótimo, se bem que vejo que com apenas esse capitulo para o final (geralmente você divide em quatro partes), pode ser que fique muita coisa em aberto, você foi fundo numa teoria de conspiração unindo "forças revolucionárias em todo mundo", mas foi bem impactante. Sobre a MAG na brigada militar não sei, mas aqui no Ceará, já ouvi falar em metralhadoras antigas, estilo Madsen (não a sub, o fuzil metralhadora) ainda operacional em nossa polícia.
Muito obrigado por comentar, nem imaginas a diferença que isso faz! Gostaria de me alongar ainda sobre a teoria de conspiração mas estou neste momento escrevendo a parte 2, que sai na próxima segunda nem que chova prego.
CONGRATZ! FELIZ 2010!