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Última Parte – Os Cavaleiros do Apocalipse VI – O Quarto Cavaleiro " Então ouvi a terceira Criatura: "Venha" e apareceu um cavalo baio, o nome do cavaleiro era Morte e o Inferno o seguia de perto." Livro do Apocalipse
Antes do embarque tinha havido uma reunião entre os Coronéis Bolovo e Wolfgang com o Brigadeiro. Presente também o Coronel Carlos Mathias.
- Senhor, a razão desta missão é autoexplicativa, não...
- Se for o que você diz, não há mesmo muito que explicar, a hora é de ação. Vocês me parecem muito bem equipados mas ainda assim vou perguntar, há ainda algo que lhes falte?
- Senhor...neste momento somos treze. O mínimo. Seria interessante poder contar com um décimo quarto elemento para o caso de termos de nos dividir em duas equipes, uma o Bolovo comandaria e a outra...
- Aí temos um problema. Metade do Grupo foi dizimada naquela primeira missão, o que restou está com você, Wolfgang. Talvez alguém das Forças Especiais ou dos Comandos, tem uns caras bem legais por aqui...
- Não, não conhecem nosso padrão e levariam muito tempo para se adaptar. Todos começamos no PARASAR, ficaria mais simples se...
- Peraí – interrompe o Coronel Mathias – você falou PARASAR? Tem um cara deles aqui, estávamos com uma equipe por conta da quantidade de aeronaves no ar daí um monte deles se fodeu com essa peste desgraçada que pegou quase todo mundo. Mas um parece que escapou tranqüilo, estava, segundo relatou, em exercício de resgate subaquático, quando subiu foi aquela visão do inferno, talvez a tal de peste tenha algo contra água...
- O cara é do PARASAR? Novato ou antigo?
- Bem, não é nenhum velhote mas é primeiro-tenente, não fede mais aos cueiros da AFA... O Brigadeiro apenas assiste à conversa entre Wolfgang e Mathias. Parece-lhe haver interesse por parte do RATÃO.
- Vamos ver o homem mais de perto, senhores. – aciona o interfone – Diga ao Tenente Luiz Paulo para se apresentar na minha sala, três ‘U’. Minutos depois o oficial foi apresentado aos RATOS e, após um rápido exame de suas capacidades, aceito. O Grupo então passou a ter dois subgrupos iguais em tamanho, seis homens sob o comando de Wolfgang e seis para Bolovo. O novato ficaria no grupo de Wolfgang.
O 737, após permissão, pousou em Berlim. Lang continuava sentado na cadeira do copiloto. Bertinelli observava o combustível. Se logo ao desembarcar aquele estranho sujeito ele desse a volta e arremetesse teria o suficiente para chegar a Londres ou Paris sem problemas. Poderia então relatar o que ocorrera às autoridades locais ou, caso as coisas estivessem como em seu país, abasteceria ele mesmo e se arriscaria em nova jornada transoceânica. Mas enquanto deslizava pela pista notou baterias antiaéreas nas proximidades. Não, má idéia... A aeronave parou. Pela janela lateral Bertinelli viu uma escada motorizada de desembarque se encaminhando para ele. Levantou-se.
- Bem, vou abrir a porta de desembarque.
- Por que deixou as turbinas ligadas? Pretende escapar?
- Com toda essa flak em volta? Isso aqui não é um caça, homem...
- Já lhe disse para não se preocupar. Pode desligar isso.
- Amigo, ainda preciso manobrar para tirar o aparelho da pista depois que você descer.
- Deixe isso por nossa conta. Você desce comigo. Será nosso...hóspede... – sorriu, enquanto recolocava o capacete. “E essa agora”, pensou Bertinelli, amargurado. “Prisioneiro. E sei lá de quem...”
A energia havia acabado fazia horas. A bordo da Aeronave os dois tripulantes quedavam silentes. Sabiam que se até aquele momento não haviam recebido mais nenhuma chamada do grupo Waffen SS só poderia haver uma razão. Mortos. Todos mortos. Talvez até algum tivesse sido capturado mas não dera com a língua nos dentes ou já estariam cercados de inimigos, sequiosos do inacreditável botim tecnológico. Ademais, já fazia bastante tempo que não ouviam disparos ao longe, explosões, nada. O piloto voltou-se para o copiloto:
- Witt, creio que seja hora... Abriu um pequeno painel móvel à sua frente. Dentro, apenas um largo botão, internamente iluminado por uma luz vermelha. Para ‘aquilo’ havia energia...
- Heinze, tem certeza? O pessoal pode ainda estar tentando chegar a nós...
- Não parece. E mesmo que alguém estivesse chegando, seria apenas para nos matar por não cumprirmos ordens. Já deveríamos ter destruído o Avião... Witt pensou. Estivera adiando o que sabia que iria dizer. Heinze era tecnicamente seu superior mas se tratavam como iguais, iniciativa do próprio Heinze, que julgava que maior camaradagem levaria a um melhor rendimento operacional. O fato é que todo mundo adorava trabalhar com ele, fosse voando, fosse no laboratório. Além de pilotos de teste eram ambos engenheiros. Mas era agora ou nunca.
- Heinze, eu não vou fazer isso.
- Homem, eu também não estou gostando nada da idéia mas ordens são ordens...
- Ordens! Você vem me falar de ordens? E onde estão os caras que dão este tipo de ordens nesses momentos? Está vendo algum deles aqui para virar torresmo em pó junto com a gente? Cara, você protestou contra essa maldita missão, nem se dignaram a lhe responder. Ambos sabíamos que a probabilidade de dar merda era na verdade uma certeza, como de fato...bem, aqui estamos, não? – abriu o painel à sua frente.
- Aí temos, então. No que essa merdinha aí pegar a minha digital e a sua, aquele restinho de energia de reserva irá percorrer em um caralhésimo de segundo toda a célula. O plasma inteiro mal chamuscaria os pelos de um rato mas é mais do que suficiente para acionar todos os nanoexplosivos que fazem parte da estrutura. Nós morreríamos sabendo que a explosão começaria no nariz – bem aqui onde estamos – e terminaria na cauda mas para qualquer observador externo a aeronave teria simplesmente se desintegrado inteirinha de uma só vez.
- Bem, creio que nem iríamos sentir nada...
- Mesmo assim iríamos morrer. E tudo o que estudamos, pesquisamos, fizemos, tudo vira fumaça junto? Vivemos em vão, em suma..? Homem, entenda que fora de Germania não há um único engenheiro do nosso nível, porra!
- Cara, e o que diabos quer fazer? Witt sorriu:
- Vou lhe dizer, kamerad. Há uma saída para nós...
A bordo do KC-390 que rumava para Fortaleza os RATOS tratavam de instruir o mais rapidamente possível seu novo integrante sobre os novos equipamentos que deveria usar. O tenente estava maravilhado.
- Senhor, com isso aqui a gente poderia ir pra guerra contra qualquer coisa, porra! Desculpe...
- Nem esquente, somos bem informais aqui. E pergunte o que quiser sobre os equipamentos e a missão, melhor saber agora do que ficar em dúvida no momento de combater. – disse Wolfgang.
- Bem, para onde estamos indo? Vamos encontrar onde o resto do pessoal?
- Resto do pessoal?
- Sim, certamente fazemos parte de uma força tarefa internacional, não? Wolfgang teve de se esforçar para conter o riso. O que este rapaz estava pensando?
- Homem, do jeito que o mundo está você não reuniria nada que prestasse. Está tudo de pernas para o ar. E ninguém me tira da cabeça que há outro golpe, o mais violento de todos, vindo por aí. Não, temos que nos virar sozinhos, aliás, nada de novo nisso...
- Mas com uma força tarefa internacional bem que a gente...
- Tá, ‘Força Tarefa’, tá, vamos ver o que achamos para contentar você, certo? E há um componente internacional nesta missão, você logo verá...
- “Força Tarefa!” – riu o Judeu, que acompanhava a conversa. – Taí, acabaste de receber o teu batismo, mesmo sem as pompas da base. Aí, pessoal, cumprimentem o nosso novo colega, o Força Tarefa. Foi uma risada só. Sem uma garrafa de cachaça da mais vagabunda para entornar-lhe na cabeça, contentaram-se em esvaziar seus copos de plástico com água na cabeça descoberta do oficial. Cada um que fazia isso dizia: “te saúdo e te batizo, camarada Força Tarefa, e te mando à puta que te pariu”. Ao final, o indefectível brado daqueles guerreiros:
- Até o inferno!
Encharcado, o oficial se secou e então trocou sua farda de trabalho por um daqueles estranhos macacões de combate. Ficou surpreso com seu conforto. Mas gostou muito. Então passaram todos à parte prática de ensiná-lo a usar. De certa forma era um sortudo, eles haviam tido de aprender na marra, em combate...
O Coronel Wolfgang se afastara do grupo, sentando-se bem mais à frente da fuselagem. Reclinou-se com as mãos atrás da cabeça e rememorou...
Ainda estavam na selva, aguardando o C-SAR. Mantivera-se monitorando todas as freqüências militares dos nazistas e nada captara. Então finalmente apanhara uma comunicação. Um comandante de uma lancha. Havia visual também e, após ouvir o homem de Berlim perguntar pela Condessa, pôde ver Arianne sentada no chão, braços cruzados sobre os joelhos. Parecia chorar. Perto dela, sua mãe, a quem ele fora apresentado e que lhe parecia ótima pessoa. A chamavam de Condessa. Nada nazista, chegara a referir-se àquilo como ‘as loucuras de meu marido’. E rira. Arianne havia fechado a cara na ocasião.
Pensou por um instante e não conseguiu resistir. Tendo todos os dados da chamada, incluindo códigos do equipamento usado e posição, chamou. Nenhum retorno. Estava fora de alcance. Já a bordo do helicóptero de resgate, horas depois, tornou a chamar. Desta vez teve sorte. O marinheiro atendera e Wolfgang se identificara com um nome inventado na hora, declarando falar em nome do Reichsführer. Precisava falar com a Condessa, assunto confidencial.
O comandante da malfadada Altmark nem pensou duas vezes, ordens daquele demônio deviam ser cumpridas antes mesmo de ele acabar de falar. Assim, chamou a Condessa, que ainda acalmava a filha. De má vontade, ela apanhou o aparelho.
- Que quer? Estou ocupada agora.
- Preste bem atenção. Afaste-se de todo mundo aí, preciso falar apenas com a senhora.
- Escute aqui, seu nazistinha, estou pouco...
- Não sou nazista. Apenas tive de dizer isso para despistar esse boboca aí.
- Ei, estou reconhecendo sua voz...você é..?
- Não diga meu nome. Apenas se afaste para conversarmos. Não diga mais nada, por favor, apenas faça o que estou pedindo. Curiosa como todas as mulheres, a Condessa fez o que lhe foi pedido, caminhando lentamente para longe dos demais enquanto fingia manter uma agradável conversação. Já suficientemente afastada para não ser ouvida mas assim mesmo podendo ver os demais, disse:
- Acho que aqui está bom. Fale então, você é meu..?
- Sim, sou Wolfgang, seu genro.
- Maravilhoso, eu acho que deveria chamar Arianne, a pobrezinha está numa tristeza sem fim, acha que você morreu...
- Por favor, não a chame. Quando tiver um tempo a sós com ela apenas diga-lhe que estou vivo e lhe mando todo o meu amor. Diga-lhe que juro que tornarei a me reunir a ela. Mas agora estou muito longe daí e jamais chegaria a vocês antes dos nazistas.
- ‘Nazistas’? Não, não são nazistas que vêm nos resgatar, aquilo acabou.
- Como assim?
- Meu rapaz, você sabe muito pouco sobre a maldita Fênix...
- Se a senhora pudesse me explicar... Ela falou durante quase dez minutos. Ao encerrar Wolfgang estava atônito.
- Meu Deus, mas é preciso parar isso!
- Concordo. Mas o difícil é fazer...
- Tenho os meios. Como é que a senhora acha que estou conseguindo me comunicar? Eu e meus companheiros estamos tecnologicamente no melhor nível de combate que Germania pode proporcionar... A Condessa pensou. Estava a par dos planos do Reichsführer de matar os Teutônicos e instaurar o nazismo sobre toda a terra. Mas não havia como o desprezível homenzinho ter cooptado Wolfgang, sabia que seu genro jamais desceria a este nível. Odiava o nazismo quase tanto quanto ela. Aliás, a única coisa que ela odiava mais era a Fênix. E talvez aquele rapaz pudesse...
- Wolfgang, me dê algum tempo para pensar. Eu chamarei você novamente. Talvez daqui a uma ou duas horas...
- Mas Condessa...
- Paciência, meu rapaz, paciência. – e desligou. Na verdade já tinha pensado tudo o que necessitava, havia apenas um detalhe a ser resolvido: como enviar as coordenadas da Kehlsteinhaus. Ela as tinha em seu comunicador pessoal, que era como os nazistas chamavam os seus telefones celulares. Estes tinham algumas características interessantes, como serem pouco maiores que um isqueiro Zippo e gravarem as coordenadas com data e horário de todos os lugares por onde andaram. E ela estivera em várias solenidades para casais lá. Seria questão apenas de localizar uma das datas festivas e transferir as coordenadas para o comunicador de longo alcance do comandante da lancha. Se bem recordava, havia até fotos que batera com aquele mesmo aparelho, inclusive a bordo do helicóptero, e também eram arquivos transferíveis.
Levara menos de meia hora. A Condessa já ouvia de longe o ruído do helicóptero que vinha resgatá-los. Um nervoso comandante lhe permitira usar o aparelho desde que fosse breve, pois tinha que se comunicar com a aeronave. Em cerca de meio minuto transferiu os arquivos para o comunicador e enviou ao endereço eletrônico de Wolfgang, que ficara arquivado. Com um sorriso, devolveu o aparelho ao comandante.
- Pronto, meu caro amigo, está feito. O Reichsführer ficará bastante agradecido e, como não preciso da benevolência dele... O homem, não sabendo se deveria ficar feliz ou intrigado, tratou de fazer seu trabalho:
- Dschungel Wachen, Dschungel Wachen, aqui Altmark, estamos ouvindo vocês. Estou ligando o emissor de sinal de emergência, basta seguirem o sinal...
A Condessa estava feliz. Sabia que isso aconteceria um dia e fora esta certeza que a salvara de enlouquecer e se suicidar. Sentia em seu íntimo que um dia chegaria o momento em que poderia direcionar um golpe mortal ao coração da maldita Fênix, que lhe roubara o marido e a felicidade...
O Coronel Wolfgang pensava nisso quando chegara à Base de Belém. Havia contado tudo o que sabia ao Brigadeiro que, espantado, liberara os recursos necessários à missão: um KC390 para irem a Fortaleza e o BBJ Presidencial se deslocando de Brasília para lá, devendo levá-los à Suíça. Agora, mal acomodado no KC, fardamento completo, exceto pelo capacete com o visor, traçava seus planos de ataque. Seria imprescindível que Bolovo conseguisse o que prometera. Sim, bastava isso para ter tudo o que necessitava para acabar com a festa dos que ainda considerava como ‘nazistas’. Ou morrer tentando...
Ele se chamava Guilherme Bilowsky. Fora uma sensação televisiva desde o fim de sua infância. Tinha sido um menino lindíssimo, louro, olhos azuis claros, nariz arrebitado, lábios carnudos sem serem grosseiros. Filho único. Seu pai e sua mãe trabalhavam fora para proporcionar-lhe um padrão de vida decente e sua avó o criava. Ali pelos seus dez anos o pai estranhara todos aqueles trejeitos, o andar meio rebolativo, os constantes falsetes na fala. Ele passava o fim de semana com os pais.
- Mulher, há algo errado com o Guigo – apelido que lhe tinham posto ainda bem pequeno.
- O que é? É um bom garoto...
- Garoto ou garota? Olhe como anda, fala, se veste, aquela mania de respirar fundo e revirar os olhos quando não gosta de algo que lhe dizemos...
- Isso é fase, querido, nem perca seu tempo em...
- Acontece que prestar atenção em meu filho não me parece perda de tempo. E acho que...
- Sim, eu sei o que você acha. Minha mãe, sempre minha mãe... – ela suspirou e revirou os olhos.
- Pois é, taí, aquela bichinha faz a mesma...
- Agora escute: dobre a língua quando for falar do meu filho, sim?
- Quem ouve você pensa que o fez sozinha, que o sustenta sozinha. É meu filho também, não?
- Olhe, estou cansada à beça, vamos deixar para brigar outro dia, se não se importa... – e virou para o lado. Instantes depois ressonava. Ou fingia fazê-lo. E ele ali, acordado, pensando em sua infelicidade em ser pai de um veadinho.
Mas não agüentou muito, chamou-o às falas. Da conversa deduziu que era só aparência mesmo, o menino era criado por uma velha afetada, cheia de cosméticos e operações plásticas com os quais tentava, infelizmente com pífios resultados, aparentar ter um terço de sua verdadeira idade. Mas que ele parecia uma bichinha, isso parecia...
Então certa noite teve a idéia. Passou a noite em claro fazendo anotações e pesquisando na internet. Pela manhã tinha um plano. Claro, há muitas maneiras de se ficar rico e aquele menino era uma mina de ouro. Como não tinha notado antes?
Para gáudio do garoto, o matriculara então em aulas de dicção, arte dramática, canto e dança. Ali pelos onze anos os primeiros filminhos no Youtube. Guigo Bilowsky cantando. Guigo Bilowsky dançando. Guigo Bilowsky contando piadas. Guigo Bilowsky imitando uma apresentadora de programas infantis. Estourou na internet. O pai não teve maiores dificuldades em arranjar entrevistas: o menino era um sucesso virtual!
Os primeiros contatos da grande rede de televisão não se fizeram esperar. Queriam um teste. Levou o garoto e ficou junto, temia aquelas história de pedofilia. Aliás, recebera tantas propostas de pedófilos pela internet que morria de medo disso. Mesmo a contragosto pela presença do pai, o diretor, pederasta inveterado que realmente não se importaria de ‘dar uma voltinha’ no menino realizou o teste. O garoto era simplesmente maravilhoso, criativo, inteligente e chamaria um bocado a atenção por aquele ar gay, além de sua fascinante beleza. Fotogênico demais também. Mas olhando-lhe nos olhos, notara, como velho e experiente sodomita, que ali não estava um dos seus...
O primeiro programa teve as piores críticas possíveis na mídia. Mas muito veladas, não era nada politicamente correto falar mal de homossexuais, ainda mais quando eram ainda por cima crianças. Isso só lhe deu mais publicidade. Pois passaram às entrevistas com o público televisivo, tentando usar a garotada para falar o que eles próprios queriam mas não podiam sobre o menino. Os jovens telespectadores do sexo masculino debochavam do que eles chamavam de ‘Guicha Bilowsky’ ou ‘Guigo Bichowsky’, no fim ficou simplesmente ‘Guicha’ ou ‘Bichowsky’. Entre as crianças e adolescentes se tornou moda dizer “agora não vai dar, tenho que assistir o programa do Bichowsky’ ou ‘Tá ruim, vou é assistir o Guicha, é mais legal’. As meninas o achavam lindo e se derretiam por ele.
Aos treze anos seu pai, agora o milionário empresário do ainda mais rico astro televisivo, o flagrou no sofá do camarim, do qual possuía a chave, nu com uma dançarina de seu programa. A garota tinha dezesseis anos. Ela se assustou e tentou se cobrir. Ele continuou à vontade e olhou perversamente para o genitor, coçando a nada pequena genitália:
- Papai, é feio entrar sem bater...
- Ora, é que...eu...este contrato...publicidade...
O pobre homem não sabia se ria ou chorava. Tinha diante de si a prova definitiva que de veado seu filho tinha apenas a aparência. Mas então o pensamento: “ele vai se arruinar e me arruinar junto se descobrirem que não é bicha merda nenhuma”. Então providenciou tudo com discrição, a menina foi transferida para outro programa e recebeu um ‘cale a boca’ cheio de cifrões.
Os anos passaram e ele se tornava cada vez mais alto e corpulento. Sua voz engrossara bastante. As afetações e falsetes eram agora cada vez mais forçados. Não cabia mais no papel que o havia consagrado. Tentou ser cantor, apresentador de programas com outro perfil, nada deu certo. O canto de cisne de sua carreira foram as fotos altamente desinibidas que aquele maldito paparazzi batera dele e uma famosa modelo internacional numa praia de nudismo na França. Fora-se de vez a fama de gay e a imunidade que ela traz. Era apenas mais um na multidão outra vez...
Mas era riquíssimo e necessidade jamais passaria. Faltava-lhe algo, no entanto. As luzes, os holofotes, as pessoas falando, chamando, gritando seu nome. E isso o dinheiro não poderia comprar. Ou talvez pudesse... Tentou então ser ator, tendo financiado sozinho um filme de ação que o poderia projetar novamente ao estrelato. Foi um fracasso. Chorara de raiva ao ler uma das críticas: “Como dar credibilidade a um personagem machão quando se tem a aparência de ser tão machão quanto o Bambi?” Então se recolhera definitivamente ao anonimato. Pensava que para a vida toda.
Então a Grande Desgraça veio em seu auxílio. A morte fizera uma vasta colheita pela terra. Havia um possível novo presidente da república e uma emissora – a primeira a retomar suas atividades – sedenta por uma entrevista exclusiva mas sem nenhum rosto conhecido disponível.
Guigo não fora afetado. Acordara ao lado de uma jovem morta. Sua mais recente namorada. Ele, extremamente saudável, tomara pouquíssimos medicamentos na vida e para sua sorte nenhum continha os mortíferos nanorrobôs. Após o susto, ligara para a Polícia. Ninguém respondera. Agarrara o corpo, então e, não sem algum nojo – “incrível, há poucas horas estávamos numa foda daquelas e agora...” – levara bem para os fundos do pátio da mansão, onde cavara um buraco e enterrara a bela jovem. Depois entrara novamente em casa. Em choque, se dirigira a um dos porões, onde ficavam os frigoríficos com carne e vegetais e a adega, além de alimentos secos. Passara dias ali, consumido por sua dor. Como da primeira vez, estava dormindo num velho sofá quando foi acionado o sinal que ativaria os vírus-fungos. As grossas paredes detiveram a irradiação. Acordou-se e, com alguma fome, comeu alguns morangos. Deliciosos. Isso o reanimara e terminou subindo para o interior da casa. Acabara de sair do banho quando o telefone tocou. Imaginando que seria alguém com informações sobre o que estava acontecendo, correu a atender.
A pessoa do outro lado da linha tinha mesmo informações. E um convite.
E Guigo Bilowsky já podia ver a Base Aérea de Belém do Pará, onde entrevistaria com exclusividade o futuro Presidente da República. “Faça direito e o céu é o limite”, dissera-lhe o improvisado diretor de jornalismo.
Estava de novo no jogo.
O caça Rafale F4 biplace patrulhava a região onde se haviam dado os estranhos combates contra inimigos desconhecidos. Estava, após o REVO, com os CFTs cheios e portava dois mísseis A-Darter nas extremidades das elegantes asas delta e outros dois Meteors nos pilones internos. Sob a fuselagem, o pod de reconhecimento Damocles. No comando, o Coronel Carlos Mathias. Com ele um piloto que recentemente saíra do hospital da Base, o Capitão Santiago. Sobrevoando uma área pouco mais distante da que se haviam desenvolvido as hostilidades, captou algo no solo com o radar. Mas parecia um bocado indistinto.
- Viu essa, Santiago?
- Senhor?
- Viu aquilo lá?
- Senhor, peguei um contato pelo HUD mas é no chão, deve ser algum avião caído...
- Vamos ver se é mesmo...
O Coronel Mathias fez uma curva aberta e retornou ao mesmo ponto, mais devagar agora e com o OSF sincronizado ao radar. A imagem apareceu pouco nítida, muita folhagem e retorno do solo. Não dava para saber com certeza o que era.
- E aí, Santiago, viu algo?
- Bem, certamente há uma aeronave ali, senhor. Mas numa clareira tão pequena, como poderia ter pousado? Deve ser acidente mesmo...
- Cara, aprenda uma coisa, nem sempre as coisas são o que parecem. Vamos tentar mais devagar...
Fez outra curva e foi reduzindo a velocidade. Logo o caça começou a estremecer no pré-estol. Desistiu e acelerou de novo.
- Que merda mesmo, essa porra não rende caralho nenhum mesmo, puta que pariu!!!
- Senhor, eu sempre achei que fomos para o caça errado, se estivéssemos num Super Hornet ou Gripen...
- Não me faça rir, cara. São ainda piores que essa merda francesa aqui.
- O senhor só pode estar brincando. O Super Hornet é Americano, oras, tem que ser o melhor, afinal, eles sempre tiveram a melhor tecnologia...
- Conta essa pra outro. O Super Bug nunca passou de um remendo mal feito ao Hornet original. Ei, você tem jeito de quem gosta de uma coleira, hein?
- Não se trata disso, senhor, apenas acho que se é bom para os Americanos certamente é bom para...
- Ah, dobre essa língua e enfie no cu, porra! Eu não tenho que ouvir isso. Vamos nos concentrar na missão, tá?
- Sim senhor.
Tentou novamente reduzir a velocidade para tentar ver com seus próprios olhos. Não dava, o avião estava muito pesado com os mísseis e a enorme quantidade de combustível.
- Merda, merda, merdaaaaaa! Dá vontade de ejetar e ir lá ver, que inferno!
O Coronel Mathias pensou e chamou a base, pedindo para falar diretamente ao comandante:
- Coronel, ele está com um pessoal da tevê, vai ser entrevistado e...
- Cara, não te perguntei merda nenhuma, só chama ele, se ele não quiser falar comigo tudo legal, apenas faça o que eu disse, porra! Um minuto depois, a voz do Brigadeiro:
- Que diabo está acontecendo, Mathias? Precisa sempre ofender as pessoas quando quer se comunicar?
- Senhor, tem algo muito estranho aqui.
- O que é? Mais tropas?
- Não, é uma aeronave que não consigo identificar, o senhor sabe de algum acidente com caças por aqui?
- Não, nossos Rafales estão todos aqui à exceção do seu. Parece um caça?
- Não dá para saber e essa merda aqui não diminui muito a velocidade e já começa a estolar. Bem que eu disse que o Flanker com aquelas tubeiras de empuxo vetorado iriam fazer a diferença qualquer dia mas não adianta, ninguém me ouve, agora toma, toma, toma, toma, e quem está tomando sou eu, bem na minha maldita bunda...
- Tá, não vamos começar. Fotografou?
- Sim, mas saiu uma merda, não dá para identificar...
- Mande por data-link, quero dar uma olhada.
- Sim senhor, enviando agora.
O Brigadeiro voltou-se para a equipe de imprensa, que ultimava os preparativos para a entrevista e disse, algo constrangido.
- Vocês me desculpem, por favor, mas estamos ainda em emergência aqui... Olhou para o monitor de seu computador. As imagens eram realmente esquisitas, mostravam um avião no solo, meio encoberto pelas folhagens. Algo que o Coronel Mathias não notara mas para ele, acostumado aos voos de reconhecimento nos AMX, saltara imediatamente aos olhos: não havia marcas na vegetação que denunciassem um acidente. Ou o aparelho havia cometido a proeza impossível de cair exatamente na vertical, como um tijolo, ou pousara ali. E isso era bem estranho. O que dava para ver do formato também não tinha comparação com nada que ele já tivesse visto. Bem, talvez parecesse algo com um SR-71 sem as turbinas nas asas. Era realmente curioso. Chamou novamente o Coronel Mathias.
- Mathias na escuta. E aí?
- Cara, não tenho a menor idéia do que é mas lhe garanto que não houve acidente. Não há como me mandar fotos melhores e, se possível, fazer um reconhecimento visual direto?
- Impossível, senhor, essa tranqueira aqui está abarrotada de combustível e penduricalhos, muito pesada. Tentei reduzir e quase caímos...
- Mas que droga, eu bem que...
- Pode haver um jeito, Brigadeiro, mas preciso de sua autorização expressa... O Brigadeiro pensou. Sabia o que Mathias estava pensando. Tinha lógica, afinal. O duro seria explicar a perda de uns dez milhões em armamento e combustível. Isso se a própria aeronave não fosse também perdida. Respirou fundo. “Há momentos em que a gente tem mesmo que chutar o balde. Que se foda!” – pensou.
- Está autorizado, Mathias. Faça o que achar necessário. Estou mandando um KC para aí, uns quinze minutos, talvez.
- Sim senhor! Obrigado, senhor! O Coronel Mathias exultava.
- Santiago, vamos começar a remover o lixo. Enquadrou a floresta e armou os mísseis.
- Senhor, o que está fazendo? Por que armou todos os mísseis?
- Porque vou disparar todos, ora. Só fique olhando...
- Senhor, devo registrar meu protesto contra o que julgo ser...
- Que julga é juiz. Vai tomar no cu, antes que eu me esqueça. Vai um! O primeiro Meteor sibilou para fora de seu pilone, seguindo como um fino risco de fogo e fumo até bater contra um morro, explodindo violentamente. O segundo o seguiu logo depois. Os dois A-Darters saíram quase ao mesmo tempo. Então, um alarmado Capitão Santiago exclamou:
- Senhor, o que está fazendo? O Damocles não pode ser desconectado em voo, pode cair e...
- ...e lá vai ele, à puta que pariu... - cantarolou Mathias.
- Meu Deus, o senhor está louco!
- Cara, já te disse para fechar essa matraca. Estou autorizado a fazer isso, tá? E agora se segura aí! Mathias puxou o joystick do manche bem para trás ao mesmo tempo em que empurrava a alavanca da propulsão até entrar em pós-combustão. O esguio caça subiu como um foguete.
- Aí cara, aproveite bem o passeio, vamos torrar quase todo o combustível agora...
- O senhor está destruindo um caça da FAB, senhor, devo dizer que... Não foi possível ouvir o resto, o Coronel Mathias havia se lembrado do canhão DEFA de 30 mm e iniciara uma sequência de rajadas curtas até esgotar a munição. Depois começou a manobrar suavemente, mantendo o PC ligado. Sempre nas proximidades da área onde estava a misteriosa aeronave. Lembrou-se de algo:
- Brigadeiro, mande também algum outro Rafale armado para cá, senhor.
- Por quê? O que está havendo?
- Nada não, é que pensei que se essa coisa aí conseguiu pousar, pode querer decolar de novo e não tenho nem um estilingue para atirar nela...
- Merda, também não tinha pensado nisso. Vou fazer isso agora.
- Obrigado, senhor. Alarmado, o Capitão Santiago berrou:
- Senhor, estamos quase na reserva, que diabo, vamos acabar caindo de pane seca, inferno!
- Hum, sossegue, ianquezinho, não vou deixar você perder sua coleirinha de brilhantes, tá? E desligou o PC, iniciando um suave mergulho rumo ao ponto onde estava o alvo de sua curiosidade. Foi reduzindo até atingir a velocidade que tentara antes. O caça obedeceu docilmente mas, ao passarem pelo alvo, Mathias percebeu que ainda estavam voando muito rápido. Fez uma curva fechada, ganhou altitude e começou a reduzir de verdade a velocidade.
- Senhor, o senhor está doido, estamos no fim do fuel e voando como se estivéssemos num Tucano, eu prometo que vou denunciá-lo por...
- Cara, vou te mandar calar a boca pela última vez. Acabei de pensar em um outro jeito de poupar peso: te ejetar. Só de língua você deve pesar uns cem quilos... – e riu. Depois nivelou e veio para o que ele sentia que seria a passagem final. Reduziu a potência progressivamente, assim meio ‘de ouvido’, sentindo as modificações no comportamento do caça. Mas olhando para fora, sempre. E desta vez teve finalmente sucesso: conseguiu pegar a estranha aeronave inteirinha com o radar, o OSF e também no visual. Exclamou:
- Cara, você viu isso?
- Sim senhor, estranho pra caramba o aparelho... – o Capitão Santiago estava boquiaberto, nunca vira nada parecido antes.
- Cara, estranho nada, você acaba de olhar para um avião que não existe nem pode existir! Então enviou o que obtivera para a Base de Belém. Depois subiu lentamente para aguardar o REVO.
Guigo Bilowsky conversava tranquilamente com o Brigadeiro, uma forma de ‘quebrar o gelo’ antes dos formalismos da entrevista:
- O senhor terá que trabalhar duro, Presidente, o país está literalmente a nocaute.
- O mundo inteiro está, senhor..?
- Guigo. Guigo Bilowsky.
- Então tá, posso chamá-lo senhor Bilowsky?
- O que há de errado com Guigo, Presidente? Todos me chamam assim...
- É meio estranho, parece nome de colunista social, não me leve a mal...
- De modo algum. Vou pensar nisso. E quanto ao seu nome presidencial, como será? Gostaria de começar a entrevista assim, se não se importa, já o chamando pelo nome que o povo conhecerá...
- Pois aí está algo em que nunca pensei. Que me chamem como quiserem, oras...
- Bem, chamar de Presidente Brigadeiro, convenhamos, fica bem estranho, não? – leu a plaqueta sobre a mesa e prosseguiu:
- Brigadeiro Leonardo Jones. Hmmm, Presidente Jones...soa meio americano, não concorda? – sorriu. O Brigadeiro Leonardo Jones retribuiu o sorriso e respondeu:
- Pior seria se fosse o meu callsign na FAB: Skyway!
E caiu na risada. Guigo o acompanhou.
O Boeing pousou em Zurique. O aeroporto parecia deserto. Nada de controladores de voo ou luzes de auxílio, o piloto teve que mostrar sua perícia. Pousou sem incidentes, os pilotos de aeronaves VIP da FAB são verdadeiros ases do transporte aéreo. Muito especialmente os que transportam presidentes. Os RATOS desembarcaram rapidamente. Tudo imóvel, nem um único carro se movimentava. A sensação que isso produzia era muito estranha.
- Bem, Bolovo, agora é com você. – disse o Coronel Wolfgang.
- Bem, recebi a confirmação faz umas três horas, então... O enorme helicóptero começou a se aproximar deles, saído aparentemente de um dos hangares de jatos comerciais. Era impressionante o baixo ruído que emitia, mesmo no pesado silêncio circunjacente.
- Cara, nem o Night Stalker dos ianques é tão quieto. E é muito menor que este... – balbuciou o Judeu.
- Eles pensam que sabem tudo, os trouxas. Esta é a versão exclusiva para as Forças Especiais do FSB do Mi-171, nem os Spetznaz têm algo parecido – sorriu Bolovo. A aeronave cinza-escuro pousou elegantemente a uns cinqüenta metros à frente do Boeing.
- Vamos lá, pessoal, embarcar. – comandou o Coronel Wolfgang. – Tem o local, Bolovo?
- No heli eles vão dizer. Minutos depois o aparelho decolava, aproando para nor-nordeste. Algumas curvas e cerca de uma hora depois, pousaram. O local era alto e havia apenas uma grande cabana de madeira ali. De uma grande chaminé se evolavam espirais de fumaça.
- Tivemos de checar às pressas a região para obter algo que nos fosse apropriado para esperar a noite. Isto foi o melhor que pudemos arranjar. Estamos a menos de vinte minutos em silent cruise do alvo. O fogo está aceso mas não há alimento algum, espero que tenham trazido suas rações... – disse o piloto russo em inglês. Sabia que os dois Coronéis eram fluentes no idioma.
- Sem problemas. Trouxemos mesmo. – as rações nazistas que portavam em seus macacões de combate não haviam sido afetadas pela praga que apodrecera a maior parte dos alimentos da terra. As haviam preservado cuidadosamente, alimentando-se durante o voo para a Suíça com frutos, raízes, peixes e carne de caça que o Brigadeiro lhes fornecera. Ainda tinham bastante nas mochilas e ofereceram aos russos, dois pilotos e dois metralhadores. Eles, que não se alimentavam fazia quase dois dias, aceitaram agradecidos. Mesmo estranhando o sabor, comeram vorazmente.
- Bem, agora é esperar pela madrugada. – concluiu Bolovo, entrando na cabana.
O EC-725 cortava velozmente os céus amazônicos. A bordo, Arianne ressonava, a cabeça reclinada no ombro da Condessa, sua mãe. Um leve sorriso lhe bailava nos lábios. Ela agora sabia. E agora tinha esperanças de ser novamente feliz com seu amado Wolfie.
Era alta madrugada. Os russos haviam retirado a lona térmica que haviam colocado para resguardar o helicóptero do severo clima dos altiplanos suíços. Após, ligaram os motores e checaram os instrumentos. A um sinal do piloto, os RATOS subiram a bordo.
- É agora, pessoal. Ou acabamos com isso ou nem voltamos para casa. – disse o Coronel Wolfgang.
- Até o inferno! – esse coro foi a única resposta que obteve.
Os Cavaleiros Teutônicos dormiam em seus luxuosos aposentos individuais. Mas o Grão-Mestre Herr Otto Von Eisenkopf estava inquieto, cochilava um pouco e acordava. Por vezes subia as escadas e ia à Sala de Comunicações para checar se havia alguma novidade. Nada. Depois retornava à cama para novo cochilo e novo despertar. Assustado. Tremia mesmo.
- Que diabo há comigo? Não há nada acontecendo, por que estou assim? Desceu as escadarias e apanhou um copo de leite frio. Aqueceu-o e foi novamente para o quarto. Antes de entrar resolveu subir novamente à Sala de Comunicações. Nunca se sabe... Lá chegando sentou-se na poltrona, diante do imenso monitor. Resolveu checar a guarda externa. Todos em seus postos. Tinham que estar, eram muito bem pagos para isso. Conheciam, ademais, a ideologia teutônica e a abraçavam fervorosamente. Quem quisesse entrar sem ser convidado teria de matá-los a todos primeiro.
O céu nublado era puro negror. Mas não para os visores nazistas usados pelos RATOS, nem para os NVGs dos pilotos. Mas mesmo alguém com tais equipamentos não veria o helicóptero, que navegava no meio das nuvens baixas, orientando-se por seu radar de abertura sintética. Praticamente em silêncio. O pouco ruído que produzia poderia ser facilmente confundido com os pés de vento e pequenos deslizamentos de neve que periodicamente ocorriam na região.
- Bolovo, pelas fotos podemos dizer que o nosso alvo é aquele andar superior...
- Aquela espécie de torre medieval?
- Sim. Pela descrição que obtive há apenas uma grande sala, que eles chamam de Sala das Armas e é onde se reúnem em conselho. Ao lado há uma menor, que chamam de Sala das Comunicações. Além disso há apenas um espaço vazio que conduz à escadaria que leva aos andares inferiores. Não creio que precisemos percorrer tudo, os dormitórios ficam logo no andar seguinte e, a essa hora, devem estar todos lá. São quatro. Se for possível, vamos capturar vivos, se não for...
- Então está bem. Nada mudou no plano, pelo jeito...
- Não. Eu e meu grupo asseguramos o topo. Se algum deles escapar de vocês e quiser fazer alguma das suas certamente precisará subir para a Sala das Comunicações. Aí cai na nossa mão.
- Perfeito, então. Eu e meu pessoal descemos direto, invadimos os quartos e capturamos ou matamos os caras que estiverem lá.
- Usem a invisibilidade. Não se sabe de que recursos eles dispõem...
- O que a gente tem, a gente usa. – riu Bolovo.
O Cavaleiro Von Eisenkopf cochilara de novo, desta vez na poltrona. Acordou-se sentindo frio, aquela sala não tinha lareira. “Vou providenciar uma estufa a óleo para esta sala, não é fácil ficar aqui numa noite de inverno” – pensou, enquanto via sua respiração se condensar em nuvens de vapor.
Após, tornou a se concentrar no monitor. Tudo na mesma, exceto que os untermenschen pareciam estar se recuperando relativamente rápido da violenta sucessão de golpes que haviam sofrido. Naquele instante se decidiu. Tocaria sua trombeta, a mais terrível de todas, pela manhã, logo após o desjejum, quando os Cavaleiros Teutônicos recém se tivessem reunido na Sala das Armas. Imaginou o momento, deliciado.
Mal os Irmãos se tivessem assentado, ele apanharia o vinho, derramaria na mesma taça que servira a todos e beberia sem hesitação. Depois, sem uma única palavra, entraria na sala ao lado e desencadearia o maior inferno de todos. Por anos a fio haviam sido pacientemente construídas e semeadas nas profundezas de todos os oceanos do mundo cargas nucleares poderosíssimas. Todas tinham a mesma sequência de detonação que seria ativada por emissões de ondas ultralongas, capazes de penetrarem o oceano a qualquer profundidade.
Ao explodirem todas ao mesmo tempo provocariam o maior e mais terrível Tsunami de todos os tempos. Ondas de mais de um quilômetro de altura chegariam às costas de todos os países quase no mesmo instante. E sabia bem que a maioria da população mundial vive na costa ou nas proximidades dela – menos as milhares de colônias teutônicas, cuidadosamente exortadas e buscarem vales e serras a pelo menos trezentos quilômetros do mar. E sempre bem dentro de áreas geográficas longe de qualquer falha tectônica pois todo aquele pandemônio submarino provocaria também violentos terremotos e mesmo erupções vulcânicas.
Claro que sempre haviam os idiotas que resolviam instalar suas colônias em áreas de risco mas também não se pode esperar a perfeição de todos, mesmo sendo arianos. Haveriam algumas baixas, talvez mesmo milhares, mas o que era isso para quem aceitara perder milhões de vidas em Germania? Depois de desencadeada a nova tragédia, retornaria à Sala das Armas e diria:
- A Fênix está viva, Irmãos! E reina sobre a terra! Longa vida à Fênix Negra!
O helicóptero pairava sobre a torre ponteaguda da Kehlsteinhaus. Cada um de um lado, Bolovo e Wolfgang saltaram agarrados a suas grossas cordas. Wolfgang o fazia com uma mão só, na outra segurava um aro de kevlar de cerca de três metros de diâmetro. Ao estarem a menos de um metro de altura em relação ao topo da torre, Wolfgang arremessou um dos lados do aro a Bolovo. Este agarrou firme, então ambos colocaram o aro tão simetricamente quanto possível sobre o ponteagudo telhado, como uma coroa. Então desceram mais e prenderam os ganchos de rapel no resistente aro, um de cada lado, a bem do equilíbrio. A seguir, de dois em dois, os demais RATOS fizeram o mesmo. O helicóptero começou a se afastar.
Os dois tripulantes do malfadado Avião andavam pela floresta amazônica, em direção ao vale onde supunham estarem as tropas brasileiras. Cantavam alto em alemão. Heinze falou, numa pausa entre uma canção e outra:
- Cara, tomara que você esteja certo, preferiria morrer desintegrado na Aeronave do que comido vivo por índios canibais.
- Nem esquente, vai dar tudo certo, como expliquei. Apenas continue cantando e espere, vão nos pegar logo... – respondeu Witt, iniciando outra canção. Estava certo. Poucos minutos depois estavam cercados por homens de estatura média para baixa, escuros e de aparência feroz, que lhes apontavam fuzis. Ambos ergueram as mãos, no gesto internacional de rendição. Um dos homens gritou algo que nenhum dos dois entendeu. Repetiu. Então outro veio por trás e chutou a parte anterior do joelho de Witt, fazendo-o ajoelhar-se com um grito de dor e surpresa. Entendendo finalmente o significado do que o maldito índio tanto berrava, Heinze apressou-se a se por de joelhos também. O mesmo homem disse outra coisa que não entenderam. Temeroso de mais castigo, Witt falou em inglês:
- Ninguém aqui fala minha língua? Os soldados pareceram indecisos. Alguns já haviam treinado com ingleses e americanos, mesmo não entendendo o idioma sabiam reconhecê-lo. Então o que parecia o líder destacou-se do grupo, colocou as mãos em concha na boca e emitiu uma série de sons estranhos, parecendo de algum animal. Ao longe alguém produziu um som similar, embora bem mais breve e menos variado. Os soldados conversaram algo entre si e se afastaram um pouco dos pilotos.
Cerca de uma hora depois soaram novamente aqueles ruídos distantes. Todos os soldados se calaram no mesmo instante. Apenas ouviam. Quando parou o mesmo de antes tornou a colocar as mãos em concha na boca e emitiu uma curta série de sons. A seguir fez-lhes sinal para levantarem, mantendo as mãos levantadas. Então os conduziram por cerca de meia hora até uma clareira. Ao longe dava para ouvir sons de motores. Helicópteros.
O som ficou cada vez mais alto até que apareceu um par de Blackhawks. Um permaneceu gravitando, com um homem mantendo a todos sob mira de uma Minigun. O outro pousou. Desceram alguns homens armados. Quase todos brancos. Ou mais ou menos isso. Um dos homens, aparentemente um oficial, se dirigiu aos prisioneiros em um inglês impecável, bem melhor do que o dos próprios pilotos de Germania:
- Quem são vocês? Estavam com os americanos?
- Senhor, somos pilotos da Jungle Watch. Me chamo Witt e meu colega se chama Heinze. Nosso...helicóptero caiu e tivemos que...
- Caiu? Onde? Vamos lá checar os destroços. Os dois apenas se entreolharam. Isso bastou para o oficial saber que Witt mentia.
- Olhem, seus cuzões, meu nome é Glauber Prestes. Major Prestes para vocês. Quero que saibam que tenho mais o que fazer do que ficar aqui ouvindo mentiras. Portanto, melhor tratarem de...
- Mas senhor, é verdade, somos pilotos e nosso helic... Não chegou a concluir a frase. Sonora bofetada lhe estalou no rosto. Witt caiu.
- Deveria saber que é falta de educação interromper alguém que está falando. Mas, como eu dizia, estou meio curto de tempo. Já que não querem falar nada que preste, vou deixá-los aos cuidados dos nossos bravos guerreiros de selva. Eles estão doidos para se vingarem de uns americanos que lhes mataram vários companheiros. Creio que vai haver um grande banquete hoje por aí e vocês provavelmente serão o prato principal. – e sorriu sinistramente. Então, deu-lhes as costas e dirigiu-se ao helicóptero, que aguardava com os rotores ainda girando. Heinze olhou aflito para Witt. Este gritou:
- Senhor, não vá. Não vá, por favor. Temos algo para o senhor. Alargando o sorriso, o Major Prestes deu novamente meia volta e se aproximou.
- Se você vier querer me enrolar de novo eu garanto que os deixo aí mesmo. Fale!
- Senhor Major, juro que não vai se arrepender de me escutar. Apenas gostaria de lhe pedir algumas garantias, porque o que tenho a lhe revelar certamente o levará direto ao generalato, tal a importância para a sua pátria. O senhor não acreditou no que falei antes. Tinha razão. Mas vai ter maiores dificuldades ainda para crer no que vou lhe mostrar...
Duas horas depois um atônito Major Prestes conduzia os dois pilotos estrangeiros no Blackhawk. Dirigia-se à Base Aérea de Belém do Pará. E à mais espetacular ascensão hierárquica que a simples sorte de estar no local certo, na hora certa e tomar a decisão certa poderiam proporcionar a um homem. Porque a Aeronave seria útil sozinha mas dois engenheiros que a conheciam bem e haviam participado de seu desenvolvimento teriam um valor incomensurável.
O Airbus retornava para Berlim com quase uma centena de passageiros. Mas a Condessa viajava só. Ao saber que seu irmão a aguardava, Arianne apenas respondera:
- Vai esperar muito. Vou com o iate de Herr Haubert, que mora em uma colônia no interior do Rio Grande do Sul, na serra. Suas filhas são minhas amigas e disseram que viverei bem lá. Claro que irei trabalhar, não quero ser um peso para ninguém nem continuar a ser a mimadinha do papai. Sou agora a mulher de um militar e vou esperá-lo em sua terra, que agora também é minha terra. Herr Lübeck também irá, se interessou por umas pesquisas que fazem lá e crê que será de pouca valia em Berlim. Mas, quanto a meu...irmão, diga a ele que se divirta com o seu Kurt... – concluiu, amargamente.
No topo do edifício-sede do Eisenbank Rudy e Kurt estavam nus e abraçados. Rudy ouviu o som das pás do rotor de um helicóptero.
- Meu amado, temos de nos vestir e partir. Aqui não é mais seguro, todo mundo já foi transferido, estamos praticamente sós no prédio.
- Pena, estava tão bom...
- Teremos muitos momentos assim, querido. A África agora é alemã. – riu. – Ah, e terá de aprender a conviver com Anna. É a mãe de meus filhos, mas não se preocupe, serei só seu. Talvez ela até queira se tornar sua amante e olhe que para quem gosta ela trepa muito bem... – o riso se tornou uma gargalhada.
O Airbus que levava os refugiados de Germania jamais chegou a Berlim. Próximo das Ilhas Ascensão foi detectado pelos sensores de um destróier americano. A tripulação, parte doente e os ainda sadios atazanados pela fome, não tinha mais lucidez alguma. Eram apenas pessoas com muita raiva. Já haviam inclusive casos de canibalismo a bordo. Não reprimidos.
Um míssil Standard subiu. A Condessa jamais iria rever o lar.
As cargas explosivas arrebentaram as pesadas janelas de metal e vidro do castelo. Instantes após os RATOS estavam dentro, parte correndo escadas abaixo em busca dos dormitórios e parte se espalhando pela ampla Sala das Armas. Wolfgang dirigiu-se velozmente para a sala menor, ao lado. A porta estava entreaberta.
Von Eisenkopf cochilara outra vez. Sonhava com as explosões nucleares que arrasariam praticamente tudo o que sobrara da humanidade não-ariana. Depois seria uma simples questão de busca e extermínio.
Acordara sobressaltado com uma série de violentas explosões. Seria o sonho? Então sentiu o cheiro de explosivos detonados. Não, não era sonho, alguém havia invadido a Kehlsteinhaus, de algum modo. Ou estavam bombardeando. Claro, queriam detê-lo. Com alguma lástima por não poder compartilhar o momento de triunfo final com seus Irmãos como havia planejado, iniciou a sequência de ativação e detonação das cargas submersas. Era fácil e rápido.
Pela corrente de ar gelado sentiu que a porta se abrira inteiramente. Olhou por sobre os ombros mas não viu ninguém. Então abriu o painel diante de si, deixando à mostra um grande botão vermelho. Olhou embevecido para o mundo no monitor por alguns segundos e depois destacou o dedo indicador da mão fechada para acionar de vez o holocausto sobre a humanidade.
Ouviu um leve zumbido vindo da porta. Voltou-se sem interromper o gesto que fazia. Então sentiu um calor na mão e cheiro de queimado. Deu um salto para trás quando do painel e do monitor começaram a sair faíscas e logo a seguir labaredas. O que diabos estava acontecendo? Olhou para a mão. Restava menos de metade dela, a parte com os dedos fora como que amputada. E devidamente cauterizada. Imediatamente lembrou-se das armas dos Waffen.
- Quem diabos está aí? Ordeno que se faça visível! Um segundo depois se materializava diante dele um homem com o típico uniforme negro dos Waffen.
Este tirou o capacete. Era o Coronel Wolfgang.
- Sinto mas não poderia deixá-lo prosseguir. Aliás, o que ia fazer?
- Ia transformar este inferno no Paraíso. – gritou Herr Otto, furibundo - Por que me interrompeu, logo você, que escolhi para marido de minha filha? Que poderia ter o que quisesse? Que mesmo sem nobreza por título o seu sangue o torna digno de ser um de nós e seria se e quando o quisesse? Por que fez isso, homem? Qual a razão de lutar contra seus iguais? Três outros homens em idênticos uniformes se materializaram ao lado de Wolfgang. Tiraram também os capacetes. E um deles era negro, outro parecia judeu! Horror...
- Estes, Herr Otto, são meus iguais...
Lívido de ódio, o todo-poderoso senhor da Fênix correu para a parede ao fundo. Wolfgang apontou a arma e gritou:
- Pare! Não há mais saída, o jogo acabou! O Grão-Mestre apertou com a mão esquerda um botão por trás do que restara do monitor. Uma parte da parede diante dele simplesmente desabou para fora, caindo por centenas de metros até o chão coberto de neve. Gritou então, em alemão arcaico:
- Danai-vos, untermenschen! Prefiro a morte a permanecer em vossa fétida companhia! E saltou. Wolfgang correu e chegou a tocá-lo com sua mão mas não o pôde segurar. Apenas viu o vulto humano caindo e caindo, rodopiando, parecendo que nunca mais iria parar de cair, até sumir num torvelinho de neve fina levantado pelas pedras que haviam antecedido ao senhor da Fênix Negra em sua queda fatal.
Bolovo descera correndo as escadas junto com os demais. Invisíveis, testavam as muitas portas. Todas abertas. Von Regensburg foi capturado enquanto levantava da cama. Von Huhn, apesar do barulho, dormia a sono solto, roncando forte. Foram necessários várias sacudidas para despertá-lo para a sua nova vida de prisioneiro. Von Lübeck morreu quando deixava o quarto, alarmado com as explosões. Tinha um objeto brilhante nas mãos. Quando o ergueu foi imediatamente abatido. Sequer vira os RATOS. O objeto caiu com um som metálico. Era um antigo crucifixo.
Duas horas depois, cumprida a missão e revistado o pequeno castelo, sendo destruídas as poucas instalações eletrônicas e confiscados montes de papéis e evidências do que havia sido perpetrado pelos Cavaleiros Teutônicos, o silencioso helicóptero russo foi novamente chamado. Grosso matraquear de metralhadoras indicaram que ele lutava contra alguém. Indagado por Bolovo pelo rádio, o piloto informou que alguns homens tentavam subir usando materiais de alpinismo mas que estava tudo bem, os abatera a todos. Pouco depois pousava no heliporto. As cargas explosivas estavam todas colocadas e armadas. Instantes depois decolavam. A cerca de dois quilômetros os detonadores foram acionados. O castelo, entre largos rolos de fumo e labaredas, logo desmoronou sobre o vale nevado.
O Força Tarefa então comentou:
- Pois é, nem precisou mesmo de uma força tarefa internacional. - pensou um pouco - Claro, sempre há os nossos amigos russos aqui... Todos riram.
No aeroporto outra vez todos se dirigiram ao BBJ, conduzindo os dois prisioneiros. Apenas Bolovo não tirara o capacete. O helicóptero começou a alçar voo novamente. Wolfgang e os demais RATOS subiram no elegante jato presidencial. Já a bordo, Wolfgang notou que faltava um homem do grupo.
- Onde foi parar o Bolovo? Foi à janela do Boeing, que iniciava o táxi para a decolagem, e ainda pôde ver um pontinho no horizonte. O helicóptero.
- Pare essa merda. O cara está fugindo com equipamento secreto nosso, porra! Abriu a porta do avião ainda em movimento. Uma luz de alerta se acendeu no painel do piloto, que interrompeu os procedimentos. Wolfgang saltou do avião, já tendo recolocado o capacete com o visor. Ampliando ao máximo pôde ver com distinção a aeronave. Bolovo estava sentado ao lado do metralhador de bombordo. Ainda de capacete. Apontou a arma. No mesmo instante Bolovo também apontou para ele. Então, a voz na fonia:
- Cara, deixe disso. Todo mundo tem que ganhar seu dia, não? Para mim como está fica ótimo. Vai querer o quê agora, me matar? E morrer junto? Dessa distância não dá para abater o Silent Cruiser com essa arma. Depois que nos matarmos mutuamente, lhe juro que ele vai esperar seu avião começar a decolar e então o abaterá. Nada para ninguém, que acha? Aliás, eu poderia ter optado por isso, ficaria com tudo o que prestasse. Acha que não pensei? Mas em minha terra soldados têm honra. E na sua? Wolfgang refletiu. E baixou a arma. Suspirou alto.
- Adeus, Bolovo. Se não for muito, me mande um email de vez em quando.
- Será como antes...kamerad. – e riu gostosamente. Wolfgang ainda olhava para o helicóptero. Quando estava quase desaparecendo do visor, sacudiu a cabeça várias vezes, lentamente, e disse para si mesmo, com um sorriso triste:
- Você é foda, Bolovo. E dirigiu-se novamente ao BBJ presidencial.
Rede Nacional de TV:
- O senhor poderia dar uma palavra final ao povo brasileiro, Presidente Leonardo Jones?
- Não sou muito bom com discursos. Gostaria apenas que todos soubessem que farei o meu melhor. Os desafios são os maiores de nossa história e sozinho nada conseguirei. Preciso que todos me ajudem, que todos façam sua parte nesta tarefa hercúlea de reerguer nossa pátria. E jamais imaginem que pretendo me eternizar aqui, que este tipo de poder, próprio de civis, comova a minha alma militar. Meu lugar é em uma Base Aérea, defendendo os céus deste país. Assim, o que garanto é que irei envidar meus melhores esforços para reorganizar a economia, os serviços essenciais e a vida política desta nação. O resto – e olhou então, através da câmera, direto nos olhos de cada pessoa que assistia – não é comigo, é com vocês. Vocês decidirão que Brasil querem que emerja desta horrenda catástrofe que caiu sobre o mundo. Vocês escolherão quem os deve representar, se retornarão aos velhos hábitos que tanto dano, que tantos empecilhos ao nosso crescimento, que tantas tristezas causaram, ou se desta vez será diferente. Não me temam como a um ditador mas também não contem comigo para lhes dizer o que fazer. O Brasil é de todos nós, não apenas meu. Muito obrigado.
- Guilherme Bilowsky, apresentando a fala do novo Presidente da República para a Rede Nacional de TV. Boa noite.
A criança acordou. Sem fazer ruído para não acordar também o irmãozinho que dormia, foi à janela. Abriu-a com seus bracinhos frágeis e então sorriu.
Um novo dia raiava.
E era delicioso vê-lo nascendo.
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