
Ricardo Silva
Correspondente do Defesa Brasil em Lisboa-Portugal
Após 25 anos de intensa guerra civil, pela primeira vez o Exército Governamental encontra-se perto de uma vitória convencional. Nos últimos dois anos, uma sucessão de campanhas militares permitiram expulsar os rebeldes da província do leste, e uma sustentada ofensiva ao norte empurraram os rebeldes até sua autoproclamada capital Kilinochchi, que passou a estar ao ao alcance da artilharia do Exército e começou a cair no último dia 2 de janeiro.
O conflito que tem minado a paz desta nação-ilha, reside na divisão entre a maioria da população de etnia cingalesa e uma minoria tamil que reside no norte e leste do Sri Lanka. Foi desta minoria que surgiu o LTTE (Liberation Tigers of Tamil Eelam - Tigres da Libertação do Eelam Tamil), uma organização militar com vários milhares de soldados e paramilitares, com capacidade terrestre, naval e recentemente aérea, e que em 23 de julho de 1983 iniciou uma revolução para impor um estado Tamil no norte e leste da ilha.

Financiamento, Aprovisionamento e Isolacionismo
A pobreza e a falta de oportunidades no seu país foi desde sempre um incentivo à emigração em massa do povo Tamil para o sul da Índia, Europa e Estados Unidos. Onde com muito esforço essas comunidades conseguiram prosperar e estabelecer pequenos negócios, e foi no encalço do sucesso financeiro destas comunidades prósperas, que o LTTE enviou os seus operacionais num esforço de recolha de fundos para financiar a guerra em curso na sua pátria.
Se por um lado a maioria dos emigrantes apóia o estabelecimento de um estado Tamil no Sri Lanka, o seu apoio nem sempre tem sido total, o que para muito contribuíram as pressões de que têm sido alvo nas últimas décadas. Os operacionais Tamil estabeleceram desde há muito um sistema de extorsão que passa pela chantagem e ameaças físicas, chegando a cometer alguns assassinatos que serviram de exemplo para os mais renitentes na sua contribuição. Os seus alvos passam pelas pequenas empresas, como lojas de bairro e armazéns de revenda, sendo esses fundos posteriormente transferidos para o Sri Lanka e para os núcleos extremamente bem organizados no sul da Índia, onde os Tamil são vistos com alguma benevolência, e onde “comerciais” que lidam com redes internacionais de venda ilegal de armamento, realizam as compras de armas e munições que são depois enviadas através de pequenos navios pesqueiros, ou rápidas lanchas através do estreito braço de mar entre o sul da Índia e o Sri Lanka.
 Soldado do Exército do Sri Lanka (E) e rebelde do LTTE (D).
Outrora o LTTE usava também pequenos cargueiros que lhe permitiam transportar peças de artilharia de diversos calibres, sistemas lança-foguetes e até pequenos aviões Zlin 143 que foram transportados desmontados e posteriormente usados em pequenos raides contra aeródromos governamentais e outros alvos militares. Com a Marinha governamental cada vez mais eficiente, estabeleceu-se um bloqueio marítimo cada vez mais asfixiante, e nas recentes batalhas navais os Sea Tigers (força naval do LTTE) têm sido constantemente derrotados, com elevadas perdas materiais e humanas. O último combate no dia 20 de dezembro deste ano, ocorreu 70 milhas a nordeste de Mullaitivu, quando uma força naval do governo surpreendeu um navio logístico e outros 4 menores, tendo todos sido afundados a tiros de canhão na batalha que se seguiu (assita aqui ao vídeo).
 Zlin 143 em uso pelo LTTE.
A juntar às dificuldades crescentes em transportar material militar para a ilha e ao desencanto da diáspora Tamil, o LTTE tornou-se uma das organizações terroristas mais pressionadas pelas forças policiais nos países onde se encontram as suas comunidades. Na Índia, só no primeiro semestre de 2008 foram capturados 40 dos seus operacionais, e a 18 de junho, 33 foram capturados em cidades por toda a Itália. Nos próprios Estados Unidos, o LTTE é uma organizção que está listada ao lado de grupos como a Al-Qaeda, e todo o sistema financeiro mundial está legalmente obrigado a congelar quaisquer fundos que sejam relacionados com o LTTE.
Combates
Com a queda do setor leste, o Exército do Sri Lanka ficou livre para concentrar todo o seu potencial militar a norte e iniciou uma enorme ofensiva a partir da península de Jaffna na direcção a sul, usando as divisões nº51, 52, 53 e 55 para tomar Muhamalai e Pooneryn, pressionando o LTTE a enviar para essa zona importantes efetivos militares que assim não puderam ser usados para tentar travar a principal ofensiva do Exército. Esta foi lançada a partir do centro da ilha e tem como objectivo tomar a capital rebelde, Kilinochchi.
 T-55AM2 (E) e BMP-2 (D) do Exército do Sri Lanka. Foto: Sri Lanka Army/MoD
A Divisão 59 tem progredido rapidamente através do litoral leste, eliminando vários portos dos Sea Tigers. Um grupo de combate da Brigada 591 cortou a estrada entre Alampil e Mullaittivu, e a 4 de dezembro, após um duro assalto que envolveu toda a Brigada 591, Alampil caiu e com esta a principal via de abastecimento de Mullaittivu. O assalto a esta cidade estaria para breve, e duros ataques aéreos têm sido registados nas suas imediações em preparação para o próximo assalto da Divisão 59.
No mesmo setor vários batalhões de infantaria da Task Force 1 pressionam o flanco esquerdo de Parantan tendo caças-bombardeiros Mig-27 da Força Aérea auxiliado a eliminar um conjunto de bunkers que se encontrava nas proximidades da cidade. Esta Task Force virou o seu movimento para o interior, juntando-se à Divisão 57 e está agora a participar do cerco à capital.
 MiG-27 (E) e Kfir (D) da Força Aérea do Sri Lanka. Foto: Sri Lanka Air Force/MoD
Entretanto, no setor central, a Task Force 4 avança na direcção de Kilinochchi, travando duros combates palmo-a-palmo com os mais experientes combatentes que o LTTE possui. Linha após linha defensiva, a capital rebelde está protegida com centenas de bunkers e extensas trincheiras camufladas na densa selva. Após centenas de baixas de ambos os lados, a 26 de outubro caiu Maniyakkulan, 30 km a sudoeste da capital, e a partir desse ponto uma pressão intensa seguiu-se em todo o setor. A Força Aérea tem estado particularmente activa nesta área realizando centenas de ataques. Helicópteros Mi-24 realizam missões de apoio aéreo próximo às forças no solo, atingindo bunkers com foguetes e metralhando as trincheiras com os seus canhões de 23mm. Mais à frente da linha de combates, os Mig-27 de origem russa e Kfir israelenses bombardeiam incessantemente depósitos de material, concentrações de pessoal e centros de treino. Mesmo os pequenos aviões Zlin 143 que o LTTE tem usado em ataques (mais psicológicos que de real valor militar) estão sob pressão, tendo as suas bases de dispersão sido violentamente atacadas e um deles sido abatido por um F-7G governamental no dia 9 de setembro. Além disso, a Força Aérea já possui radares de detecção aérea de origem indiana, os Indra2, e encomendou 5 Mig-29 que serão um vetor de superioridade aérea com maior capacidade de intercepção e que tornarão suicida qualquer nova incursão pelos Zlin 143 sobreviventes.  Mi-24 do Exército do Sri Lanka. Foto: Sri Lanka Army/MoD
Ao lado da Task Force 4, a Task Force 3 e no distrito de Vavuniya, a divisão 56, intensificam os assaltos que lentamente vão cercando a capital. O LTTE vai realizando duros contra-ataques com a intenção de quebrar a iniciativa das forças governamentais, mas estes saldam-se por constantes desaires devido ao elevado estado de alerta dos soldados na linha da frente. Soma-se também o atrito causado pelos excelentes snipers que estão destacados nas principais unidades do Exército e que têm causado centenas de baixas entre os rebeldes e um ambiente de autêntico terror.
2008 foi um ano cheio de derrotas para as forças do LTTE, batalha após batalha perderam territórios, homens e equipamentos. A este ritmo, 2009 poderá ser o ano da derrota final. Mas não sem muito sangue correr primeiro.
No dia 2 de janeiro, o Exército do Sri Lanka afirmou ter entrado em Kilinochchi, pela primeira vez em dez anos, e tomado a cidade. As tropas conseguiram romper as linhas de defesa do LTTE e entraram nesta localidade por duas zonas diferentes. A queda desta cidade-símbolo, ao fim de vários meses de combates, constitui um revés para a guerrilha separatista dos Tigres da Libertação do Eelam Tamil. No mesmo dia, os rebeldes reagiram com um ataque a bomba em Colombo, provocando a morte de duas pessoas e 32 feridos.
A curto prazo serão as duras batalhas para tomar em definitivo Kilinochchi, a capital rebelde e epicentro deste mortífero e longo conflito, e derrotar em definitivo o LTTE. Em 25 anos, o conflito separatista no Sri Lanka já fez mais de 70 mil mortos.
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