Brasil: novo imbróglio nuclear
9 de setembro de 2009 (
www.msia.org.br) - Pode até ter sido
coincidência, mas é no mínimo curioso que às vésperas da assinatura do
que já está sendo considerado no exterior o maior acordo estratégico
do período pós-Guerra Fria, tenha vindo à tona um novo entrevero entre
o Brasil e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). E não
menos intrigante a atitude do Ministério das Relações Exteriores, em
nada condizente com a da chancelaria de um País em vias de afirmar a
intenção de adquirir uma capacitação militar compatível com as suas
dimensões e relevância no cenário global.
O imbróglio, revelado pelo Jornal do Brasil de 6 de setembro, com uma
reportagem bombasticamente intitulada "Brasil já sabe fazer a bomba
atômica" (sem trocadilho), envolve a publicação do livro A Física dos
explosivos nucleares, de Dalton Ellery Girão Barroso (Ed. Livraria da
Física, São Paulo, 2009), no qual o físico do Instituto Militar de
Engenharia (IME) descreve os processos físicos que fundamentam os
artefatos nucleares e simula numericamente um deles, baseado na ogiva
estadunidense W-87, de 300 quilotons (1 quiloton equivale a 1.000
toneladas de TNT).
O livro se baseia na tese de doutorado de Barroso, defendida no
próprio IME, sobre o tema "Simulação numérica de detonações
termonucleares em meios Híbridos de fissão-fusão implodidos pela
radiação" e está disponível em qualquer livraria especializada em
obras científicas, além de, parcialmente, no sítio Google Livros.
Segundo a reportagem, a publicação do livro provocou uma intervenção
da AIEA e, como subproduto, um atrito entre o chanceler Celso Amorim e
o ministro da Defesa Nelson Jobim. A agência teria simplesmente
exigido ao governo brasileiro informações detalhadas sobre a
metodologia utilizada por Barroso em seu trabalho, além de, nada mais,
nada menos que o recolhimento do livro. De acordo com o jornalista
Vasconcelos Quadros, a AIEA chegou a levantar a hipótese de que os
dados revelados no livro eram secretos e só poderiam ter sido
desenvolvidos em experimentos de laboratório, deixando transparecer a
suspeita que o País estivesse efetivamente desenvolvendo pesquisas
para a construção de artefatos nucleares.
Outro pretexto da agência - "um velho argumento das superpotências",
nas palavras do jornalista - foi que a divulgação de equações e
fórmulas secretas, restritas aos países detentores de arsenais
nucleares, poderia servir ao terrorismo internacional.
A reação do Itamaraty, segundo Quadros, teria sido dúbia, com o
chanceler Amorim sugerindo que o pleito da AIEA fosse atendido pelo
menos parcialmente, ao que Jobim teria se oposto de forma categórica.
A repercussão do caso levou a Comissão de Relações Exteriores e de
Defesa Nacional do Senado deve convocar Jobim e Amorim para explicar o
caso, conforme disse ao JB o presidente da comissão, senador Eduardo
Azeredo (PSDB-MG). O próprio Barroso e um representante da AIEA também
poderão ser convocados, segundo o vice-presidente da comissão, Geraldo
Mesquita (PMDB-AC).
Outra intervenção inevitável foi a do aparato ambientalista,
representado pelo Greenpeace, cujo diretor de Campanhas Sérgio Leitão
foi entrevistado pelo JB ("Greenpeace vê revelação com cautela",
7/09/2009) para dar sua "abalizada" opinião a respeito.
Não temos conhecimento deste trabalho, mas vemos com preocupação esta
possibilidade. Principalmente no momento em que o país assina um
acordo com a França para a compra de submarinos nucleares e a
renovação dos caças da Força Aérea. Quem garante que neste acordo de
fornecimento de tecnologia, não esteja embutido o repasse deste tipo
de tecnologia? Durante os governos Sarney e Collor havia um projeto
secreto de armas nucleares. Inclusive uma área que serviria de testes
na Serra do Cachimbo, no Pará, foi fechado quando a imprensa noticiou
o programa, que na época era presidido pelo almirante Othon Luiz
Pinheiro da Silva, atual presidente da Eletronuclear. Todos nós
sabemos que construir uma usina nuclear ou um artefato atômico é
somente uma questão de trocar a tomada.
Vale recordar que, em 22 de agosto, a multinacional "verde" já havia
efetuado manifestações no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador contra
o que chamou "acordo de transferência de tecnologia nuclear" da França
para o Brasil. Mas deve-se ter em mente que semelhantes sandices não
são decorrentes de uma eventual ignorância dos organizadores do
Greenpeace, pois todos são profissionais muito bem preparados. Afirmar
que a diferença entre um programa nuclear civil e outro militar é uma
questão de "tomada" é parte de uma bem pensada estratégia
propagandística para influenciar a opinião pública em geral, que,
devido às proverbiais deficiências educacionais do País -
principalmente quanto ao conhecimento básico de ciências -, coloca um
submarino de propulsão nuclear na categoria de armamento nuclear.
Em reportagem publicada na edição de 8 de setembro, os jornalistas
Vasconcelo Quadros e Leandro Mazzini entrevistam o ex-chefe da Casa
Militar e do Gabinete de Segurança Institucional (Governo FHC),
general Alberto Mendes Cardoso, e o ex-presidente da Comissão Nacional
de Energia Nuclear (CNEN), Rex Nazaré Alves, que coordenou o programa
nuclear paralelo responsável pelo domínio do processo de
enriquecimento de urânio pelo País, em uma das maiores façanhas
tecnológicas de sua história. Ambos confirmaram o que já era sabido em
círculos estratégicos, ou seja, que o Brasil detém todo o conhecimento
da fabricação de artefatos nucleares. Mas, ao mesmo tempo, os dois
ressaltaram os impedimentos constitucionais auto-impostos aos
armamentos do gênero.
Entretanto, o mais intrigante em todo o caso é a atitude tíbia do
Itamaraty, que pouco difere de outros episódios deploráveis da
história recente da Casa de Rio Branco. Entre eles, a notória
submissão aos ditames da "Nova Ordem Mundial" decretada pelo Governo
Bush pai na década de 1990, que levaram os governos Collor e Fernando
Henrique Cardoso a assinar uma série de tratados internacionais
discriminatórios, como o próprio Tratado de Não-Proliferação Nuclear
(TNP), o Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (RCTM). Ou a
debilidade vertebral explícita do então chanceler Celso Lafer por
ocasião das pressões do governo dos EUA para a demissão do embaixador
José Maurício Bustani da presidência da Organização para a Proibição
de Armas Químicas (OPAQ), em 2002, quando Lafer chegou a justificar a
inação do Itamaraty dizendo que o Brasil "não dispunha de excedentes
de poder" para confrontar Washington.
Possivelmente, uma vez mais a atitude da chancelaria nacional está
sendo orientada pela intenção de mostrar um "bom comportamento" quanto
às regras hegemônicas em vigor no cenário global, para que isso não
venha a prejudicar a desastrosa obsessão com um assento permanente no
Conselho de Segurança das Nações Unidas. Desafortunadamente, trata-se
do velho sonho de consumo do Itamaraty, que, como temos insistido, tem
criado muito mais ruídos do que eventuais benefícios à estatura
internacional do País, em especial no âmbito ibero-americano.
Como construir a sua própria bomba atômica
O projeto de artefatos nucleares há muito deixou de ser segredo
militar. Em 1964, preocupado com os riscos da proliferação nuclear
além dos membros então declarados do "Clube Atômico" - EUA, URSS,
França, Reino Unido e China -, o Pentágono engajou dois jovens
doutores em Física, David Dobson e Robert Seldon, em um projeto ultra-
secreto com o sugestivo nome "O Enésimo País". O objetivo era
verificar se dois "amadores", trabalhando apenas com documentação de
domínio público, seriam capazes de projetar um artefato nuclear.
Designados para trabalhar no Laboratório de Radiação Lawrence
Livermore, na Califórnia, sem acesso a quaisquer documentos sigilosos,
Dobson e Seldon concluíram o desafio em 30 meses, produzindo o desenho
de uma bomba de plutônio cuja potência foi avaliada em 12 quilotons,
equivalente à que foi lançada sobre Hiroshima em 1945. A façanha da
dupla foi recordada em um artigo no jornal The Guardian de 24 de junho
de 2003 (Oliver Burkeman, "How two students built an A-bomb"). Quem
preferir um relato mais técnico pode recorrer ao artigo do historiador
Dan Stober no Bulletin of the Atomic Scientists de março-abril de 2003
("No Experience Necessary") ou baixar da Internet o relatório
desclassificado do projeto.
Onze anos depois, um jovem estudante de graduação de Ciências
Aeroespaciais da Universidade Princeton, John Aristotle Philips,
repetiu o feito de uma forma ainda mais surpreendente, pois além de
não ter qualquer conhecimento mais profundo de Física, era um aluno
medíocre que estava prestes a ser jubilado por desempenho acadêmico
insuficiente. Foi justamente para melhorar o seu coeficiente de
rendimento que Philips propôs ao seu supervisor, o célebre físico
Freeman Dyson, um projeto original: o desenho de uma bomba atômica.
Dyson, um dos grandes cientistas do último meio século e um notório
iconoclasta adepto de desafios, aceitou a proposta e deu sinal verde
Philips, embora não lhe tenha dado qualquer ajuda. Assim como Dobson e
Seldon, Philips só teve acesso a documentos de domínio público e,
assim como a dupla, ele optou por um projeto mais sofisticado, o de
uma bomba de implosão. A bomba de implosão exige um mecanismo de
detonação ultrapreciso para "implodir" as duas semi-esferas de
plutônio que provocam a reação nuclear em cadeia. O segredo do
processo está nos detonadores de altíssima velocidade (denominados
krytons) e na "casca de explosivos" responsável pela implosão das semi-
esferas. Depois de algumas tentativas infrutíferas de obter a solução
do problema, para a qual necessitava do tipo exato de explosivos,
Philips conseguiu a resposta simplesmente telefonando para um
engenheiro especializado da empresa que os fabricava para o Pentágono,
a DuPont, a quem inventou uma história para justificar a pergunta. O
projeto de Philips não apenas se revelou funcional, como ele conseguiu
a almejada permanência em Princeton (Sebastian Aulich, "The Threat of
Nuclear Terrorism", The European Courier, 22/05/2006).
Grande parte das soluções técnicas para o desenho foram obtidas por
Philips no livro The Los Alamos Primer: The First Lectures on How to
Build an Atomic Bomb (A cartilha de Los Alamos: as primeiras lições
sobre como construir uma bomba atômica), do físico Robert Serber, que
trabalhou no Projeto Manhattan durante a II Guerra Mundial. Philips
comprou o livro por 25 dólares numa livraria de obras técnicas do
governo (o livro teve uma reedição em 1992 pela Universiade da
Califórnia em Berkeley).
Posteriormente, como a história acabou vazando para a imprensa,
Philips ganhou uma breve notoriedade como "o garoto da bomba atômica".
Embora o seu relatório final tenha sido classificado e parte do seu
material de trabalho confiscado pelo FBI, ele escreveu depois um livro
sobre o caso com seu colega David Michaelis, intitulado Mushroom: The
True Story of the A-Bomb Kid (Cogumelo: a verdadeira história do
garoto da bomba atômica). Ambos os livros podem ser encontrados sem
dificuldade em livrarias virtuais.
Se um estudante de graduação pode produzir um desenho funcional de um
artefato nuclear tendo acesso apenas a documentação aberta, numa época
em que a Internet como a conhecemos não era imaginada sequer por
autores de ficção científica, qualquer físico do gabarito de Girão
Barroso pode repetir a façanha sem ser incomodado pelos zelosos
inspetores da AIEA ou, pior ainda, que um estudo acadêmico seja
considerado tema de relevância pela diplomacia nacional.
Com propriedade, o senador Flávio Torres (PDT-CE), físico de formação,
considerou ridícula a intervenção da AIEA e sintetizou: "O Brasil não
pode se intimidar diante desse tipo de pressão."
Esperemos que a mensagem seja devidamente recebida pelo Itamaraty