A cumplicidade da esquerda com a barbárie
MURILO CAVALCANTI
A realidade no Brasil e suas cidades vai além da ficção, infelizmente, em termos de violência e desagregação social. Assemelha-se a uma crônica de sangue à moda de Nelson Rodrigues - a vida como ela é, e não deveria ser. Os personagens do teatrólogo das tragédias urbanas hoje seriam criaturas inofensivas diante dos malfeitores dos tempos presentes.
E não se diga que os culpados são apenas os atuais governantes. Parodiando o próprio Nelson Rodrigues, a violência não se improvisa. Dizia ele que nosso subdesenvolvimento vem de séculos. A violência, no caso, está sendo construída ao longo de décadas de descaso e de desgoverno e também resulta de deformações ideológicas. É responsabilidade de vários governos. De todos eles. Não por acaso que Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo são os Estados campeões de violência e foram governados por dirigentes de esquerda após a redemocratização.
A esquerda tem uma grande dificuldade de enfrentar esta questão. Nos tempos do regime autoritário, o Estado brasileiro foi colocado a serviço da repressão ideológica. Vem daí a deformação, ao ser confundida a repressão com o combate à delinqüência. O governo de Fernando Henrique Cardoso tratou a questão da violência com panos mornos. Assim também acontece com o governo Lula, para não dizer que está sendo tratada de faz-de-conta. As imagens de campanha, quando era dito que o governo do PT tinha um plano nacional de combate à violência, ficaram apenas no papel. Na verdade, serviram tão-somente como marketing de campanha. Era só fumaça.
Pernambuco e Rio de Janeiro apresentam realidades distintas, naturalmente, em termos históricos e culturais. Mas, o influente caldo de cultura das esquerdas introduziu tinturas ideológicas na abordagem e no equacionamento das questões da violência e da delinqüência. O Pernambuco das tradições libertárias se deixou dominar por uma cultura de tolerância disseminada em todas as camadas sociais. Das elites às classes excluídas, mesclam-se os traços culturais da impunidade e da tolerância.
O enfrentamento da violência deveria ser uma prioridade de Estado, como ocorre nas sociedades civilizadas. Mas não é. Nunca, jamais na história de nossos governantes, as raízes e os efeitos da violência foram tratados com a dimensão que o caso requer.
Em meio à banalização da violência, no Brasil matam-se humanos como se fossem insetos ou objetos descartáveis. E, o mais grave, como sintoma de nossa deformação ideológica: entidades com viés de esquerda, tipo UNE, CUT, MST, não dão um "pio" sobre esta guerra civil urbana não declarada, ou silenciam ou são complacentes; a pretexto de amparar os excluídos, essas entidades se tornam coniventes diante da barbárie.
Faz parte da ordem do dia atualmente uma grande mobilização em defesa da natureza, da ecologia, contra o aquecimento global e temas correlatos. Que bom! Gostaria de ver, também, tamanha façanha para preservar vidas humanas, além de animais irracionais ameaçados de extinção. As estatísticas revelam 45 mil mortes/ano com armas de fogo. Uma epidemia. Milhares de paraplégicos. Famílias aprisionadas em seus próprios lares. Uma legião de mortos-vivos. E a vida segue como se estivéssemos num céu de brigadeiro.
Construir presídios? Plano de segurança nacional? O governo vai empurrando com a barriga. O Ministério da Justiça do governo Lula prometeu construir sete presídios e apenas três foram erguidos no primeiro governo. Agora a promessa é de 167 presídios. Parece pirotecnia. E é. Endurecer as leis? Para quê? A impunidade é o principal "artigo" do Código Penal brasileiro. Bandidos com celular nos presídios - isto virou uma rotina. Exército nas ruas? Alegam que não foram preparados para essa missão. Mas, contraditoriamente a essa tese, no Haiti o Exército brasileiro foi para as ruas e as favelas, e a operação está dando certo.
Os brasileiros é que devem estar preparados para serem massacrados nesta guerra do dia-a-dia. Educação de qualidade? Como, se as escolas públicas brasileiras foram feitas para abrigar bichos irracionais e não humanos.
Noves fora o marketing, a verdade é cruel. O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) para 2008, elaborado pelo Poder Executivo, previsto para as cinco principais unidades orçamentárias voltadas para a segurança pública, terá uma redução de quase R$300 milhões, quando comparado com o PLOA de 2007, segundo dados revelados por Leandro Kleber da organização não-governamental Contas abertas (
http://www.contasabertas.com.br). Eis a comprovação de que o governo brasileiro não tem um plano verdadeiro de segurança cidadã.
Olhando além dos nossos umbigos e do nosso nariz, percebemos que a questão da violência tem solução. Medellín e Bogotá, na Colômbia, são dois grandes laboratórios que funcionam com êxito. Em menos de 10 anos aquelas cidades reverteram uma situação de calamidade (Medellín chegou a 381 assassinatos/100 mil). Combinando a repressão dura ao crime organizado com políticas sociais e revitalização urbana dos espaços públicos, a Colômbia está mostrando que a guerra ainda não está perdida. Mas, para isso, o Brasil precisa urgentemente de governo e decisões corajosas dos governantes que priorizem a luta contra a desagregação social e ética da nação.
As esquerdas brasileiras e latino-americanas torcem o nariz para o êxito do Plano Colômbia por ser financiado em parte pelos Estados Unidos para erradicar as plantações de coca e combater os narcotraficantes autoproclamados de esquerda das chamadas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
A violência não tem ideologia. Não tem cor partidária. Ela atinge a todos -- principalmente os mais pobres. Ou o Brasil se mobiliza para dar um basta a esta matança, ou vamos continuar assistindo na mídia às manchetes vermelhas, com o sangue dos cidadãos brasileiros jorrando, fruto da marginalidade e da delinqüência urbana, suburbana e de todos os campos.
MURILO CAVALCANTI é coordenador do Movimento Brasil Sem Armas em Pernambuco.
Beltrame diz que SP 'esconde' seus crimes
Para secretário do Rio, números reais fariam as empresas fugirem
Marcelo Auler e Bruno Paes Manso
O secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, colocou em dúvida ontem os dados criminais divulgados pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP). “No meu entendimento, São Paulo não divulga, não é transparente com seus dados criminais. Porque, se divulgasse, as empresas iam embora de lá como foram embora daqui”, disse Beltrame, durante um debate no 24.º Encontro Nacional de Procuradores da República, encerrado ontem na capital fluminense.
A polêmica aberta pelo secretário do Rio ocorreu enquanto ele respondia a críticas feitas durante o seminário pela socióloga Julita Lemgruber, ex-ouvidora de Polícia do Rio, que durante sua apresentação não poupou críticas à política de enfrentamento da Secretaria de Segurança. Julita também elogiou os resultados da polícia paulista.
No mesmo dia, em São Paulo, eram divulgados os dados do terceiro trimestre deste ano, que registram uma diminuição nos índices de homicídios dolosos pelo 25º trimestre consecutivo. Conforme os números, desde 1999, os homicídios caíram 63% no Estado e 72% na capital. Pela primeira vez desde que as estatísticas são feitas, São Paulo deve encerrar o ano com menos assassinatos do que o Rio, cerca de 5 mil, mesmo tendo o dobro da população.
A Secretaria de Segurança disse ontem que não iria responder às críticas de Beltrame. Mas o coordenador de Análise e Planejamento da SSP, Túlio Kahn, durante a apresentação dos números, já havia feito comparações entre as políticas de segurança nos dois Estados.
Kahn afirmou que o governo paulista não espera que a solução da criminalidade venha com uma “tropa de elite”, mas com uma polícia que se aproxime da população. “Apostamos no policiamento comunitário, que poderíamos chamar de tropa do povo”, afirmou.
Ele também lembrou que as políticas de policiamento ostensivo em comunidades com elevados níveis de violência - as Operações Saturação -, são feitas para cumprimento de mandados de prisão emitidos pela Justiça. “Não são invasões indiscriminadas. Fazemos prisões pontuais e evitamos mortes. Além disso, juntamente com o policiamento ostensivo, o governo de São Paulo passou a investir em políticas públicas para esses lugares, o que chamamos de Virada Social.”
Nos números divulgados ontem por São Paulo, além da queda de homicídios, a permanência dos casos de roubo em patamares elevados, na casa dos 55.493 no trimestre, 4,9% a mais do que o mesmo período do ano anterior, foi o dado que mais chamou a atenção. “Como os roubos atingem a classe média e continuam altos, a expressiva queda nos homicídios, localizados nos bairros mais pobres, ainda não aumentou a sensação de segurança.”
No Rio de Janeiro, Beltrame também analisou as diferenças entre a segurança nos dois Estados. A configuração geográfica seria uma delas. O segundo ponto citado foi o “descaso a que a segurança foi entregue, que permitiu que a estrutura criminosa se instalasse no seio da sociedade e não na periferia”. Ao comentar a terceira diferença, ele lembrou que, enquanto paulistas assistem a “uma luta entre polícia e bandido”, no Rio existem três facções criminosas, a polícia, e a “facção azul, que são as milícias que se instalaram na cidade”.
Beltrame afirmou que a solução para o Rio passa pela ocupação dos territórios hoje dominados pelo tráfico. “Precisamos recuperar isso, diminuir a gordura criminosa que ficou na cidade. Isso é traumático, complicado. O problema é muito mais complexo, muito mais demorado e muito mais sério do que ficarmos conversando fiado na televisão, para os holofotes. Temos de buscar as armas que estão com traficantes, a não ser que alguém os convença a entregá-las”, disse.