Re: Sobre o KC-390
Enviado: Qui Jul 28, 2011 5:30 pm
Cassio escreveu:Pois é...
A coisa é assim. A empresa responsável pelo projeto desenvolve o produto seguindo requisitos operacionais, de "time to market" e de custos bem "apertados". Não adianta cumprir apenas um grupo de requisitos em detrimento dos demais. Tem que cumprir todos. Ou seja, o avião tem que operar como o esperado, sair no custo esperado e no prazo esperado.
Para que isso ocorra a escolha dos fornecedores é fundamental. Apenas os melhores fornecedores poderão entregar equipamentos que operam como desejado, a custos coerentes e nos prazos acertados, e mesmo assim com algum risco envolvido (risco esse calculado).
Quais as vantagens de se comprar de fora?
1- Economia de escala em se adquirir itens de prateleira.
2- Ganhos em confiabilidade dos sistemas para o caso dos itens de prateleira (já operam em outras aeronaves).
3- As empresas tem capital próprio para investir no programa.
4- Conta-se com a vasta experiência de empresas que são experts nos seus ramos de atuação.
5- Reconhecimento internacional das marcas.
Mas se queremos desenvolver a indústria nacional, porque não compramos de empresas nacionais.
Bem, para a maior parte dos casos essas empresas nacionais simplesmente não existem. Para se criar uma empresa seria necessário muito mais tempo. A não se que estejamos falando de abrir aqui filiais de empresas estrangeiras que apenas montassem equipamentos vindos de fora. Mas aí não se ganha muito conhecimento e know-how.
O "pulo do gato" não está em montar, mas sim em desenvolver.
Para um produto com baixa escala de produção como o KC, acredito que não seria viável para os fornecedores montarem filiais aqui.
A outra alternativa seria desenvolvermos componentes genuinamente nacionais. Mas isso leva tempo. Acredito que não seria factível criar uma empresa, esta criar os componentes e ainda os produzir em tempo viável para o programa KC.
O que nos falta é fazer a lição de casa. Assim como foi feito com a Embraer.
Pergunto, quando nasceu a Embraer? Resposta... ela começou a nascer quando foi criado o CTA e o ITA. Ou seja, primeiro formamos uma "massa critica" de engenheiros. Depois os mandamos para cursos no exterior. Depois o governo aproveitou essa "massa crítica" em projetos da FAB. Só então é que se partiu para a criação de uma empresa, que já nasceu com projetos e com escala de produção para lhe manter ativa durante a primeira década, até que pudesse caminhar com as próprias pernas.
Vejamos o Brasil:
Nossa educação primária e secundária pública é ruim.
Nossas universidades (algumas muito boas) formam engenheiros de menos (menos da metade do que precisamos);
Boa parte dos melhores engenheiros formados vão trabalhar nos bancos onde ganham muito mais.
Não investimos o suficiente em pesquisa e desenvolvimento a nível federal (muito menos do que poderíamos);
O Governo não se interessa em reter cérebros. (Muitos vão ganhar a vida no exterior).
Não existem mecanismos suficientes de apoio a pesquisa de longo prazo.
Criar empresas não é mole (alta carga tributária, juros nas alturas, falta de mão-de-obra).
Não se pode contar com as encomendas federais apenas (senão vai morrer de fome, ou vai ter um negócio com um risco enorme).
e por aí vai...
O que nos falta é fazer a lição de casa... coisa que a China fez. Falta é nosso Governo criar vergonha e ter um programa de ciência e tecnologia descente e investir na industrialização, porque o que estamos vendo é o oposto.
A Embraer está corretíssima... Ela é a contratada da FAB, e está especificando o que existe para viabilizar o projeto.
Longe de ser uma montadora apenas, a empresa é a líder do projeto, a desenvolvedora e faz exatamente o que a Boeing ou Airbus fazem... Desenvolvem produtos para atenderem especificações e para isso, reunem o expertize de muitas outras empresas. O que eles tem de vantagem é que estas empresas estão próximos a eles, se não no mesmo país, pelo menos no mesmo continente.
E as contrapartidas... eu acredito que elas existam sim... só que na forma de participação financeira no projeto. Senão acredito que esta conta de 1,3 bilhões seria muito mais alta.
PS1: desenvolver duas aeronaves, uma com componentes nacionais para a FAB e outra com importados é loucura.
PS2: A Embraer tem se esforçado em desenvolver o parque nacional de fornecedores, e já conseguiu muito. Trouxe para cá empresas como a C&D interiors (Jacareí), Latecoere (SJC), a Alestis (SJC), entre outras... Criou a EDE (depois ELEB), que fornece componentes complexos como trens de pouco para diversas aeronaves (e não só da Embraer). Criou também uma universidade própria, que transforma engenheiros das mais variadas especialidades em profissionais de aviação. Criou também um colégio (segundo grau), que já no seu segundo ano de funcionamento já foi considerado um dos melhores do país (e detalhe, só estudam lá crianças vindas da rede pública).
E ajudou a desenvolver fornecedores estritamente nacionais... só que estes não podem ficar dependentes de uma única indústria. Tentam exportar para outros fabricantes mas com a desvalorização do dólar não são competitivos.
As grandes fabricante mundiais estão comprando muito de países de baixo custo (Indonésia, Índia, etc), e nós já não somos um país de baixo custo produtivo.
Ou seja... na minha opinião, todos aqui queriam ver o KC390 com maior participação nacional... mas acho isso uma utopia. Não porque não somos capazes... ah, isso somos sim. Mas porque não querermos. A China está mil anos na frente porque existe plano de governo, existe demanda... existe um trabalho de base.
Uma sugestão... dentro de alguns anos precisaremos pensar em aeronaves mais simples, para substituir os Bandeirantes, os T-25 e os T-27. Já poderíamos começar por desenvolver indústrias de base para estes projetos de menor complexidade.
Cassio
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