Parece que estão publicando uma série de reportagens sobre as FFAA:
Correio
Defesa Nacional
Com as asas no chão
Crise aérea trouxe à tona um problema enfrentado há anos pela Aeronáutica: a frota envelhecida. Apenas 37% dos aviões estão disponíveis para ações de defesa. E oito em cada 10 aeronaves têm mais de 17 anos de uso
Leonel Rocha
Da equipe do Correio
A Força Aérea Brasileira é um pássaro de vôo baixo. O problema é antigo. Mas agora, com o envolvimento da Aeronáutica na crise da aviação civil, descobriu-se que a velha FAB também tem olhos frágeis e muita dependência. Responsável pelos quatro Cindactas, os Centros Integrados de Defesa e Controle do Tráfego Aéreo, a força foi atingida pelos estilhaços das duas maiores tragédias da aviação civil brasileira: a queda do Boeing da Gol, em setembro do ano passado, no Mato Grosso, causando a morte de 174 passageiros; e a explosão do avião da TAM, em 17 de julho último, no aeroporto de Congonhas, quando morreram 199 pessoas.
Os dois acidentes ocorreram no mesmo período em que sargentos controladores de vôo se rebelaram. Eles denunciaram excesso de trabalho, baixos salários e falhas nos equipamentos dos centros de controle do tráfego aéreo e militar mantidos pela Aeronáutica. O comandante da Força, brigadeiro-do-ar Juniti Saito, foi várias vezes ao Congresso depor em duas comissões parlamentares de inquérito que investigam o caos aéreo no país. Ele sempre apontou o histórico baixo orçamento para justificar a ineficiência no controle do tráfego que ainda hoje alimenta uma crise política que envolve a Infraero, a estatal que cuida dos aeroportos, e a Agência Nacional de Aviação Civil. Saito passou a ser depoente freqüente nas audiências do Legislativo. Em uma delas, entregou documento secreto onde confessa, além dos problemas no sistema de controle da aviação civil, o baixo poder de fogo da FAB.
Relatório secreto da Aeronáutica, apresentado há duas semanas na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Congresso e obtido pelo Correio, traça um cenário assustador. O capítulo sobre as Conseqüências do não atendimento das necessidades orçamentárias faz um alerta: “O não atendimento das reais necessidades impacta nas metas a serem alcançadas no período, condenando a Força Aérea Brasileira a permanecer no atual estado de obsolescência de seus equipamentos e precário emprego operacional como força de defesa dos valores nacionais”.
Penúria da frota
A situação da frota é de penúria. Das pouco mais de 700 aeronaves, menos de 500 podem ser utilizadas. Dessas, somente 263 estão disponíveis para a defesa aérea. Uma quantidade próxima de aviões velhos está nos hangares em manutenção. Segundo a própria força, a constrangedora disponibilidade de 37% dos aviões está longe da meta mínima que é um pouco mais da metade para ter capacidade de defender o território. Mais de 200 aviões de combate e de reconhecimento, helicópteros de transporte (o Brasil não tem os de ataque) e aeronaves radar estão nos parques de material aeronáutico e tão cedo não sairão do hangar porque dependem de verdadeiras reconstruções.
Só três projetos — o do A-29, nome técnico do Supertucano fabricado pela Embraer; o F-2000, o usado comprado da França; e o R-99, um moderno avião radar de reconhecimento — estão com a utilização um pouco acima da média, segundo o documento produzido pela Aeronáutica. São equipamentos que estão dentro do prazo de garantia e, se não receberem manutenção exigida pelo fabricante, a Aeronáutica não poderá reclamar defeitos. Depois do prazo, cairá na vala comum da manutenção.
O relatório da força revela que, além de poucas, as asas da FAB são antigas. Oito em cada 10 aeronaves têm mais de 15 anos de operação. “Os custos para a manutenção de uma frota cada vez mais envelhecida são significativos”, diz o documento. E alerta o Congresso Nacional para a gravidade de um orçamento abaixo das necessidades mínimas da força, que tem a maior interface de prestação de serviços com a população civil.
O trabalho elaborado pela FAB traz revelações que preocupam os especialistas em defesa nacional. Ele faz um ranking do poder aéreo na América Latina. E a posição do Brasil não é boa. O país não tem, segundo o documento, mísseis de médio alcance (ar-ar) e ar-superfície, helicópteros de ataque ou bombas inteligentes. Todas essas armas são comuns nas forças do Peru, Venezuela e Chile, esse último considerado o país com maior poder militar da América Latina (veja ilustração). De acordo com o relatório da FAB apresentado aos congressistas, os venezuelanos são a maior potência no item “defesa aérea” na região.
No ranking geral, o Brasil manteve a primeira posição com certa folga na América Latina. Não em conseqüência de maiores investimentos nas Forças Armadas, mas pelo tamanho do aparato militar, pela maior quantidade de caças, blindados, navios e efetivos, embora muitos deles próximos à obsolescência. O governo brasileiro anunciou a compra de 12 caças Migare 2000C usados, que serão incorporados até o próximo ano. Adquiriu também nove F-5E/F da Arábia Saudita e seis helicópteros UH-60L Black Hawk americanos, também usados. Mas nenhum desses equipamentos torna-se eficiente no chão. A única força cujo patrono é o civil Alberto Santos Dumont, o inventor do avião, está no chão.
"O não atendimento das reais necessidades impacta nas metas a serem alcançadas no período, condenando a Força Aérea Brasileira a permanecer no atual estado de obsolescência de seus equipamentos e precário emprego operacional como força de defesa dos valores nacionais"
Trecho do relatório entregue à Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional